“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

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terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

COMO É PRATICADO O ENSINO CRISTÃO CLÁSSICO HOJE?


III. Caracterização do Ensino Clássico Cristão Atual



Iniciamos este artigo com um histórico do ensino clássico, de suas raízes na antiguidade greco-romana à incorporação de muitos de seus métodos pelos cristãos de várias épocas, e chegando ao sucesso atual deste movimento. Em seguida, fizemos uma análise da educação clássica pela perspectiva cristã, primeiro advertindo quanto aos perigos e cuidados que devemos ter como cristãos para com algumas de suas ênfases e práticas, e então analisando a legitimidade e possibilidade de seu uso por nós, cristãos, especialmente devidos à semelhança e coincidência de suas ênfases com os princípios cristãos encontrados na Bíblia.
 
Nesta terceira seção, queremos dar aos leitores uma idéia geral (- mas nem tão geral-através de informações concretas e específicas) de como a educação clássica tem sido praticada atualmente por escolas, instituições e famílias cristãs, especialmente no que diz respeito ao currículo, disciplinas, materiais e práticas de ensino. E finalizaremos com uma lista de recursos -clássicos, cristãos ou outros materiais úteis -  que podem auxiliar pais , professores e escolas que estejam buscando montar o seu próprio currículo clássico.
 
Ficarei devendo a meus leitores algo que gostaria muito de ajuntar, traduzir, organizar, adaptar ao português e disponibilizar,que seria uma espécie de manual de montagem de um currículo cristão, nos moldes clássicos ou não, que incluísse conteúdos básicos por série, lista de leituras, e organograma, com planos de curso e de aula, etc. Mas acho que para isso vou precisar da ajuda de vocês com sugestões de materiais e leituras específicas por faixa etária. Mas espero que esta listas já sejam de alguma ajuda e incentivem tal iniciativa.

Filosofia Educacional e Adeptos da Educação Clássica Cristã



A posição adepta do currículo das artes liberais é também defendida por cristãos como  Gordon Clark, R. C. Sproul, David Engelsma e tem influenciado grande parte da educação cristã atualmente disponível. A Associação de Escolas Clássicas e Cristãs nos Estados Unidos reúne estudiosos como Tom Spencer, Douglas Wilson e Ron Lee e tem se empenhado em divulgar o ideal de uma educação clássica para as escolas cristãs, através da produção de livros, revistas, boletins informativos e organização de palestras e conferências sobre o tema[1]. Classical Conversations e Veritas Press são entidades fornecedoras de currículo e materiais didáticos da perspectiva clássica e cristã.

Gene E. Veith dá uma idéia de como o currículo clássico tem sido praticado nas principais escolas cristãs dessa tendência:

As escolas clássicas atuais se utilizam do trivium e do quadrivium como modelos conceituais sobre os quais estruturam todo seu currículo, mesmo que se estude as matérias mais convencionais. As escolas clássicas tipicamente ensinam a ler, escrever, calcular, e ensinam educação cívica, história, biologia, etc., mas fazem isso de maneira diferente da observada nas escolas públicas, usando o trivium para estudá-las de maneira mais completa e sistematizada. As escolas tipicamente clássicas ensinam também o Latim, e dão destaque a doses maciças de grande literatura. A Associação Acadêmica Clássica e Cristã também ensina Religião: a Bíblia e a Teologia sendo estudadas com rigor sistemático semelhante e integradas no currículo todo. (1999, p. 87)

Douglas Wilson explica que a alma da educação clássica é a conversação com as grandes mentes do passado, mas tomando-se o cuidado de não se venerar o passado nem a filosofia anti-cristã. Participar dessa "grande conversação" com os nossos mestres do passado é o que permite que cresçamos e sejamos enriquecidos pela educação, ou cada geração terá de reinventar a roda e seremos sempre bebês e pigmeus intelectuais. Não que teremos que concordar com tudo o que os antigos mestres nos deixaram, mas estar a par das grandes controvérsias da humanidade, não apenas saber mencionar o nome de alguns filósofos, é um dos alvos do ensino clássico. George Roche, fundador da Universidade de Hillsdale, escreve que "educação é precisamente a preservação, o refinamento e a transmissão de valores de uma geração para a outra. Suas ferramentas incluem a razão, a tradição, a preocupação moral e a introspecção...". Essa definição concorda com a definição do Antigo Testamento de que educar é transmitir verdades às gerações futuras. Esse autor só esqueceu de incluir a fé na revelação e a iluminação do Espírito Santo como as ferramenta principais do aprendizado. Já Russel Kirk defende a educação clássica pelos seus resultados na vida dos alunos: "E, sendo assim educados, eles saberão que eles não sabem de tudo; e que existem objetivos na vida além de poder e dinheiro e gratificação sensual; eles terão visão ampliada e alvos maiores; eles olharão para trás, para os seus ancestrais e para frente, para a sua posteridade. Para eles, a sua educação não terminará no dia da formatura."[1]

Gordon Clark, por exemplo, escreveu, sobre o currículo, que este deveria se basear em alguns princípios: “o princípio mais distintivo que deve governar o currículo é o destaque de assuntos que se provarão úteis ao aluno não importa qual vier a ser a sua profissão” (2000, p. 108). A este segue algo que é indispensável a todos: a habilidade para ler, seguida da escrita e da matemática. Ele acrescenta ainda as línguas estrangeiras, como Francês, Grego, Latim, Alemão, (no caso do contexto brasileiro e globalizado atual, destacamos a importância da língua inglesa). A importância de se conhecer essas línguas é que elas são ferramentas para o estudo das verdades de Deus de modo acurado, pelo conhecimento da língua neo-testamentária, e porque, como os crentes devem ser os mais dedicados em suas profissões, eles precisarão se aprofundar a tal ponto que jamais serão os melhores advogados se não souberem ler os escritos em italiano, por exemplo. Só poderão chegar ao topo como cientistas se souberem ler francês e alemão, e só serão excelentes pedagogos se puderem ter acesso a matérias na língua inglesa e francesa que ainda não estão disponíveis para o público brasileiro.

Assim, a conclusão de Gordon Clark é que “os princípios cristãos prescrevem, portanto, um currículo fortemente determinado pelas artes liberais” (2000, p. 111), em contraste com o currículo voltado para o treinamento vocacional. A posição de G. Clark está em oposição aberta à tendência das escolas públicas americanas, marcada pelo abandono do clássico e pela valorização do pragmático e do vocacional. Clark empenha-se em demonstrar que essa educação pública está formando cidadãos cujo nível acadêmico tem caído grandemente, o que se evidencia, segundo ele, na negligência quanto ao estudo das línguas, na constatação de que os jovens do ensino secundário têm problemas em ler literatura mais elaborada e no resultado insuficiente de testes simples de matemática, por exemplo, a que esses alunos foram submetidos (2000, p. 109-110).

Ele não repudia o treinamento vocacional como inútil, entendendo que tem o seu lugar e que os cristãos devem se destacar também nessas profissões. O aspecto mais radical de sua posição é que ele não considera o treinamento como educação, visto que para ele a educação é algo essencialmente intelectual – de conhecimento das verdades – enquanto o treinamento é algo que não estimula o pensamento, mas transforma os homens em máquinas (2000, p. 112). “O currículo das artes liberais tem o alvo oposto. Ao invés de tornar o homem uma máquina, ele deseja evitar que se torne uma máquina. (...). Os dedos não são treinados, mas a mente é desenvolvida. O aluno não aprende a fazer, ele aprende a entender. (...). Como Spinoza, ele pode ter que triturar lentes para se sustentar – ele pode treinar seus dedos em um curto espaço de tempo – mas ele passará suas tardes pensando e escrevendo livros que influenciarão a humanidade por séculos (CLARK, 2000, p. 112).

Ênfases e Práticas Curriculares Clássicas


Para resumir algumas marcas ou ênfases que tenho observado entre as escolas, materiais didáticos e currículos clássicos e outros mais tradicionais, destaco esses diferenciais nas seguintes áreas principais:

Livros Clássicos

- Educadores clássicos defendem um currículo fortemente baseado na leitura e estudo dirigido de livros clássicos, de livros "vivos", de obras originais - ao invés de um currículo baseado em livros didáticos, onde as informações são resumidas, rasas, e muitas vezes, distorcidas. Eles dizem que, em sua maioria, os livros didáticos - ou livros texto -  não são libertadores, mas limitadores do conhecimento e do pensamento, visto que eles dizem à criança e ao professor o que eles devem saber, em que devem pensar, e limitam o nível de profundidade com que a criança deverá trabalhar um tema. Mortimer Adler, por exemplo, sustenta que leituras informativas em geral, como a de notícias, e de livros de baixa qualidade, não conduzem a um aprendizado verdadeiro, porque não são capazes de agir, mudar, e dar crescimento às pessoas; eles apenas as mantém ocupadas e, quando enchem sua mente de fatos, estes dão à pessoa a impressão de serem cheias de conhecimento. Mas se esse conhecimento não as faz amadurecer, nem se traduz em sabedoria no viver, esses materiais podem ser úteis apenas como divertimento, mas não fazem o que os clássicos podem fazer.

Já os clássicos seriam aqueles poucos livros que tem a capacidade de tirar o leitor de seu mundo estreito e lhe abrir as portas para uma visão mais ampla da profundidade e complexidade do conhecimento e da vida humana. Eles são capazes de fortalecer a mente, de fazer a pessoa identificar as meias verdades e superficialidade do seu tempo e contexto social, e de fazê-la sustentar a verdade e ter um bom julgamento. Eles formam alunos pensantes, livres das opiniões dos ditadores sociais, e tem a tendência de formar bons líderes para o amanhã.


- Como identificar uma obra clássica? Em geral, um clássico é uma obra que você pode ler (ou ver, no caso de pinturas e esculturas; ou ouvir, no caso de músicas) muitas vezes e sempre extrair e aprender mais com ela a cada releitura, visto terem sido escritos cuidadosa e estilosamente por grandes mentes. Além de exibirem estilo distinto, a mais refinada arte e um intelecto claro e profundo, podemos reconhecer um clássico, segundo Os Guiness, em seu livro "Convite aos Clássicos", pelas seguintes características: 1) São capazes de criar mundos de imaginação e de pensamento; 2) Mostram a complexidade e as várias facetas, positivas e negativas, da vida e do caráter humano; 3) tem efeito transformador na auto-compreensão do leitor; 4) Convidam e sobrevivem leituras frequentes; 4) Se adaptam a várias épocas e lugares e dão aos leitores um senso da vida comum da humanidade; 5) São considerados clássicos por um número suficientemente grande de pessoas, tanto de pessoas comuns, como de autoridades literárias; 6) Seu apelo continua por várias eras históricas e para todas as pessoas, por terem sido escritos para todos.


Leitura e Literatura

- Uma das mais caracteríticas ênfases do ensino clássico é que crianças de todas as idades devem ser expostas a uma quantidade extensa de literatura de boa qualidade, a livros clássicos, escritos cuidadosamente pelos melhores autores, tanto de obras que estão no nível da criança, como de obras mais ricas e difíceis, cujo objetivo é "esticar" a mente da criança e lhe dar um modelo mais elevado.

- Desde a mais tenra infância, os pais devem fazer uma boa seleção dos melhores livros, poemas, rimas, versículos bíblicos e provérbios, não necessariamente livretos infantis, e ler para as crianças em voz alta, diariamente. Inicialmente, a criança deverá ser incentivada a memorizar poemas e textos que são excelentes literariamente, e que serão importantes para a sua vida futura, ao invés de rimas infantis de baixa qualidade. Posteriormente, o professor deve fazer perguntas orais sobre o texto, modelando para a criança como fazer boas perguntas para a interpretação do texto.

- Há programas pré-escolares clássicos que substituem completamente qualquer livro didático pela leitura dos melhores clássicos e obras originais infantis. No ensino fundamental, os programas utilizam a leitura dos clássicos infantis como fornecedores de temas geradores para serem trabalhados nas mais diversas disciplinas, através do sistema de unidades de estudo. Na fase retórica, a ênfase na interpretação e a reprodução do estilo das obras clássicas é incentivado interdisciplinadamente.

- Incentivo do uso do dicionário para melhorar o vocabulário sempre que a criança - ou o professor - se deparar com palavras desconhecidas.

- Incentivo da leitura fonética o mais cedo possível, de preferência fora do ambiente institucional e da rigidez de horários e do ensino formal.

Bíblia e Doutrinas

- Classicistas Cristãos enfatizam o estudo da Bíblia como o clássico maior.

- As Histórias da Bíblia são ensinadas cronologicamente, com auxílio de cartão ou linha do tempo para memorização de fatos, datas e personagens principais.

- O ensino das histórias bíblicas é ensinado paralelamente ao ensino da história mundial do período, para que a criança tenha o contexto do mundo e de outros povos da época.

- As crianças são incentivadas a conhecer o contexto histórico, cultural, geográfico, etc. das histórias bíblicas e de seus detalhes.

- Forte ênfase no ensino de doutrinas, as eternas verdades da Bíblia. Uso de diversos catecismos ensinados sequencialmente, dos mais simples aos mais complexos, adequados à idade e capacidade das crianças.

- Memorização do Catecismo e de Passagens Bíblicas importantes são imprescindíveis. Musicalização de Versículos e do Catecismo ajudam a memorização.

 

Forte Ênfase na Gramática e na Matemática

- Essas disciplinas instrumentais ocupam a maior parte da carga horária, especialmente nas séries iniciais, e usam diversos artifício como rimas, músicas, repetição e recitações para memorização de fatos, das definições e regras da gramática, das tabelas das quatro operações matemáticas, etc.

- Ensino sistemático, repetitivo e progressivo da gramática, e ensino fonético de línguas, incluindo muitas vezes línguas clássicas, como o latim e o grego, por sua capacidade de melhorar o vocabulário e a expressão linguística.

- A Matemática enfatiza tanto a memorização de tabuadas e regras, como o desenvolvimento da mente para a compreensão de problemas e sua aplicação às situações da vida, por meio de identificação de sequências, medidas, tempo, valores, sempre que possível em conexão com outras disciplinas.

 

Ensino Diferenciado da Escrita e Redação

- Na frase gramatical, ênfase no domínio da escrita cursiva, na exposição a textos excelentes dos melhores autores, na cópia de trechos bem-escritos e no ditado de frases exemplares, a  fim de que a criança se familiarize e tenha como seu exemplo e alvo a melhor literatura disponível, antes de ser encorajada a se expressar.

- Na fase dialética, os alunos aprenderão as técnicas da boa escrita, da ordem e da composição de frases e parágrafos, da revisão e editoração de textos, e começarão a produzir textos originais pequenos seguindo um modelo e imitando textos exemplares.

- Somente na fase retórica a criança será mais incentivada a produzir textos totalmente originais, com idéias próprias e com beleza e criatividade de expressão.

 

Valorização e Ensino Integrado das Artes

Bastante valorizadas, a arte, o desenho, as técnicas de pintura, e a música erudita são normalmente integradas às demais disciplinas, e servem para reforçá-las. Por exemplo, a criança aprenderá as técnicas para desenhar uma arca, um zigurate, um soldado romano como complemento às aulas de história; ela aprenderá a esboçar o traçado de animais, a colorir frutas, e a pintar paisagens como parte das aulas de ciências; ela ouvirá músicas típicas e aprenderá a cozinhar comidas típicas, e imitará a arte e o artesanato dos lugares do mundo que estiver estudando nas aulas de geografia; a música clássica pode acompanhar a cópia de parágrafos que tratam dos diferentes compositores, e assim por diante.

- A arte inclui não apenas o conhecimento e classificação dos diferentes compositores e artistas e de seus estilos, mas a reprodução individual de técnicas e métodos utilizados pelos artistas estudados, e o desenvolvimento prazeroso do gosto pela arte bela e excelente, com o cuidado de avaliar a arte segundo os critérios da qualidade e, no caso dos cristãos, da verdade, da beleza e da pureza moral.

 

Disciplinas Diferenciadas:

- O Ensino das Temáticas das Diversas disciplinas são ensinados com base ou tendo como tema gerador a Leitura dos Livros Clássicos apropriados para a idade dos alunos. Em alguns programas, as disciplinas quase que desaparecem, e o estudo e interpretação dos clássicos abrange temas diversos na medida em que aparecem nos livros.

- Ensino da Lógica Formal como disciplina a partir das séries intermediárias.

- Ensino do Latim e outras línguas clássicas desde a fase gramatical, e dos prefixos e sufixos gregos, como método para aquisição de uma boa ortografia e vocabulário.

- O domínio das disciplinas instrumentais - linguagem e gramática, matemática e história - precede o ensino sistemático do currículo nas disciplinas tradicionais como ciências, geografia, estudos sociais, etc.

- Nas fases iniciais, as ciências são marcadas pelo conhecimento natural e factual do mundo e de Deus, visando a coleta e a organização de dados. Incentiva-se especialmente que a criança colecione objetos e classifique objetos de toda sorte. A geografia tem como alvo a familiaridade com os mapas, com os diferentes relevos e paisagens, e com as pessoas e culturas dos diferentes povos. O ensino dessas ciências na fase gramatical não almeja ser sistemático e exaustivo, mas interessante, para incentivar a curiosidade e a maravilha com a diversidade natural do mundo de Deus. Somente a partir da fase dialética as crianças focalizarão na compreensão dos fenômenos e no inter-relacionamento entre estes. A geografia social e política será deixada para a fase retórica, e será integrado ao estudo da história.

 

Repetição e Sequência das Disciplinas:

- O ensino dos temas dentro das disciplinas científicas, da histórias, e da geografia é repetido nas três fases principais, sendo explorado conforme as habilidades da criança em cada fase. Por exemplo: Na fase gramatical a criança vai decorar que Cristóvão Colombo descobriu a América em 1492, por meio de figuras, de rimas ou poemas como "In 1492 Columbus Sailed the Ocean Blue". Ou irá decorar as terminações gramaticais dos verbos, as listas de artigos, conjunções e pronomes, como se fosse uma cantiga ou trocadilho de palavras no lugar do "Mamãe mandou...". Na fase dialética, os alunos irão estudar o contexto histórico, os incidentes e a biografia de Colombo, e começar a entender porque e como esse fato aconteceu quando aconteceu e da forma que aconteceu. Semelhantemente, a partir da terceira série, irão estudar sistematicamente a gramática com suas leis e exceções, com foco na utilização correta da língua. Na fase retórica, o mesmo assunto será tratado, mas agora de uma perspectiva analítica e expressiva. O jovem poderá, por exemplo, escrever um ensaio sobre a importância desse fato para o mundo da época, ou expressar-se sobre a relação entre o caráter perseverante de Colombo e a sua grande realização; ou fazer um debate ou encenação sob o tema: "Se Colombo não tivesse descoberto a América", e atividades semelhantes. Ou irá analisar, revisar, editar e produzir textos focalizando tanto o uso correto da gramática, ortografia, e pontuação, como as figuras de linguagem e de técnicas mais avançadas de expressão.

- Com exceção do ensino da Matemática e da Gramática, muitos dos materiais clássicos nas disciplinas mais conteudistas têm a característica de serem flexíveis e adaptáveis a diversas faixas etárias e audiências. O mesmo tema pode ser estudado simultaneamente em classes multi-seriadas, por meio de textos ou esboços introdutórios que apresentam desde os fatos básicos até introduzirem questões mais complexas. A partir daí, é comum haver várias sugestões de atividades que reforçam ou aplicam os conteúdos tratados conforme a fase e capacidade dos alunos; alunos mais novos irão responder perguntas simples, fazer uma atividade manual ou pintar um desenho. Alunos intermediários irão responder perguntas mais complexas ou fazer experimentos que explorem o tema. Alunos mais velhos serão normalmente estimulados a pesquisar e se aprofundar em facetas do tema, e a fazer esboços ou textos ou outras atividades criativas.

 

Materiais Didáticos Diferenciados:

- As escolas clássicas defendem o uso de "livros de verdade" (real books) e obras clássicas (históricas, ficções, biografias, etc.) como propulsores ou complementos para o ensino da história, da gramática, da interpretação, da escrita, etc., no lugar de livros-texto ou de materiais didáticos modernos. Há currículos clássicos que são formulados exclusivamente a partir da leitura de bons livros, os quais são explorados com a ajuda do professor por meio de perguntas de interpretação e se prestam para trabalhar as mais diversas disciplinas, com exceção, normalmente, da matemática e da gramática estrita que normalmente fazem uso de livros didáticos. Essas obras clássicas são estudadas repetidamente em diversos níveis, em virtude do entendimento de que esses clássicos são profundos, ricos e multifacetados e seu estudo será enriquecido e diferenciado nas diversas releituras.

- Quando usados, os livros didáticos escolhidos pelas escolas clássicas são conteudistas, lógicos, e auto-explicativos, que ajudem o aluno a se tornar um auto-didata ao apresentar uma sequência incrementada dos assuntos. Assim, os novos assuntos são introduzidos bem progressivamente, e cuidadosamente construídos sobre conhecimentos anteriores. Todos os assuntos aprendidos serão bastante revisados, e os testes são cumulativos, para garantir um aprendizado duradouro. Na matemática, por exemplo, cada assunto e habilidade será explorado racionalmente e aplicado extensivamente por meio dos mais diversos problemas, atividades e situações práticas. A história também seguirá uma estrutura cronológica e uma linha do tempo; a geografia será ensinada também de forma lógica e progressiva, e muitos conhecimentos dentro das várias ciências serão integrados a outras disciplinas. As disciplinas instrumentais, como a língua, a leitura, a escrita, a matemática, a partir da fase dialética, serão trabalhados em conjunto e integrados às demais disciplinas mais específicas.

 

Práticas de Ensino Diferenciadas

- Valorização da excelência acadêmica e do aprendizado real ao invés da carga horária; da qualidade sobre a quantidade. Isso é possível devido a atenção mais individualizada dos alunos e ao método tutorial que introduz o tema aos alunos e a partir daí os orienta a se aprofundar nele por iniciativa própria a partir de pesquisas, leituras e atividades.

- Estudo mais conteudista e menos "enfeitado", embora aplicado e manipulativo quando necessário, e até mesmo lúdico nas atividades para as crianças menores. Mas, em geral, os livros clássicos apresentam textos e tarefas em preto-e-branco, com poucas ilustrações ou gráficos coloridos, com diagramações simples e centradas na apresentação do assunto e nos exercícios do tema ensinado de forma objetiva e clara.

- Menos tempo em sala de aula e mais tempo em leituras e atividades.  Em contraste com as escolas tradicionais norte-americanas, que têm uma carga horária de seis a sete horas diárias, que incluem tempo para recreação, esportes, etc., as escolas clássicas têm uma carga horária menor, de cerca de quatro horas diárias ou menos, algumas até em dias intercalados, por concentrarem-se no ensino acadêmico e deixarem os outros aspectos a critério dos pais.

- Ensino individualizado que não segue a estrutura das séries tradicionais, as quais são obliteradas pelo nível real de cada aluno em cada disciplina, o qual pode progredir nos diferentes temas ou disciplinas conforme o seu interesse ou conforme a ordem que o professor-tutor os apresenta. Por isso o ensino segue o ritmo de cada criança ao invés de padronizar os horários e conteúdos como na escola tradicional.

- Incentiva e ensina o aluno a ser auto-didata, a buscar o conhecimento verdadeiro nas melhores fontes, a interpretar textos e tarefas por si mesmo, a e identificar falácias e falsidades, reconhecendo a verdade onde ela for encontrada e aprendendo a valorizar os autores e as obras mais excelentes.

- Realização de atividades de estímulo e expressão intelectual e retórica, como debates, participação ativa dos alunos nos meios de comunicação, exposições orais sobre temas, produção de material próprio para publicação, etc.

 
                      Continua... Conclusão e listas de livros na próxima postagem


[1] Russel Kirk apud Wilson, Recovering the Lost Tools of Learning, p. 85.

 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

A EDUCAÇÃO CRISTÃ PODE OU PRECISA SER CLÁSSICA?

Esse post é parte do ensaio intitulado "Educação Clássica Cristã?" Iniciamos fornecendo aos leitores um histórico da Educação Clássica e do seu relacionamento com a Educação Cristã. Em seguida, nos propomos a fazer uma avaliação da Educação Clássica do ponto de vista cristão. A postagem anterior (ainda não leu? clique aqui) trata dos aspectos negativos da educação estritamente clássica e dos perigos e cuidados que o educador cristão deve ter ao adotar seus métodos. A postagem atual trata, mais positivamente, das possibilidades de usarmos certas ênfases e métodos clássicos, a partir de duas perguntas cruciais: "A Educação Cristã pode ser Clássica?" E "A Educação Cristã Precisa ser Clássica? " E na próxima postagem esperamos dar ao leitor uma idéia mais prática, inclusive com listas de materiais, de como os currículos clássicos estão sendo usados por escolas e lares cristãos.

Resultado de imagem para Bible LiteratureA Educação Cristã pode ser Clássica?


Temos visto o sucesso intelectual da educação clássica. Vimos também que ela fica aquém em vários quesitos cristãos básicos e que ela apresenta perigos reais aos educadores e alunos cristãos. Isso leva naturalmente à pergunta: Os cristãos podem usar dos métodos clássicos? Vimos, no histórico apresentado, que os cristãos historicamente têm usado com proveito muitos dos métodos clássicos. A base para eles fazerem isso é o entendimento de que toda verdade procede de Deus, e o reconhecimento de que os gregos antigos descobriram e organizaram muitas verdades relacionadas ao desenvolvimento intelectual, mais do que outros antes e depois deles, razão porque sua visão das disciplinas e das artes liberais se tornaram um padrão para as escolas clássicas desde o renascimento.

De modo geral, os reformadores, e seus seguidores até hoje do ramo mais conservador entenderam que o modelo curricular que mais se aproximava do ideal bíblico seria o currículo das artes liberais ou o currículo clássico. Baseados no fato de que a educação cristã está fundamentada na existência de verdades absolutas, que o seu objetivo é o conhecimento das verdades divinas e que a verdade é algo a ser conhecido intelectualmente, os defensores dessa corrente passaram a entender que as artes liberais eram as que mais aproximavam ao estudo sistemático e organizado das verdades de Deus.

Os defensores da educação clássica dão grande valor à razão humana, e consideram esta uma parte essencial da imagem de Deus no homem. Gene Edward Veith, embora reconhecendo que “a crença cristã nunca seja meramente a função de um argumento lógico, já que depende da revelação do Espírito Santo” (1999, p. 75-93), insiste em que “crer compreende alguns processos intelectuais e um conteúdo objetivo” (1999, p. 81), em oposição direta àqueles educadores progressistas que valorizam processos acima de conhecimento, sentimentos acima de fatos e socialização acima de verdade (1999, p. 81) e assinala que, mesmo em meio a um contexto de um mundo pluralista e relativista, os cristãos precisam reaprender a pensar em termos de verdade e de doutrina e não em termos de experiência ou vontade ou interesses particulares.

Ele lembra, então, que sempre que o relativismo foi mais forte na história humana, a resposta da Igreja reformada foi o desenvolvimento do que seria chamado de uma educação de artes liberais. Foi o que aconteceu quando filosofias ateístas e relativistas típicas da diversidade cultural do fim do Império Romano se refletiram na observação de Pilatos em João 18:38: “Que é a verdade?”, e a Igreja formulou uma educação liberal, sendo o termo “liberal” entendido como se segue:

O termo ‘liberal’ deriva da palavra latina ‘liberdade’. Para os gregos e romanos, uma educação ‘liberal’ era a que convinha a cidadãos livres; o mero treinamento ocupacional era para escravos. Aqueles que eram livres, em contraste, precisavam saber pensar. A igreja primitiva tomou o melhor do conhecimento clássico e combinou-o com uma visão de mundo cristã (1999, p. 83).

O resultado desse esforço foi exatamente a valorização cristã do ideal das Artes Liberais. Prossegue o autor do artigo, demonstrando o resultado desse tipo de educação clássica:

O Renascimento foi essencialmente um reavivamento da educação clássica. A Reforma começou numa universidade de artes liberais em Wittenberg e foi divulgada por eruditos clássicos tais como Melanchton, Zuínglio e Calvino. Uma vez iniciada a Reforma, a educação tornou-se uma das principais prioridades religiosas. Foram abertas escolas para ensinar aos leigos como ler a Palavra de Deus. Ministros mantiveram aulas de catecismo e pregavam sermões para explicar as verdades do pecado e da graça, e os novos ensinamentos começaram a ser refletidos em toda a cultura, na arte, música, literatura e vida social. Mais uma vez, a Igreja assumiu a tarefa de ensinar seus membros a pensar biblicamente. (VEITH, 1999, p. 84)

Assim, para o desenvolvimento acadêmico intelectual dos alunos, o modelo clássico tem sido provado pelo tempo como um dos métodos mais lógicos, ordenados, sistemáticos e eficazes para o treinamento da mente, e, apesar das ressalvas que fizemos na seção anterior e dos cuidados que precisamos ter, em geral os cristãos a tem considerado compatível com os princípios cristãos que também dão à mente um papel elevado na descoberta das verdades de Deus, na formação da pessoa, e no próprio crescimento espiritual. Desde que submissa à revelação, e dependente da iluminação do Espírito de Deus, a mente do crente pode ser muito beneficiada pelo estudo rígido da lógica e por meio de disciplinas bem estruturadas, mais do que pelos métodos relaxados, assistemáticos e relativistas da pedagogia moderna.

Na atualidade, pedagogos cristãos têm também defendido o modelo clássico propondo que os três caminhos do trivium (a gramática, a lógica e a retórica) correspondem aos três termos frequentemente utilizados no livro de Provérbios e em várias porções da Bíblia para designar as etapas de um aprendizado verdadeiro: o conhecimento, (o contato com os ensinamentos de Deus), o entendimento (a compreensão mental e os inter-relacionamentos das verdades aprendidas entre si e com o Criador), e a sabedoria (que seria a expressão prática e a aplicação do que foi conhecido e compreendido nas circunstâncias reais e complexas da vida humana. Também a defesa clássica de que se é possível conhecer antes de se compreender parece concordar com a visão bíblica de que podemos conhecer e crer nas verdades de Deus e mesmo ensiná-las às nossas pequenas crianças que ainda não podem compreendê-las, a fim de que elas possam ser futuramente compreendidas e aplicadas à vida. Outra afinidade que educadores cristãos encontram na educação clássica atual é a importância das letras e da Palavra (consequentemente de métodos tradicionais como a memorização, a repetição, a palestra, a leitura, a escrita, a fala, e a retórica) para a aquisição do conhecimento e da sabedoria, que parece ressonar em textos como Êxodo 24:3,4; Dt. 18:15-22; Salmo 119:130; Provérbios 2:6. Atualmente, é principalmente a ênfase na palavra e na leitura e na ordem das três etapas do trivium que têm caracterizado a educação clássica cristã.

Exposta esta defesa cristã de alguns métodos clássicos, é importante ressaltar que a educação cristã não pode ser estritamente clássica no sentido de trabalhar apenas o aspecto intelectual e de se perder em "loquacidade frívola" (1 Tm 1: 5), deixando-se levar pelas faltas e devaneios acadêmicos de seus fundadores idólatras. A educação cristã pode usar alguns dos métodos clássicos para alcançar o seu ideal de formar o cidadão integral do reino de Deus, mas não o ideal do cidadão romano; ela pode usar seus métodos para desenvolver a mente, mas ela vê a mente como um componente da alma juntamente com o coração e com a consciência, aspectos ignorados pelos fundadores gregos. Por isso é que o apóstolo Paulo nos adverte a não nos deixarmos levar por doutrinas falsas, pelas filosofias e vãs sutilezas, pelas discussões inúteis, pela questões e contendas de palavras de homens cuja mente é pervertida e privada da verdade (I Tm. 6:3-5), contrapondo estes erros típicos do intelectualismo pagão com o ensino segundo a piedade, que é segundo a verdade de Cristo e que concorda com uma fé sincera em Cristo, com o amor que procede de coração puro e com a boa consciência que é moldada pela santa lei de Deus. E em II Tm. 3:14-17, o apóstolo deixa claro que a verdadeira educação cristã é fundamentada nas Escrituras, que são a fonte mais útil para a educação na justiça e para preparar o crente para ser perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. A Bíblia, não as disciplinas acadêmicas clássicas, são a marca distintiva e indispensável da educação cristã integral. E por mais ênfase que encontremos na Bíblia sobre as "palavras da verdade", o Sábio de Eclesiastes nos adverte da vaidade das palavras, visto que "não há limites para fazer livros e que o muito estudar é enfado da carne"(Ecl.12:10-12), e que a educação mais importante é aquela que coloca o aluno face a face com Deus, para o temer e o obedecer.

A educação cristã, por ser integral, também precisa equilibrar o academicismo e a ênfase teórica típicos da educação clássica com a prática e a expressão do conhecimento adquirido através do serviço útil à sociedade e à igreja, e com a integração social e emocional saudável da criança na sua comunidade e especialmente na comunidade do pacto, sem mencionar a necessidade do treinamento físico e atlético do corpo. Contudo, a educação clássica normalmente se abstém dessas áreas, e por isso ela não pode ser vista como o todo da educação que precisamos dar às nossas crianças. Por isso, é comum vermos algumas correntes educacionais cristãs buscando integrar o ensino literário clássico com a inserção do aluno em uma atmosfera social e natural saudáveis, como ocorre com a proposta de Charlotte Mason, e de outros educadores cristãos que continuam defendendo, contra o academicismo clássico, a necessidade de uma educação mais prática e vocacional, voltada para o empreendorismo, para a formação de líderes ativos ou para o serviço caridoso e útil à comunidade.

A Educação Cristã Precisa ser Clássica?


Acho que essa é a questão mais delicada e talvez a mais importante colocada diante de nós, e tentarei respondê-la com cautela. Já vimos que a educação clássica não é necessariamente cristã, pelo contrário, é de origem pagã. Mas vimos que ela faz um trabalho excelente em desenvolver as capacidades da mente e em usar ferramentas úteis para repassar conhecimentos aos alunos, e esse é um dos objetivos primordiais da educação cristã: preparar a mente da criança para receber, assimilar e organizar o conhecimento de verdades. Por essa razão é que vemos no decorrer da história muitos teólogos e grupos de cristãos utilizando-se dos métodos clássicos na educação das crianças e sendo muito bem sucedidos na sua formação intelectual, e a exemplo dos puritanos, os quais se tornaram exemplares também na piedade e no compromisso com a verdade de Deus, o que nos mostra que a excelência acadêmica clássica e o ensino no temor do Senhor podem andar juntos.

Contudo, a frustração dos pais cristãos com os métodos pedagógicos vigentes, centrados na criança, e o sucesso atual da educação clássica, centrada no conhecimento, têm levado muitos pais cristãos a valorizar mais o ideal clássico e a buscar métodos, currículos e disciplinas clássicas para ensinar seus alunos, tanto no contexto escolar, como no ensino doméstico. Estes alunos têm, por sua vez, se destacado no meio acadêmico, com notas acima da média das escolas públicas e privadas nos testes nacionais, passando com louvor nos critérios de admissão nas universidades, e destacando-se ainda como excelentes alunos nos cursos universitários. Diante disso, muitos pais e educadores cristãos se vêem diante de um dilema: "será que, para dar uma boa formação acadêmica aos meus alunos, eu preciso matriculá-los em instituições clássicas e adotar currículos clássicos, mesmo que estas escolas, materiais e leituras não sejam cristãos?"

Felizmente existem muitas escolas clássicas cristãs hoje nos Estados Unidos e se espalhando pelo mundo, além de casas publicadoras que buscam unir esses dois ideais educacionais, além de professores e autores que têm buscado oferecer materiais didáticos cristãos nas mais diversas disciplinas, que se utilizam de métodos clássicos para ensiná-las às várias faixas etárias. Mas em países como o nosso, em que há muito pouco material educativo cristão, e em que a educação clássica é praticamente desconhecida ou depreciada pela filosofia educacional moderna como atrasada, elitista ou conteudista, esses pais e educadores despertados para essa situação têm se perguntado também: Será que os meus filhos podem ter uma boa formação cristã total sem utilizarmos dos métodos e materiais clássicos?

Com base em II Timóteo 3:14-17 eu diria que esses pais e educadores não precisam se preocupar demasiadamente com a falta de conhecimento dos métodos e materiais clássicos se eles derem a devida atenção e souberem fazer bom uso de um livro só: o clássico dos clássicos, a Escritura Sagrada. Essas letras sagradas podem tornar as pessoas que forem instruídas nela desde a infância pessoas perfeitas ou maduras em todos os sentidos, sábias para a salvação pela fé em Cristo Jesus, sábias para viver uma vida moralmente íntegra, justa e bem-estruturada; e sábias e perfeitamente habilitadas para a realização de toda boa obra. Que mais você poderia desejar para a educação de seus amados filhos e alunos?

A educadora cristã Robin Sampson, conhecida por publicações sobre currículo e sobre como preparar as crianças para os testes acadêmicos, faz um estudo muito interessante no seu livro "Quando o seu Filho Precisa Saber o Quê?, e propõe como solução para os cristãos que estão preocupados com o sucesso  acadêmico o que ela chama de uma "abordagem do coração sábio". Denunciando as bases anti-cristãs da educação estatal no decorrer da história, ela diz que havia uma educação excelente antes mesmo dos gregos surgirem com seus famosos ideais acadêmicos: era a educação do povo de Deus no antigo testamento. Idealizada e ordenada por Deus desde o jardim do Éden, baseada nos ensinamentos da lei de Moisés, centrada não no conhecimento, mas na glória de Deus e na formação espiritual da pessoa toda, a educação judaica é apresentada a nós como um exemplo ou modelo melhor que a clássica. Suas disciplinas curriculares são para nós mais relevantes do que as artes liberais (a Bíblia, a Ciência da Criação, a História da Igreja, e a Maturidade do Caráter). Seus estágios substituem a proposta grega da gramática, lógica e retórica pelo estágios do conhecimento, entendimento e sabedoria. A variada literatura divinamente inspirada é seu livro-texto ao invés dos autores clássicos, a qual dá às crianças o conhecimento de Deus e instila no seu coração o apreço pelos heróis e ideais bíblicos ao invés dos filósofos, aventureiros e oradores da antiguidade grega. O foco da educação dos hebreus era na Palavra de Deus, na fé e na sabedoria que provém do temor do Senhor, em contraste com o foco grego na literatura, na lógica e no conhecimento que provém da filosofia humana.

Essa autora compreende que pais preocupados com os tristes resultados da educação tecno-científica, behaviorista ou romanticista atual queiram voltar ao método clássico literário, que sem dúvida era mais elevado, mais humano e mais moral, e que funcionava no sentido de ensinar o aluno a buscar o conhecimento por si só, e fazia dele um homem de letras, um erudito, um pensador, um líder. Muitos pais cristãos preferem esse ideal de homem clássico e buscam combinar a educação clássica com a Bíblia, mas ela diz que há uma solução ainda melhor: voltar ou redescobrir o modelo bíblico.

O que os gregos tiveram de melhor a oferecer à educação foram alguns princípios lógicos e ênfases literárias que os hebreus já possuíam nos Oráculos de Deus. E eles tinham muito mais. Eles tinham o temor do Senhor que é a fonte da sabedoria, um conhecimento verdadeiro, santo e útil que sempre destacou seus alunos muito acima de toda erudição pagã. Pensem em José no Egito, em Daniel na Babilônia, em Mordecai e Esdras na Pérsia, na autoridade do ensino de Jesus em comparação com todos os seus contemporâneos judeus, gregos e romanos; no poder da pregação apostólica entre os gentios. A educação ordenada por Deus para o seu povo era e é muito mais apropriada aos filhos da aliança do que uma educação nos moldes pagãos.

Não há nada de realmente importante na educação clássica que crentes estudiosos e piedosos não tenham encontrado na Palavra de Deus. Mesmo quando os ímpios em geral agem com sabedoria isso acontece porque "o seu Deus assim o instrui devidamente e o ensina... Também isto procede do Senhor dos Exércitos; ele é maravilhoso em conselho e grande em sabedoria." (Is. 23-29). Que a educação da nova geração acontece pela transmissão dos conhecimentos adquiridos pelas gerações anteriores, isso a Bíblia nos ensina desde Êxodo e Deuteronômio, e reitera no Salmos e Provérbios. Que o estágio inicial da mente infantil prioriza a memorização: qualquer pai ou professor que já leu os primeiros capítulos de Deuteronômio e que conhece um pouco da natureza infantil sabe que é pela repetição e memorização que as leis de Deus devem ser primeiramente repassadas às crianças pequenas. Que a mente deve ser informada com ordem segundo seus estágios próprios,  isso Deus tem feito para ensinar o seu povo no decorrer da história revelada, indo do concreto ao abstrato; e lidando com o seu povo inicialmente pelos métodos visuais do tabernáculo e do culto para posteriormente revelá-los verdades mais espirituais no Novo Testamento. Que o raciocínio é importante para o conhecimento e que a pessoa é estimulada a pensar em níveis mais profundos por meio de perguntas apropriadas (dialética), Deus há muito tempo nos chama a fazer isso, como por exemplo, quando argumenta com o seu povo, por exemplo, em Isaías 1:18: "Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor..." ou em Isaías 40:13,14,21,26:

"Quem guiou o Espírito do Senhor, ou, como seu conselheiro, o ensinou? Com quem tomou ele conselho, para que lhe desse compreensão? Quem o instruiu na vereda do juízo, e lhe ensinou sabedoria, e lhe mostrou o caminho de entendimento?... Acaso, não sabeis? Porventura, não ouvis? Não vos tem sido anunciado desde o princípio? Ou não atentaste para os fundamentos da terra? ... A quem, pois, me comparareis para que eu lhe seja igual? Levantai ao alto os olhos e vêde. Quem criou estas coisas?"

Amigos, nós não somos proibidos de ler e usar seletivamente os clássicos pagãos, mas por outro lado, nós não precisamos dos clássicos gregos ou modernos para educar os nossos filhos quando temos em nossas mãos o clássico dos clássicos, a fonte de todo saber, a Palavra de Deus. Um eminente professor secular de literatura recentemente afirmou que o livro mais importante para a formação total do aluno é a Bíblia. Suas histórias, poemas, provérbios e sua própria cosmovisão são indispensáveis ao fornecer ao aluno uma estrutura inicial para conhecer o seu mundo. Em outras palavras, ele estava dizendo que a Bíblia é o clássico mais importante que deveria ser explorado na educação, mesmo da perspectiva não-cristã. Outros educadores têm relacionado o declínio do ensino da Bíblia nas escolas Norte-Americanas com o seu declínio acadêmico. E é importante aqui lembrar que muitos defensores da educação clássica não priorizam a leitura da Bíblia e dos Bons Livros da Tradição Cristã, o que deveria ser prioridade para nós.

Não, a educação cristã não precisa ser clássica. Ela sempre foi superior. Ela pode ter vingado no século XVI através dos moldes clássicos, mas ela floresceu e deu frutos por ter sido, primeiramente, bíblica. Basta que ela seja bíblica, e ela será academicamente melhor do que a clássica e infinitamente superior em todos os demais aspectos. A educação cristã excelente é integral, e ela incluirá o desenvolvimento intelectual; ela ensinará a criança a buscar o conhecimento por si mesma, nas melhores fontes, a compreender as verdades de Deus em seu relacionamento uma com as outras e com Deus; ela lhe fará um mestre de letras, um hermeneuta da Palavra de Deus e de outras literaturas de qualidade, e muito mais do que isso. Esse conhecimento virá de um coração vivo e santo, e culminará numa vida piedosa e útil.

A educação cristã não precisa ser clássica. Ela pode ser melhor ainda. Você pode não ter, querido pai ou professor, muito conhecimento dos métodos gregos. Não se preocupe. Estude os métodos de ensino bíblicos, usados pelos profetas, pelos sacerdotes; os métodos usados por Cristo e por seus discípulos, e exemplifique-os para seus alunos. Você pode não ter conhecimento ou acesso aos grandes clássicos da mitologia grega, às famosas histórias de Homero, aos diálogos de Platão, às Fábulas de Esôpo ou às palestras de Cícero; não se preocupe. Conte às suas crianças a história da redenção, da criação ao apocalipse; descreva seus heróis e a obra de Deus em suas vidas; conte seus romances; memorize os provérbios de Salomão e recite ou cante os grandes poemas dos Salmos. Não há literatura mais excelente e mais ideal para o ensino na justiça do que esse livro completo, divino, santo, perfeito, verdadeiro e útil para dar sabedoria e para tornar o homem perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Em uma palestra educacional, o pastor e educador Kevin Swanson apresentou uma boa solução prática para os educadores cristãos clássicos: Priorizem a leitura dos mais diversos textos Bíblicos. Tendo feito isso, busquem os clássicos cristãos, ou seja, os melhores livros nos deixados pela tradição cristã: os escritos dos pais da igreja; O Livros dos Mártires, de Fox; as obras de Agostinho; as Institutas de Calvino e as obras dos reformadores; os escritos dos puritanos; dos grandes cientistas e filósofos cristãos da era moderna; as grandes biografias da História da Igreja, Horace Bonar, chegando aos clássicos mais modernos, como as obras ficcionais ou não de C.S. Lewis, de Abraham Kuyper, de Machen, de Francis Shaeffer, até a melhor literatura cristã infantil produzida na atualidade como a de Miriam Schoolmaster, Diana Kleyn, Karine Mackenzie, etc, muitas das quais já estão disponíveis em nossa língua. Tendo feito isto, selecione então algumas das melhores obras clássicas, que os especialistas calculam serem poucas, talvez menos de cem. Destas, muitas você já terá utilizado por serem cristãs; e muitas outras poderão ser descartadas pelos temas não apropriados às nossas crianças e jovens, e você terá um punhado de boas obras clássicas que poderão ser lidas com proveito pelos seus filhos ou alunos. Mas não busque esse terceiro grupo de livros sem ter antes trabalhado exaustivamente os dois primeiros. Nosso tempo com nossas crianças é pouco; devemos buscar primeiro as melhores obras concernentes ao reino de Deus e a sua justiça; e todas as demais coisas nos serão acrescentadas. Porque cremos na promessa de Isaías: "todos os vossos filhos serão ensinados do Senhor; e grande será a paz de teus filhos".

Não tenho dito estas coisas para desestimular ninguém a conhecer os métodos e programas acadêmicos clássicos, nem para impedir que usem esse termo para descrever bons materiais didáticos cristãos ou não, muito menos para contrastar o termo com a educação cristã. Na realidade, hoje em dia o termo educação clássica tem sido usado não tanto para descrever o sistema exato da educação grega antiga, mas mais como um sinônimo de um currículo mais acadêmico, tradicional,  sistemático, tutorial, mais centrado no ensino do conteúdo do que na vontade e divertimento da criança, mais histórico e literário do que tecno-científico, que respeita as fases do desenvolvimento da mente infantil atribuindo tarefas e conteúdos apropriados a cada faixa etária, dos mais objetivos e memorizáveis para as séries menores aos mais racionais e expressivos à medida que a criança amadurece; É nesse sentido que muitas vezes uso e que continuarei a usar o termo "educação clássica", especialmente na seção seguinte em que farei uma caracterização e relacionarei uma série de materiais teóricos, tutoriais e didáticos para os meus leitores que desejarem se aprofundar e conhecer melhor o ensino clássico, como sendo um método de ensino academicamente mais excelente do que o proposto pela pedagogia atual e cujos princípios e práticas se coadunam com muitas das leis do conhecimento e do desenvolvimento que Deus colocou na criança como uma alma pensante e um descobridor de verdades.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

A EDUCAÇÃO CLÁSSICA E A EDUCAÇAO CRISTÃ (Parte 1)


II. A Educação Clássica e a Educação Cristã


 
Temos examinado o surgimento, a adoção, o declínio e o ressurgimento atual da educação clássica a fim de dar ao leitor uma visão histórica da educação clássica, de introduzi-lo aos seus principais distintivos, e de buscar explicar o sucesso atual desse modelo. Passemos, agora, a uma breve avaliação da Educação Clássica sob os critérios cristãos. Buscaremos responder as seguintes perguntas: 1) A educação clássica é "a educação" ideal? 2) A educação clássica é cristã? 3) A educação cristã pode ser clássica? E finalmente, a questão mais crucial: 4) A educação cristã precisa ser clássica?
Este post tratará das duas primeiras perguntas, que apontam, negativamente, para os problemas e perigos que a educação clássica pode representar para aqueles educadores e alunos cristãos que adotam a educação clássica sem discernir suas bases e ênfases anticristãs. O próximo post tratará das possibilidades, da necessidade ou não e dos termos em que o modelo clássico poderia ser usado nas escolas e lares cristãos.
 
 
A Educação Clássica é Ideal?

Os gregos de fato buscaram conhecimento e desenvolveram ferramentas capazes de moldar, estimular, afiar e desenvolver o intelecto humano. Mas antes que os elevemos além do crédito que lhes é devido, e antes que adotemos indiscriminadamente seus métodos e práticas educacionais, precisamos lembrar que seu sistema educacional ficava aquém dos ideais cristãos em pelo menos três áreas principais:

1- Eles não tinham uma base sólida, uma fundação para sustentar o seu conhecimento, pois não possuíam aquele "temor do Senhor" que é o princípio do saber. Eles não possuíam um arcabouço apropriado para encaixar os conhecimentos que adquiram, nem um padrão para julgar o que é bom ou mal, e o que é verdadeiro ou falso. Desconhecendo as Escrituras Sagradas, faltava-lhes luz para o seu caminho; eles tropeçavam sem nem saber em quê. Faltava-lhes o esquema bíblico da Criação-Queda-Redenção que lhes fornecesse uma cosmovisão apropriada, onde eles poderiam encaixar e compreender a razão de ser e os propósitos dos fatos, o sentido da sua existência, e a interligação de toda a verdade, que só encontra unidade em Cristo e no seu propósito para o mundo. Por não crerem, por exemplo, na criação do homem à imagem de Deus, eles, apesar de verem a importância da razão e da educação das crianças, não hesitavam em abandonar a céu aberto os recém-nascidos que pareciam fracos ou doentes. Por não entenderem que o ser humano é caído, eles achavam que o homem era essencialmente bom, e que as virtudes que pregavam poderiam ser alcançadas se apenas a juventude as conhecesse e praticasse. Por não verem a necessidade de Redenção, eles não entendiam a necessidade de um novo nascimento, de um Salvador divino-humano, e sabemos que pereceram espiritualmente, longe da Verdade que poderia lhes libertar.

2- Eles confiaram num instrumento falido. Eles elevaram indevidamente a razão humana a uma posição altíssima, de salvadora e de redentora pessoal e social, por não possuírem a revelação sobre a queda do homem e sobre os efeitos distorcivos do pecado também sobre essa instância do ser humano; nós sabemos que a razão e a lógica humana também se tornaram depravadas com a queda, tendentes à falsidade, à mentira, à inversão da virtude pela injustiça, sendo tendentes ao ato mais ilógico e irracional, que é a adoração da criatura ao invés do Criador.

3- Eles não alcançaram o alvo do aprendizado. Eles jamais obtiveram a verdadeira sabedoria, que começa com o temor do Senhor, e que Deus dá a todos que, em humildade, pedem por ela; tampouco conheceram a sua fonte, o Senhor Jesus Cristo, em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos. Eles consideraram "loucura" a sabedoria de Deus, ignorando que a "loucura"de Deus é mais sábia do que os homens. Assim, eles ficaram muito aquém do alvo de todo conhecimento, que é o conhecimento de Deus e do seu Filho Jesus Cristo; eles não ofereceram o seu conhecimento a Deus como culto racional pela renovação da sua mente, e não deram a Deus a glória devida ao seu nome; não atingiram o propósito do conhecimento.

Assim, sem uma base apropriada, sem um padrão confiável, e sem um alvo digno para a sua construção filosófica, o edifício filosófico-pedagógico dos gregos, por mais duradouros que tenham sido seus efeitos na história ocidental, não resistiu, com respeito às suas bases e alvos, ao teste da filosofia e da pedagogia cristã, como o apóstolo Paulo buscou demonstrar no seu discurso em Atenas, e como ficou evidente na proliferação e no impacto social e religioso das igrejas cristãs nas cidades gregas de Éfeso, Corinto e Tessalônica, por exemplo. Os tratados clássicos não são cânons autoritativos. A Palavra de Deus, sim. O pensamento clássico nunca salvou a humanidade. Nosso Senhor Jesus Cristo, sim. Os melhores insights dos seus filósofos talvez tenham dado à Sócrates uma causa forte o suficiente para viver e até morrer, mas não lhe deram o caminho nem a esperança para a vida após a morte. Somente a verdade de Deus nos guia nessa vida com poder e nos conduz à cidade celeste. Assim, o que podemos aproveitar dos escombros da construção filosófica grega foram apenas algumas idéias que se aproximam da verdade, algumas ferramentas úteis e alguns materiais que podem ser usado em outras construções intelectuais. Uma idéia correta seria a valorização da razão humana (desde que vista da maneira correta). Algumas de suas ferramentas seriam os métodos de ensino da gramática, da dialética e da retórica. Os materiais que aproveitamos são os tijolos das artes liberais.

Assim, longe de ser "a educação ideal" para os cristãos, é possível, que, entendidas as ressalvas acima, a educação nos moldes clássicos ainda seja uma das opções mais sólidas dentre os demais modelos vigentes, e que teria a possibilidade de ser aproveitada em algumas de suas ênfases, práticas e matérias pela educação cristã, desde que saibamos julgar todas as coisas, reter o que é bom, e nos abster de toda forma de mal
 
A Educação Clássica é Cristã?
A educação clássica é cristã? O histórico que apresentamos sobre a sua origem e desenvolvimento deixa claro que a origem, os métodos, as ênfases e os seguidores da educação clássica não são primariamente cristãs, mas pagãos e seculares, embora muitos cristãos façam uso de certos métodos ou ênfases clássicas que parecem concordar com a Bíblia. Mas, estritamente falando, ela é uma invenção dos antigos gregos, que eram pagãos, idólatras e orgulhosos, e a educação estritamente clássica carrega consigo a visão de mundo de seus criadores, que por sua vez é repassada aos seus professores e alunos, e que representa um real perigo para educadores cristãos que inadvertidamente valorizem seus métodos e materiais acima dos princípios cristãos. Dentre estes perigos principais, ressaltamos:
1- O Perigo do Paganismo. Nem sempre as obras consideradas mais excelentes, escritas pelos autores clássicos, refletem os valores e a visão de mundo cristã. Muitas das leituras indicadas pelos currículos clássicos como indispensáveis para determinadas séries, as quais embasarão todo o currículo, são inapropriadas para certas faixas-etárias e para cristãos de determinada persuasão. Por exemplo, há pais cristãos que não querem expor suas crianças pequenas às histórias e tramas de guerras, assassinatos e traições comumente apresentadas nas obras clássicas; outros pais consideram a linguagem e as mensagens desses textos inapropriadas para seus filhos; ainda outros ressentem, com razão, a ênfase no estudo dos deuses da mitologia clássica e dos contos e fábulas pagãos no lugar da ênfase na história bíblica, dos grandes feitos de Deus, e da sabedoria cristã.
2- O Perigo da Idolatria. Referimo-nos aqui nem tanto ao risco das crianças virem a adorar os deuses da mitologia pagã, mas àquela idolatria sutil de se valorizar ideais diferentes dos cristãos; de se curvar antes aos ensinos dos filósofos do que aos dos profetas e apóstolos, de adorar a razão ao invés da sabedoria bíblica, e de se buscar a virtude do mundo sem a base da piedade e do temor do Senhor. A Educação Clássica focaliza e idolatra a razão como redentora da humanidade, e é possível que o refinamento da razão e o desenvolvimento da mente venha a se tornar um ídolo real para os nossos filhos.
A educação cristã, por sua vez, considera Deus e a sua Palavra como centrais, e ela segue o ensino bíblico de que o homem não é primariamente um ser intelectual, mas um ser espiritual, regido pelo seu coração. Além disso, considera que a queda afetou todas as instâncias do ser humano, inclusive a sua mente. Por isso, a educação cristã não é focalizada na razão, mas na alma, composta, por assim dizer, do coração, da mente e da consciência. A mente, por sua vez, que também tem um aspecto espiritual, é guiada pela fonte espiritual do coração, e jamais deve ser elevada acima deste, mas deve ser vista como boa ou má, como íntegra ou distorcida conforme for a situação espiritual do coração e da consciência. Por isso os cristão devem ter cuidado para não confundirem a educação da mente com a totalidade da educação cristã, que por ser espiritual, deve alcançar e formar todas as instâncias da vida humana, em todos os seus aspectos, espirituais, intelectuais, morais, emocionais, físicos, estéticos, sociais, relacionais, etc. Além disso, os educadores cristãos devem compreender que o parâmetro bíblico para a razão é a verdade, e a razão em si pode estar corrompida pelo desconhecimento da verdade, pelo ódio à verdade, e pelo compromisso com mentira. Desenvolver a mente da criança sem submetê-la ao temor de Deus, ao crivo da verdade bíblica, e à busca humilde pela sabedoria que é dom de Deus, pode formar inteligentes, argumentativos e sagazes inimigos de Cristo, ao invés de crentes piedosos e compromissados com o Reino de Deus e com a Sua verdade.
3- O Perigo do Orgulho Intelectual. Vimos que a educação clássica foi inigualável quanto ao desenvolvimento estritamente intelectual. Contudo, este mesmo fato tem representado um problema para os professores e alunos cristãos que adotam os métodos clássicos e sabem que eles estão acima da maioria no critério intelectual por conhecerem, por exemplo, as leis da lógica, por terem grande habilidade de persuasão nos debates, e por acabarem se destacando no meio acadêmico. Esses correm o risco de serem expostos àquele que é um dos maiores pecados, capaz de levar à sua destruição espiritual: o orgulho e auto-exaltação. O educador cristão Kevin Swanson comentou numa palestra sobre a educação clássica que ele nunca conheceu jovens tão pernósticos, indiscretos, cheios de si, argumentadores e desprezadores de outros do que os grupos de jovens (muitos deles de formação cristã) que ele encontra nos corredores dos eventos de competições estaduais e nacionais de debates entre os alunos de escolas clássicas. Que desserviço eles prestam para a igreja e para o mundo por usarem os conhecimentos e habilidades que adquiriram para glorificarem a si mesmos ao invés de usá-las para a glória de Deus e para a defesa humilde e amorosa do Evangelho!