“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Os Deveres dos Pais - Parte 2


Este segundo conselho do Bispo Ryle é bem curtinho, mas é fundamental e o ponto de partida para uma abordagem bíblica do assunto. Você não tem desculpa para não ler e meditar sobre esse precioso conselho!

I.                    Primeiramente, portanto, se você deseja treinar os seus filhos corretamente, treine-os no caminho em que devem andar, e não no caminho que eles preferem.   

Lembre-se que filhos já nascem com uma decidida tendência ao pecado, e portanto, se você deixar que eles escolham por si mesmos, é certo que escolherão mal.

Uma mãe não pode prever o que o seu bebezinho será quando crescer – alto ou baixo, forte ou fraco sábio ou tolo, ele poderá ser qualquer uma dessas coisas ou não – tudo é incerto. Mas uma coisa esta mãe pode dizer com certeza: ele terá um coração corrupto e pecaminoso. É natural a nós fazer o que é mal. “A tolice”, diz Salomão “está ligada ao coração da criança” (Prov. 22:15). “A criança deixada a si mesma traz vergonha à sua mãe” (Prov. 24:15). Os nossos corações são como a terra onde andamos; deixe-a à si mesma e é certo que ela produzirá ervas daninhas.

Se você deseja, portanto, lidar de modo sábio com os seus filhos, você não deve deixar que eles sejam guiados pela sua própria vontade. Pense por eles, julgue por eles, aja por eles, assim como você faria por alguém que se encontra em estado de fraqueza e de cegueira; mas pela misericórdia, nunca os entregue às suas próprias vontades e inclinações rebeldes. Não são os seus gostos e desejos que devem ser consultados. Eles ainda não sabem o que é bom para as suas mentes e almas, assim como também não sabem o que é bom para os seus corpos. Você não deixa que eles decidam o que vão comer, ou beber, ou como se vestirão. Seja consistente, e lide com as suas mentes da mesma maneira. Treine-os no caminho que é bíblico e correto, e não no caminho que eles imaginam e desejam.

Se você está tendo dificuldade para se convencer deste primeiro princípio para o treinamento cristão de filhos, é inútil que você leia o que será dito adiante. A vontade-própria é quase sempre a primeira coisa a aparecer na mente de uma criança; e o seu primeiro passo deve ser resistir a ela.  

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Os Deveres do Pais - Por J. C. Ryle

"Uma das posições mais desafiadoras (e recompensadoras) na qual uma pessoa pode se encontrar é a de um pai (ou mãe). Infelizmente, poucos se preparam para esta grande responsabilidade, embora ela consista na maior parte da vida de um pai. J. C. Ryle vem ao nosso resgate novamente, com conselhos bíblicos e profundos, para nos auxiliarem nesta importante tarefa." (Trecho extraído da contra-capa.)


O texto a seguir é uma tradução do livreto "The Duties of Parents", originalmente publicado no século XIX (1888), e extraído de uma série de sermões sobre a criação de filhos proferidos pelo bispo Galês J. C. Ryle. Eu suponho que o autor deste livro despensa introduções ou comentários, visto que a maioria dos leitores provavelmente já possui acesso a várias das suas outras obras tão conhecidas e reconhecidas no meio cristão-reformado.

Esta postagem é a primeira de uma série de aproximadamente 20 postagens, cada uma contendo um dos seus preciosos e sábios conselhos para a criação e o treinamento de filhos nos caminhos do Senhor. Os princípios esboçados aqui não são simplesmente dicas instantâneas e fáceis. A criação de filhos é uma tarefa dura, mas se você realmente levar em consideração e colocar em prática os conselhos oferecidos aqui, os seus filhos estarão sendo preparados para a eternidade.


“Treina a criança no caminho em que deve andar e, ainda quando for velho, não se desviará dele.” (Prov. 23:6)

Eu suponho que a maioria dos cristãos professos estão bem familiarizados com o texto que se encontra no cabeçalho desta página. O seu som é provavelmente familiar aos seus ouvidos, como uma velha canção. É bem provável que você já tenha ouvido, ou lido, ou falado sobre e citado este texto muitas vezes, não é verdade?

Contudo, apesar de tudo isso, quão raramente a substância deste texto é observada! A doutrina que ele contém parece ser escassamente conhecida, e o dever colocado diante de nós por ele parece ser terrivelmente pouco praticado. Leitor, eu não estou falando a verdade?

Não se pode dizer que o assunto é novo. O mundo é antigo, e nós temos a experiência de cerca de seis mil anos para nos ajudar. Nós vivemos em dias em que observamos um tremendo zelo pela educação em todos os cantos. Nós ouvimos falar de novas escolas surgindo em todos os lados. Nos é dito sobre novos sistemas, sobre novos livros para crianças de toda sorte e descrição. E mesmo com tudo isso, a vasta maioria das crianças claramente não estão sendo treinadas no caminho em que devem andar, pois quando se tornam adultas, elas não andam com Deus.

Agora, como devemos considerar este estado de coisas? A pura verdade é que o mandamento do Senhor no nosso texto não está sendo observado; e portanto, a promessa do Senhor em nosso texto não está sendo cumprida.

Leitor, estas coisas deveriam suscitar uma grande sondagem de corações. Atente, portanto, às palavras de exortação de um ministro sobre o correto treinamento de filhos. Acredite, este assunto deveria ser familiar a toda consciência, e deveria fazer com que qualquer um se perguntasse “será que eu estou fazendo tudo o que está ao meu alcance nesta área?”

Este é um assunto que deveria ser da preocupação de quase todos. Dificilmente haverá um lar que ele não toca. Pais, babás, professores, padrinhos, madrinhas, tios tias, irmãos, irmãs – todos deveriam se interessar por ele. Poucos podem ser encontrados, penso eu, que não possam influenciar algum pai ou mãe quanto à administração da sua família, ou afetar o treinamento de alguma criança por sugestão ou por conselho. Todos nós, eu suspeito, podemos fazer alguma coisa nesta área, seja direta ou indiretamente, e eu desejo suscitar todos a gravar isto em sua memória.

Este é um tema, também, com relação ao qual todos os seus interessados correm grande perigo de se encontrarem em falta quanto às suas responsabilidades. Este é preeminentemente um ponto acerca do qual as pessoas veem as falhas dos seus próximos mais claramente do que veem as suas próprias. Elas muitas vezes criarão os seus filhos nos mesmos caminhos que elas têm alertado aos seus amigos como sendo perigosos. Eles verão pequenos ciscos em outras famílias, mas não se atentarão às traves que existentes na sua própria família. Eles serão atentos como as águias para detectar defeitos alheios, e ao mesmo tempo cegos como morcegos para os erros fatais que diariamente ocorrem em seus lares. Eles serão sábios com relação ao lar do seu irmão, mas tolos com relação à sua própria carne e sangue. Se existe algum lugar em que nós devemos suspeitar dos nossos próprios julgamentos, é este. Isto também, você fará bem se mantiver em mente.

Como ministro, eu não posso evitar a advertência de que dificilmente há qualquer outro assunto sobre o qual as pessoas parecem ser tão obstinadas quanto com relação aos seus próprios filhos. Eu tenho ficado perplexo, algumas vezes, ao ver a dificuldade que sábios pais cristãos demonstram para admitir que os seus filhos estão em falta ou para assumir que possuem culpa. Não são poucas as pessoas a quem eu, sem dúvida, preferiria ter de falar sobre os seus próprios pecados, do que dizer a eles que seus filhos fizeram qualquer coisa errada.
Venha agora, e deixe-me colocar diante de você algumas dicas sobre o treinamento correto dos seus filhos. Que o Deus Pai, o Deus Filho e o Deus Espírito Santo abençoe esta mensagem, e faça dela ‘palavras ditas a seu tempo’ a todos vocês. Não as rejeitem simplesmente por serem duras e simples; e não as desprezem simplesmente por não conterem novidade alguma. Esteja certo, se você deseja treinar os seus filhos para o céu, os conselhos que aqui seguem não devem ser negligentemente deixados de lado. 

Na próxima postagem, consideraremos o seu primeiro conselho: "Treine os seus filhos no caminho em que devem andar, e não no caminho que eles preferem." Aguarde!  
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

História 4: O TENTADOR - O Livro da Queda para Crianças. Gallaudet.

História 4

O TENTADOR
 



Certo dia, o William estava na calçada de sua casa, esperando, pois o seu pai lhe havia dito para ficar ali que logo ele lhe daria uma tarefa para fazer. Um outro menino, que costumava brincar com o William, estava passando com uma pipa na mão:

- Vamos, William, vem me ajudar a voar a minha pipa. Está um vento perfeito esta manhã, e eu tenho bastante linha para a pipa ir bem alto, até perder de vista - disse o amigo.

-Eu não posso ir - falou o William - O meu pai me disse para ficar aqui até ele voltar, pois ele tem uma tarefa para eu fazer.

- Mas quando é que o seu pai vai voltar? - perguntou o menino.

- Eu não sei - respondeu o William - talvez daqui a uma meia hora.

- Ah, então dá tempo de voar a pipa, e de ainda voltar antes dele.

- Mas eu não posso desobedecer o meu pai; A Bíblia diz que eu devo obedecer aos meus pais em tudo.

- Ah, se o seu pai tivesse aqui, tenho certeza de que ele iria deixar você ir. Além disso, você vai estar de volta antes dele, e ele nem vai saber que você saiu.

- Mas Deus saberá de tudo - disse o William - Ele nos vê a todo instante, Ele está me vendo agora, e eu não vou entristecer a Deus por desobedecer o meu pai. Eu não vou com você.

O William fez o certo. Quão mais felizes os meninos e meninas seriam se eles também fizessem assim, sempre que alguém os tentasse a fazer errado, como aquele menino com a pipa tentou o William a desobedecer o seu pai.

Quando alguém tenta levar você para o mal, lhe dizendo como você ficaria feliz ou o que você poderia conseguir se fizesse uma coisa errada, essa pessoa que assim lhe tenta está sendo um tentador. Eu acredito que você já foi tentado assim alguma vez. Pense se você fez ou não como o William. Ele fez o certo, e não cedeu ao tentador que estava tentando levá-lo para o mal.

Houve uma pessoa muito má que tentou Eva a fazer o mal no jardim do Éden. O seu nome era Satanás, ou o diabo. Ele havia sido, antes, um anjo bom e feliz quando amava e servia a Deus. Mas ele começou a ter pensamentos e sentimentos maus sobre Deus. Ele deixou de amar a Deus. Ele não quis mais se submeter ao governo de Deus. E houve outros anjos que se sentiram como Satanás.

Deus não poderia deixar que eles continuassem no céu. O céu, você sabe, é um lugar santo e alegre. Se esses anjos maus continuassem lá, eles iriam destruir a alegria de todos os anjos bons que moravam ali. Além disso, Deus quer que todos os seres que ele criou saibam que Ele tem o direito de governá-los - que é melhor que Deus os governe - e que Deus irá governá-los. Se esses anjos não querem obedecer, então Deus precisa puni-los pela sua desobediência.

Como uma família pode ser tão triste por causa de três, duas ou mesmo só uma criança má e desobediente! Os pais precisam governar e ser obedecidos, ou a casa será cheia de confusão e maldades.

Deus mandou Satanás e os anjos maus para fora do céu. Ele os lançou no inferno, e a Bíblia nos diz que lá eles são guardados "em cadeias eternas, na escuridão, até o juízo do grande dia".[1]

Satanás conseguiu sair dessa prisão escura e horrível e achar o caminho do Éden. Como ele saiu, e como ele chegou no Éden, nós não sabemos. Não podemos nem imaginar como isso aconteceu. Mas podemos ter certeza de uma coisa, de que Deus permitiu que ele fizesse isso, ou ele nunca teria escapado de sua prisão. Nós também sabemos com certeza que Deus tinha motivos sábios e bons para permitir que Satanás fizesse isso; porque Deus nunca faz nada sem um motivo, e tudo o que ele faz é santo, justo e bom, assim como Deus é.

Satanás chegou no jardim do Éden. Ele tinha ido lá para ver se ele conseguiria tentar Adão e Eva para se tornarem maus como ele mesmo, e desobedecerem a Deus. Como ele deveria odiar a Deus para fazer uma coisa dessas! Como o seu coração deveria estar cheio de inveja e de todo sentimento ruim para tentar fazer com que Adão e Eva se tornassem pecadores e maldosos como ele, - para fazer eles serem expulsos do jardim bonito e gostoso em que moravam, e perderem a amizade de Deus!

Satanás era um tentador. Ele foi o primeiro tentador de que já ouvimos falar. O que você acha dele? Você quer ser como ele? - "Não, não",  - você responde - "Eu espero que eu nunca me torne uma pessoa tão cheia de maldade e ódio como ele".

Tenha cuidado, então, para não seguir o seu exemplo. Você nunca pensa ou sente coisas ruins pelos seus pais ou professores? Você nunca fica sem vontade de se submeter ao governo deles? Se você pensa ou sente isso, você está desobedecendo a Deus; porque Ele lhe manda obedecer os seus pais e professores. Você está lutando contra o governo de Deus assim como Satanás fez.

Você nunca tenta outros a fazerem o mal?- a fazerem o que você sabe que eles não devem fazer em certa hora? - Pense um pouco antes de responder essa pergunta.

Se você faz isso, então você é um tentador, assim como Satanás era. Tenha medo, muito medo, de se tornar mais parecido com ele. Ore a Deus sinceramente para que Ele não deixe que você siga um exemplo tão terrível.

Para Colorir:


[1] Judas 6; cf. 2 Pedro 2:4

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A POÉTICA CRISTÃ, PASSADO E PRESENTE – Donald T. Williams (Parte I)


A IMAGINAÇÃO CRISTÃ – Leland Ryken e outros.

Como foi indicado na postagem anterior (leia aqui), procurarei resumir aqui alguns dos pontos principais e apresentar citações extraídas da obra A Imaginação Cristã, a qual é uma pérola da epistemologia da arte e da literatura pela visão cristã.

PARTE I

UMA FILOSOFIA CRISTÃ DA LITERATURA
A “estética” é a filosofia da arte. A “poética” é a filosofia da literatura, especificamente. Essa unidade deste livro cobrirá as duas. Relacionados abaixo estão os temas principais que serão abordados nesta sessão:
- Qual é o assunto da arte e da literatura?
- Qual é a relação entre arte e vida?
- Qual o propósito, a função e os efeitos da arte e da literatura?
-  Como a arte e a literatura podem ser defendidas?

Nesta unidade da obra, estão compreendidos os seguintes artigos: A Poética Cristã, Passado e Presente (Donald T. Williams); Pensando de modo Cristão sobre a Literatura (Leland Ryken); Perspectivas da Arte (Francis Schaeffer); Literatura como um Objeto Artístico (Annie Dillard); Nós Demandamos Janelas (C. S Lewis); A Arte Cristã (Jacques Maritain); Reflexões para um Entendimento da Literatura. Estes últimos quatro são pequenos textos denominados de “Pontos de Vista” na obra, alguns dos quais já foram traduzidos e postados neste blog.

A POÉTICA CRISTÃ, PASSADO E PRESENTE – Donald T. Williams

Segundo o autor, “a história da poética cristã – isto é, de cristãos pensando conscientemente como cristãos sobre a natureza e a importância da arte literária – é um conto de um movimento lutando, quase que apesar de si próprio, para conseguir chegar a captar a sua própria doutrina de que os seres humanos são criados conforme a imagem de Deus.” (Williams, p. 3) No ocidente, como a fé e a cultura cresceram e se desenvolveram juntas, este processo tem, às vezes, tornado-as quase que indistinguíveis. “O que Atenas tem a ver com Jerusalém?” Perguntou Tertuliano, e as respostas a esta questão, embora muitas, nunca têm sido simples ou fáceis.

Especificamente, percebe-se que os cristãos têm lutado para aplicar à literatura o princípio geral do Novo Testamento sobre o estar no mundo, mas não ser do mundo (João 17: 11-16). “Eles estavam sempre corretamente suspeitosos de uma cultura baseada na idolatria – e portanto, da literatura em geral. Mas eles não podiam escapar das fundações literárias da sua própria origem, ou do fato de que eles e toda a humanidade foram criados segundo a imagem daquele que expressou a sua mais profunda natureza, desde o início, como o Verbo”, sugere o autor. Esta tensão dá origem às aparentes contradições nas coletivas respostas dos cristãos ao longo dos séculos: a condenação da literatura por alguns como perigosa e, na melhor das hipóteses, uma perda de tempo, ao mesmo tempo em que outros se deram à produção dos maiores poemas que o mundo já viu. E neste processo, alguns poucos destes cristãos têm encontrado na doutrina da Imago Dei, a única explicação coerente para o fato de que a raça humana é, para o melhor ou para o pior, “uma tribo de criadores incorrigíveis” (P. 4).

AS ORÍGENS: AGOSTINHO

São Agostinho, o mais profundo e articulado dos porta-vozes antigos, é, em seus próprios escritos, um “microcosmos” das discussões contínuas e abrangentes desses autores. Por esta razão, nos é requerida uma atenção mais extensa a ele. O seu lado negativo é o mais conhecido. No Livro I das suas Confissões, Agostinho parece olhar para trás nos seus estudos de Virgílio com arrependimento pelo tempo perdido... “O seu labor neles havia sido, na realidade, nada mais do que um sacrifício oferecido aos anjos caídos”. Ele havia chorado por Dido, personagem mitológica que se suicidou por amor, ao mesmo tempo em que permanecia de olhos secos para a sua própria morte espiritual. Agora, após a sua conversão, ele pensa em seu prazer no seu sofrimento ficcional como loucura (dementia). Segundo ele, a experiência literária não leva à virtude porque a verdadeira misericórdia é prática. “A catarse emocional do teatro, portanto, não passa de um fingimento ou blefe, porque por ela ninguém é ‘provocado a ajudar o sofredor, mas apenas convidado a se sentir triste por ele’” (idem).

Estas mesmas e familiares queixas seriam repetidas ainda muitas vezes ao longo da história. “As ficções dos poetas são mentiras; elas são uma perda de tempo, nos distraindo de buscas mais produtivas; e elas são uma sedução ao mal.” No entanto, quando lemos estas passagens, nós não podemos acreditar que, mesmo sendo escritas por Agostinho, elas nos contam a história toda. “De onde, nós perguntamos, teria vindo o apropriado estilo das ‘Confissões’ se ele nunca tivesse estudado os clássicos do ponto de vista da análise retórica? E onde ele teria achado exemplo tão concreto para o seu ponto sobre as dores de Dido?” (Williams, p. 4)

A educação que Agostinho recebeu havia sido retórica e sofista; ele foi treinado, em outras palavras, para ser um advogado, um profissional cuja prática era fazer o pior parecer o melhor argumento e ensinar outros a fazerem o mesmo. “Ele havia sido ensinado a sondar os clássicos por exemplos de eloquência que pudessem ser usados cinicamente para ganhar casos na corte sem preocupação nenhuma para com a verdade. E nesta eloquência a sua ‘ambição era ser eminente, tudo por um terrível e vanglorioso fim cheio de prazer na glória humana’. Não é de se estranhar, portanto, que na sua reação pós- conversão, ele se sentiu compelido a jogar fora o bebê da literatura juntamente com a água de banho da sofística. No entanto, os próprios termos dessa rejeição testificam para o poder de palavras bem utilizadas.” (P. 5)

Mesmo sem ter consciência disso, Agostinho havia sido impactado pelos autores clássicos que ele havia lido, de modo que eles lançaram as bases morais que seriam utilizadas por Deus, mais tarde, para a sua conversão. “A Obra Hortensius, do pagão Cícero, teve uma grande influência que levou à sua conversão a Cristo. Ela ‘alterou, em grande medida as minhas afeições, direcionou às minhas orações a Ti, Ó Senhor, e fez com que eu me lavasse de outros propósitos e desejos.” (idem)

Assim, o mesmo Agostinho, ao tratar, depois, sobre educação cristã, também expõe o assunto da seguinte forma:

Nós [cristãos], não devemos abandonar a música, por causa das superstições dos pagãos, se há alguma coisa nela que possa ajudar-nos a entender as Escrituras Sagradas... Nem há razão alguma para que nos recusemos a estudar a literatura porque dizem que Mercúrio a descobriu. O fato de que os pagãos têm dedicado templos à Justiça e à Virtude, e preferem adorar na forma de coisas de pedra aquilo que deve ser carregado no coração não é uma razão para que abandonemos a justiça e a virtude. Pelo contrário, é preciso que todo bom e verdadeiro cristão entenda que a verdade pertence ao seu Mestre, não importa onde ela seja encontrada. (Howie, p. 350-351)

Mesmo nas suas confissões, Agostinho admite que aprender a ler é muito bom e que a eloquência deve também ser entendida como algo que não é inerentemente mal: “Eu não culpo as palavras que, em si próprias, são como jarras finas e preciosas, mas o vinho do erro que está contido nelas.” (Agostinho, p. 149)

Assim, os cristãos podem fazer uso do estudo de autores pagãos (assim como fazem uso das suas produções medicinais e das suas descobertas científicas e culturais, desde que sirvam ao bem da comunidade em geral), aprendendo a utilizar palavras bem escolhidas para o bem, e até mesmo transformando tais autores, desse modo, em servos da verdade.

Portanto, segundo Agostinho, “nós não devemos culpar a prática da eloquência, mas a perversidade daqueles que fazem mal uso dela.” (Howie, p. 360) Visto que ela é “empregada para apoiar tanto a verdade, quanto a falsidade, quem ousaria dizer que a verdade, como representada pelos seus defensores, deveria ir para o campo de batalha desarmada?” O resultado dos cristãos abandonarem o campo de batalha é que a falsidade é exposta de modo “breve, claro e plausível”, mas a verdade “de um modo tedioso... difícil de entender e, em suma, difícil de acreditar”. (idem, p. 369)

Segundo Williams (p. 7), Agostinho articulou uma defesa para a apropriação e produção literária por parte dos Cristãos que, embora seja produto de uma abordagem um tanto limitada e pragmática, não deixa de ser um bom começo para o entendimento cristão sobre a literatura, visto que lança sementes e esboça princípios que seriam, mais tarde, desenvolvidos e ampliados por outros críticos cristãos, como os seguintes: “o valor da literatura está na verdade que ela transmite, e no modo como ela pode nos ajudar a entender as Escrituras e a proclamar o evangelho.” E “a arte torna a verdade plausível e a sua ausência torna-a difícil de acreditar”. Não podemos pressionar Agostinho, de forma anacrônica, em uma direção que só seria traçada com mais clareza em outros momentos da história da crítica literária pela perspectiva cristã.
Na próxima postagem, serão abordados os períodos medieval e da renascença. Aguardem!
 
Trechos extraídos da obra: A Imaginação Cristã. Leland Ryken (editor). Shaw Brooks, 2002.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Educação no Éden - Parte 2 - A BÍBLIA COMO A FONTE DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO*



Ainda não leu a Parte 1? "O Éden como o Início da História da Educação" - Clique aqui


 

* Trecho extraído da Obra: O Princípio da Educação, por Karis B. G. Anglada Davis, da Parte 1: A Educação no Éden:

O Princípio da Excelência Educacional.  

 

A Bíblia como a Fonte da História da Educação Cristã


O leitor pode ainda estar pronto para fazer mais uma pergunta básica: Por que eu deveria crer no Éden, nesta história tão remota e em sua explicação e interpretação educacional? Qual a fonte dessa história educacional cristã? Ela é autoritativa e confiável? Como ela chegou até nós? Quais as credenciais do historiador? Que cientista a descobriu? Ou que filósofo a explicou? A questão que está em jogo é se a visão bíblica do mundo original é uma teoria ou um fato, se a educação deve ir a Bíblia com suas suposições e críticas, ou se esta se apresenta como verdade e autoridade para a educação.

A veracidade e a autoridade da revelação bíblica


O início da história bíblica e a visão de mundo que orienta a educação cristã não foi inventada por homens, nem proposta por grandes filósofos ou teólogos. Este é precisamente o caso das muitas filosofias educacionais atuais, não raro chamadas pelo nome de seus criadores, que, como bem sabemos, não passam de criaturas falíveis e limitadas. Pelo mesmo motivo, essas cosmovisões têm falhas, lacunas e enganos que o próprio tempo insiste em apontar. A visão de mundo apresentada nessa história educacional que estaremos contando é uma cosmovisão revelada. Seus princípios e pressupostos nos foram dados de fora, de cima, de maneira sobrenatural, inspirada e inerrante por Aquele que é onisciente e inalcançável, mas que escolheu Se revelar aos homens por meio de letras humanas, o próprio Deus vivo e verdadeiro, o Criador e Sustentador do Universo, a Sabedoria em pessoa, ou, como o apóstolo João o apresenta: o Verbo, a própria Palavra criadora, a Palavra final.

Uma das principais provas de que a visão de mundo bíblica é única e verdadeira é que ela nos revela coisas que jamais poderíamos descobrir ou deduzir pela pesquisa humana. Trata-se de uma história que não poderia ser inventada ou concebida por homem algum. Que mortal poderia ter autorado aquelas inescrutáveis sentenças: "No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas" e "Disse Deus: Haja luz, e Houve luz!"(Gn. 1:1-3)? A narrativa bíblica do início do mundo e da história do Éden chega a nós com o peso e a autoridade da própria palavra de Deus, como sendo a interpretação divina das coisas, revelada a nós no livro de Deus. J. Gresham Machen nos assevera sua autoridade:

A Bíblia é o livro de Deus, não do homem. Outros livros dão conselhos bons e conselhos maus; este livro nos dá apenas conselhos bons, ou melhor, ele nos dá mandamentos que vêm com toda a autoridade do soberano Deus. Eu não estou tentando apresentar a vocês coisas que eu descobri por mim mesmo, e eu não estou tentando ajudá-lo a descobrir coisas por vocês mesmos; mas eu estou pedindo a vocês que ouçam juntamente comigo ao que Deus nos falou em Sua Palavra.[1]

Como indica Machen, a única resposta aceitável de nossa parte é acatar, com gratidão, humildade e espanto, a simplicidade e a clareza de uma verdade histórica que não tínhamos nem a capacidade nem o direito – mas que temos o privilégio! – de possuir. Por mais longe que os historiadores da educação não-cristãos queiram ir, e por mais que eles busquem os fundamentos da educação na antiguidade mais remota, eles não podem contar o início da história.

Somente os cristãos podem contar a história da educação humana desde o seu início, descrevendo o seu contexto, o primeiro ambiente educacional, o seu Professor, o seu aluno, o seu conteúdo, e podem, a partir dessa visão original, compreender o sentido e o propósito da educação. Isso só é possível porque a fonte dessa história tão antiga não está no próprio homem, em suas imaginações filosóficas ou descobertas arqueológicas. Ela está em Deus. Somente Deus conhece o início da história, e pode nos esclarecer essas questões tão essenciais. E Ele revelou essa peça tão fundamental do quebra-cabeça histórico-educacional de maneira sobrenatural, inspirando homens a escreverem de maneira inerrante a Sua própria Palavra. A Bíblia relata infalível, verdadeira e claramente, com a autoridade do próprio Deus, tudo o que precisamos saber para explicar, motivar e reger a nossa educação cristã. O objetivo das Escrituras é contar a história da redenção do homem, e como veremos ainda neste livro, a história da educação está profundamente intricada nela.

Além de ser a única fonte autoritativa da história educacional do homem, a Bíblia é também o único fundamento sólido para a filosofia educacional cristã, e consequentemente, para toda a prática educacional. Os princípios educacionais, antropológicos, epistemológicos, sociológicos, etc. de que precisamos devem emergir do seu ensino. Como assevera Norman De Jong: “A própria Escritura se torna a base para todo crer, para todo conhecer, e assim, para todos os pensamentos referentes à educação. É da Bíblia, a Palavra de Deus para o homem, que o cristão irá aprender”.[2] A revelação escrita de Deus é a única luz que temos para ver o primeiro momento histórico da educação, e para podermos ter luz em nossa jornada em busca de uma filosofia educacional cristã. É na sua luz que vemos a luz (Salmo 36:9). Ela é lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. (Cf. Salmo 119:98-105).

A singularidade e suficiência da visão original bíblica


Finalmente, devemos enfatizar que essa visão de mundo oferecida nos primeiros capítulos da Bíblia em forma de um relato histórico é uma visão abrangente, suficiente e profunda. Ela trata de todos os tópicos que compreendem uma cosmovisão, numa ordem lógica e consistente com a realidade: Deus, o homem, o mundo, o conhecimento, a origem do mal, o propósito da vida e das atividades humanas, a esperança da humanidade, etc. É uma visão suficiente para explicar coerente e definitivamente a origem do universo, a maneira pela qual tudo existe e o propósito de todas as coisas. Ela vai à raiz de todos os problemas e revela tudo o que precisamos saber com profundidade e precisão.

As culturas pagãs também conceberam histórias sobre a “origem” do mundo, mas nunca puderam explicar a história toda. Conceberam deuses que, longe de apresentar os atributos divinos da onipotência e da auto-suficiência eram seres criados, limitados, cheios de defeitos e falhas. A própria explicação moderna e supostamente científica da teoria da evolução, além das várias lacunas e enganos, nunca conseguiu explicar a origem dos elementos, forças e condições que ocasionaram a famosa explosão do “Big Bang”, e os seus seguidores estão apoiados em sua fé numa fórmula anti-científica e jamais provada que postula que [o acaso + milhões de anos = complexidade do universo e da existência humana].

Nós, cristãos, colocamos nossa fé na Palavra da Revelação de Deus aos homens, e defendemos a visão de mundo bíblica que, ao contrário, é precisa e profunda, como estaremos verificando mesmo neste capítulo incipiente da história. Sobre a singularidade da história bíblica, o Dr. Lloyd-Jones fez a seguinte afirmação: “A Bíblia nos apresenta uma visão de mundo definida, concreta e abrangente que é absolutamente diferente de qualquer coisa que você pode encontrar em qualquer outro lugar”.[3] Sobre a sua relevância, ele afirmou: “Não há um livro mais atual no mundo do que esse livro antigo, que chamamos de Bíblia. Ele trata de homens e de mulheres. Ele trata de você. Ele trata de todos nós assim como estamos e onde nos encontramos. Ele fala à nossa própria condição e nos apresenta um modo de vida”. [4]. E sobre a sua veracidade, este autor acrescentou:

...a única visão do homem, da mulher e da vida no mundo que realmente faz jus aos fatos, a única visão que explica porque nós somos individualmente como somos nesse momento, porque o mundo é como é, e porque a história tem sido como tem sido, encontra-se nas páginas da Bíblia. Eu estou aqui para contender que somente esse livro tem uma explicação adequada. Se você adotar qualquer outra visão, você descobrirá que ela lhe desapontará num ponto ou noutro. A Bíblia, eu repito, afirma ser um livro único, um livro dado por Deus de várias maneiras, por intermédio de homens e reunido em um. E o que ela faz, é claro, é nos dar um relato das coisas que são vitais, primárias e fundamentais.[5]

E, de fato, Deus começa a Bíblia com narrativas e acontecimentos fundamentais. A existência de um Deus Pessoal, a sua obra da criação, a origem do mundo e do homem, a perfeição desse estado original, o surgimento do mal no mundo, a queda do homem, suas conseqüências para o homem e para a natureza e o anúncio da vinda de um redentor e da continuação da história humana até o tempo determinado por Deus para julgamento; todos esses são temas que determinam a totalidade da visão de mundo cristã.

Há um sentido incipiente, porém verdadeiro, em que os três primeiros capítulos da Bíblia nos contam a história toda. Isso acontece porque o Éden nos revela a intenção original de Deus para a vida do homem no mundo, como coloca o escritor educacional reformado De Jong: “O primeiro estado descrito pode ser chamado de estado original ou desejado do homem. Apesar da narrativa Bíblia desse estado ser muito curta (Gn. 1 e 2), há informação suficiente ali, e em passagens subsequentes, que podem ser encontradas e aplicadas ao processo que chamamos de educação”.[6] E o Capítulo 3 de Gênesis nos conta como o homem e o mundo se afastaram desse ideal divino e se encontram como os conhecemos hoje, e ainda oferece um raio de esperança ao apresentar a promessa de que os planos de Deus não seriam ultimamente frustrados, e um dia um salvador viria para desfazer os efeitos da queda e recriar o homem e o mundo perfeitos. A mensagem do Éden é, por todos os ângulos, como descreve Lloyd-Jones, essencial para a compreensão da história e da educação humana. Comentando sobre a importância do capítulo 3 de Gênesis como o final da importante narrativa compreendida nos três primeiros capítulos da Bíblia, o Dr. Lloyd-Jones afirma:

Não há dúvida nenhuma de que, julgado por quase todo ângulo que você queira olhar, Gênesis 3 é um dos mais importantes capítulos da Bíblia... a Bíblia toda é a história de Deus lidando com homens e mulheres. É a história da redenção. E o que dá a esse terceiro capítulo do livro de Gênesis tal importância excepcional é que aqui é-nos contada a história de como o homem caiu do bom estado no qual Deus o havia originalmente colocado. Em outras palavras, é o princípio da história humana. [7]

Aplicação Educacional Sobre a Importância da Revelação Especial de Deus


Pressupostos e Princípios: 


- A Bíblia como Fundamento para a Educação. O princípio bíblico-reformado do Sola Scriptura embasa também a educação cristã. Ela aceita o testemunho dos primeiros capítulos da Bíblia de que existe um Deus criador que resolveu voluntariamente se revelar aos homens através das coisas que criou (revelação natural) e de sua palavra escrita (revelação sobrenatural). Depois da queda do homem no pecado e por causa da sua cegueira, o ponto de partida agora precisa ser a revelação escrita, mas estas duas revelações pressupõem e suplementam uma à outra, sendo, agora, ambas necessárias, autoritativas, suficientes e claras (racionais ou inteligíveis).[8]

A Bíblia é para a educação cristã um instrumento precioso e indispensável para a compreensão do mundo, de nós mesmos e do próprio Deus. Assim como a revelação que Deus deu de Si mesmo no Éden, seja nas coisas criadas ou na palavra do mandamento, era a base ou o fundamento de toda a vida e educação de Adão e Eva, a Palavra de Deus é o princípio e a base de toda educação cristã, a nossa única regra de fé e de prática,[9] na qual encontramos “tudo o que o homem deve crer sobre Deus e o dever que Deus requer do homem”.[10] De Jong afirma que a Escritura é “a base para toda crença, para todo conhecimento e portanto a base para todos os pensamentos referentes à educação. É da Bíblia, a palavra de Deus para o homem, que o Cristão irá aprender”. [11] Gangel deixa claro que esse princípio é uma marca essencial e distintiva da educação cristã:

Qualquer fundamentação para uma cosmovisão cristã deve começar com as Escrituras.  É da Palavra de Deus que recebemos revelação especial com relação à natureza de Deus, à humanidade, à realidade definitiva, à bondade e às expectativas da vida. Todas as pessoas têm acesso à revelação geral (pelo estudo da criação divina) e ao conhecimento acumulado no mundo, no entanto, somente os cristãos aceitam a Bíblia como a nossa suprema fonte de respostas sobre a vida. Embora todos os sistemas filosóficos requeiram certa medida de fé, a crença nas Escrituras nos fornece o sistema mais intrinsecamente coerente sobre o qual podemos construir uma vida moral e com propósitos. Os cristãos acreditam que Deus, por intermédio de sua palavra, nos deu “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude (2 Pedro 1:3). [12]  

- A Bíblia como Autoridade na Educação. A educação cristã tem na Bíblia não somente a sua base ou fundamento, mas também a sua norma ou padrão. Por ser uma revelação especial do Autor da educação cristã, a Bíblia é a autoridade suprema para ordenar, definir e regular a educação em seus princípios e propósitos, em sua razão de ser, em sua concepção de ensino e de aprendizado,  e em seus métodos, conteúdos e administração. A Palavra revelada de Deus é a autoridade final e juiz supremo de todas as questões educacionais, e com ela não competem a tradição ou a razão humanas. Todas as idéias pedagógicas, antigas e novas, devem ser julgadas por ela. Como colocou Van Til: “O que quer que esteja de acordo com a Revelação de Deus é educativo. O que não estiver, é dês-educativo”.[13] Engelsma concorda dizendo que aceitar a autoridade da Bíblia significa que “não ensinamos nada que esteja em conflito com as Escrituras; apenas ensinamos aquilo que está em harmonia com ela.”[14]

- A Bíblia como Luz da Educação. “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos”, diz o Salmo 119:105. A primeira implicação desse princípio é negativa e revela que, sem a Bíblia, a educação está no escuro: ela não sabe de onde vem, onde está, ou para onde vai; ela não sabe o que está fazendo, não tem padrão para julgar o que é bom e o que é mau, e não tem rumo ou direção. Ela nem sabe em que tropeça. Isso é uma realidade na educação secular, e pode descrever também as escolas cristãs se elas não fizerem uso dessa lâmpada para iluminar o seu caminho.  Mas não precisamos andar no escuro. O princípio da luz, positivamente, dá segurança e rumo à nossa prática educacional e porque temos a Bíblia, em cuja luz, vemos a luz (Salmo 36:9), nós podemos ver e reconhecer a verdade. A nossa teoria pedagógica, por exemplo, não precisa deduzir ou especular sobre a natureza do homem ou do conhecimento, como afirma Solano Portela:

 A Pedagogia redentiva constrói seus postulados em cima de premissas que são extraídas da Verdade Revelada do Criador. Ela não precisa deduzir o que é a natureza humana, mas tem o ponto de vantagem de ir até a revelação proposicional da Bíblia, e extrair objetivamente uma descrição do que é a pessoa humana, no íntimo do seu ser. Ela pode realizar mil experiências para reafirmar e fazer a ‘sintonia fina’ de sua metodologia, mas não necessita ficar perdida num pântano de subjetivismo e de idéias gratuitas sobre o que move, direciona e motiva as pessoas. Ela não precisa especular sobre o conhecimento, a sua natureza, o que faz as pessoas aprenderem. Ela tem pérolas proposicionais que foram escritas pelo próprio autor do conhecimento; por aquele que é o doador da capacidade de entendimento e da compreensão humana.[15]

- A Bíblia como Objeto da Educação. A Bíblia é o fundamento, a norma e a luz do ensino cristão, mas ela deveria ser também o conteúdo da instrução cristã? O ensino bíblico de várias passagens-chaves no antigo e no novo testamento (Dt. 6:6-9; Salmo 78:1-8; II Timóteo 3:14-17) nos dão um ressonante sim! Essas passagens afirmam explicitamente que o conhecimento da Palavra de Deus - a lei, os registros históricos das obras de Deus, os louvores, as admoestações e o ensino doutrinário - constituem em si um fim e alvo da educação e isto implica em que as Escrituras precisam ser o conteúdo principal da educação cristã. As palavras que devem ser inculcadas na mente e no coração das crianças não eram a sabedoria dos povos pagãos, mas a lei de Deus. Os grandes feitos que deveriam ser contados de geração em geração não eram as construções dos egípcios, mas os atos redentivos de Deus registrados na Bíblia. O ensino da Bíblia é o cerne e a essência da educação cristã.

Essa afirmação frequentemente levanta a questão de como a Bíblia deve ser ensinada. Como devocional? Como uma disciplina? Como catecismo? De todas essas maneiras? Ou de outra maneira? De que maneira ela pode ocupar esse lugar central na educação cristã? Engelsma sugere que a posição reformada é diferente da posição evangélica por não confinar o ensino da Bíblia ao culto devocional (que, embora não precise ser excluído da escola cristã, é tarefa primordial dos pais), nem a uma disciplina bíblica ou doutrinária (que é tarefa primordial da igreja juntamente com os pais), mas afirma a necessidade da Bíblia informar toda a instrução das diversas matérias, até ao mais alto grau. Aqui a educação cobre uma área própria, que a família e a igreja não têm normalmente condições de exaurir. Ele explica: ‘A Escritura informa toda a instrução dada na escola cristã. Por “informa” eu quero dizer “dá a essência de, é a qualidade característica da”. Ela é a luz de Deus na qual nós vemos a luz.”’[16]. O autor prossegue:

 A Escritura deve ser ensinada assim: como o fundamento, a luz, e o centro de cada assunto. A Escritura deve ser trabalhada em cada assunto, naturalmente e como um fato óbvio, como o chão sobre o qual cada aspecto da realidade está solidamente firmado. Ela deve ser a luz que ilumina não somente o aspecto particular da criação de maneira a lhe dar significado, mas também ilumina o próprio aluno, sobre o que deve fazer em relação ao conhecimento e uso daquele aspecto da criação. E ela deve ser ensinada como a coluna, ou o centro de cada assunto. Assim, ela unifica todos as disciplinas. [17]

Como a luz de Deus, a Escritura é o fundamento de todo assunto, controlando-o, dirigindo-o, e explicando-o, e assim tornando o que é meramente verdadeiro uma verdade de Deus. Como podemos ensinar história se ela não for firmada e iluminada pela Palavra que ensina um Deus soberano, a centralidade de Cristo, a grande guerra entre o reino de Deus e o reino deste mundo, a depravação total do homem, e os julgamentos de Deus sobre o pecado? Como podemos ensinar ciência a parte da Palavra sobre a criação, sobre a queda e a maldição sobre o homem e sobre a sua terra, sobre o dilúvio, e sobre a sabedoria e poder do Criador?[18]

A Bíblia deve, portanto, informar o ensino de cada assunto dentro da matemática, da história, da física e da educação física. Ela deve fazer isso da pré-escola ao mais avançado grau imaginável. Ela fornece a essência do que a criança ou o adulto precisa aprender na geometria, na queda do império romano, na lei da gravidade e nas regras do futebol. E como a Bíblia ilumina, fundamenta, esclarece, controla e explica as verdades geométricas, ou históricas, ou físicas, etc.? A chave é dada por Engelsma: “tornando o que é meramente verdadeiro uma verdade de Deus”, ou seja, relacionando o assunto particular ao plano de Deus e mostrando como cada verdade provém de Deus e deve voltar para Deus. Segundo a Bíblia, qual é a essência da geometria? Ela não está na perfeição, na ordem, na exatidão do plano e da vontade de Deus? O que as medidas da arca, do templo, da cidade santa em Apocalipse revelam sobre a essência da geometria? Na História, somente quando a queda do Império Romano é associada à desobediência a Deus por parte daquele povo, e à Soberania de Deus em levantar e derrubar impérios (Dn. 2:20) é que esse “mero acontecimento” é tornado um “acontecimento de Deus”. Procuraremos dar a seguir algumas sugestões práticas de como isso pode ser feito.

Vale lembrar ainda um aspecto enfatizado por Engelsma, que “o ensino da Escritura dessa maneira não deve ser concebido à parte do conteúdo da Escritura”[19] (sobre Deus, sobre a criação, sobre a queda e a antítese entre a cidade de Deus e a cidade dos homens, sobre Cristo e a igreja, sobre o julgamento final, etc.) e isso requer um conhecimento sistemático ou doutrinário das verdades bíblicas. Este autor chega a sugerir que os professores cristãos devem ser versados nos símbolos de fé reformados, devem confessá-los de coração e devem fazer uso constante e ativo desses credos que entendemos ser a interpretação verdadeira e permanente do ensino e dos princípios bíblicos para toda a vida. Um uso apropriado das confissões de fé e catecismos cristãos como expressão do ensino bíblico é capaz de, segundo este autor, enriquecer, libertar, direcionar e garantir a certeza e o sucesso do trabalho educativo.

Direcionamentos Práticos:


- Para saber se o seu ensino, a sua teoria pedagógica, as suas práticas de administração, supervisão ou coordenação escolar são de fato cristãs, faça a si mesmo a seguinte pergunta: Qual a base ou a explicação bíblica que eu posso dar para isso que estou fazendo? A Bíblia é necessária e indispensável à minha explicação? Quem tem a palavra final nesse assunto? A Bíblia ou alguma teoria ou tradição pedagógica? A minha explicação pressupõe que a Bíblia é suficiente e inteligível para fundamentar essa teoria ou prática educacional, ou eu tenho a tendência de pensar que somente o teórico tal ou o livro tal têm respostas nessa área? 

- Busque conhecer cada vez mais a Bíblia, estude teologia, estude as confissões de fé reformadas, faça uso de cada pregação que você ouve e de cada livro ou passagem devocional que você lê e busque aplicar cada verdade bíblica à educação a partir da seguinte indagação: que luz esse ensino bíblico lança sobre a minha especialidade de ensino? Como esta verdade bíblica informa, regula, controla, dirige ou fornece princípios essenciais para a minha matéria? Vá relacionando essas considerações em um mural ou caderno acessível, e releia esses princípios durante o preparo de suas aulas. E caso você seja tentado a pensar que um determinado relato ou doutrina bíblica não tem nada de novo a acrescentar à sua área, peça a Deus por sabedoria e luz para a sua visão, lembrando de II Timóteo 3:16,17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra."

- Em face do currículo que você foi encarregado de ensinar, faça da Bíblia o padrão para distinguir o que é educativo e o que é deseducativo. O que estiver de acordo com a Bíblia é educativo e deve ser ensinado positivamente, com vistas a que os alunos compreendam e aceitem pela fé, e se comprometam de coração a pôr em prática essas verdades em suas vidas. O que contrariar o ensino bíblico é deseducativo, e não deve ser ensinado a não ser como exemplo negativo, como instrumento de crítica e de discernimento da antítese entre o reino de Deus e o reino deste mundo. Isso implica dizer que nós não “ensinamos” (no sentido mais profundo do termo) a evolução, o marxismo, e o liberalismo, por exemplo, ao aluno. Nós estudamos e analisamos essas e outras idéias à luz do ensino das Escrituras, mostrando a falsidade, os perigos e os resultados terríveis dessas e de tantas outras idéias que contrariam o ensino bíblico.

- Use a Bíblia e a interpretação dos Símbolos de Fé reformados em cada aula. Faça uma pesquisa dos textos bíblicos principais que são capazes de informar, lançar luz ou orientar o assunto que você está prestes a ensinar, direta ou indiretamente. Identifique os princípios ou as verdades essenciais que a Bíblia revela sobre este assunto e enfatize estes aspectos como a lição mais importante a ser aprendida, como o significado verdadeiro e mais importante desse fato. Prossiga com as demais informações que você tiver para acrescentar, mas retome no final, de maneira aplicativa, os princípios bíblicos examinados. Se nós cremos na suficiência da Bíblia, precisamos afirmar que é possível fazer isso em toda matéria e em cada assunto específico.

- Jan Waterink sugere ainda, no que diz respeito ao uso da Bíblia em sala de aula, que o professor tenha a Bíblia aberta diante de si, leia os textos apropriados com os alunos, e, na medida que isso for possível, exija dos alunos que eles mesmos leiam, pesquisem e façam uso da Bíblia, a fim de cumprirmos nossa função como educadores cristãos de “levar a Bíblia à criança e a criança, à Bíblia”.[20] E quanto ao ensino das doutrinas bíblicas, a sugestão é que elas sejam ensinadas não apenas na aula de educação religiosa (se houver), mas também em seu relacionamento com todos os assuntos estudados nas diversas disciplinas, e de acordo com a capacidade e idade do aluno. Talvez a doutrina da queda possa ser especialmente elucidativa em uma aula complicada e cansativa de gramática para explicar a dificuldade e o suor envolvidos no aprendizado de línguas depois da queda e de Babel. Ou quem sabe uma pergunta do catecismo infantil, como a seguinte: “Pergunta: Deus se desagrada daqueles que se recusam a amá-lo e a obedecê-lo? Resposta: Sim. Deus está irado com o pecador todo dia”, pode ser usada para sugerir a realidade das trombetas e juízos de Deus nos terremotos, guerras e catástrofes históricas e geográficas.

- Exemplo de como as Escrituras podem ser usadas na sala de aula. Inúmeros exemplos poderiam ser dados em todas as matérias sobre o uso das Escrituras e de seu ensino na sala de aula. A Bíblia tem muito a dizer sobre números, sobre história, sobre geografia, sobre ciências, sobre estudos sociais, sobre física, sobre o corpo humano, sobre nutrição, sobre a linguagem, sobre tecnologia, etc. Mas não há espaço para mais do que um único exemplo com vistas a esclarecer esta sugestão: Digamos que você esteja ensinando os animais selvagens à terceira série, e hoje a aula seja sobre o leão. Ao invés de começar com o filme do Rei Leão, ou com seu habitat na África, ou com sua posição na cadeia alimentar, comece com as verdades reveladas na Bíblia sobre o Leão. Faça uma pesquisa sobre o que ela revela sobre esse animal, e você se surpreenderá com a quantidade de informações diretas e indiretas que você encontrará sobre esse único ser. Pouco ou muito, creia que a informação bíblica será clara e suficiente para compreendermos o sentido mais profundo e verdadeiro desse animal, que em sua essência está relacionado com Deus.

Você o encontrará, por exemplo, em Gênesis 1 entre os animais selváticos criados por Deus e declarados como bons. Você constatará a sua posição entre os demais grupos de animais e a provisão de Deus em preparar-lhe um ambiente e alimentação especial (Gn 1:30), e você se deparará com a constatação surpreendente de que, em seu estado original, o leão não era carnívoro nem predador. Sua criação por Deus e sua posição entre os demais animais também revela o poder, a beleza, a majestade, a força e a sabedoria de Deus. A segunda e terceira perguntas do catecismo infantil[21] também podem ser usadas para mostrar que o Leão foi criado por Deus para a Sua glória. O fato de ter sido salvo na arca revela o valor que Deus dá à preservação dos seres criados, do leão à formiga. O fato da queda afetou tanto a sua constituição física como o relacionamento entre o leão e demais seres criados, especialmente com relação ao homem. Seu caráter agora ofensivo e implacável é um alerta à estratégia de Satanás (1 Pe. 5:8), e ao julgamento divino (Os. 5:14;13:8; II Reis 17:25). O Salmo 104:21 fala do seu modo de vida como sendo guiado por Deus e dependente de Deus. Sua natureza ousada e destemida faz dele um exemplo para o crente (Pv 28:1). No mundo vindouro, ele é restaurado à sua condição original, sendo visto pastando com o cordeiro em Isaías 11:6 e 65:25 na criação redimida por Cristo.

Mais do que criado por Deus, afetado pela queda e redimido por Cristo, o Leão tem seu significado maior como tipo de Cristo, do poder e da majestade daquele que é o Leão da tribo de Judá. (Ap. 5:5) E a Bíblia também aplica essas verdades à vida do aluno de maneira apropriada, ensinando-o a depender de Deus, a preservar os animais, a temer a fúria do Leão, a conhecer e temer a Cristo e a ansiar pelo estado de glória quando poderá ter um leão como animal de estimação. Finalmente, você pode ainda ensinar e buscar incentivar a resposta apropriada dos alunos diante da revelação bíblica, que consiste na aceitação dessas verdades pela fé, e na gratidão, humildade, espanto e privilégio que eles têm de conhecerem essas verdades reveladas que pertencem a eles e a seus filhos, e que os descrentes desconhecem ou negam. Mostre a importância e a veracidade de tudo o que nos tem sido revelado por Deus, e quando o filme do Rei Leão sugerir algo diferente, aproveite para ensinar que a Bíblia é a Palavra de Deus e tem a palavra final em todos os assuntos. E por falar em filme, Nárnia seria uma opção muito mais apropriada para retratar o Leão numa escola cristã!

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[1] Machen, J. Gresham. The Christian View of Man (A Visão Cristã do Homem) (Carlisle: The Banner of Truth Trust, 2002), p. 15.
[2] De Jong, Norman. Education in the Truth (Educação na Verdade) (Nutley: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1977), p. 69.
[3] Lloyd-Jones. The Gospel in Genesis, p. 26.
[4] Ibid.
[5] Ibid., p. 10.
[6] De Jong, Education in the Truth, p. 72-73.
[7] Lloyd-Jones, The Gospel in Genesis, p. 26.
[8] Cf. Van Til, Cornelius. Christian Apologetics (Apologética Cristã) (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co.,1976). pp. 30-37. Van Til nota e explica como as doutrinas da necessidade, da autoridade, da suficiência e da clareza da revelação de Deus se aplicam tanto à sua revelação escrita como à sua revelação natural. (todas as traduções dessa obra são feitas pela autora).
[9] O Catecismo Maior de Westminster. In: A Confissão de Fé, O Catecismo Maior, O Breve Catecismo (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991, p.165-385), p. 166.
[10] Ibid., p. 168.
[11] De Jong, p. 69.
[12] Gangel, Kenneth O. Fundamentos Bíblicos da Educação. In: PORTELA, S. et al. Fundamentos bíblicos e filosóficos da educação. (São Paulo – SP: ACSI/Purposeful Design Publications, 2004), p. 97
[13] Van Til, Essays, p. 81.
[14] Engelsma, Reformed Education, p. 24.
[15] Fides, p. 148. Citar por completo.
[16] Engelsma, Reformed Education, p. 24.
[17] Engelsma, p. 34.
[18] Engelsma, Ref. Ed.p. 24-25.
[19] Engelsma, p. 34.
[20] Waterink, Jan. Basic Concepts in Christian Pedagogy. (Conceitos Básicos na Pedagogia Cristã) Eerdmans: Grand Rapids, 1954, p. 132.
[21] Pergunta 2: O que mais Deus fez? Resposta: Deus fez todas as coisas. Pergunta 3: Para que Deus fez você e todas as coisas? Resposta: Para a sua própria glória.