“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

OS PEQUENOS SERVOS DA PEQUENA SUSY - PARTE IV

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 Capítulo IV


Não muito depois da Susy ter enviado a sua carta, a sua mãe trouxe uns sapatos e meias bem pequeninos para ela. A Susy ficou muito contente e, de início, ela ficava desamarrando e tirando os seus sapatos. Mas um dia, quando ela acordou do seu cochilo, ela conseguiu agarrar nos dois lados do seu berço e se levantar direitinho nele. Agora ela estava aprendendo que os seus pés não serviam apenas para brincar, mas também para ficar de pé. Ela ficou tão feliz! Ela começou a se segurar nas cadeiras, e no vestido da sua mãe, ou nas pernas da mesa, tentando se levantar para ficar de pé, e logo, logo, ela poderia ficar de pé apoiada em uma cadeira e brincar com os seus brinquedos por um bom tempo e se a cadeira se movesse um pouquinho, ao empurrá-la, os seus pés se moviam também; primeiro um, depois o outro, aprendendo a andar. Quão encantados ficaram todos quando, um dia, a Susy levantou no meio da sala e andou até o outro lado da sala! Seria difícil dizer quem sorriu mais, se a Susy, ou o seu pai ou a sua mãe.
Agora a Susy tinha aprendido a usar todos os seus pequenos servos, com exceção da sua língua. E você deve saber que a sua mãe estava lhe dando muitas lições neste assunto todos os dias. Isto é, ela continuava lhe adulando e pedindo  a ela que dissesse “papai”, e eu não sei quantas centenas de vezes por dia ela lhe pedia: - diz papai! Mas a Susy não falava “papai” e todas as lições particulares eram em vão. Mas uma noite, quando ela estava incomodada com os seus dentinhos nascendo e não conseguia dormir, ela esticou a mãozinha e disse: “Livro”! Para o deleite da sua mãe, que já não tinha dúvidas de que a sua bebê seria realmente muito fã de livros! Agora a Susy tinha descoberto que a sua língua era muito útil, pois a sua mãe lhe deu o livro que ela tinha pedido, e então logo ela começou a dizer muitas outras palavras.
Você já tinha pensado antes em quanto tempo leva para um bebê aprender a usar os pequenos olhos e mãos e pés que Deus tem sido tão bom ao lhes conceder? Se você observar o seu irmãozinho ou irmãzinha, você verá o quão desajeitados eles são, de início, para usar as suas mãos, e você não lembra o quanto você ansiava ouví-lo dizer as suas primeiras palavras e vê-lo andar para todos os lados com os seus próprios pezinhos?

Mas todo este tempo eu só tenho falado sobre as mãos e os pés da Susy, e das suas orelhas, olhos e língua sendo úteis a ela mesma, e não tenho dito palavra alguma sobre as coisas que eles podem fazer para as outras pessoas. Agora, não é provável que Deus tenha destinado que qualquer criança viva neste mundo, onde há tantas coisas para serem feitas, sem fazer nada para o seu pai ou a sua mãe e nada por Aquele que fez tanto para a sua própria felicidade e conforto. E Ele é tão bom, e ama agradar aqueles que Lhe amam, que muito antes da Susy ter idade suficiente para entender isso, Ele ensinou as suas mãozinhas de bebê a começar a fazer algumas das coisas mais doces para as quais elas foram criadas. Quando, no meio de uma noite em claro, na qual a mãe da Susy a vigiava, e cantava para ela, e cuidava dela, ela tinha tão grande recompensa por este trabalho, um pagamento tão precioso por toda a sua fadiga, que até mesmo uma rainha a teria invejado. O que você acha que era? Ora, era sentir as mãozinhas da Susy agradarem e acariciarem o seu rosto no escuro da noite, ou descansarem amorosamente nas mãos da sua mãe, ou abraçando o seu pescoço com todas as forças que um bebê pode ter. Então uma emocionante alegria enchia o coração da sua mãe, e ela esquecia de todos os problemas que existem neste mundo e agradecia a Deus por ter lhe dado um bebê por quem viver e trabalhar, e um bebê para amar e lhe trazer conforto.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

EDUCAÇÃO CLÁSSICA CRISTÃ? (Parte I)


Educação Clássica Cristã

 

Parece crescente o número de pais e educadores que têm se mostrado curiosos sobre a educação clássica, fenômeno educacional moderno que tem se difundido no meio educacional, com o surgimento de muitas escolas dessa persuasão, e com um crescente número de adeptos na educação domiciliar. Seus aderentes têm exaltado o seu currículo diferenciado, o sucesso de seus métodos de ensino e os excelentes resultados acadêmicos dos seus alunos, tanto no contexto do homeschooling, como nas escolas e cooperativas clássicas que têm se multiplicado, especialmente em países de língua inglesa, a exemplo dos Estados Unidos. Nesse pequeno artigo, gostaria de fornecer aos leitores um breve histórico e caracterização deste modelo educacional e de sua prática; em seguida, me proponho a apresentar algumas observações sobre o método clássico de uma perspectiva cristã. E finalmente busquei indicar algumas leituras adicionais para quem deseja estudar mais o tema ou conhecer materiais didáticos e instituições adeptas dessa tendência.

I- Histórico


 

Origem da Educação Clássica


 

A educação clássica no sentido mais estrito e histórico do termo se refere ao modelo educacional desenvolvido pelos gregos antigos, especialmente creditado a Aristóteles, para o desenvolvimento da razão humana segundo as perspectivas e necessidades do seu contexto sócio-político.  Interessados como eram os filósofos gregos na arte da lógica e da aquisição de conhecimento, seja com base no método platônico de buscar esse conhecimento no mundo abstrato das idéias, ou no método aristotélico que valorizava mais o conhecimento do mundo físico, eles formularam um ideal educacional que visava formar pensadores altamente racionais; cidadãos virtuosos e úteis à sociedade, e excelentes oradores com habilidade para expor, discutir e propagar os ideais da civilização greco-romana por meio da política, da filosofia e de uma educação liberal, própria aos cidadãos livres, que, ao aprenderem a pensar, seriam "libertos" da ignorância e elevados a uma categoria mais humana, mais excelente. Para isso, os pequenos cidadãos dessa sociedade "iluminada" deveriam ser formados nas Artes Liberais, ou seja, num conjunto de sete disciplinas que buscavam exatamente a formação intelectual e acadêmica de cidadãos pensadores e livres. Essas sete disciplinas eram divididas em duas etapas, que seriam apropriadas aos diferentes estágios de desenvolvimento da pessoa: o trivium consistia no ensino de disciplinas básicas e instrumentais através da gramática, da lógica e da retórica, e compreendia todo o ensino fundamental e médio. Já mais a nível universitário, os alunos poderiam se aprofundar no quadrivium, que compreendia a música, a aritmética, a astronomia e a geometria.

 

O Método Clássico: O Trivium e o Quadrivium


 

A primeira etapa do trivium era mais apropriada àquela fase inicial em que as crianças menores, ávidas por absorver uma grande quantidade de informação, e com grande facilidade de memorização, embora ainda não capazes de desenvolver o pensamento formal, eram ensinadas, por meio da repetição e memorização, as leis e os fatos principais da "gramática" das línguas, da matemática e dos diversos assuntos, os quais elas iriam, no momento, absorver pela memorização para serem desenvolvidos e aplicados no futuro. Essa fase do desenvolvimento do pensamento ficou conhecida como a "fase gramatical", e as escolas especializadas nesse nível da instrução vieram a ser chamadas de escolas de gramática, pois buscavam ensinar às crianças as leis e princípios fundamentais das disciplinas instrumentais. Nessa fase as crianças aprendiam a ler e a escrever, por vezes mais de uma língua, a realizar operações básicas matemáticas, ("a gramática da matemática"), e eram apresentadas pela primeira vez a muitos fatos simples envolvendo perguntas como "o que? Quem? Quando? Onde? além de virtudes e habilidades considerados importantes para as fases subsequentes.

 

Numa fase posterior (grossamente dos 8 aos 12 anos) as crianças, já bem estabelecidas na sua capacidade de ler bem, e supridas dos conhecimentos e habilidades necessárias para dar prosseguimento à sua formação liberal, agora na fase lógica, iriam  aprender a desenvolver a sua mente racional. Por meio dos princípios da lógica e da arte da dialética, o professor fazia uso de perguntas elaboradas com vistas a acessar o conhecimento dos fatos que a criança já possuía para guiar as suas pupilas a um conhecimento mais profundo dos fatos, ao conhecimento de novos fatos, e à percepção da interligação entre eles, das noções de causa e efeito, sempre por meio de um método lógico e racional. A criança aprendia a fazer perguntas que a levassem a um nível mais elevado de conhecimento, que agora incluíam o "Por quê, o Para quê e o Como" de assuntos apropriados à sua idade e fase de desenvolvimento. Até aqui a criança está aprendendo por meio da memorização e está treinando a razão a fazer perguntas que a levem ao conhecimento do mundo, mas ela ainda não é considerada capaz de expressar-se de maneira original e criativa sobre o mundo.

 

A partir dos doze anos, agora capacitados com as habilidades instrumentais necessárias para buscar o conhecimento por si próprios; já bem treinados a aprofundarem-se no conhecimento do mundo por meio de perguntas lógicas e metódicas; e com a mente suprida de muitos e variados fatos e conexões de fatos, os jovens seriam estimulados, na fase retórica, a aperfeiçoarem a sua capacidade de expressão pessoal criativa e estética sobre assuntos mais analíticos e controversos. Por meio da retórica, dos debates e da arte da argumentação persuasiva, os jovens aprendiam a ser membros ativos da sociedade livre a que pertenciam, participando da política, das artes, e contribuindo para os avanços científicos da época.

Somente aqui eles iriam desenvolver o seu intelecto ao mais alto grau, focalizando agora na expressão de opiniões próprias bem firmadas em fatos e argumentos lógicos, e na beleza artística e habilidades de persuasão da linguagem falada e escrita.

 

Após dominado o trivium, o estudante, no que agora corresponde ao grau universitário, estudaria o quadrivium – música, aritmética, astronomia e geometria – que podem ser vistas em linhas gerais como espécies de verdade:

A música incluiria verdades estéticas, a percepção da harmonia ordenada da beleza, que era vista não como mero prazer subjetivo, mas como um absoluto. A Aritmética incluiria os absolutos matemáticos intrínsecos ao universo e à pura idealização.  A astronomia compreenderia todas as ciência empíricas, as verdades percebidas pelos sentidos e pelas provas externas. A geometria incluiria a arquitetura e o desenho, as relações espaciais implícitas tanto na engenharia como nas artes visuais. (VEITH, 1999, p. 87)

 

Desenvolvimento Histórico da Educação Clássica


 

Não há dúvidas de que esse tipo de educação formou excelentes pensadores, matemáticos, políticos e oradores. Tendo um insight verdadeiro sobre as características e estágios de desenvolvimento da mente humana, os gregos supriram a educação de um modelo de desenvolvimento acadêmico que sobreviveu incontestável por muitos séculos, tendo até hoje adeptos. O apóstolo Paulo e os pais da igreja, os mestres medievais, os grandes pensadores do renascimento, os reformadores, e os puritanos do século VXII, que fundaram as grandes universidades na Inglaterra e na América do Norte, todos foram formados segundo as linhas gerais do modelo clássico. Vemos, portanto, que o método clássico tem seus adeptos seculares e cristãos, prestando um serviço a educadores de origem e propósitos muito diversificados. Seus métodos são como ferramentas, recentemente redescobertos como as "ferramentas perdidas da aprendizagem", que como martelos, serras, e pás, serviriam tanto para a construção da cidade dos homens ou da igreja de Deus.

 

Declínio da Educação Clássica


Somente nos últimos séculos, que seguiram às grandes revoluções, a educação clássica passou a ser vista como inadequada aos novos ideais sociais, e foi progressivamente desgastada e denunciada ora como elitista demais para a classe proletariada, ora como idealista e teórica para a era pragmática e industrializada, ora como uma ameaça aos interesses dos governos tiranos, ditatoriais e comunistas, ora como ultrapassada diante das novas pedagogias progressistas e relativistas. Contudo, na prática, todo conhecimento intelectual verdadeiro continua sendo estritamente adquirido pelo método clássico, quer você esteja aprendendo a ler, a fazer uma receita de bolo, a construir um avião, ou a tocar piano: primeiro nós entramos em contato com um fato que precisamos memorizar ou reter. Depois nós trabalhamos esse fato em nossa mente por meio de perguntas e etapas lógicas; e finalmente nós expressamos esse conhecimento aplicando-o às situações da vida. Isso acontece porque a gramática, a dialética e a retórica correspondem às leis da aquisição acadêmica do conhecimento; são as fases principais do aprendizado intelectual. Qualquer educação que subverte essa ordem, ou ignora uma dessas etapas está fadada a desmoronar, razão porque os métodos pedagógicos progressistas atuais estão levando a um buraco que muitos pais e educadores estão tentando remediar, perguntando-se: Qual é o problema com a educação atual? Porque as crianças modernas da era tecnológica estão academicamente defasadas academicamente em comparação com as gerações anteriores?

 

Continua...

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

OS PEQUENOS SERVOS DA PEQUENA SUSY - CAPÍTULO III

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CAPÍTULO III


Contudo, uma certa manhã, quando ela estava com apenas dez semanas de idade, a Susy começou a brincar com um brinquedo. O que você acha que era? Era a sua própria mãozinha! Ela a sentiu, a levantou e olhou para ela, a provou e admirou bastante. Até mesmo um sério juiz, sentado em sua poltrona e parecendo tão sábio quanto o Rei Salomão, dificilmente poderia parecer mais sério e sábio do que a Susy quando ela primeiramente descobriu que possuía duas mãozinhas! E como ela as virava, enroscando os seus dedinhos miúdos, girando-os e dobrando-os para todos os lados! Agora ela achava que tinha descoberto para que serviam aquelas coisinhas que até então não faziam nada senão dar tapas, arranhar e engordar. Ora, elas serviam como brinquedos, com certeza! E ela nunca precisaria chorar para chamá-las, ou levantar para procurá-las, pois ali estavam elas, sempre pertinho e sempre tão gostosas e macias! E assim a Susy brincava com as suas mãos, e conversava com elas, e as contava histórias em Grego, ou Latim ou Holandês, ninguém sabe, e estava assim muito animada e contente.
A sua mãe estava muito contente em ver Susy brincando com as suas mãozinhas, e depois de um tempo ela lhe ofereceu um pedacinho de papel. A Susy olhou para ele e queria pegá-lo. Mas as suas mãos não sabiam como fazer isso; elas só serviam para brincar uma com a outra. Mas elas queriam aprender a segurar coisas para a Susy, e começaram a praticar bastante, todos os dias, até que, enfim, elas aprenderam a segurar o seu chocalho para ela, e depois uma laranja, e depois um molho de chaves. Quão boas servinhas eram as suas mãozinhas! Você não acha? E mais ou menos nessa época, a Susy fez uma grande descoberta; ela descobriu que ela tinha dois pezinhos só dela e achou que seria uma boa ideia agarrar um deles e colocar em sua boca. Ela trabalhou muito diligentemente até se suceder nisso, ela era uma bebê tão ocupada que quase não encontrava tempo para tomar o seu café-da-manhã. Eu suponho que ela pensava que aqueles dois pezinhos gordinhos só serviam para ela brincar com eles, assim como ela havia pensado sobre as suas mãozinhas.
Talvez você gostaria de ler uma carta que a Susy escreveu para o seu priminho sobre este período. Eu imagino que ela tenha pedido à sua mãe ou a alguém para escrevê-la por ela:
“Meu querido primo,
Desde que eu lhe escrevi, eu já cresci bastante, pois estou agora com seis meses de idade. Eu ainda não consigo sentar sozinha, pois quando eu tento fazer isso, eu caio para os lados. Mas com uma almofada atrás de mim, eu consigo sentar muito bem e brincar com os meus brinquedos. Eu tenho uma antiga cesta cheia pela metade com os meus brinquedos, sobre os quais eu lhe contarei. Primeiro, eu tenho um anel de marfim com um fio azul nele, mas eu não penso grandes coisas dele. Depois, eu tenho uma grande rolha de garrafa que veio de um galheteiro de vinagre. Terceiro, eu tenho dois carretéis amarrados juntos, e atado a eles, de alguma forma, está um pedaço completo de fita que eu agarrei da cesta da minha mãe e chupei até ela dizer que não servia para mais nada e que eu posso até ficar com ele. Quarto, eu tenho uma tampa que veio de uma garrafa de alguma coisa doce, pois ela é muito gostosa. Eu gosto muito desta tampa, tanto que eu até deito no chão e brinco com ela como um gato brinca com um rato. Eu tenho ainda uma metade de uma moeda com um buraco no meio que a minha avó me deu; mas eu sempre choro quando brinco com ela, pois ela é tão dura que dói na minha boca. Eu tenho muitos retalhos que a minha mãe me deu. Quando ela corta as minhas camisolas, ela me dá os pedaços que estão sobrando e alguns são brancos, outros rosa e outros azuis. Você sabe que eu começarei a usar camisolas curtas logo, logo. Mas as minhas coisas favoritas para brincar são duas varetas vermelhas que eram parte de um antigo leque que a sua mãe deixou aqui. No outro dia, eu estava deitada no chão e pensei em tentar até onde eu conseguiria enfiar uma delas na minha garganta. Depois de empurrar um bocado, eu comecei a chorar. A minha mãe me segurou para cima e puxou-as para fora, mas a minha garganta estava arranhada e dolorida, então eu acho que não vou mais tentar enfiá-las tanto da próxima vez.
Às vezes eu faço uma visita à nossa velha gata e os seus três gatinhos. Eu falo com eles o mais alto que eu consigo, mas eles não parecem entender o que eu digo. E eu não sei porque, mas eles não gostam quando eu tento colocar os seus rabos na minha boca. 
Eu sinto muito dizer que à medida que eu cresço em sabedoria, eu também me torno mais levada. Eu sempre choro todas as vezes que a minha mãe está me limpando ou vestindo, e fico muito zangada com ela pois eu não gosto que façam isso comigo. E no momento que eu lhe vejo tirar a minha cesta de mim à noite, para me vestir e colocar pra dormir, eu choro com todas as minhas forças e não paro de jeito nenhum até sentir alguma coisa macia na minha boca. Ontem à noite, enquanto eu brincava no chão com a minha amada tampa, a minha mãe veio por trás e desatou os meus botões e tirou toda a minha roupa por trás, então desta vez eu não chorei. Eu tenho dois pés que eu julgo muito úteis para chutar quando estou com raiva, e duas mãos para pegar os brinquedos quando eu quero brincar, e dois olhos que me mostram figuras e outras coisas bonitas e que não descansam nunca, exceto quando eu estou dormindo. E se você um dia responder esta carta, eu tenho duas orelhas para ouvir a sua carta sendo lida.
Eu sou uma bebê muito boazinha logo quando eu acordo, pela manhã. Eu fico deitada na cama por um bom tempo, brincando com os meus pés ou com qualquer outra coisa que eu consiga alcançar. Às vezes eu desamarro o capuz da mamãe e às vezes eu arranho e puxo as suas bochechas e o seu queixo. Muitas vezes, eu quase arranco o nariz do papai do seu rosto, pois eu não sei para que ele precisa dele quando está dormindo. Isso não lhe relembra dos seus velhos tempos, três ou quatro anos atrás, quando você era um bebê? Se você vier aqui um dia, eu não sei o que eu farei para lhe entreter, pois eu ainda não sei falar. Eu provavelmente arranharei o seu rosto e puxarei o seu cabelo, e colocarei os meus dedos nos seus olhos, pois eu não sei fazer muita coisa além disso, já que sou um bebê tão pequeno. Eu estou muito cansada agora e precisarei me despedir, mas qualquer dia eu lhe escreverei novamente.
Da sua priminha,

Susy.”    

sábado, 22 de agosto de 2015

OS PEQUENOS SERVOS DA PEQUENA SUSY - CAPÍTULO II

OS PEQUENOS SERVOS DA PEQUENA SUSY


CAPÍTULO II


E então? Você se olhou no espelho? Se você o fez, você viu, no meio do seu rosto, os seus servos negros, ou azuis ou verdes, os seus dois olhos. Não importa de que cor são, um é tão bom quanto o outro.
Logo que a Susy descobriu o que os olhos dela podiam fazer, ela os manteve bem ocupados. Quando ela queria ver a sua mãe, os seus olhos não esperavam para que ela os mandasse fazer isso, pois eles conheciam os seus pensamentos tão bem quanto ela mesma os conhecia. Eles a mantinham entretida enquanto ela sentava no colo da sua mãe, mostrando a ela o brilho dos raios de sol que adentravam pela janela, as cortinas brancas, e a bola de linho colorido enrolado na cesta de trabalhos. Quando ela estava de bruços, com o seu rosto para baixo, a fim de ter o seu vestido abotoado, eles a mostravam o tapete, fazendo com que parasse de chorar. Quando eles estavam cansados, a Susy possuía um macio cobertor, com uma bela borda, o qual ela colocava sobre eles para que pudessem descansar a noite inteira. Deus fez este cobertor de propósito. O lenço mais fino e macio que você possa imaginar ainda seria áspero demais para eles; somente Deus pode fazer um cobertor tão macio para os nossos olhos.
Depois da Susy ter sido asseada e vestida pela manhã, e depois de tomar o seu café-da-manhã, a sua mãe lhe deitava na cama e estendia uma pequena manta sobre ela. E então aqueles olhos brilhantes e ativos olhavam para a parede, e se fixavam em um pequeno reflexo de luz lá em cima, até que, por fim, eles ficavam cansados e o macio cobertor começava a se curvar lentamente para baixo, mais e mais, até que a Susy caía no sono. Ou, no meio de uma noite escura, quando ela acordava e não sabia o que fazer, ela podia olhar para a luzinha de parede no canto do quarto e imaginar o que era aquela luz e qual a sua distância. 
Tudo nesse mundo era novo para a Susy, e à medida que ela crescia e os seus olhos ficavam mais fortes, eles continuavam a lhe mostrar todo tipo de coisas bonitas e faziam com que o tempo passasse, de fato, muito rápido. Quão feliz a Susy ficou quando eles lhe mostraram, pela primeira vez, o doce e amoroso sorriso com que a sua mãe lhe olhava! Ela teria pulado de alegria se fosse grande o suficiente para isso.
Mas enquanto os seus olhos estavam tão ocupados em fazer tudo o que podiam para entretê-la, as suas duas orelhas também não estavam ociosas e um dia, quando ela ainda era apenas uma bebezinha, ela ouviu um agradável som de sinos tocando na igreja e isso lhe soou doce como música. Ela perecia estar surpresa, ouvindo e ouvindo, até que jogou os seus braços para cima e sorriu. Depois disso, quando ela chorava ao tomar banho, alguém balançava os brinquedos e utensílios, ou fazia algum barulho diferente, e isso fazia com que ela parasse de chorar para ouvir esse som. Portanto, eu suponho que as suas orelhas eram muito contentes, e agora elas podiam ajudá-la a passar o seu tempo de um modo muito mais agradável do que antes. Pois elas podiam ajudá-la a ouvir a sua mãe cantar, e a ouvir o som que as chaves fazem quando são sacudidas umas com as outras e tudo o mais. Susy ficava impressionada com tudo o que ouvia, pois ela nunca tinha ouvido tantos barulhos diferentes e encantadores antes. E quando a Sara colocava mais lenha no fogo, a Susy ficava atenta e pensava que era um terremoto, até que a sua mãe sorrisse, como que lhe dizendo: “Não se assuste, querida!”

Assim, com os seus olhos, as suas orelhas, e a sua língua macia e vermelha com a qual ganhava o seu almoço, a Susy era uma bebê muito feliz, crescendo a cada dia em peso, em força e em sabedoria.       

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"OS PEQUENOS SERVOS DA PEQUENA SUSY" - Elizabeth Prentiss - Capítulo I


Esta nova série de postagens consiste na tradução de um clássico infantil favorito da escritora Elizabeth Prentiss, intitulada, no inglês, de “Little Susy’s Little Servants”.
A autora americana, herdeira do movimento Puritano, viveu na Nova Inglaterra entre os anos de 1818 e 1878, e é autora do conhecido Hino “Mais amor por Ti” (“More Love to Thee”) e da obra “Pisando em Direção ao Céu” (“Stepping Havenward”), dentre vários outros títulos. Os seus escritos, embora tenham sido publicados e grandemente divulgados já em sua própria época, ganharam renomada popularidade no final do século XX.
Elizabeth era uma dentre os oito filhos do Ministro Edward Payson, tendo sido criada desde cedo nos caminhos da fé protestante. Desde a idade de dezesseis anos, ela já contribuía com escritos em um periódico voltado para a juventude “The Youth’s Companion”. Ela fundou, em 1838, uma escola para meninas em sua própria casa, e dois anos depois partiu para o estado da Virgina para ser dirigente de departamento de uma escola para meninas.
Ela casou-se, em 1845, com George Lewis Prentiss, um ministro Presbiteriano, com o qual teve seis filhos, dois dos quais faleceram ainda na infância.
Embora tenha tido uma saúde frágil e delicada, ela faleceu com a idade de 59 anos e o seu hino “Mais Amor por Ti” foi cantado no seu funeral. Após a sua morte, o seu esposo editou e publicou um livro composto por várias das suas cartas “Vida e Cartas de Elizabeth Prentiss” (“The Life and Letters of Elizabeth Prentiss”), o qual continua em publicação e, segundo as suas próprias palavras, extraídas do prefácio desta obra, ela diz: “Muito da minha experiência de vida tem me custado um alto preço, e eu desejo utilizá-la para o fortalecimento e conforto de outras almas.”
Nesta obra para crianças, nós veremos a pequena Susy crescer e se transformar, de um pequeno bebê, em uma pequena mocinha de seis anos de idade, enquanto os seus ajudantes aprendem a brincar, a se ocupar com diversas atividades e a fazer coisas para ajudar os outros. Às vezes, eles também lhe metem em problemas! Mas durante este percurso, a pequena Susy aprende a ser gentil, a servir os outros, e mais importante de tudo, a amar e servir a Deus de todo o seu coração.    


OS PEQUENOS SERVOS DA PEQUENA SUSY


CAPÍTULO I

Já que a pequena Susy possuía uma amável mãe para tomar conta dela, você se perguntará, talvez, porque Deus lhe deu ainda um grande número de servos só para ela. Ele lhe deu tantos servos que você poderia passar a sua vida inteira lendo sobre eles. Mas eu lhe contarei apenas sobre alguns deles e então você pode pedir à sua mamãe que lhe conte sobre os outros. Pois os pequenos servos que a Susy tinha, você também tem.
De início, ela não sabia para que eles serviam, ou onde eles estavam. E eles também não sabiam, por isso eram inúteis. Dois deles eram negros, e tão parecidos que você não podia distinguir um do outro. Susy os mantinha trancados a maior parte do tempo, de modo que ninguém os via. Quando as suas tias e primos vinham visitá-la, eles diziam: - Eu acho que hoje ela vai nos deixar vê-los! Mas acabavam tendo de ir embora bem decepcionados. Estes servos negros eram umas coisinhas bem brilhantes, e eles logo aprenderam a entreter bastante a Susy. Uma das primeiras coisas que eles fizeram por ela foi deixá-la ver o fogo da lareira, o que ela achou muito bonito.
Susy tinha um outro par de gêmeos como seus servos, mas ela sabia tão pouco para que eles serviam que eles lhe davam pequenos tapas e às vezes até arranhavam o seu rosto. A sua mãe disse que ela precisaria amarrá-los se eles fizessem isso. De fato, muitos bebês pequenos acabam precisando tê-los cobertos com panos brancos para impedir que façam travessuras até que tenham idade suficiente para saberem como agir. Mas embora eles não soubessem como se comportar, eles eram muito bonitinhos, pequenas criaturinhas, e quando o papai da Susy se ajoelhava e pegava um deles em suas mãos, e o beijava e o admirava, e comentava sobre o quão engraçadas eram aquelas coisinhas, eles pareciam, realmente, com lindas pétalas de rosas, ou com qualquer outra coisa macia e rosada que você possa imaginar.
Susy possuía ainda um outro par de gêmeos, dos quais ela não tomou muito conhecimento por alguns meses. Eles não aprenderam a esperar por ela tão cedo quanto os outros. Eles eram umas coisinhas gordinhas e inquietas, dificilmente ficavam quietos por um só momento, e só o que eles sabiam fazer era chutar e fazer buracos em meias brancas e azuis.
Susy tinha ainda um outro par de gêmeos não muito bonitos, mas muito úteis, pois sem eles ela nunca conseguiria ouvir a sua mãe cantar, ou o seu pai assoviar; ou a pá e a pinça caírem fazendo sons muito interessantes; nem o seu gatinho dizendo: - Miau! Ou o cachorro dizendo: - Au! Au!
Ela tinha ainda mais um servo que ela mantinha fora da sua vista o tempo todo. Ele só servia, de início, para que ela pudesse ganhar muitos cafés da manhã, almoços e jantares todos os dias. Mas ele veio a servir para muitas outras coisas depois de um tempo.
Mas se eu continuar com esta descrição, eu receio que você poderá ficar embaraçado, você que é uma criatura tão pequena. Então se você puder imaginar os nomes destes servos da Susy, eu lhe darei três tentativas. E se você não acertar na terceira vez, você terá de espiar contra o vidro, onde você verá todos estes servos seus; eu quero dizer, estes sobre os quais eu lhe tenho dito.