“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

BIOGRAFIAS SELECIONADAS DA HISTÓRIA DA IGREJA - PARTE 5



A VIDA DE JONATHAN EDWARDS

Nascido em 5 de Outubro de 1703, Jonathan Edwards cresceu no lar de um ministro em East Windsor, Connecticut, nas colônias americanas. Ele era o mais novo de doze irmãos. Começou a estudar o latim aos seis anos de idade e aos treze já era fluente também em grego e hebraico. Com dez anos de idade, escreveu um ensaio sobre a imortalidade da alma e aos onze, escreveu um excelente tratado sobre as aranhas voadoras.
Em 1716, com a idade de treze anos, ele ingressou na Universidade de Yale, em New Haven, recebendo o seu diploma de bacharel em 1720, e completando o seu mestrado em 1723. Por um breve período, entre os anos de 1722 e 1723, ele pastoreou uma igreja presbiteriana na cidade de Nova York e depois disso retornou à Universidade de Yale, onde serviu como tutor e instrutor por alguns anos.
Em Julho de 1727, Edwards casou-se com Sarah Pirrepont, filha de James Pirrepont, ministro da igreja de New Haven, com quem teve onze filhos.
Em 1727, Edwards aceitou o chamado para servir como ministro assistente na Igreja Congregacional de Northhampton, em Massachusetts. Após a morte do seu avô, Salomão Stoddard, Edwards assumiu o cargo de ministro principal dessa igreja em 1729, posição na qual ele serviu durante cerca de vinte anos, até 1750. Durante esse tempo, ele catalisou uma série de reavivamentos durante a década de 30 e também participou do Grande Avivamento dos anos de 1740-42. Foi nessa cidade que Edwards pregou o seu mais conhecido sermão “Pecadores nas Mãos de um Deus Irado”.
Jonathan Edwards também publicou um grande número de sermões e de tratados, incluindo o seu Tratado sobre as Afeições Religiosas em 1746.
Por meio de suas pregações e escritos, Edwards rapidamente ganhou uma reputação internacional como o principal ministro, teólogo e intelectual das treze colônias.
Ironicamente, Edwards foi despejado do púlpito de Northhampton em 1750, por não concordar com a prática de se administrar a Ceia do Senhor a pessoas que se professavam não-convertidas. Em seu sermão de despedida, disse:
“Portanto, quero exortá-los sinceramente, para o seu próprio bem futuro, que tomem cuidado com o espírito contencioso. Se querem ver dias felizes, ‘busquem a paz e empenhem-se por alcançá-la’ (I Pedro 3:10-11). Que a recente contenda sobre os termos da comunhão cristã, tendo sido a maior, seja também a última. Agora que lhes prego meu sermão de despedida, eu gostaria de dizer-lhes como o apóstolo Paulo disse aos Coríntios, em II Coríntios 13.11: "Quanto ao mais, irmãos, regozijai-vos, sede perfeitos, sede consolados, sede de um mesmo parecer, vivei em paz; e o Deus de amor e de paz será convosco."
 Edwards mudou-se, então, para a cidade interiorana de Stockbridge, Massachusetts, onde serviu como ministro no posto missionário às tribos indígenas americanas Mohawk e Moicanos. Ali ele ainda continuou a escrever, publicando obras tais como “A Liberdade da Vontade “(em 1754), sua principal obra filosófica, e ”O Pecado Original” (em1758).
Os administradores da Universidade de New Jersey, que agora consiste na Universidade de Princeton,  prevaleceram sobre Edwards para que ele servisse como presidente dessa Universidade. Em Janeiro de 1758, Edwards assumiu esse papel. Apenas alguns meses depois, contudo, ele sofreu uma reação adversa à vacina de varíola, e morreu no dia 22 de Março.
Edwards deixou para trás um grande legado por meio dos seus onze filhos e setenta e dois netos, bem como os seus numerosos escritos, muitos dos quais só foram publicados após a sua morte. Por meio dos quais, Edwards continua o seu ministério imortal de serviço à igreja.   


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

PROPOSTAS PARA A REFORMA CURRICULAR DE ESCOLAS CRISTÃS - Parte 2



*Adaptação de Material elaborado a pedido do Centro de Estudos John Knox, em Belém, PA, como sugestão para a reorganização curricular da educação infantil.
* Após a postagem introdutória (se ainda não leu, clique aqui), essa é a segunda parte de uma série de postagens que tem como objetivo incentivar e orientar passo-a-passo educadores e escolas cristãs a adotarem um currículo próprio e distintivamente cristão.



FASE 1: ENTENDENDO O QUE É UM CURRÍCULO CRISTÃO

O Currículo Cristão sustentado pelo Ensino da Bíblia

DEFINIÇÃO DA PERSPECTIVA CRISTÃ DO CURRÍCULO


Uma definição completa de currículo reuniria as respostas às perguntas:

 1) Para quê ensinar? (objetivos);

2) O que ensinar? (conteúdo)

3) Quando ensinar o quê a quem? (divisão e organização do conteúdo de acordo com as fases e idades apropriadas de desenvolvimento mental e corporal infantil) e

4) Como ensinar? (por que métodos, atividades, etc.).

O currículo, portanto, é um instrumento de ensino em que os educadores traduzem objetivos em conteúdos e atividades organizados em uma sequência progressiva e selecionados de acordo com as capacidades de cada estágio infantil, para serem ensinados por métodos apropriados a cada fase de desenvolvimento.

Partindo dessa definição bem ampla de currículo, o que seria um currículo essencialmente cristão? A resposta é simples de enunciar, mas profunda e complexa na sua aplicação: num currículo cristão, cada um destes elementos do currículo expressa a perspectiva cristã; ou seja, seus objetivos, a seleção e organização de conteúdos, o entendimento da psicologia e estágios de desenvolvimento infantil, e os seus métodos; todos são fundamentados pelo ensino direto ou indireto (ênfases, deduções, visão de mundo proveniente) das Escrituras. Antes, portanto, de explorarmos as peculiaridades de cada um desses componentes de um currículo cristão, vamos averiguar quais seriam alguns destes princípios bíblicos e teológicos (distintamente reformados ou calvinistas)  que devem nortear, moldar e diferenciar um currículo de perspectiva cristã:    

 

Princípios Relacionados à Deus e à Sua Revelação:


- Princípio Teocêntrico. A Educação Cristã vê Deus como O Criador Auto-Suficiente e o Homem como Criatura Dependente: Deus deve ser visto como um ser único, soberano e auto-suficiente, infinitamente acima de nós, criador e poderoso, e com todos os seus atributos que são só dele, enquanto o homem deve ser colocado em seu devido lugar, como um ser criado e dependente de Deus para tudo (para respirar, para aprender, para realizar cada atividade), de maneira que a nossa vontade, o nosso agir, o nosso pensar, devem se basear na vontade de Deus e devem ser vistos em relação a ele. "Porque dEle, e por meio dEle, e para Ele são todas as coisas." (Romanos 11:36)

- Princípio Cristocêntrico. Cristo deve ser claramente ensinado como o princípio, o meio e o fim de todas as coisas, como Aquele em quem a Trindade habita, e em quem tudo subsiste, de maneira que Ele criou e sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder(Colossenses 1:15-22). Somente Ele deve ser apresentado como a verdadeira solução para os nossos problemas e os do mundo todo, como o salvador da nossa alma, como o restaurador da imagem de Deus em nós, e como o redentor do mundo caído. O currículo deve ser completamente cristocêntrico para ser verdadeiramente teocêntrico.

- A Educação Cristã estuda e interpreta as Revelações de Deus. Não há educação sem revelação. Deus resolveu, por sua graça, Se revelar aos homens (sua divindade, seu caráter, seu poder, seus planos, suas obras, etc.), e Ele fez isso no tempo e no espaço por meio das suas obras da Criação, da Providência, da Redenção, e por meio de Seu Filho Jesus Cristo, e aprouve a Deus registrar infalivelmente  essa revelação num livro Sagrado, a Bíblia. Podemos resumir dizendo que Deus se revela na natureza e na sua Palavra: 1) Deus se revela na natureza e todo homem tem uma atitude para com essa revelação. Todo o estudo da natureza deve revelar a sabedoria, a bondade, a glória e a majestade do Criador. 2) Deus se revela na Bíblia, entendida como Palavra de Deus inspirada, autoritativa, suficiente, clara e acessível a todos se acompanhada da iluminação do Espírito, a qual é, por isso, central na educação e no currículo da Educação Reformada.

É central ao currículo o estudo das revelações de Deus (a Bíblia e a natureza) como complementares e importantes, como fontes da verdade e como de fato reveladoras de Deus, estudo esse que deve levar os alunos a louvá-lO e a glorificá-lO:

Quanto ao currículo, por exemplo, os reformados entendem que o conteúdo da Bíblia constitui conteúdo essencial, embora não único, da educação cristã. E isso tanto direta quanto indiretamente. Diretamente, significa que as doutrinas bíblicas devem ser ensinadas às crianças, pois são essenciais à sua salvação, e à sua formação para a vida nesse mundo, em suas atividades diárias, profissionais e em suas diversas relações. Da Bíblia se extraem também os únicos princípios morais sólidos e verdadeiramente eficazes para a sociedade como um todo.

Indiretamente, o conteúdo bíblico é importante para a educação na medida em que se entende que a Bíblia é indispensável tanto ao conhecimento como principalmente, para dar sabedoria, a qual só pode ser adquirida na Bíblia, visto que “o temor do Senhor é o princípio do saber” (A BÍBLIA..., Provérbios 1:7) e que a Bíblia realça a sabedoria de Deus. A sabedoria de Deus pode ser vista nas obras divinas da Criação, Providência e Redenção. Além disso, Deus é a própria sabedoria e sua fonte e os provérbios bíblicos são um precioso exemplo de sabedoria divina.

Princípios Relacionados ao Homem, ao Mundo e à Realidade:


- Princípio da Nobreza Original do Ser humano. A criança deve ser vista do ponto de vista da Criação, da Queda e da Redenção. Criada à imagem de Deus e com várias qualidades, características e habilidades a serem consideradas e desenvolvidas (espirituais, morais, formativas, analíticas, mentais, sentimentais, linguísticas, artísticas, físicas, biológicas, motoras, etc.). Mas também agora como pecadora e necessitada de Cristo.

- O Princípio da Queda. A proposta reformada leva em conta o pecado e seus efeitos tanto na concepção do ser humano (e do aluno), como para explicar a situação do mundo hoje com seus males, problemas e tristezas e os relacionamentos problemáticos que ocorrem entre as criaturas de Deus.

James Beeke, em palestra proferida sobre o tema: “De que modo devo ensinar aos meus alunos?” (2003) inicia falando sobre como os pais e educadores reformados devem ver ou considerar as crianças com as quais estão lidando. Ele aplica o esquema bíblico da criação-queda-redenção e concebe as crianças a partir de três postulados: como especialmente criadas e concebidas por Deus, como pecadores caídos, no que se refere à obra humana, como pecadores regeneráveis, através da obra de Cristo.

- Princípio da Individualidade. As crianças devem ser vistas como criadas à imagem de Deus, com diversidades e características peculiares, com dificuldades a serem trabalhadas e dons a serem empregados para o bem do reino de Deus e da sociedade em que vive. Não se deve buscar uma uniformidade na aplicação do currículo a todas as crianças, mas sim uma adaptação dos princípios curriculares às peculiaridades de cada criança, a partir do princípio bíblico de que cada membro do corpo de Cristo é diferente, mas tem funções importantes e pode e deve servir os demais membros com as suas características e dons únicos.

- Princípio religioso. A religião verdadeira é o fundamento e a chave para entender o cosmos. Ela é a base para o entendimento da origem de todas as coisas, e de seu propósito; e “todas as coisas” inclui cada aspecto da vida humana, sendo a educação um aspecto importantíssimo. O homem é um ser distinto dos demais não apenas por seu caráter racional, mas principalmente, pelo seu caráter essencialmente religioso. O compromisso religioso do homem é prévio a qualquer atividade sua. O homem tem apenas duas escolhas: ou ele segue o Deus da Bíblia e a Sua Palavra e anda pelo caminho da vida e da sabedoria, ou ele dá as costas a esse Deus e se encontra no caminho do pecado e da morte. Essa escolha essencialmente religiosa determina cada uma das decisões e atividades humanas. Tudo o que é humano é religioso, o que faz da educação cristã essencialmente uma educação completamente religiosa, visto que Deus em Cristo está presente como o autor, meio e alvo de todas as disciplinas, assuntos e páginas.

 - Princípio da Antítese. A antítese que existe no mundo hoje, ou a diferença essencial entre Deus e o Diabo, entre o crente e o ímpio, entre o céu e o inferno, entre o agir, pensar e falar do crente, e o viver do descrente, entre a Igreja e o Mundo sem Deus, etc. Ver o mundo da perspectiva de Cristo é ver essa distinção básica entre as pessoas, entre as filosofias e entre as práticas de vida. É isso que significa confessar: “O temor do Senhor é o princípio do Saber” (Provérbios 1:7). Significa que só existe conhecimento verdadeiro se ele tiver a Deus e a Sua verdade como fundamento, meio e fim. Sem Deus, não seremos sábios, nem faremos nada de bom e aceitável. Por exemplo, quando se estuda a família, ou os animais, precisamos sempre relacionar esses assuntos com Deus, com o propósito que Deus designou para eles, e mostrar como é diferente o plano de Deus para a família e para os animais do que o mundo entende como sendo o papel e as funções aceitáveis da família e dos animais.

- Princípio da Integração. Assim como Deus tem um plano compreensivo que inclui tudo o que existe e acontece, e assim como tudo está inter-relacionado visando o propósito último da promoção da glória e do reino de Deus, portanto todo o currículo precisa ser integrado. Todos os assuntos precisam ser organicamente relacionados, como miçangas unidas por um fio. O furo das miçangas é o fato de tudo ter sido criado por Deus e com um propósito e sentido específico, fazendo parte de um plano divino todo-abrangente que compreende todos os fatos, leis e acontecimentos que viermos a estudar. O fio que os une é a revelação de Deus sobre o começo e o fim de todas as coisas, e o professor deve buscar relacionar essas miçangas com base nessa revelação de Deus, procurando compreender onde estas coisas se encaixam no plano de Deus para o homem e para este mundo.

Princípios Relacionados ao Conhecimento


- O Temor do Senhor como a Base do Conhecimento Verdadeiro. Os reformados crêem que “O temor do Senhor é o princípio do saber” (Provérbios 1:7). À parte de Deus, o pensamento humano leva à morte intelectual, moral, social, e de todos os aspectos da vida humana.

- O Princípio da Distinção da Perspectiva Cristã. Assim como o crente, para ser luz no mundo e sal na terra, deve ser separado e santo, diferente do mundo, e isso de dentro para fora, assim também o ensino cristão deve ser interna e externamente diferente do ensino não cristão. Considerando que a neutralidade religiosa é impossível, a filosofia da educação reformada rejeita a admissão de conceitos educacionais seculares, pois entende que não são, de forma alguma, neutros, mas estão imbuídos de princípios religiosos anti-cristãos, e estes princípios influenciam inúmeros aspectos teóricos e práticos da educação secular proposta. Sendo assim, a perspectiva cristã não deve ser adicionada (acrescentar histórias bíblicas, versículos, e moral cristã) a conteúdos tidos como neutros, mas deve permear a organização dos temas, a sua ordem de importância, e a interpretação de cada assunto, que deve ser tratado de acordo com a revelação bíblica.

- O Propósito do Ensino Cristão. Assim como o nosso Deus não faz nada à toa ou por acaso, o currículo cristão também deve ser proposital. Por isso, tudo o que for feito e ensinado deve ser justificado por um princípio (por que? - condizente com a nossa vocação e com as ordenanças de Deus), um meio (como? - com base na Palavra de Deus) e um propósito (para que? – a glória de Deus e a promoção do seu reino de modo a incluir o propósito particular para a vida individual de cada aluno).

- A Unidade do Conhecimento. Visto que todo o conhecimento procede de Deus e encontra em Cristo sua unidade, assim também o currículo, apesar da necessária compartimentalização das disciplinas e unidades, precisa se esforçar e buscar maneiras de refletir essa unidade, essa harmonia, essa mensagem única anunciada por todas as esferas do conhecimento: Que o conhecimento vem de Deus e O revela, é encontrado em Deus e deve glorificar o nome de Deus.

- Concepção de Ensino e Aprendizagem. Ensinar é apresentar e interpretar o mundo aos alunos da perspectiva de Deus. Aprender é aceitar e obedecer de coração a verdade de Deus. Essa concepção de ensino/aprendizagem nos dá clareza para lidarmos com os extremos das tendências de formulação do Currículo (clássico x tradicional x pragmático x vocacional x construtivista x ideológico) de conformidade com os princípios bíblicos de educação. Exemplo: sabe-se que as crianças pequenas aprendem muito pelo exemplo, pelo fazer, pelo tentar. Por outro lado, a Bíblia ensina que elas também precisam ser instruídas na verdade, e serem ensinadas coisas que elas ainda não podem compreender ou comprovar na prática, visto que até crentes adultos precisam aceitar de coração verdades que eles não podem compreender completamente, nem comprovar na experiência prática, como a Doutrina da Trindade, por exemplo. Então afirmamos que a criança usa a exploração dos sentidos e as demonstrações do professor como parte do processo de conhecer as cores, mas que ela só aprende a sua lição sobre as cores quando ela aceita e expressa em suas próprias criações que o céu é azul e a grama é verde porque Deus os fez assim, e porque o que Deus faz é sempre o melhor e o mais bonito, devendo ser, por isso, imitado por ela.

- Os Princípio da Piedade.  O amor, a fé e a obediência devem ser o fundamento do currículo da educação cristã. A santidade é o padrão de todo conhecimento. Por isso devemos buscar sempre oportunidades de imprimir a piedade e ensinar coisas de valor eterno às crianças, em vez de estimular o que não precisa ser estimulado (as coisas da carne, do mundo e o pecado). Refiro-me ao uso de canções, histórias, poemas, etc. com conteúdos que vão de encontro aos princípios cristãos, ou que são por demais vazios e frívolos. Se não for edificar, é melhor não ensinar.

Princípios Relacionados às Tendências Curriculares:


- A Primazia da  História. A perspectiva reformada considera importantíssimo o estudo da história como o estudo da providência e das obras de Deus no mundo, juntamente com a inserção do aluno, dos fatos e dos acontecimentos em uma perspectiva histórica, que demonstre como Deus é soberano na história e como ele governa a história do mundo como contexto para a história da redenção.

-  A Importância da Literatura. As letras, a leitura, a escrita, e a interpretação devem ser muito enfatizadas, com vistas ao estudo e interpretação da Palavra de Deus e do mundo, primeiro porque Deus as considerou muito importantes para a Sua revelação, e também porque são de grande valor prático e cultural.

-  A Cidadania no Reino de Deus. O currículo da escola cristã pode ser expresso em termos de cidadania, mas uma cidadania que se curva de coração à autoridade de Cristo: Como a criança pode ser um melhor cidadão no reino de Deus? O nosso currículo também busca preparar os alunos para servir a Deus servindo as outras pessoas através de suas vocações e das circunstâncias e oportunidades que têm de usar os seus dons dados por Deus.

- A Verdade de Deus como centro do Currículo. O currículo deve evitar os extremos do mero adquirir conhecimento e o de desenvolvimento da personalidade de maneira egocêntrica. O currículo não deve ser nem centrado na criança (antropocêntrico), nem no conteúdo (heterocêntrico), mas em Deus e na Sua verdade (teocêntrico). A verdade de Deus e a perspectiva cristã provêem um lugar apropriado tanto para o crescimento pessoal do educando, como para o conteúdo que deve ser transmitido a ele. Ambos têm a sua importância e devem estar debaixo da revelação e da vontade de Deus.

- Confessionalidade. Porque a fé cristã constitui um corpo de doutrinas capaz de ser expresso em afirmações e credos, o que tem sido feito muitas vezes e com muito proveito pelos teólogos que se esforçaram para elaborar nossos credos e símbolos de fé, nós não devemos temer utilizar A Confissão de Fé de Westminster e o Catecismo Maior e Menor de Westminster como parâmetro para a compreensão e aplicação do ensino Bíblico aos diversos assuntos do currículo. Na verdade, deveríamos fazer um esforço consciente para aplicar os ensinos neles encontrados aos diversos temas e às diversas disciplinas. Isso pode ser feito sistematicamente e simplesmente através de um estudo desses símbolos de fé. Historicamente, a educação reformada sempre deu muito valor ao estudo e à memorização não só de versículos bíblicos, mas do Catecismo Menor de Westminster, ou de sua versão infantil, os quais que fornecem às crianças a visão de mundo cristã e o pano de fundo necessário para que elas compreendam o mundo e tudo o que estudam de maneira distintivamente cristã.

***

Acredito que esta seja uma lista fiel daqueles princípios básicos de uma teologia e filosofia educacional cristã e bíblica, como entendida pela interpretação reformada ou protestante. Se você pode dizer "Amém!" a essas declarações, acredito que você vai ser confirmado e estimulado em sua busca por um currículo que concorde e expresse a sua robusta e preciosa fé. Se você se interessou por nossa visão de mundo e gostaria de conhecer melhor os princípios e as aplicações curriculares do cristianismo verdadeiro, você encontrará muita informação valiosa nas próximas postagens desse material. Se, porém, o leitor discorda de nossos princípios, peço-lhe que continue lendo essa série de postagens e os demais materiais disponíveis nesse blog, e ao conhecer melhor a nossa fé e as nossas propostas, busque elencar os seus questionamentos, e propor uma justificativa para o que você acredita, e uma alternativa melhor para a situação curricular de nosso país. Se você não conseguir fazer isso, quem sabe você irá juntar-se a nós, para aprendermos juntos a guiar os nossos pequenos nos caminhos da vida e do céu da maneira que Deus nos prescreveu em Sua Palavra.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O "MITO" DA SOCIALIZAÇÃO


 
O Mito da Socialização

 

Muito pais conscienciosos têm sido convencidos de que a escolinha maternal é uma necessidade para os seus filhos de três anos de idade. Alguns pais fazem todo um planejamento financeiro e reservam vagas bem antes do tempo para terem certeza de que suas pequenas jóias serão admitidas desde cedo na vida institucional. Eles foram persuadidos pelo mito corrente de que as crianças dessa idade precisam ser expostas a muitas outras criancinhas para que possam ser socializadas.  A verdade é que essas crianças são de fato socializadas, mas não da maneira que muitos pais desejariam. Nós re-enfatizamos aqui de forma diferente algumas necessidades cruciais e métodos que já mencionamos anteriormente. Vejamos novamente como a socialização funciona.

 

A habilidade de se formar relacionamentos interpessoais saudáveis é inicialmente baseada no laço mãe-bebê - aquele relacionamento tão próximo e único que influencia tanto a mãe como a criança muito mais do que se imaginava possível há não muitos anos atrás. O cuidado gentil, amoroso, consistente e responsivo durante a primeira infância, por parte tanto da mãe como do pai, alimenta e promove esse apego emocional. A segurança, o auto-respeito, e o senso de valor próprio obtido desse tipo de vida no lar - até que as crianças estabilizem seus valores e estejam habilitadas a raciocinar consistentemente - lança o fundamento para uma socialização positiva.

 

A criança pequena aprende pela observação e pela imitação. Ela aprende a todo instante, quer planejemos ensiná-la ou não. Quando ela é colocada no meio de um grupo de crianças, ela imita as outras crianças. Ela ainda não tem condições de diferenciar o mal do bem. Na realidade, nós sabemos que ela aprende o mal mais facilmente do que o bem. E em geral, criancinhas pequenas claramente não são modelos de bons valores morais e sociais. Elas são naturalmente egocêntricas.  Elas ainda não tem uma consciência bem desenvolvida. Elas se adaptam rapidamente a hábitos, atitudes, linguagem e moral maus. Elas não conhecem o significado das regras, nem da Lei Áurea "tudo o que quereis que os homens vos façam, assim fazei vós também a eles". Tampouco elas entendem o que é cooperação.

 

Assim, mesmo algumas horas por semana em uma pré-escola diluem o apego entre você e a sua criança e a levam a se agarrar aos valores de seus colegas. Porque ela não tem a capacidade de raciocinar como você, ela não entende por que você está censurando ou exigindo explicação de seus atos. Na verdade, ela se sente mais confusa do que auxiliada por suas reprovações e ela pode simplesmente se chatear com você. Afinal de contas, ela pensa imaturamente que o que ela faz deve ser certo porque "todas as outras crianças fazem isso". Assim, os seus valores vão perdendo importância em comparação com experiência dela com os colegas. Essa dependência tão precoce do grupo tem se tornado mais e mais comum à medida que a tendência de escolarização precoce aumenta. Em alguns casos extremos de excessivo cuidado grupal fora do lar, o resultado observado em crianças mais velhas é que elas não conseguem tomar decisões ou pensar independentemente. A dependência do grupo é um câncer social, mais difícil de remediar do que a tão temida doença. Talvez não haja um fator limitador do potencial humano maior do que este.

 

Associações com outras pessoas que não sejam da família da criança não são normalmente requisitos para o seu desenvolvimento social. Ela necessita de bons modelos adultos para imitar - preferencialmente os seus pais. Como qualquer pequeno animal ou passarinho, os seus nervos e emoções frágeis desenvolvem-se melhor num ambiente simples e calmo. Nessa idade tão tenra, ela não pode se relacionar bem nem com grupos relativamente pequenos de crianças sem experimentar tensão. Frequentemente essa tensão torna a criança hiper-excitada; às vezes, ela reage ficando nervosa, temerosa ou apreensiva.

 

Nós não estamos sugerindo que você deva colocar filho em um isolamento social. Uma quantidade razoável de associação com outras crianças de vizinhos, parentes e amigos é saudável - esse é o caso especialmente quando seu filho não tem irmãos e irmãs. Isso provê um "espelho" no qual ele pode se enxergar e o ajuda a aprender a se relacionar com pessoas diferentes. Mas porque ele é tão facilmente impressionável, você deve ser seletivo com os seus coleguinhas. Muitos pais tem aprendido tristemente e tarde demais como as crianças adquirem de outras linguagem e hábitos maus, atitudes rudes e a prática do engano. O seu filho provavelmente não será uma exceção sem o seu cuidado vigilante. Você deve supervisionar cuidadosamente a sua brincadeira, não necessariamente dirigindo ou interferindo, mas mantendo-o sempre perto o suficiente para você lhe ver e ouvir. O tempo envolvido e o número de crianças deve ser limitado. Geralmente seu filho irá brincar melhor com apenas uma outra criança. Uma regra básica geral para o número máximo de coleguinhas, mesmo em uma festa de aniversário, por exemplo, é o mesmo número de crianças que a idade do seu filho, ou seja, três colegas para uma criança de três anos, quatro para uma criança de quatro anos, e assim por diante.

 

Além do fato de que as crianças não aprendem socialização positiva ao serem expostas a grupos grandes de crianças como em uma pré-escola regular, há ainda forte evidência de que elas perdem iniciativa e criatividade. E, o mais grave, as chances de que a criança irá interpretar o ser mandada para a escolinha como rejeição por parte dos pais é muito grande. Martin Engel, diretor do Centro de Demonstração Nacional de Creches afirma persuasivamente que isso é verdade não importa o quanto racionalizemos diferente. Muitas crianças se tornam emocionalmente perturbadas de várias maneiras por essa separação precoce e forçada dos seus pais. Professores e funcionários de creches e pré-escolas testemunham essas mini-tragédias todos os dias, mas poucos parecem realmente compreender a seriedade da situação. (....)

 

Nós compreendemos que certas circunstâncias em muitos lares impossibilitam que a criança esteja em casa o dia inteiro. Geralmente, a segunda melhor opção é que a criança seja cuidada em um outro lar caloroso e responsivo. Se isto não for possível, tente encontrar uma escola ou creche em que as circunstâncias sejam as mais parecidas com um lar quanto possível. Deve haver os mesmos professores dia apos dia - não uma variedade de ajudantes ou auxiliares de professor. Quando a criança se apega a um professor favorito, e este se ausenta, a pequena criança experimenta uma perda de apego séria. Quando essa experiência é repetida com frequência, e por um período prolongado de tempo, muitos pequenos aprendem a não mais se apegarem a mais ninguém. Para estes, amor e confiança são artes perdidas. Foi o que aconteceu com muitas crianças após a Segunda Guerra Mundial que se tornaram os rebeldes dos anos sessenta. E com muitas das crianças de hoje que se entregam ao álcool e as drogas. Fazer e quebrar relacionamentos é muito mais prejudicial para a estabilidade emocional da criança do que muitos pais e professores imaginam.

 

Numa situação ideal, o professor deve ter qualidades maternas e não mais do que cinco ou seis crianças, preferencialmente de idades variadas, para dar conta. O pequeno núcleo deve ser um tanto separado do grupo escolar maior como em uma sala ou prédio afastado. Em um programa experimental que observamos em Melbourne, Austrália, a cidade estava alugando casas perto das casas das crianças para servirem de creche ao invés de construir escolas. Os quartos diferentes serviram para acomodar melhor os grupos menores e proporcionaram uma atmosfera mais familiar. O programa de atividades ideal deve se assemelhar o quanto possível a um bom programa de uma mãe em casa -  envolvimento em atividades do lar, incluindo jardinagem e outros trabalhos úteis; experiências com a natureza; descanso; e liberdade de pressões acadêmicas.

 

Texto extraído do livro Home-Grown Kids, "Crianças Criadas no Lar: Um manual Prático para Ensinar seus Filhos em Casa", de Raymond e Dorothy Moore, (pp. 121-125). Indicados pelo mundialmente conhecido Dr. James Dobson, os autores dedicaram suas vidas a pesquisas e publicação de livros e artigos para a defesa e proteção do Ensino Domiciliar quando este estava em sua fase inicial e enfrentava muita oposição, grandemente baseada nessa questão do "mito da socialização", que os autores se empenharam a refutar com base em inúmeras pesquisas. Hoje, os autores são aclamados como os pioneiros e fundadores do atual movimento de Educação Doméstica. Raymond Moore é um psicólogo do desenvolvimento cujas pesquisas sobre família e escola foram publicadas em praticamente toda revista acadêmica no campo da educação nos Estados Unidos e internacionalmente, além de ser conhecido na mídia por suas entrevistas e conferências. Sua esposa, Dorothy, é especialista em leitura e em aconselhamento para pais que desejam ensinar seus filhos em casa nos primeiros anos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

PROPOSTA PARA A REFORMA CURRICULAR DE ESCOLAS CRISTÃS - INTRODUÇÃO


*Adaptação de material elaborado a pedido do Centro de Estudos John Knox, em Belém, PA, como sugestão para a reorganização curricular da educação infantil. Por Karis B. G. Anglada Davis.
** Esta é a primeira de uma série de postagens que tem como objetivo incentivar e orientar passo-a-passo educadores e escolas cristãs a adotarem um currículo próprio e distintivamente cristão.

PROPOSTA PARA A REFORMA CURRICULAR DE ESCOLAS CRISTÃS


INTRODUÇÃO


A Importância do Currículo


De todos os elementos da educação cristã,  depois do referencial teológico-filosofico-pegagógico, entendo que currículo é aquele mais fascinante e digno de estudo e aperfeiçoamento, pelo fato de ser um elemento em si mesmo poderoso, central e decisivo. O currículo é poderoso porque é em si mesmo ativo e formativo, visto que ele sempre está refletindo uma ideologia ou filosofia que é profundamente moral e religiosa. Essa lista de conteúdos seriados que chamamos de currículo não constitui uma norma universal e neutra para a formação das crianças. Ele varia muito de um país para outro, de uma época para outra, e até de uma família para outra, e está sempre a serviço dos interesses de algumas pessoas, grupos ou instituições, sejam estes mal-intencionados, bem intencionados, ou talvez despropositais ou impensados, o que é igualmente pernicioso, do ponto de vista cristão. A história da educação mostra como os currículos já foram usados para formar os cidadãos para os interesses diversos do Estado (ora bons soldados, ora pensadores e sustentáculos da democracia, ora inquestionáveis e servis seguidores de projetos ideológicos dos grupos em poder), ou para promover ou perpetuar as doutrinas e modo de vida de uma comunidade. Como cristãos nós não negamos que o currículo seja sempre intencional, proposital e poderoso para servir interesses, mas desejamos que ele seja sábia e intencionalmente usado para a promoção do reino de Deus nesse mundo, e para a formação de bons cidadãos, soldados e defensores desse reino.

O currículo é também importante por ser central à educação. É em grande parte por meio dos conteúdos educacionais que professor e aluno se encontram e interagem; por meio deles as mensagens ideológicas e as aplicações práticas são transmitidas; e por meio dele as nossas crianças são formadas intelectualmente, moralmente e espiritualmente. As interações sociais, os dons do professor, um ambiente escolar apropriado, bons métodos de ensino, todos ocupam um papel importante, mas assim como a verdade e a doutrina correta determinam a qualidade da nossa fé, e assim como a pregação fiel da palavra de Deus são o centro do culto reformado, os temas e conteúdo do ensino cristão é o que tornam a educação distintamente cristã.

O currículo também tem um caráter decisivo, porque constitui um elemento de transição entre a teoria e a prática. Diretrizes curriculares são sempre um primeiro passo para as mudanças mais práticas no ensino que ocorrem na sala de aula. O currículo é onde as nossas concepções filosóficas e pedagógicas se traduzem em objetivos individuais para o aluno e em requisitos para o aprendizado. Ele une os nossos mais altos objetivos às lições e ao dever de casa de cada aluno individual. Por isso um ensino distintamente cristão deveria partir de um currículo distintamente e propositalmente cristão. Mas será que isso está acontecendo em nossas escolas cristãs? Parece-me que, se compararmos cada elemento da escola cristã com as escolas seculares, seria possível e até fácil notarmos diferenças, por exemplo, no caráter e empenho dos professores das escolas cristãs, no perfil do alunado, cujos pais, em sua maioria, são pertencentes a alguma denominação eclesiástica; nos versículos e nas decorações das salas de aulas, na rotina diária de cultinhos e corinhos cristãos, no acréscimo de aulas de educação religiosa ou moralidade; e muitas vezes até num melhor desempenho acadêmico dos alunos da escola cristã, mas temo que uma comparação de suas propostas curriculares e planos de curso (e talvez até de algo tão básico como suas propostas pedagógicas) denunciarão uma forte semelhança. Talvez, neste aspecto curricular, elas sejam mesmo indistinguíveis.

O Dilema Curricular


É verdade que os parâmetros curriculares nacionais cerceiam a nossa liberdade até certo ponto. Agrega-se a isso a carência de material pedagógico distintamente cristão, e a fraqueza acadêmica e filosófica dos métodos de ensino que estão embutidos nos materiais seculares disponíveis. E mesmo quando as escolas ou instituições procuram elaborar ou fornecer livros ou materiais com conteúdos mais distintamente cristãos, deparamo-nos ainda com o desafio da qualidade e profundidade acadêmica destes.

Sim, a pressão é grande de todos os lados. Sem dúvida, os testes nacionais como o Enem e a busca pela aprovação no vestibular já põem montanhas de conteúdos obrigatórios diante de nossas escolas, que exigem muitas horas extras para serem cobertos. Além disso, a competição acadêmica com outras escolas e a relação dos assuntos que os livros didáticos e a cultura secular brasileira apresentam como importantes não dão espaço nem tempo para as escolas cristãs abordarem conteúdos que a nossa fé nos ensina a dar maior atenção. Ao mesmo tempo em que há essa pressão para o ensino de tantos conteúdos, as escolas cristãs ainda precisam lidar com a incoerência das pedagogias modernas que, ao desdenharem abordagens mais tradicionais e conteudistas, assim como o ensino sistemático da gramática e das leis regem as disciplinas, insistem na primazia do lúdico, das atividades livres que de alguma forma devem emergir da vida e do interesse de cada aluno individual. Isso torna a questão curricular um palco de batalhas onde o caminho da vitória é, nesses termos, virtualmente inalcançável.

Como conciliar todas essas pressões? Esse é um grande desafio da educação atual, mas é um desafio que a escola cristã não precisa enfrentar em detrimento ou à parte de sua fé, pelo contrário. Se alguém tem uma saída para esse dilema, esse alguém somos nós, cristãos, que temos na Palavra de Deus um alvo, um rumo e um caminho colocado claramente diante de nós. Nós sabemos a quem servir; nós temos um Mestre Divino; nós ouvimos as Suas instruções e confiamos que Ele tem o poder de cumprir aquilo que nos promete, ainda que o mundo nos condene, ainda que nós mesmos não compreendamos como tudo vai se encaixar para o nosso bem. Mas a fé e a obediência da vida cristã devem reger e dirigir também nossos problemas curriculares. Mesmo aqui, no meio desse emaranhado curricular, a escola cristã é chamada a buscar em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, sabendo que todas as demais coisas lhe serão acrescentadas. Ela é chamada a obedecer antes a Deus do que aos homens. Ela é chamada a renovar as nossas mente segundo o ensino da Palavra de Deus; a exaltar o temor do Senhor e a não temer a face de homem algum; a não adorar as "bestas" dos governos nem das filosofias seculares, mas a seguir a voz do Cordeiro por onde quer que vá; a formar bons cidadãos do reino de Deus, e a ensinar diligentemente aos herdeiros das promessas de Deus, acima de tudo, os louvores do Senhor, o seu poder, e as maravilhas que fez.

A Proposta do Currículo Cristão


Pensar a questão curricular das escolas cristãs, portanto, começa ao se indagar, com Solano Portela, "O que estão ensinando aos nossos filhos?"[1], e vai além, perguntando: "Que práticas, idéias e teorias estão sendo ensinadas aos nossos filhos por meio dos conteúdos propostos nas diretrizes curriculares e nos livros didáticos?"; "Qual é a mensagem central que o currículo está transmitindo às nossas crianças: a verdade de Deus ou simplesmente idéias e ênfases humanas?"; E finalmente: "A quem os nossos currículos estão servindo? Ao reino de Deus e à sua justiça, ou à cidade dos homens e às suas vaidades?" . O passo seguinte é pensar e trabalhar para prover um currículo alternativo cristão, cujos conteúdos sejam cuidadosa e propositalmente selecionados para ensinar as idéias e práticas distintamente cristãs, para transmitir as verdades de Deus sobre as mais diversas áreas do conhecimento, e para servir, de fato, aos interesses e à agenda do Evangelho de Cristo, tanto para o mundo como para as criança do povo de Deus.

Acredito que essa tarefa não é uma opção ou um passo extra, mas é fundamental e imperativa para aqueles pais e educadores que desejam ser fiéis a Deus, à sua verdade e ao seu reino no âmbito de seu ofício educativo. E foi exatamente para encorajá-los e guiá-los nessa tarefa inicial que escrevi este material. E essas considerações devem levá-los à oração, ao planejamento e à ação sábia voltada para uma mudança prática dos currículos de nossas escolas que evidencie a distinção entre nossos alvos, fé e modo de vida daqueles que não têm nenhum compromisso com o nosso Senhor Jesus Cristo.

Enquanto os educadores cristãos locais de cada comunidade ou escola cristã, a saber, a associação de pais e mestres cristãos e a direção pedagógica da escola ou associação de escolas, não se reunirem para, em oração e com sábia orientação, tomar decisões corajosas com vistas a criar o seu currículo próprio, cristão e inovador, a perspectiva cristã das disciplinas ficará comprometida e limitada à criatividade de cada professor individual dentro dos tópicos determinados pelos educadores do governo e pelas mentes seculares que estabelecem os conteúdos dos livros didáticos das diversas editoras seculares.

É claro que podemos e devemos incentivar e apoiar e aprender de outras instituições e grupos que estão já buscando trabalhar nessa direção, destaco aqui a iniciativa do Sistema Mackenzie de Ensino, de S. Paulo, e certamente há esforços localizados de produção de material educativo por escolas ou pessoas individuais, que precisam ser reunidos e divulgados para aproveitamento por outras escolas; mas não podemos ficar só esperando que outros façam o que nós temos a obrigação e a capacidade de fazer. Muitas vezes, as iniciativas que Deus abençoa para a realização de Seus propósitos não são aquelas feitas por grupo de doutores e especialistas, mas por poucas, e mesmo por uma só pessoa comprometida com o seu serviço a Deus e que busca conhecer e realizar, com fé, a sua vontade.  Por poucos que sejam os nossos talentos, não devemos enterrá-los ou guardá-los, mas trabalhar com o que temos e trazer ao Senhor o rendimento, certos de que Ele muito poderá fazer com nossos pães e peixinhos.

Qual é então o dever das escolas cristãs diante das alternativas que temos em nosso país? Esse material se propõe a dar algumas sugestões que podem ser implantadas aos poucos pela direção e pelos professores das escolas cristãs, a fim de que as nossas escolas sejam cada vez mais servas de Cristo e não de César, a fim de que sejam instrumentos mais da promoção do reino de Deus do que da cidade dos homens, e para que elas possam um dia ouvir da boca do nosso Mestre maior: "Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor". (Mateus 25:23)




[1] referência ao livro de Solano Portela: O que Estão Ensinando aos Nossos Filhos? São Paulo: Editora FIEL, 2012.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Homeschooling: vote sim!

Norma Braga: Homeschooling: vote sim!: Há uma pesquisa no site do Senado que indaga: "Você concorda com o projeto que prevê a possibilidade de a educação básica ser feita e...

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Biografias Selecionadas da História da Igreja - Parte 4



Nota da Tradutora: Seguindo a série de biografias da História da Igreja, esta é a primeira das biografias extraídas da segunda parte do livro "Mulheres Famosas da Igreja Reformada", por James I Good. A primeira parte desta obra já foi traduzida e publicada, em português, pela editora Knox Publicações, com o título de "Grandes Mulheres da Reforma" (clique aqui). A segunda parte da obra ainda está em processo de tradução, mas disponibilizarei aqui no blog os capítulos avulsos, à medida em que forem sendo traduzidos. Espero que a vida destas importantes personagens da História da Igreja sirvam de exemplo e encorajamento para todos nós que, mesmo vivendo em épocas e circunstâncias tão distantes, somos unidos pela mesma nobre causa, e pelo mesmo Cabeça e Salvador.



AS GRANDES MULHERES DA REFORMA – PARTE II
MULHERES DO SÉCULO XVII
CAPÍTULO I – ALEMANHA

PRINCESA ELIZABETH DO PALATINADO



Não tão conhecida como a famosa Rainha “Bess” da Inglaterra, mas muito mais bela, foi a sua “xará” e parente, a Princesa Elizabeth, filha do Rei James I, da Inglaterra, embora a sua ventura tenha sido tão triste quanto a sua beleza. O triste fado da sua família, os Stuarts, parecia repousar sobre ela. Ela se tornou a infortunada Rainha da Boêmia, o “cordeiro pascal” da Guerra dos Trinta Anos.
Ela nasceu em 19 de Agosto de 1596, no Palácio de Falkland, na Escócia. A sua infância foi alegrada por um irmão que ela adorava, Henry, o qual infundiu na sua jovem mente uma aversão contra a Igreja de Roma que continuou a se intensificar, posteriormente, quando ela veio a sofrer tanto debaixo dos poderes de Roma.
Ela foi enviada para estudar na Escola de Combe Abbey. Enquanto estava ali, ela foi retirada às pressas quando a pólvora da conspiração (em 1605) foi descoberta, pois os conspiradores desejavam capturá-la e forçá-la a se tornar rainha. Quando o perigo passou, ela escreveu ao seu irmão uma pequena nota que concluía com esta expressão: “Se Deus é por nós, quem poderá ser contra nós?” Naquele momento, um rapaz de nove anos de idade lhe enviou do continente uma nota de parabenização pela sua segurança. Este era o pequeno Conde Frederico do Palatinado, o qual, mais tarde, se tornaria o seu esposo. Ele declarava nesta nota que ele cria que aquela terrível conspiração procedia da agência direta do Anti-Cristo. Depois disso, ela escreveu para o seu guardião um poema no qual ela parece ter sido dotada do mesmo espírito devocional de Lady Jane Grey.
Quando ela tinha dezesseis anos de idade, Frederico pediu a sua mão. Considerou-se sábio unir dois poderes tão proeminentes e Reformados quanto a Inglaterra e o Palatinado em casamento. Então, em 16 de Outubro de 1612, o Príncipe Frederico embarcou para a Inglaterra para receber a sua noiva. Os Protestantes da Inglaterra estavam muito contentes pelo casamento da sua bela Princesa com Frederico, embora o católicos tenham se oposto a isso, e a própria mãe de Elizabeth nunca perdeu uma oportunidade para relembrá-la de que ela estava casando com alguém que estava aquém da sua posição, chamando o Príncipe Frederico do Palatinado de o “condezinho do Palatinado”. Elizabeth prontamente respondeu: “Eu prefiro casar com um conde Protestante, do que com um Imperador Católico.” Aconteceu que, logo que Frederico chegou na Inglaterra, o Príncipe Henry, herdeiro do trono e o ídolo do povo, faleceu. Assim, afortunadamente, Frederico veio à Inglaterra para se posicionar no lugar do irmão de Elizabeth. E a nação parecia transferir todo o seu interesse pelo finado Príncipe para Frederico.
Eles foram casados no Dia de São Valentino, em 1613, com grande pompa. Vestida em um belo manto de gala branco e de prata, ornado com diamantes, uma coroa de ouro em sua cabeça, o seu longo cabelo trançado com pérolas e diamantes, a sua caravana carregada por treze jovens vestidas de branco, ela foi desposada pelo Príncipe. O Arcebispo de Canterbury realizou o casamento, e um sermão foi pregado pelo bispo de Bath e Wells, sobre as bodas de Canaã. Depois do casamento, Frederick visitou Cambridge e Oxford, onde foi recebido com grande honra, e então se preparou para levar a sua noiva de volta à sua própria terra.
A jornada que fizeram, passando pela Holanda e ao longo do Rio Rhine se pareceu com uma entrada triunfal. Uma recepção era seguida por outra recepção. Em Amsterdã, da sua barca para a sua carruagem, ela passou por uma ponte ricamente acarpetada, enquanto na frente da estação estava um belo arco no qual ela estava representada como Thetis, a deusa mãe de Aquiles. Todos os dias haviam apresentações militares, de modo que o seu diário de recém-casada parece com uma marcha de vitória. Em Dusseldorf, o seu esposo havia providenciado um iate no qual ela navegaria o belo Rio Rhine até Heidelberg. Quando ela chegou ao Palatinado, ela foi recebida pelas cidades de Oppenheim e Frankenthal com grande regozijo e honra.
Ela chegou em Heidelberg em um belo dia de Junho. Praticamente toda a nobreza Protestante da Alemanha estava lá para recebê-la; e à medida que eles chegavam, com grandes comitivas de seguidores, Heidelberg se encontrava cheia de júbilo e esplendor. A Princesa chegou diante da cidade, na companhia de mais 374 pessoas, dentre elas nobres Ingleses como o conde de Arundel e o Lord Lenox. À medida que ela prosseguiu em direção ao castelo numa carruagem com oito cavalos, espalhavam-se nas ruas folhagens de relva verde, e os tetos eram coroados com os ramos de Maio. Ao longo dos muros, haviam sido penduradas guinaldas de flores. No dia seguinte, o pregador da corte, Scultetus, pregou um sermão e as festividades continuaram por doze dias. Elas se encerraram em 18 de Junho de 1613, com um sermão de Scultetus sobre o tema de ações de graças, baseado no Salmo 119. Aproximadamente 300,000 libras foram gastas e 5500 pessoas banqueteavam diariamente no castelo.
E assim se iniciaram os seus dias mais felizes. A sua “lua de mel” durou cinco anos. Este belo castelo, que provocava a admiração dos visitantes Ingleses, havia sido ampliado pelo castelo Inglês e pela robusta torre na aba oeste, construídos por Frederick para a sua noiva Inglesa. Ele também nivelou e transformou o lado posterior e montanhoso do castelo em um dos mais belos jardins – um paraíso de flores para que ela pudesse descansar e aproveitar. Ali, no verão, laranjas e limões espalhavam o seu aroma. Aqui havia um pomar Inglês, e ali um bosque de amoreiras. Belos canteiros de flores, de muitas variedades e cores, variavam a vista. Da beira de um precipício jorravam cachoeiras artificiais, enquanto córregos prateados de água fluíam quando o jardim lhes abria passagem e, à medida que fluíam, sinfonias musicais, supostamente sussurradas pelas ninfas, adentravam os seus ouvidos. Haviam grutas das quais corriam riachos melódicos. As belezas deste jardim eram tão majestosas que o Rei Luíz XIV, da França, o invejou e receou que a sua beleza eclipsaria o esplendor dos seus jardins no Palácio de Versailles.
Ali se passaram os anos mais felizes da sua vida. A sua felicidade pareceu culminar no ano de 1619, quando ela se tornou rainha, visto que o seu esposo foi eleito Rei da Boêmia. A sua mãe não podia mais desprezá-la por ter casado apenas com um príncipe, pois agora ela era uma rainha. Ela ganhou o posto tão cobiçado, mas ah! Pesada é a cabeça que sustenta uma coroa. Contudo, ela estava pronta para este posto, visto que ela escreve ao seu esposo, logo após ter aceitado o trono: “Eu não me amofinarei, sejam quais forem as consequências que me venham sobrevir, ainda que eu seja forçada a abrir mão da minha última joia”.
O momento então chegou, quando a Rainha Elizabeth partiria rumo à Praga, para ascender ao trono da Boêmia. A sua partida de Heidelberg foi infausta, como que apontando para os seus sofrimentos futuros. O dia anterior ao da sua partida foi um Domingo. Ela atendeu ao culto naquele dia e o seu capelão, por uma curiosa coincidência, pregou no texto: “Ouçam agora, vós que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Nem mesmo sabeis vós o que acontecerá amanhã!” Estranho dizer, mas “o ano” daquele texto foi cumprido, visto que ela permaneceu apenas um ano como rainha em Boêmia, até que desastres inesperados se sobreviessem a ela. Quando ela chegou à fronteira da Boêmia, juntamente com o seu esposo, ela foi recebida com grande honra. A sua jornada lhe assemelhou com a sua jornada nupcial ao longo do Rio Rhine, poucos anos atrás.
A sua beleza e posição pareciam fascinar os Boêmios. Em Waldsach, as mulheres e crianças se reuniam em volta dela, tocando as barra das suas vestes e se prostrando diante dela como se ela fosse uma nova divindade. A sua jornada foi completada e coroada por uma magnífica processão triunfal para dentro de Praga, em 21 de Outubro de 1620. “Nunca mais”, diz o seu biógrafo, “desde os dias da Santa Elizabeth, tem qualquer princesa inspirado sentimentos de afeição tão apaixonada no povo de Praga. Os cavalos da sua carruagem foram adornados com detalhes de prata e ouro, e ela sentou debaixo de uma abóbada de ouro e prata não mais esplêndida do que a sua própria complexidade tão bela”. O seu esposo foi coroado em 3 de Novembro, e três dias depois, ela foi também coroada com grande honra. Em meio à músicas, ela se aproximou da capela da igreja de Hussite, e se ajoelhou para receber a coroa da Boêmia. O Administrador da Boêmia, que a coroou, pregou um longo sermão o qual ele encerrou dizendo: “que a piedade da nova rainha seja recompensada com a longevidade de Sara; que em todos os seus empreendimentos, ela seja próspera como a bela Rebeca; que ela prevalesça contra os seus inimigos como a destemida Jude; que ela seja humilde e magnânima como a Rainha Esther; e que, finalmente, ela seja perseverante como a Rainha de Sheba na procura por sabedoria e verdade, a fim de que, acima de tudo, ela possa ser coroada com os bens espirituais do bendito Salomão, que havia sido escolhido e solenemente aprovado pelo Salvador do Mundo.” Assim, então, ele solenemente a coroou, enquanto os muros ressoavam com o brado: “Viva à Rainha Elizabeth!”.
Contudo, assim como o seu esposo, ela logo descobriu que pesada é a cabeça que sustenta uma coroa. Ela viu como era difícil manter a adoração dos boêmios. A sua ignorância quanto à língua Boêmia a separou daquele povo como que por uma muralha da China. Os costumes da sua corte eram muito diferentes dos costumes do seu povo. O Boêmios eram pessoas simples e rústicas do campo, enquanto a sua corte possuía a frivolidade do comportamento Francês. Assim, aqueles costumes sociais logo entraram em conflito. Como uma ilustração disso, conta-se que logo após a sua chegada, as esposas de alguns dos cidadãos de Praga foram lhe presentear com uma dádiva que consistia em amostras dos seus produtos culinários, como bolos e pães. Estes foram trazidos numa sacola rudemente abarrotada. A rainha, agradecendo-lhes, recebeu a oferta. A sua corte, contudo, tratou as gentis doadoras com terrível escassez de cortesia. Um pajem ridicularizou a oferta se apossando de um dos pães e torcendo-o em formas fantásticas e ainda colocando-o em sua cabeça como uma grinalda. O resto da corte seguiu o seu péssimo exemplo e os pobres boêmios saíram dali magoados.
As suas visões religiosas também lhe alienaram deles. Assim como os reformadores, ela detestava cruzes e crucifixos. Agora o Boêmios tinham uma grande cruz na ponte sobre o Moldau, para a qual eles olhavam como se fosse o seu santo patrono. Ela foi solicitada para que evitasse aquela ponte, a fim de não passar pelo crucifixo.
Estes problemas foram apenas uma preparação para os dias mais sombrios que ainda viriam. O seu esposo foi recrutado pelo exército, que deveria proteger Praga. Ele logo viu os perigos que pairavam sobre eles e escreveu para ela dizendo que se ela se sentisse amedrontada, ela deveria deixar Praga, mas ela se recusou a deixá-lo para trás. Embora angustiada e ansiosa, ela tinha de manter a máscara de alegria externa e de agrado com relação à sua corte e ao povo. Finalmente, o exército do seu esposo foi derrotado em um Domingo, dia 8 de Novembro de 1621, logo ao redor da cidade de Praga. Ela estava atendendo ao culto quando a batalha começou e o ministro havia acabado de ler “dai a César o que é de César...” quando o estrondo do canhão sacodiu a igreja e o ministro deixou o púlpito e, juntamente com a congregação, se apressou para junto dos muros da cidade, a fim de assistir a batalha. Frederick apressadamente a colocou em uma carruagem e a enviou à cidadela para a sua segurança. E agora começariam as suas aflições que, como ondas sobre ondas, passaram sobre ela. Na manhã seguinte, às nove da manhã, Frederick trouxe a sua carruagem, para que ela escapasse dali. Ao entrar ali, ela nunca mais retornaria à Praga, e um dos seus admirais, o jovem Conde Thurm, se ofereceu para defender a cidadela por alguns dias, a fim de que ela pudesse escapar com segurança. Mas ela nobremente o proibiu de fazer isso, dizendo: “Nunca haverá de o filho do nosso melhor amigo por em perigo a sua vida para me poupar dos meus medos. Antes deixe-me perecer do que ser relembrada como uma maldição para esta cidade.”
Em meio à terríveis estradas, Elizabeth e o seu esposo fugiram para Breslau. Algumas vezes, a estrada se tornou impassável, e ela teve de sair e cavalgar em meio ao tempo frio de inverno. Uma terrível tempestade de neve os assaltou. Finalmente, eles chegaram à salvos em Breslau, mas a recepção dos seus habitantes foi tão fria quanto o clima do inverno. Estava evidente que ela não podia continuar ali, mas para onde ela poderia ir para encontrar segurança? Ela escreveu ao seu pai, o Rei James da Inglaterra, implorando a ele por ajuda, dizendo que se ele a abandonasse, todos eles pereceriam; mas ele não lhe quis ouvir, embora os puritanos da Inglaterra fossem fortemente a favor de que ela fosse ajudada. Para onde ela poderia ir? Ela finalmente encontrou um breve lugar de descanso no forte de Custrin, onde o Eleitor de Brandergurg, seu cunhado, permitiu que ela ficasse, mas recusou dar a ela qualquer dinheiro. Foi ali que ela deu à luz um filho. Ali, então, esquecida pelo seu pai e expulsada pelo seu cunhado, ela viajou em direção ao oeste, para a Holanda. Quão diferente foi esta sua jornada daquela jornada nupcial que ela havia feito poucos anos atrás. Naquela, tudo era alegria, enquanto agora, tudo era tristeza. O governo holandês, no entanto, a recebeu como uma rainha, e gentilmente permitiu que ela se alojasse em uma pensão. Ali, enfim, ela e o seu esposo encontraram asilo durante os terríveis anos da Guerra dos Trinta Anos.
Aqui, uma provação após a outra pareceram sobrevir sobre ela. A população holandesa passou a chama-los de “os mendigos reais”. Em 1628, ela perdeu o seu filho mais velho, um menino brilhante, o herdeiro do trono, que foi juntamente com o seu pai a Haarlem para ver o retorno da frota Holandesa após terem capturado a frota de prata dos Espanhóis. O jovem rapaz morreu afogado, diante dos olhos do seu pai, gritando: “Me salve, Pai!”.
Ela foi tomada por um raio de alegria quando Gustavus Adolphus ganhou as suas vitórias. Mas essa alegria lhe foi tirada pela ausência do seu esposo, o qual teve de ir encontrar-se com Gustavus. E no ano seguinte, Gustavus, que havia sido uma espécie de anjo da guarda para ela, foi morto. Poucos dias após isso, chegou-lhe a notícia da morte do seu esposo. As suas calamidades anteriores pareceram triviais quando comparadas a esta. Ela mostrou, como disse um escritor, “um luto admirável”. Contudo, ela confessou em uma carta ao Estado Holandês que “o seu primeiro grande recurso era o céu”. Spanheim, o seu biógrafo, diz: “As suas cartas são admiráveis pela sua força de julgamento e pela sua resignação digna e tocante piedade.”
Ela parecia ter sido deixada sozinha, sem esposo ou país, com ninguém mais além dos seus filhos restantes. E mesmo estes lhes trouxeram ansiedades crescentes. Um filho foi derrotado e outro capturado pelo Imperador. E então veio a morte do Duque Bernard de Weimar, que havia sido um guardião para ela após a morte do seu esposo. Depois veio a amarga angústia de ver um filho e uma filha indo para o lado dos católico-romanos. O seu irmão, o Rei Charles I, da Inglaterra, foi decapitado. E ainda assim, a sua vida não estava totalmente sem esperança. Ela encontrou, em Hague, a sociedade dos cultos. Os ministros Reformados lhe mostraram grande gentileza. Ela viveu em sossego, por muitos anos, em uma vila campestre em Rheten. Ali ela pôde praticar o seu esporte favorito que era o entalhe. Ali ela educou os seus filhos. A sua casa foi chamada “a mansão das musas e das graças”, em virtude das suas belas filhas. Ali, o grande filósofo Decartes ensinou a sua filha Elizabeth.
Mas, Ai! Os seus problemas ainda não haviam passado. O encerramento da Guerra dos Trinta Anos devolveu o Palatinado à sua família, mas isso apenas acrescentou aos seus desconfortos. Pois como o seu filho, o Eleitor Charles Lewis, não cuidou dela como deveria, ela sofreu crescente necessidade. Por fim, tomada de todo objeto que tornava a Holanda amável para ela, ela aceitou o convite, em 1661, para retornar à Inglaterra. Quão diferente foi o seu retorno da sua partida, muitos anos atrás. Nenhum brado se ouviu das multidões, e nenhuma homenagem veio dos nobres. Ela, que antes havia sido um poder de negociação entre as nações, e a rainha da beleza na sociedade, agora estava esquecida.

Após viver por pouco tempo em sossego, ela faleceu em 13 de Fevereiro de 1662. “Ela foi uma princesa de talentos e virtudes que dificilmente podem ser comparados e muito raramente ultrapassados.” A sua beleza e o seu tato a fizeram poderosa na história. Bravos homens como Gustavus Adolphus e o Lord Craven, como cavaleiros da Idade Média, foram levados, pela sua beleza, a tomar a sua causa. Por esta razão, também, o Duque Christian de Brunswick estendeu a mão para ela, beijou-a, apanhou a sua luva e a colocou em seu chapéu, como uma pluma, e então, desembainhando a sua espada, fez um voto solene de nunca depor as armas até que ela estivesse novamente no trono da Boêmia. Ele colocou como o lema em sua bandeira: “Por Deus e por ela.”