“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma Visao Biblica dos Elementos da Educação: Educação, Escola,Professor, Aluno, Disciplina e Niveis de Ensino


Nota:

No capítulo anterior do livro "Fundamentos da Educação Reformada" tratamos da epistemologia cristã e tentamos esboçar os pontos principais de uma teoria do conhecimento que reflita os pressupostos bíblicos. Esse capítulo, sobre os "Elementos da Educação", consiste numa transição entre a teoria da educação cristã e seus aspectos e elementos mais práticos. Na realidade, daqui para frente, você poderá perceber com mais clareza como os princípios bíblicos que já tratamos sobre Deus, a Bíblia, o homem e o conhecimento se aplicam à nossa definição e práticas de educação e de escola cristã, de ensino e de aprendizagem, à metodologia de ensino, às competências do professor, ao perfil do aluno, às práticas disciplinares e aos níveis de ensino. E o próximo capítulo irá aplicar esses princípios às diversas disciplinas do currículo cristão.



Capítulo 9

Elementos da Educação Reformada


9.1. A Educação e a Escola Reformada: Buscando uma Definição


A definição de educação reformada não se detém num ou noutro aspecto como o currículo, as práticas da escola, as metodologias adotadas ou mesmo um ou outro propósito bíblico, mas adota um conceito abrangente e fornecedor de sua essência. O que define a essência da educação reformada é a existência de uma cosmovisão ou mentalidade bíblico-reformada que domina todas as demais práticas da escola cristã. Essa mentalidade consiste na união e na aplicação da teologia reformada à educação.

É assim que Solano Portela ([199-], p. 2-4) busca uma definição que leva em conta as concepções teológicas definidoras de uma mentalidade bíblica. Assim, ele define a educação cristã reformada como:

(...) o processo de comunicação de conhecimento e de treinamento dos dons naturais de uma pessoa que se baseia nos seguintes fatos: 1. O homem não é um ser neutro, nem um produto do meio, mas já nasce submerso em pecado, com a inclinação para o mal. Ele deve, portanto, ser submetido à correção e à disciplina (...) 2. Deus criou o homem para servi-Lo e cada pessoa deve ser encaminhada desde os primeiros passos com este propósito, dentro dos seus talentos naturais, adquirindo cada vez mais uma conscientização de sua finalidade de servir a Deus na terra, qualquer que seja o campo de trabalho ou ocupação que venha a operar (...) 3. O Homem é um ser religioso e o conhecimento por ele adquirido sempre será interpretado e recebido dentro deste contexto religioso. Para ser um conhecimento legítimo deve, portanto, proceder do ponto de vista bíblico, fornecendo assim, ao homem, uma visão integradora e correta da vida e da criação (...) 4. Todo ensinamento ministrado pelo mundo traz em si, em maior ou menor grau, filosofias anticristãs que direcionam o homem contra Deus. (...) Educação Cristã verdadeira, dentro desta definição, não é aquela que simplesmente insere a Bíblia no currículo, mas, sim, a que reestuda todas as disciplinas, apresentando-as biblicamente, como procedendo do Deus soberano.

Para não se estender numa definição que é simples, basta deixar claro o aspecto central que Portela buscou enfatizar, qual seja, que esta é uma educação que se fundamenta numa mentalidade formada por pressupostos bíblicos-reformados, de maneira que essa mentalidade cristã controla toda a filosofia, planejamentos e demais atividades da escola, seja o ensino, a determinação do currículo, a admissão do corpo docente, a metodologia utilizada, e assim por diante.

Assim, a aplicação dessa definição de Educação Reformada no âmbito prático, local e institucional leva à definição de “escola reformada”. O que significa dizer que uma determinada escola é de fato cristã e reformada? É primeiramente necessário desfazer algumas concepções errôneas que se têm da escola cristã. Esta:

·         Não é uma escola que inclui no seu currículo disciplinas que tratem da Bíblia ou de temas do cristianismo.

·         Não é uma escola equipada com professores evangélicos.

·         Não é a escola que providencia para os alunos serviços de capelania, devocionais e cultinho, (o que aliás, não é função sua, mas da Igreja e do lar).

·         Não são aquelas escolas ligadas a Igrejas ou denominações  evangélicas.

·         Não é uma escola que aplique regras evangélicas de conduta e valorize a disciplina e o bom comportamento.

·         Não é uma escola marcada pela valorização da moral cristã.

Essas coisas, de maneira geral, embora necessárias, numa escola cristã, não são definidoras de uma escola cristã reformada. Para isso, é necessário que a escola possua uma característica marcante que vai além dessas práticas. Pode-se adentrar na natureza essencial da escola cristã reformada utilizando a definição de Augustus Nicodemus Lopes:

A escola cristã é aquela que oferece um processo de treinamento e desenvolvimento da pessoa e de seus dons naturais à luz da perspectiva cristã da vida, da realidade, do mundo e do homem. Isso significa o desenvolvimento de um currículo e um programa educacional onde as disciplinas e atividades reflitam explicitamente a mentalidade cristã. Em outras palavras, escola cristã é aquela que ensina ciências, história, comunicação, sociologia, etc. a partir dos pressupostos cristãos. É adotar teorias e filosofias de desenvolvimento humano e da educação que reflitam o ensino bíblico sobre o homem como imagem de Deus, embora moral e espiritualmente decaído. (...).

Uma escola cristã, portanto, é aquela que trata todas as áreas do conhecimento (ciências humanas, exatas, naturais, sociais, comunicação, etc.) a partir de uma mentalidade cristã, formada pelo ensino bíblico. É a integração de educação e teologia no ensino, desde o primário até o superior (2003, p. 51)

Ou, como definiu Paulo Anglada:

(...) uma escola que se fundamenta em pressupostos bíblico-reformados, governada por uma cosmovisão ou  mentalidade genuinamente cristã e cuja estrutura organizacional, práticas pedagógicas, normas disciplinares, ensino, escolha de professores e funcionários e currículo reflitam essa mentalidade cristã.” (ANGLADA, 2002, p.1).

 



9.2 Ensino e Aprendizagem


De conformidade com a pedagogia reformada, ensinar é transmitir ou ajudar na transmissão de um corpo de verdades a outrem e aprender significa compreender intelectualmente essas verdades, de maneira que estas se reflitam e transformem a vida prática produzindo frutos bíblicos. Resta, então, saber como ensinar biblicamente.

James Beeke [2003?] buscou essa resposta no ensino e nos métodos de ensino utilizados pelo mestre maior da cristandade, Jesus Cristo, e identificou, no seu ministério, pelo menos 8 métodos que usou para transmitir as verdades que desejava ensinar.

Um desses métodos é o de fazer perguntas. “Os evangelhos contém mais de cem perguntas feitas por Jesus durante seu ministério de ensino na terra” (BEEKE, [2003?], p. 232). Essas perguntas eram propositais e bem pensadas, destinadas a atrair a atenção dos ouvintes, a fazê-los pensar numa solução, de maneira que a sequência das perguntas deveria conduzir os ouvintes à verdade. Não eram perguntas soltas, mas direcionadas ao ensino e ao conhecimento. O ensino reformado se beneficiaria muito deste método, se, seguindo o exemplo de Cristo, o professor começasse a aula com perguntas que estimulam o pensamento e despertam a atenção, como: “As pessoas precisam aprender a multiplicar?”; “O que faz os pássaros voarem?” “Por que o Brasil é um país pobre?”

Jesus ensinou também através da exposição oral ou do discurso. O sermão do monte é um exemplo de um discurso bem-organizado e poderoso. A fala é direcionada não a apresentar as habilidades do professor, nem apenas para manter os alunos ocupados anotando, mas tem o objetivo de fazer os alunos entenderem e gravarem em seus corações verdades fundamentais.

Um dos métodos mais marcantes do ensino de Jesus foi o de contar histórias ou parábolas. Os Evangelhos relacionam 40 milagres e 40 parábolas que Jesus contou, tanto para introduzir, quanto para finalizar um assunto, ou para ensinar a verdade principal, como na parábola do filho pródigo. As vantagens das histórias para o ensino é que elas “geram interesse, deixam mais claras verdades abstratas e ajudam a reter os pontos centrais da mensagem” (BEEKE, [2003?], p. 233)

A discussão, o debate ou o diálogo também era um método de ensino utilizado pelo Mestre. Seja com a mulher samaritana, com o jovem rico, com Nicodemus ou com os apóstolos, a conversa encorajava os ouvintes a pensar, a expressar seus pensamentos, a se envolverem ativamente no processo de aprendizagem e a compreenderem melhor as verdades.

Jesus ensinou também pelo exemplo. Imaginemos o quanto os discípulos devem ter aprendido sobre a verdadeira humildade na ocasião em que Jesus tomou uma bacia e uma toalha, ajoelhou-se e passou a lavar os pés dos discípulos. O ver como se faz, aprender fazendo, tentando e experimentando é um método de ensino muito poderoso, como assegura Beeke ([2003?], p. 234).

Cristo ainda ensinou a seus discípulos pedindo que lhe fizessem um relatório de suas ações, e do que observaram. Na ocasião em que ele comissionou 70 discípulos e os enviou para pregar, ao regressarem, Jesus pediu que contassem tudo o que haviam feito e vivido. Mas Beeke alerta para a necessidade de que esse ensino seja dirigido. Jesus equipou os discípulos com um ensino consistente voltado para as tarefas que deveriam realizar e lhes deu claras instruções antes de partirem sobre o que levar, o que fazer, onde ir, e como deveriam se conduzir, tudo de maneira realista. Ele não simplesmente deu uma tarefa, e deixou os discípulos sem rumo, como o fazem muitos professores atualmente.

No ensino de Jesus, é possível perceber que ele buscava sempre ir do concreto para o abstrato, partindo de objetos materiais como a figueira, a moeda com a esfinge de César, a criança, os sacramentos que Ele instituiu, o batismo e a ceia. Isso aponta para a importância de o ensino cristão partir de exemplos concretos, de situações reais.

Beeke ainda lembra que Jesus usava sempre um método de ensino individualizado. Suas palavras, os conteúdos do seu ensino eram feitos sob-medida para as necessidades e o perfil de cada ouvinte. Ele usava métodos diferentes para curar os diversos doentes, ele parava na multidão para atender pessoas individualmente.

A Bíblia também enfatiza o ensino como discipulado, no sentido de que tudo o que é ensinado por palavras deve também ser observado e seguido pelo exemplo. Por isso o professor tem um papel importantíssimo na educação cristã reformada. Ele deve ser modelo de tudo o que ensina. As atitudes que ele espera de seus alunos (dedicação, compromisso com a aprendizagem, respeito, organização, pontualidade, amor, etc.) devem ser vistas primeiramente nele. O ensino cristão deve ser consistente e honesto, nunca hipócrita.

E finalmente, o sucesso do processo de ensino e de aprendizagem cristão depende da consciência da presença de Deus em todas as áreas da vida e do ensino. Tudo deve ser feito para Deus, na dependência de Deus, na consciência de que esse processo está se dando às vistas de Deus, como serviço a Ele, e para capacitar os alunos a servi-lo em tudo o que fizerem. E para isso, tanto o professor como o aluno precisam ser humildes o suficiente para reconhecer que só vão conseguir ensinar ou aprender se Deus os auxiliar a cada instante, dando as palavras certas, capacitando-os a pensarem e a agirem da melhor forma possível e iluminando as mentes e corações para o entendimento das verdades de Deus.

9.3 O Professor Reformado



Uma das dificuldades que enfrenta uma escola que deseje ser genuinamente reformada é a dificuldade de se conseguir um corpo de professores bem preparado nos requisitos essenciais de (1) possuírem um conhecimento profundo do assunto que ensinam, (2) possuírem uma formação teológica bem fundamentada na teologia bíblica e na cosmovisão reformada, e (3) serem capazes de unir esses dois conhecimentos em seu ensino e em sua prática e vida.

Essas competências do educador são necessárias considerando que a educação reformada e o ensino das diversas disciplinas e assuntos a partir de uma ótica bíblica não é algo fácil de ser obtido, ou que pode ser lido num livro qualquer à disposição dos professores, mas é algo, em muitos casos, novo, e que precisa ser elaborado, pensado e aplicado por cada professor cristão. De acordo com Jay Adams (1982, p. 71), os professores “precisam ser bons em teologia, em relacioná-la à educação em todos os níveis e devem saber o que num currículo é diretamente prescrito pelas escrituras e quais os meios e instrumentos devem ser inventados de maneira consistente com as pressuposições, preceitos e princípios bíblicos.”

Dentre as competências e habilidades indispensáveis ao educador reformado estão:

·         Deve ser um pensador, capaz de pensar “pressuposicionalmente", não pragmaticamente no que diz respeito à elaboração de teorias, práticas e metodologias que esteja de acordo com a cosmovisão reformada.

·         Deve ter a habilidade de explicar o assunto de maneira que as crianças venham a entender a verdade. Explicar aqui é entendido como dividir o material em pequenos passos (WEEKS, 1998), expor um determinado assunto em várias etapas, isolando partes do problema e ensinando-as seqüencialmente, ilustrando, repetindo, e ensinando-as a memorizar o que for útil e necessário para lembrança posterior.

·         Deve saber motivar as crianças com os incentivos corretos. O incentivo que deve ser mais usado é o esclarecimento à criança do seu dever para com Deus, ensinando-a que tudo o que ela faz deve ser com dedicação e qualidade, pois constitui um serviço a Deus. O outro tipo de motivação lícito é fazer com que as crianças vejam o resultado de seu trabalho.

·         O professor naturalmente está em posição de destaque e de imitação e por isso deve ser um bom exemplo de vida e de aplicação do conteúdo para seus alunos, a fim de que estes percebam como o que o professor ensina se reflete na sua própria vida e atitudes. James Beeke ([2003?], p. 237) escreveu que “as crianças aprendem um pouco daquilo que dizemos, um pouco mais daquilo que fazemos e muito mais daquilo que somos”. Weeks (1998) também reconhece o fato de que a posição de professor é uma posição delicada: “Durante todo tempo que um professor está ensinando, ele está sob avaliação. Seu caráter é analisado, sua coerência é examinada, suas inconsistências são provadas. É por isso que ensinar é um teste de caráter. O professor dá ordens e exige tarefas. Aqueles que estão sob suas ordens reagirão a qualquer sinal de hipocrisia” (p. 67)

·         O professor deve ser sábio, maduro e firme na aplicação da disciplina, apresentando, de certa forma, as características de pais, que sabem disciplinar com constância, seriedade e amor.

·         Deve reconhecer os seus dons e vocação para trabalhar com o ensino de crianças e deve lutar contra suas dificuldades pessoais, dentre as quais Weeks relaciona (1998, p. 71-74) a falta de organização e disciplina, a estagnação acadêmica e espiritual e a falta de autoridade natural.

·         Os professores devem ainda ensinar com uma sincera consciência da presença de Deus, de estarem sendo usados no serviço de Deus e de sua dependência em relação a Ele.

·         Em termos mais práticos e pessoais, as características desse professor são descritas por Adams, (p. 1982, 95):

O novo professor será uma pessoa viva e dinâmica que sabe lidar com os próprios pecados da maneira que Deus requer, que não hesita em admitir seus erros aos alunos e pedir seu perdão, que cresce por cada experiência desse tipo e sabe como e quando (e quando não) compartilhar suas próprias provações e as soluções de Deus para elas com os alunos. Ele está vitalmente preocupado em agradar a Cristo, é um sério estudioso da Bíblia, é uma pessoa de oração e é dependente do Espírito Santo em seu ensino. Em suma, ele é dedicado a ajudar os alunos a crescer em conhecimento, na vida e no ministério.

 


 



9. 4. Perfil do Aluno na Escola Reformada


A maioria parece concordar que o ideal seria que todos os alunos da escola cristã fossem filhos de pais crentes e compromissados com a fé reformada e com a educação de seus filhos. Entretanto, esse permanece um ideal, pois dificilmente a escola está inserida em uma comunidade apenas de crentes reformados. Nem a igreja está livre de crentes professos, cuja vida acaba demonstrando que nunca tiveram o seu coração convertido por Deus. Não cabe nem à igreja, nem à escola julgar o coração. Ainda reconhecendo esta dificuldade, há posições divergentes.

Num dos extremos, está a posição defendida pelo Prof. David Engelsma (1995. Não paginado), no artigo The Covenant Basis of Christian Education. Fundamentando sua filosofia educacional no conceito bíblico do pacto ou da aliança, Engelsma acredita que a escola cristã

(...) é para as crianças do pacto. Crianças fora da aliança não deveriam ser aceitas, ou seja, filhos de pais descrentes. Em meu parecer, deveríamos aceitar crianças de fora das Igrejas Reformadas Protestantes, e até mesmo de fora das denominações reformadas, mas apenas na condição de que os pais evidenciem verdadeira fé em Cristo e estejam motivados pelo desejo de que seus filhos tenham uma educação cristã.

Ele vai além, entretanto, em sua posição, e enfatiza um outro aspecto: de que a educação cristã é para todos os membros da igreja local, e que por isso não se pode admitir uma escola que tenha práticas excludentes em termos econômicos, políticos, de classe social, raça, ou nenhuma outra forma. Sendo filhos de pais crentes, a escola deve estar de braços abertos para receber qualquer criança e acolhê-la propriamente. Isso significa que:

Essa não é uma escola apenas para os alunos brilhantes ou que são aptos para adentrar na universidade. O caráter pactual da escola demanda que seja dada atenção especial aos alunos que poderiam ser considerados de um nível inferior. No Reino de Deus, a lei é que “prestemos mais honra” aos membros “mais indignos” do corpo (I Co. 12:23). (ENGELSMA, 1995. Não paginado)

 E Engelsma prossegue perguntando seriamente, aplicando este princípio a situações e práticas cotidianas:

As nossas escolas são, de fato, para todas as crianças? Ou as instruções, a pressão das tarefas, a avaliação, e mesmo a atitude do professor são tais que alguns, talvez uma percentagem considerável são virtualmente excluídos? Em nossos padrões e procedimentos, ou talvez em nossa adesão aos padrões do governo, estamos sendo verdadeiros para com a base, o pacto de Deus, especificamente em Sua exigência de atendermos a todas as crianças? (ENGELSMA, 1995. Não paginado)

Esta posição se reflete também na atitude para com os alunos da escola. Se eles são vistos como membros do pacto e filhos da aliança, é correto que o professor os trate como tais, e espere que se comportem como tais. Serão vistos como pecadores caídos, mas que estão sendo santificados em Cristo, embora essa santificação não seja perfeita. Como implicação dessa visão temos a ênfase na disciplina firme e apropriada.

            Mas como ficam todas as demais crianças, que não são filhos de pais crentes? Elas não merecem uma educação? Decerto que sim, e desde Lutero, essa responsabilidade pela educação como bem e necessidade comum foi colocada sobre o Estado. É verdade que Lutero, ao propor uma educação para todos, tinha em mente uma educação reformada, e, sem discernir a diferença essencial entre Igreja e Estado, imaginou que o Estado poderia ser um suporte apropriado para a Igreja Reformada em sua missão educativa. Contudo, embora no tempo da Reforma uma espécie de teocracia tenha sido vista em alguns países em que governantes cristãos alcançaram o governo político, (como foi o caso de Calvino em Genebra), é evidente que essa condição de relação Igreja-Estado no que se refere à educação reformada se mostrou totalmente inviável na história subseqüente. E a escola reformada estatal proposta por Lutero não pôde ser adequadamente estabelecida exatamente pela falta de verdadeiro compromisso de seus mantenedores, dos educadores e dos pais com a fé e com a aplicação da fé reformada à educação.

Ainda assim, de modo mais amplo, não é possível dizer que o intento de Lutero com a difusão da educação pública para todos foi frustrado. Na pior das hipóteses, a educação secular se torna válida ao menos porque alfabetiza as pessoas, e essa alfabetização dá à pessoa a condição básica de ler a Bíblia, com o que pode vir a ser iluminada e salva. Não se está aqui duvidando de que a educação secular tenha alguma utilidade no desenvolvimento cultural de um povo.

A questão mais difícil de ser solucionada é quanto à relação entre a escola cristã-reformada e as pessoas que não têm compromisso com a fé reformada. Por exemplo, que atitude deve tomar a escola reformada quando pais não-cristãos desejam colocar seus filhos ali? Isso pode acontecer com famílias que são vizinhas dessa escola. Ou com pessoas que são apenas “admiradoras” da conduta cristã, ou com pais que querem ver seus filhos numa escola conhecida por prezar pela disciplina e por valores morais, e, num caso bem mais complexo, com pais que professam a fé cristã, sendo membros de uma congregação evangélica, mas que nunca tiveram seu coração de fato transformado pela graça de Deus. Em que bases a escola poderia negar a admissão de um destes alunos? E como poderia aceita-los sob as bases pactuais já demonstradas?

Noel Weeks, em seu livro The Christian School, “A Escola Cristã”, trata exatamente dessa discussão sob o tópico: a escola e o lar ruim (1998, p. 11 e ss.). Para ele, o lar ruim, entendido como o lar que não reflete os princípios da Palavra de Deus, é uma realidade mesmo na escola cristã reformada. Muitas vezes, os pais são novos convertidos que não têm uma base doutrinária sólida e não disciplinam adequadamente os filhos em casa. Essa falta de disciplina repercutirá na escola, sem dúvida. Mas ele responde que a escola, nesse caso, terá o papel de suplementar a educação do lar, e de fornecer os bons exemplos, no caso, de disciplina, que os pais estão falhando em dar.

Mais adiante no livro, o autor fala diretamente das famílias não-cristãs. Ele levanta a hipótese de haver vagas e de haver pais não cristãos querendo colocar seus filhos na escola cristã. Ora, certamente, haveríamos de considerar um outro lado, o lado do amor cristão pelas almas. A escola cristã poderia bem ser um meio de bênção para a criança e para seus pais, pois ali certamente, a criança aprenderia sobre as verdades da Palavra de Deus, e seria apresentada a um modelo bíblico de relacionamento pessoal, de disciplina, etc. Assim como a Igreja não rejeita o maior pecador que ali adentre em busca de arrependimento e de ensino verdadeiro da Palavra, embora esteja autorizada a disciplinar e mesmo excomungar pessoas que deliberadamente rejeitam a Palavra de Deus e a disciplina eclesiástica, assim também parece que na escola se aplicaria um princípio semelhante. Assim como o povo de Israel, embora sendo uma comunidade separada por Deus e chamada Seu povo, não deveria negar abrigo aos prosélitos do judaísmo, isso poderia indicar que a escola cristã deveria ter a destra estendida para receber essas crianças filhas de pais ímpios.

Se este for o caso, e se a escola cristã achar que deveria receber também filhos de pais não-crentes, ela terá que se deparar com um conjunto a mais de possíveis dificuldades que precisarão ser devidamente pensadas e tratadas. Weeks prevê que a presença desses pais e dessas crianças na escola criará problemas e situações complicadas que demandam especial atenção dos educadores, de modo que “precisamos planejar para lidar com elas” (1998, p. 98). Como alguns desses problemas o autor cita os mal-entendidos, a questão do controle da escola, o conflito de bases e valores diferentes, a não-aceitação de práticas bíblicas como a disciplina e a conduta inadequada dos pais, dentre outros, e sugere que a estratégia para que sejam evitados e resolvidos é a honestidade em tudo e o diálogo aberto, desde antes da criança ser matriculada na escola:

Em primeiro lugar, ela deve ser honesta. Se o problema da criança é devido, ao menos em parte, aos problemas dos pais, os pais precisam saber disso. Pessoas que querem uma escola que apenas tome conta de seus filhos, mas que não interfira em suas vidas pessoais não deveriam escolher uma escola cristã (1998, p. 102).

Há ainda uma área em que o recebimento de filhos de pais não cristãos pode levantar objeções. Um dos desejos dos pais crentes ao fundar ou ao colocar seus filhos numa escola cristã é o de protegê-los das influências mundanas, das más companhias, e esse é um desejo justo. E talvez por isso, muitos pais podem vir a objetar quanto ao recebimento de crianças que eles consideram más companhias para seus filhos. A Bíblia também o apóia em textos como o de II Coríntios 6:14-18:

Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; pois que sociedade pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo? (...) Pois nós somos santuário de Deus vivente, como Ele próprio disse: ‘Habitarei e andarei entre eles; serei o seu Deus, e eles serão o meu povo. Por isso, retirai-vos do meio deles, separai-vos, diz o Senhor; não toqueis cousas impuras, e eu vos receberei.

Jay Adams (1982) responde a essa objeção apontando para outra direção, olhando para a questão de outra perspectiva. Ele olha do ponto de vista de que os filhos devem ser criados para o mundo, no sentido de que eles um dia precisarão sair do casulo e da proteção do lar e da escola cristã e precisarão aprender a ser firmes e a serem crentes exemplares num ambiente hostil. E a existência de crianças filhas de pais não cristãos poderia ser um modo de treinar as crianças a lidar com essas questões, a serem obedientes, e fugirem das más companhias, e isso tudo sob supervisão e com cuidado para que elas não sejam expostas a tentações que seu nível de maturidade não é capaz de enfrentar.

Noel Weeks, continuando sua exposição, fornece uma resposta teológica à objeção levantada. Ele recorre à doutrina da fonte ou da origem do pecado, de que o pecado está no coração da criança e cita textos como o de Provérbios 22:15: “a estultícia está ligada ao coração da criança” e o de Marcos 7:21: “Porque do interior, do coração do homem procedem os maus desígnios”. Se isso é verdade, ele conclui que “a tentativa de proteger a criança pela exclusão dos não-cristãos é vã. Não é a exclusão de outros de protege a criança. É a verdade de Deus que combate as propensões da natureza pecaminosa.” (1998, p. 105).

De maneira sábia e bem-equilibrada ele prossegue propondo um meio-termo:

Conhecendo as propensões pecaminosas da natureza pecadora da criança, estamos preocupados em que a criança não seja exposta a problemas e tentações que estejam além do seu nível de maturidade espiritual. Assim, não concordamos com aqueles que vêem a separação como a solução para o problema do pecado na criança. Tampouco concordamos que a criança deva ser indiscriminadamente exposta à tentação.

Na prática, isso significa que nós não excluímos uma criança apenas porque ela pode ser uma má influência. Toda criança é uma má influência em potencial. Excluiremos aquela criança que represente tentações que estão além do nível de maturidade das demais. (1998, p. 105).

Na realidade, Weeks afirma que a criança filha de um lar cristão pode se beneficiar das habilidades diversas, por exemplo, acadêmicas, de uma criança não-cristã, visto que a pedagogia reformada postula que toda criança é rica em habilidades que procedem do fato de serem criaturas de Deus. E estas, por sua vez, podem também ser beneficiadas com o comportamento exemplar que deveria predominar num ambiente de crianças que temem ao Senhor. Quanto aos problemas que certamente surgirão, eles surgirão num contexto em que podem ser tratados da perspectiva da Palavra de Deus pelos professores cristãos.

Não podemos afirmar que nossas escolas não enfrentarão problemas morais. O que podemos afirmar é que nossa política é a de tratá-los dos termos da Palavra de Deus. E até isso fornece um bom exemplo para as crianças à medida em que elas mesmas aprendem a aplicar a Palavra de Deus ao homem. (1998, p. 105).

Todas essas questões concernentes à admissão de crianças não-cristãs na escola cristã constitui uma alternativa à posição que defende que a escola cristã deveria ser apenas para os filhos de pais cristãos. Embora se reconheça que a primeira posição seria ideal, como o ideal seria que se vivesse em um mundo somente de cristãos verdadeiros, é preciso entender que esse mundo não existe enquanto não for restaurado o Paraíso. O fato é que o estabelecimento de uma ou outra política de admissão de alunos não é uma ordenança determinativa sobre a qual a Bíblia dá determinações definitivas, mas sim que constitui uma ordenança normativa que cada grupo de pais e educadores cristãos terão de discutir e analisar de acordo com o contexto em que a escola está inserida, sempre procurando aplicar os princípios normativos que a Palavra de Deus oferece, aliado ao bom-senso cristão e buscando em Deus sabedoria para tratar biblicamente de todas essas questões, desde suas bases filosóficas às suas aplicações educativas mais práticas.

9.5 Disciplina


Uma marca essencial da educação e da escola cristã refere-se à importância da disciplina no contexto escolar, seu fundamento bíblico e a maneira como esta é exercida.

O fundamento bíblico da disciplina remonta às doutrinas do pecado e da necessidade de que ele seja restringido. A disciplina cristã é baseada no ensino bíblico que afirma que Deus confere autoridade a determinadas pessoas, como aos pais, no âmbito do lar, à autoridade civil, no governo civil, e aos administradores nas diversas instituições sociais, como é o caso da escola, para que sejam obedecidas e respeitadas como instrumentos escolhidos de Deus para a manutenção da ordem e punição do erro. As autoridades, portanto, precisam ser obedecidas e respeitadas desde que elas não ultrapassem ou contradigam as leis de Deus, o Soberano Senhor. E quem desobedece precisa ser sofrer as conseqüências da desobediência, através da disciplina punitiva.

Esse base bíblica da disciplina, fundamentada no princípio da autoridade, que precisa estar bem claro e ser ensinado às crianças, especialmente aos adolescentes, que são mais tendentes a questionar e a se rebelar com o exercício da disciplina, é demonstrada por Beeke [2003?] da seguinte maneira:

Deus é a Autoridade última. Ele é o Criador, Senhor e Rei de toda criação, inclusive de todos nós. Portanto, Ele tem o direito de reinar sobre nós e sobre todas as coisas. Ele também sabe o que é melhor para nós e para todas as suas criaturas. Deus revelou sua vontade na sua Palavra, a Bíblia. Sua Palavra tem força de lei para nós; suas verdades são verdades absolutas. Aquilo que a Palavra de Deus proclama ser verdade, é verdade; e o que ela declara ser errado, é errado, independentemente de que nós ou qualquer outra criatura concordemos ou não. Deus e sua Palavra são a fonte última e absoluta dos certos e errados.

Para regular as questões nos assuntos humanos, entretanto, Deus delegou autoridade a pessoas para governarem as quatro esferas da vida humana. Deus escolheu os pais para governarem suas casas; os oficiais e ministros para as igrejas; as autoridades civis para o governo civil e administradores para cada instituição - escolas, negócios, organizações, etc. Entretanto estas posições são de autoridade delegada, não absoluta. É importante para os jovens entenderem que seus pais e professores são responsáveis diante de Deus sobre como usam a autoridade que lhes foi concedida para governar suas casas e salas de aula. Eles não podem governar como querem; eles são chamados para governar como Deus quer. Eles estão em posições de autoridade delegada, não absoluta. Tente ajudá-los a entender que você, como professor ou pai, está também sob autoridade; que vocês também devem ser obedientes a uma autoridade, ou seja, a Deus e a sua Palavra. (p. 240-241)

A educação cristã vê a disciplina, a existência de regras e normas bem estabelecidas e o papel das autoridades e do governo não como um obstáculo à expressão e a liberdade das crianças, mas como um meio dado por Deus para garantir a liberdade individual e o bem social. A Bíblia considera que as pessoas, se deixadas à sua própria vontade, são egoístas, más, violentas por natureza, e o pecado precisa ser tolhido. Beeke fornece um exemplo muito interessante de como a lei e a disciplina têm o papel de garantir a liberdade:

Imagine nossa autoridade civil decretando que todos as leis de trânsito deixariam de existir amanhã. Não haverá mais sinais de trânsito, de parada obrigatória ou de limite de velocidade. Uma completa liberdade na direção será concedida. Cada um poderá dirigir como quiser. Não haverá nenhuma autoridade para estabelecer ou fazer cumprir qualquer regulamento de trânsito. Vocês podem imaginar o que aconteceria? Com a remoção desta autoridade e o caos resultante, nossa liberdade de dirigir com segurança estaria perdida. Boas leis de trânsito e sua consistente obrigatoriedade asseguram nossa liberdade de usar nossas estradas com segurança. ([2003?], p. 241).

Com base nesse princípio de que as crianças são pecadoras, e de que a autoridade é instrumento de Deus para a liberdade e para o bem comum, a escola cristã não considera que seja bom para as crianças deixá-las fazer o que desejam. Algumas vezes, a vontade deve ser quebrada, beneficiando tanto as crianças que sofrem a disciplina, pois aprendem a ser subjugadas e a obedecer, quanto as outras, pois serve de exemplo e de prevenção, fazendo com que os demais temam, sendo também imprescindível à liberdade social.

Mas em sua exposição sobre a disciplina cristã, Beeke lembra que a disciplina não tem somente este caráter negativo, de punição. Na verdade, a palavra disciplina provém da palavra discípulo, e aponta para a sua real natureza: as crianças devem ser discipuladas. Ora, um discípulo é aquele que segue o seu mestre, não somente que recebe o conhecimento, mas alguém que segue as instruções e o exemplo do seu mestre. O autor realça o sentido e a abrangência da disciplina:

Como pais e professores devem disciplinar seus filhos ou alunos? Eles devem “discipulá-los”; treiná-los a seguir, a abraçar, a seguir, o caminho que lhes é ensinado. Isto, é claro, suscita a questão pertinente sobre quem ensina e quais são os ensinamentos. Os ensinamentos de uma escola revelam sua “religião”.  Uma escola humanista discipula seus alunos no humanismo; uma escola cristã, no cristianismo. Uma disciplina humanisticamente, a outra, cristãmente. Como professores cristãos, devemos discipular nossos alunos no caminho e na verdade de Deus, na sua Palavra. Devemos discipliná-los como Deus gostaria que o fizéssemos - a semelhança de Cristo. ([2003?], p. 240).

A disciplina deve ser tanto preventiva, através do ensino e do estabelecimento claro do que se requer dos alunos e das conseqüências da desobediência, como corretiva, a fim de que as crianças entendam que a desobediência desagrada a Deus e portanto deve ser punida. A disciplina preventiva aponta para a necessidade da instrução bíblica. Parte-se do princípio de que a instrução no bom caminho é um meio de evitar que as pessoas se desviem dele, como é indicado em versos bíblicos como o de Provérbios 22:6: “Ensina a criança no caminho em que deve andar e ainda quando for velho, não se desviará dele” e o de Efésios 6:4: “E vós, pais, não provoqueis vossos filhos à ira, mas criai-os na disciplina [punição bíblica] e na admoestação [instrução bíblica] do Senhor.”

A disciplina preventiva tem como alvo principal deixar bem claro o que é certo e o que é errado de acordo com a Lei de Deus, e como essa lei é aplicada nas regras específicas da escola. A educação cristã tem a obrigação de ensinar, por exemplo, que o oitavo mandamento “Não furtarás” (A BÍBLIA..., Êxodo 20:15) também significa que não se deve roubar as idéias e as palavras de outros, que não se deve “colar”. A disciplina preventiva deixa claro o que é valoroso, nobre e agradável a Deus e o que se espera dos alunos, e porque isso é esperado deles, através de regras consistentes, instruções claras e biblicamente bem-fundamentadas e o conhecimento da punição que segue a desobediência.

Mas, mesmo com toda a instrução apropriada, com o que se espera diminuir grandemente a necessidade da punição, a constatação de que os alunos são pecadores e que só a instrução não basta, demonstra a necessidade da administração da disciplina corretiva. A disciplina cristã não consiste de ameaças vazias ou de regras inconstantes e mutáveis, mas deve ser administrada com firmeza e consistência, com amor e zelo, buscando correção, não retaliação, e deve ainda ser acompanhada por bons exemplos. Uma observação feita por Comênio sobre o assunto da disciplina é importante de ser lembrada aqui. A disciplina cristã deve ser mais severa não no que se refere “ao estudo e às letras, mas aos costumes, porque, se estiverem bem organizados, os estudos constituirão por si mesmos um prazer para as mentes, e, pelo prazer que proporcionam, atraem e arrebatam todos” (COMÊNIO, 1997, p. 312).

Certamente que é necessário distinguir-se entre comportamentos acidentais e comportamentos que provém de intenções más do coração. A disciplina não pode ser a mesma para a criança que, brincando de jogar terra no colega, suja a farda do outro, e para outra que, revoltada com alguma proibição do professor, bate nele raivosamente. Também a disciplina mais dura deve ser exercida contra hábitos e atitudes pecaminosas em si, não porque o aluno errou na tabuada, ou tirou nota baixa em um teste. Comênio chega a estabelecer graus de severidade da punição de acordo com a gravidade do pecado:

Mais rigorosa e severa deve ser a disciplina para com os que atentam contra a moral: 1) para os pecados de impiedade, como blasfêmias, obscenidades, atos de qualquer tipo contra a lei de Deus; 2) Para a arrogância ou a maldade premeditada, como quando se desprezam as ordens do preceptor ou de algum superior e não se faz deliberadamente o que se deveria fazer; 3) para os pecados de soberba e de altivez, ou mesmo de inveja e preguiça, como quando alguém se recusa a ajudar o companheiro que lhe pede alguma explicação.

Os pecados do primeiro tipo ofendem a majestade de Deus; os do segundo tipo destroem as bases de todas as virtudes (que são a humildade e a obediência); os últimos detém ou retardam a possibilidade de fazer rápidos progressos no estudo (COMÊNIO, 1997, p. 313-314).

O objetivo claro e o alvo da disciplina cristã é também descrito por Comênio:

“A essência das coisas que dissemos e que devem ser ditas é que a disciplina deve tender a formar, a reforçar e a favorecer sempre nos jovens que educamos para Deus e para a Igreja uma harmonia de sentimentos semelhante àquela que Deus quer para seus filhos, que são confiados à escola de Cristo, para que exultem com tremor (Sl II, 10) e busquem a salvação com temor e tremor (Fp II,10), para que se regozijem sempre no Senhor (ibid., 4), vale dizer, para que possam e saibam amar e reverenciar os que educam, não apenas se deixando conduzir aonde convém, mas desejando-o ardentemente. Essa harmonia só pode ser obtida pelos modos acima indicados, ou seja, com bons exemplos, com palavras doces e com afeto pleno e sincero, reservando-se raios e trovões apenas para casos excepcionais, e sempre com a intenção de que a severidade seja uma manifestação de amor” (COMÊNIO, 1997, p. 315-316)

Numa palavra, a disciplina deve tender a “estimular a reforçar com a constância e a prática, em todos e em tudo, o respeito a Deus, a dedicação ao próximo e o entusiasmo pelos trabalhos e os deveres da vida” (COMÊNIO, 1997, p. 314).

9.6. Níveis de Ensino


Haveria um nível de ensino específico ou mais apropriado para o início ou para o término de uma educação cristã reformada?  É o ensino reformado um empreendimento apenas para atingir as crianças bem jovens e colocar nelas certos princípios morais? Ou seria a educação reformada uma educação complexa e dada a discussões acadêmicas mais apropriada aos níveis mais avançados, especialmente para a universidade?

A resposta unânime dos educadores reformados é que ela deve buscar ser um empreendimento que vá do jardim da infância à universidade, e aqui estamos entendendo educação no sentido amplo, como começando no lar. Não estamos aqui defendendo que os pais crentes são obrigados a ingressar seus filhos numa escola cristã em sua mais tenra idade. Pelo contrário, se os pais, verdadeiros responsáveis pela educação de seus filhos, tiverem condições de oferecer-lhes uma educação cristã em casa até o tempo que considerarem que a criança já está numa idade mais madura para deixar o lar e adentrar no ambiente escolar, estariam fazendo um bem muito maior a seus filhos do que se considerassem que a partir de 2 ou 3 anos de idade, a responsabilidade pela educação de seus filhos passa a ser de uma instituição escolar.

A idéia é que, seja no lar, seja na escola, a educação cristã reformada deve ser desenvolvida e aplicada de maneira consistente por toda a vida do indivíduo. Muitas vezes, os esforços aplicados nos primeiros anos de vida da criança em prol da formação de um caráter cristão são perdidos, pois, por falta de um ensino reformado nos níveis superiores, o jovem passa a ter contato com as filosofias e práticas educacionais anti-bíblicas quando ainda não está maduro para manter-se firme na verdade, e ele acaba se contaminando com elas, seja no ensino médio, seja no ensino universitário, marcado pela pretensa superioridade científica e negação do Evangelho. O caminho oposto também acontece: é muito difícil educar um jovem nos preceitos cristãos quando ele não aprendeu a pensar e agir cristãmente em sua vida educacional prévia.

Gordon Clark (1987 apud ROBINS, 1987) apresenta uma filosofia de Educação Reformada coerente que deve guiar “não apenas a universidade, mas também o jardim da infância. O propósito da educação é… homens crentes. Guiados pela filosofia cristã, o jardim da infância como a universidade, têm como alvo ensinar o amor da verdade e de Deus nas mentes dos jovens”.

Por isso também que no decorrer da história da educação reformada, constata-se a importância que os pensadores e educadores reformados deram à educação em todos os níveis escolares. Os reformadores enfatizaram tanto a educação elementar e a alfabetização como a criação de escolas secundárias de gramática e se empenharam em incentivar o estabelecimento de universidades reformadas. Os puritanos foram os implementadores da educação universitária reformada na Europa e nos EUA. Comênio propôs em sua Didática Magna um currículo cristão que compreendia desde a educação infantil ao Colégio da Luz, que corresponderia à atual formação superior. Comênio, ao estabelecer 4 tipos de escolas, a saber, a escola materna, para a infância, a escola vernácula pública, para a meninice, a escola latina, ou ginásio, para a adolescência, e a Academia para a juventude, que fossem uma continuação e progressão da educação cristã, no sentido de que os estudos iriam se aprofundando e novas habilidades sendo introduzidas de acordo com as facilidades da idade do aluno. Todas as etapas eram imprescindíveis, como se lê:

(...) na escola materna devem ser exercitados sobretudo os sentidos externos, para que os alunos se habituem a usa-los de maneira correta para o conhecimento dos objetos. Na vernácula, exercitam-se os sentidos internos, que são a imaginação e a memória, e seus órgãos respectivos, que são a mão e a língua: lendo, escrevendo, pintando, cantando, contando, medindo, pesando, aprendendo de cor, etc. No ginásio formam-se a inteligência e o juízo sobre todas as coisas captadas através dos sentidos, com o uso da dialética, da gramática, da retórica e de todas as outras ciências e artes ensinadas segundo o “como” e o “porquê”. As Academias, enfim, formarão as coisas que pertencem à vontade, ensinando a manter as faculdades em harmonia (e a restabelecer a harmonia daquilo que dela se afastar), possibilitando o estudo da teologia no que se refere à alma, da filosofia no que se refere à mente, da medicina no que se refere às funções vitais do corpo, da jurisprudência no que se refere aos bens externos. (COMÊNIO, 1997, p. 321)

A educação cristã, se for bem dada em todos esses níveis, pode ser comparada, como descreve Comênio,  ao cultivo de pomares, demonstrando a importância de essa educação ser exercida desde a infância à juventude:

As crianças de seis anos, bem preparadas pelos pais e pelas amas, são semelhantes às arvorezinhas plantadas com perícia, que têm raízes bem desenvolvidas e já começam a emitir os primeiros ramos. As crianças de doze anos são semelhantes às árvores que já têm ramos e gemas: o que produzirão ainda não está claro, mas logo estará. Os adolescentes de dezoito anos, que já sabem as línguas e as várias artes, são semelhantes às árvores floridas, que oferecem aprazível espetáculo e odor agradável, prometendo frutos suculentos. Finalmente, os jovens de vinte e quatro ou vinte e cinco anos, completamente formados pelos estudos universitários, parecem-se árvores carregadas de frutos, que já podem ser colhidos e utilizados de vários modos. (COMÊNIO, 1997, p. 323)



 

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Os Deveres dos Pais - J. C. Ryle (Parte 6)


v. Treine o seu filho ao conhecimento da Bíblia.

 Eu admito que você não pode forçar os seus filhos a amarem a Bíblia. Ninguém, senão o Espírito Santo, pode nos dar um coração que se deleita na Palavra. Mas você pode fazer com que os seus filhos sejam familiarizados com a Bíblia, e esteja certo de que eles nunca serão familiarizados com ela cedo demais ou bem demais.

Um conhecimento abrangente da Bíblia é fundamental para uma visão clara sobre a religião. Aquele que está bem estabelecido nela, de forma geral, não será encontrado vacilante ou será facilmente levado por qualquer novo vento de doutrina. Qualquer sistema de treinamento que não estabeleça como prioridade o conhecimento das Escrituras é perigoso e falso. 

Você precisa ser cuidadoso nesse ponto agora, pois o Diabo está atuando no mundo afora e o erro é abundante. Alguns serão encontrados entre nós, os quais dão à Igreja a honra devida somente a Jesus Cristo. Outros serão encontrados, os quais fazem dos sacramentos os seus salvadores, como se fossem passaportes para a vida eterna. E da mesma maneira, alguns serão encontrados, os quais honram um catecismo mais do que a Bíblia, ou que enchem as mentes dos seus filhos com miseráveis livros de historinhas, ao invés de o fazerem com as Escrituras da verdade. Mas se você realmente ama os seus filhos, deixe simplesmente que a Bíblia seja tudo no treinamento das suas almas, e que todos os outros livros se submetam e tomem o segundo lugar.

Não se esforce tanto para que eles sejam proficientes no catecismo, quanto para que eles sejam proficientes e hábeis nas Escrituras. Este é o treinamento, creia em mim, que Deus irá honrar. O salmista diz sobre Ele: “Pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra”, e eu acredito que Ele concede uma bênção especial a todos aqueles que a magnificam entre os homens.

Cuide para que os seus filhos leiam a Bíblia de modo reverente. Treine-os a olharem para ela não como palavra de homens, mas como ela na verdade é: a Palavra de Deus, escrita pelo próprio Espírito Santo – sendo totalmente verdadeira, eficaz e hábil para nos tornar sábios para a salvação, por meio da fé que está em Cristo Jesus.  

Cuide para que eles a leiam regularmente. Treine-os a considerá-la como o alimento diário das suas almas – como algo essencial para a saúde diária das suas almas. Eu bem sei que você não pode fazer com que isso seja nada a mais do que uma mera forma ou hábito; mas é indizível o quanto esta mera forma, indiretamente, pode fazer com que o pecado seja restringido.

Cuide para que eles a leiam completamente. Você não deve restringir nenhuma doutrina a ser trazida diante deles. Você não precisa pensar que algumas das principais doutrinas cristãs são coisas que crianças não conseguem compreender. As crianças entendem muito mais da Bíblia do que nós imaginamos.

Fale a elas sobre o pecado, sobre a sua culpa, sobre as suas consequências, o seu poder, a sua vileza: você verá que elas sempre podem entender alguma coisa sobre isso.

Fale a elas sobre o Senhor Jesus Cristo e a Sua obra para a nossa salvação – sobre a expiação, sobre a cruz, sobre o sangue, o sacrifício e a intercessão: você descobrirá que em tudo isso há algo que não está além das suas compreensões.

Fale a elas sobre a obra do Espírito Santo no coração do homem, como Ele transforma, renova, santifica e purifica: você logo verá que em tudo isso elas podem lhe acompanhar, até certo ponto. Em suma, eu suspeito que nós não fazemos ideia do quanto as crianças pequenas podem assimilar do comprimento e da largura do glorioso evangelho. Elas veem muito mais destas coisas do que nós supomos.

Quanto à idade na qual a instrução religiosa deve começar, não se pode estabelecer uma regra geral. A mente parece se abrir, em algumas crianças, muito mais cedo do que em outras. Dificilmente nós começamos cedo demais. Há maravilhosos exemplos registrados acerca do que uma criança pode chegar a compreender, mesmo aos três anos de idade.

Encha as suas mentes com as Escrituras. Deixe que a Palavra habite ricamente nelas. Conceda-lhes a Bíblia, a Bíblia inteira, enquanto elas ainda são jovens.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Livro da Queda para Crianças - HISTÓRIA 5: A TENTAÇÃO


 
História 5

A TENTAÇÃO

Quando Satanás resolveu tentar Adão e Eva, ele não quis aparecer como ele realmente era -  aquele ser perverso e horrível, aquele anjo da escuridão que acabou de vir da sua prisão assombrosa. Ele se tornou como uma serpente, assim como muitas outras que Adão e Eva tinham visto tantas vezes, e da qual eles não tinham medo nenhum.

Ele encontrou Eva sozinha, e perto da árvore proibida. Adão estava meio distante em alguma outra parte do jardim, cuidando, talvez, das árvores e plantas, ou colhendo alguma outra fruta para comer.

A serpente, ou melhor, Satanás na forma da serpente, falou com Eva. Ele perguntou a ela se Deus tinha mesmo dito que eles não deveriam comer de nenhuma árvore do jardim.

"Ah, sim", ela disse, "nós podemos comer do fruto das árvores do jardim. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse 'vocês não devem comer dele, nem tocar nele, ou vocês morrerão'".(Gênesis 3:2,3)

Eva se lembrava muito bem do que Deus lhe havia dito; e ela deveria imediatamente ter fugido, o mais rápido possível, de alguém que ela deve ter visto que estava tentando levá-la a pensar que o mandamento de Deus era muito exigente. Até a maneira como Satanás falou com ela mostra que era isso que ele queria fazer.

E esse é o modo, minha querida criança, como você também pode ser tentado a fazer o mal. Ou o seu próprio coração mau, ou alguma pessoa má vai levar você a pensar, de primeiro, que o mandamento dos seus pais ou professores, ou de Deus mesmo, é muito estrito. Quando você se encontrar começando a pensar assim, - Pare! Pare de vez. Olhe para Deus. Ore para Ele em sua mente, pedindo para que Ele lhe ajude a se livrar de tais pensamentos e a fugir de tal pessoa perversa.

Essa é a única maneira de você poder permanecer seguro, e escapar da tentação. Se Eva tivesse feito isso, ela teria estado segura. Mas em vez de fugir, ela ficou ali, para ouvir o que o tentador tinha ainda a dizer para ela.

O que você acha que Satanás fez a seguir? Ora, justamente aquilo que uma pessoa perversa está sempre pronta para fazer quando ela está tentando fazer alguém pecar. Ele contou uma pura mentira. Ele ousou contradizer o que Deus havia dito, e acusar o próprio Deus de ter falado o que é falso.

"É certo que não morrereis", disse Satanás, "pois Deus sabe que no dia em que comerdes esse fruto, os seus olhos serão abertos, e como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal". (Gênesis 3:4,5). Ele queria fazer Eva acreditar que não havia o menor perigo em comer do fruto proibido, e que pelo contrário, tanto ela como Adão iriam ganhar coisas muito boas se comessem dele. De uma maneira ou de outra, aquele fruto iria capacitá-los a conhecer muitas coisas novas e interessantes, tal como uma pessoa que era cega e teve a vista restaurada irá abrir os seus olhos e de repente ser capaz de ver milhares de objetos belos e maravilhosos. Satanás falou para Eva que eles iriam conhecer tanto sobre coisas boas e más, que eles iriam ser como Deus mesmo em conhecimento.

Dessa maneira, Satanás tentou fazer Eva sentir que Deus era duro demais em seu mandamento, e que ele deveria ter permitido Adão e ela comerem de todos os frutos do jardim, sem nenhuma exceção.  Ele tentou fazer ela se sentir inquieta e insatisfeita, e a fez pensar que ao comer o fruto proibido ela iria ser muito mais feliz e sábia do que ela era então.

É exatamente isso que acontece com toda tentação para o pecado. Não foi assim que você pensou e se sentiu quando você foi tentado? Você ficou descontente com aquilo que tinha. Você começou a achar, ou pensando por si mesmo, ou por causa do que alguma pessoa má lhe falou, que havia alguma coisa que se você pudesse conseguir, ou fazer, você iria ser muito mais feliz. Mas acontece que o seus pais, ou professores, ou Deus mesmo na Bíblia, haviam proibido você de ter ou de fazer exatamente esta coisa. Você então começou a se sentir incomodado com essa proibição. Você achou ela muito restritiva. Você achou ela injusta. Você pensou na punição que lhe estava ameaçada se você desobedecesse. Você esperou que de alguma maneira ou de outra você iria escapar desse castigo, ou que havia algum engano e que não seria bem assim, e que não havia nenhum risco de você ser castigado. O seu próprio coração maligno, ou algum companheiro perverso lhe disse isso, e a tentação começou a levar você à desobediência.

Por isso, quando você começar a pensar e a se sentir assim novamente, lembre-se de Eva. Lembre-se de como Satanás a tentou; de como ele mentiu e tentou enganá-la. E você vai de novo deixar uma mentira enganar você, e levar você a desobedecer a Deus, e fazer com que Ele se entristeça com você?

Toda tentação para o pecado, quer ela venha do seu próprio coração perverso ou de algum companheiro mau, é uma mentira. É uma mentira exatamente como aquela que Satanás contou a Eva. Se você acreditar nela, se você ceder a ela, se você fizer a coisa errada, é como se você estivesse dizendo, como Satanás disse, que Deus é mentiroso. Você está dizendo que você não acredita que o que Deus diz é verdade. Pois Ele disse que Ele vai certamente punir os pecadores com o mais terrível castigo. E quando você cede à tentação e peca contra Ele, você está dizendo, pela sua conduta, que você não acha que você realmente vai sofrer tal castigo.

Você vai ter mesmo a ousadia de fazer como Satanás e acusar o grande Deus de ser falso? Você ousa dizer ou pensar que você pode pecar contra ele, e escapar da punição que ele ameaçou contra os desobedientes? - O que ele ameaça ele fará. "Terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo". "Temei, antes, aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer." (Hebreus 10:31; Lucas 12:5)

Tema pecar contra Deus. Tema mesmo o começo dos pensamentos e sentimentos malignos. Ore sinceramente a Deus pelo seu Espírito Santo, para que você seja libertado deles imediatamente.
 
Para Colorir:
 

 
 
 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Os Deveres dos Pais - parte 5

IV. Treine os seus filhos sempre com a consciência de que o principal a ser levado em consideração é a alma deles.

Preciosos, sem dúvida, são estes pequeninos aos seus olhos. Contudo, se você os ama, pense continuamente nas suas almas. Nenhum interesse deveria pesar tanto aos seus olhos quanto os seus interesses eternos. Nenhuma parte deles deveria ser tão preciosa aos seus olhos quanto aquela parte que nunca morrerá. O mundo, com toda a sua glória, passará; os montes derreterão; os céus serão enrolados como um pergaminho; o sol cessará de dar o seu brilho. Mas o espírito que habita nessas pequenas criaturas, as quais você ama tanto, sobreviverá a tudo isso. No entanto, se ele sobreviverá em felicidade ou em miséria eterna, isso depende de você (humanamente falando).

Este é o pensamento que deveria vir em primeiro lugar na sua mente em tudo o que você faz pelos seus filhos. A cada passo que você toma com relação a eles, a cada plano, a cada método, e a cada arranjo que os envolve, não deixe de lado esta poderosa questão: “como isto afetará as suas almas?”

O amor à alma é a alma de todo amor. Acariciar, mimar e ceder a todos os desejos da sua criança, como se este mundo fosse tudo o que ela tivesse para almejar, e como se esta vida fosse a única época para a felicidade – fazer isso não é amor verdadeiro, e sim uma crueldade para com elas. É tratá-la como qualquer animal neste mundo, que não possui mais do que esta vida para aproveitar, e nada após a morte. É esconder dela esta grande verdade, a qual ela deve ser treinada a aprender desde a mais tenra infância – de que o fim principal desta vida é a salvação da sua alma. 

Um verdadeiro cristão não deve ser escravo da moda, se é que ele deseja treinar os seus filhos para o céu. Ele não deve se contentar em fazer coisas meramente porque elas são o costume deste mundo; ele não deve se contentar em ensiná-los e instruí-los de certa maneira meramente porque todos fazem assim; ou em permitir que eles leiam livros de questionável classificação, meramente porque todo mundo os lê; ou em deixar que eles formem hábitos de tendência duvidosa, simplesmente porque eles são os hábitos da época, ou que estão na moda. O verdadeiro cristão deve treinar os seus filhos com os olhos fitos nas suas almas. Ele não deve sentir vergonha ao ouvir o seu treinamento sendo acusado de estranho e esquisito. E daí se ele realmente for estranho? O tempo é curto – a moda deste mundo passará. Aquele que tem treinado os seus filhos para o céu, e não para a terra; para Deus, e não para o homem, este é o pai que será chamado sábio afinal. 

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Epistemologia Reformada (Capítulo 8 do Livro "Fundamentos Filosóficos de uma Educação Bíblico-Reformada"


 

 

Nota de Introdução:

Em nossa busca por uma filosofia da educação reformada, temos visto que o nosso ponto de partida não pode ser o pensamento secular (nem por meio de síntese, nem tentando uma co-existência pacífica) [capítulo 5], mas que devemos construir desde o princípio sobre fundamentos distintamente reformados, dentre os quais destacamos os pressupostos sobre a bíblia, sobre a pessoa e as obras de deus, e sobre os estados da pessoa humana como três eixos principais que delineiam o nosso ideal educacional [capítulo 6]. No capítulo anterior, investigamos o que a bíblia tem a dizer a respeito da própria razão de ser da educação, e respondemos às perguntas básicas: "Por que educar?" e "Para quê educar?" [ capítulo 7].

Este capítulo prossegue tratando de um tema central à filosofia educacional, A Teoria do Conhecimento, buscando indicar soluções distintamente cristãs para questões debatidas como: "Qual é, e como podemos descobrir o verdadeiro sentido das coisas? Como professores e alunos cristãos devem lidar com a ciência e com o conhecimento humano acumulado na história? Existe uma lei que rege o conhecimento? De onde surge o conhecimento: ele é inato ou adquirido? E no que consiste o verdadeiro aprendizado?

Você pode ler um ítem de cada vez, com atenção, anotando novas descobertas e novas questões que o texto levanta, ou discuta as implicações desses pontos com um grupo. Boa leitura!

 

 

FUNDAMENTOS FILOSÓFICOS DE UMA EDUCAÇÃO BÍBLICO REFORMADA 

CAPÍTULO 8

 

 EPISTEMOLOGIA REFORMADA

A Teoria do Conhecimento Segundo a Bíblia

 


 


8.1 A Revelação de Deus e a Responsabilidade Humana


 

Na concepção reformada, a criação possui estrutura e sentido próprio por ser a própria revelação de Deus, juntamente com a Bíblia. Ao contrário da epistemologia humanista, não é o homem quem dá sentido ao mundo, à história, às ciências, etc, mas Deus já os criou com sentido, sentido este que é explicitado na Bíblia, a revelação escrita de Deus. A Bíblia é a chave para a descoberta do verdadeiro sentido das coisas. Quanto à mensagem, a revelação de Deus na criação e na Bíblia são uma só e por isso a epistemologia reformada parte do princípio de que a criação só pode ser propriamente lida pelos homens (pecadores que tiveram sua razão e sentidos corrompidos desde a queda), através das lentes corretoras da Bíblia. Esta é precisamente uma aplicação de um princípio primordial da reforma na educação:

O que acabamos de dizer não é nada mais que uma reafirmação do princípio da Reforma do Sola Scriptura. A Escritura não é a única fonte de conhecimento e sabedoria. O conhecimento é adquirido da criação que é repleta de sentido em todos os lugares, mas a Escritura é a chave indispensável para a descoberta do sentido. (FOWLER, 1982, p. 45).

Essa posição reformada parte do princípio de que, como a criação é revelação, não é possível separar a criação da revelação a fim de torná-la objeto de estudo científico, pretendendo a suposta neutralidade religiosa defendida por secularistas. Ao contrário, a posição reformada é a de que o significado e a estrutura da criação só podem ser conhecidos em seu sentido mais completo à luz da revelação. Fowler interpreta que é este o sentido mais profundo do verso bíblico: “o temor do Senhor é o princípio do saber” (Provérbios 1:7):

 

O temor do Senhor, e não algum tipo de análise teórica, é a porta para a sabedoria e o conhecimento.

Ao afirmar isso não estamos dogmatizando mais do que Monod dogmatiza quando ele afirma o princípio da objetividade lógica como a chave para todo o conhecimento. Estamos simplesmente articulando um princípio epistemológico fundamental que está de acordo com a nossa base religiosa. Afirmamos claramente nossa rejeição a toda idéia de que o sentido, em sua riqueza e profundidade, pode ser reduzido a um sentido lógico, matemático ou moral. Insistimos que, em sua profundidade, o sentido é de natureza religiosa, revelando-se a nós na raiz religiosa de nossa existência. (1982, p. 46, 47).

A Bíblia, ou a lei de Deus, portanto, é de fundamental importância e necessidade para o conhecimento e por isso deve-se considerar a sua natureza, papel e extensão. A Bíblia afirma que Deus é o Criador e o Legislador do Universo. É de se esperar, portanto, que a Lei por Ele criada não se restrinja ao âmbito da fé e da moral, mas abranja e governe tudo, cada centímetro do universo, e muito embora não encontremos na Lei de Deus os detalhes especificando como os movimentos de rotação elíptica dos planetas, a Bíblia apresenta os princípios fundamentais que regem o cosmos.

O princípio básico afirmado pela Bíblia, é que o cosmos subsiste em Cristo, que é a Palavra de Deus. A Bíblia afirma que o mundo foi criado e subsiste pela Palavra ou pelo Logos divino: “pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis (...) Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.” (A BÍBLIA..., Colossenses 1:16,17) e em Atos 17: v. 24, 25, 28:

O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas, nem é servido por mãos humanas, como se de alguma coisa precisasse; pois ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo o mais; (...) Pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos (...).

Esses textos bíblicos ensinam que todas as coisas encontram sua subsistência, coerência, unidade, sustento e sentido na pessoa de Jesus Cristo. Isso significa que o homem não pode dar coerência ou subsistência ao universo pela sua livre ação, tampouco que ele pode romper a unidade que a criação apresenta em Cristo, o qual reina sobre toda a criação como o seu Mantenedor e Redentor através de sua palavra.

E este é precisamente o significado de Lei: “A Palavra de Deus, que sustenta a criação, é revelada ao homem, na revelação integral da Escritura e da Criação, como Lei” (FOWLER, 1982, p. 48).

O que isso revela sobre o papel do homem? Ele não é um passivo observador do sentido da criação; tampouco é o homem quem dá sentido a criação. Na concepção reformada, o homem é aquele que descobre o sentido da criação através de sua ação responsável, ordenada por Deus desde a criação da raça humana. Desde Gênesis, o homem foi colocado no jardim do Éden para dominar e para governar a criação, segundo os princípios maiores estabelecidos por Deus.

Fowler distingue na Lei de Deus o que chama de ordenanças determinativas e ordenaças normativas. As primeiras constituem as leis divinas que regem e dão estrutura ao Universo à parte do homem e de sua ação, como é o caso da denominada Lei da Gravidade. Já as ordenanças normativas “fornecem os princípios normativos para a atividade formativa do homem como descobridor do sentido da criação” (FOWLER, 1982, p.48). Essas ordenanças declaram o que deve ser ao invés de determinar o modo como as coisas são.

O homem é, portanto, um governante responsável da criação. Ele não é determinista ou fixo em sua ação, tampouco é autônomo, podendo agir como se não houvesse lei a que prestar contas. Diferentemente dessas duas posições extremas, a Bíblia ensina que o homem, ao governar sobre a criação, é livre para agir somente de acordo com essas ordenanças reveladas por Deus. O homem forma normas, sim, adequadas a cada contexto e época histórica, por exemplo, sobre a exploração dos recursos naturais, como a madeira. Entretanto, essa norma positiva que ele deve estabelecer deve estar de acordo com os princípios normativos dados por Deus. Um destes princípios aplicáveis ao caso é que a criação foi feita para o homem e não o homem para a criação. A madeira foi feita para o homem, e não o homem para a madeira e, portanto, é perfeitamente correto, segundo a Bíblia, que o homem usufrua da criação para suprir as suas necessidades. Este princípio do usufruto é balizado por outro princípio bíblico da moderação na atividade humana, na preservação do mundo que Deus criou. Quando a exploração da madeira descamba para uma atividade que põe em risco a sobrevivência de certas espécies da fauna e da flora, ela passa a contrariar esta norma divina. Em tudo isso, o homem não deixa de ser um governante responsável em sua atividade e responsabilidade de fazer leis, embora não seja autônomo.

Essas ordenanças normativas, encontradas na Bíblia em forma de princípios sobre como as coisas devem ser, abarcam a esfera moral tanto quanto a esfera ambiental cujo exemplo estivemos considerando, tanto quanto a esfera econômica, jurídica, estética, social, política, e assim por diante. Fowler enfatiza que os cristãos parecem ter uma tendência de reduzir as ordenanças normativas à esfera moral, degenerando em um código moral sobre como se deve vestir, falar, etc. Fazer isso traz graves conseqüências educacionais, visto que “reduzir a função normativa da Palavra de Deus a uma norma moral é remover a maior parte da atividade humana da autoridade da Palavra de Deus e assim dirigir a vida humana para dentro do abismo do subjetivismo”. (1982, p. 49)


8.2 Implicações Educacionais           


 

Quais são as principais implicações educacionais do reconhecimento dessas ordenanças divinas e do papel do homem como descobridor do sentido da criação? Uma delas diz respeito à posição do reformado para com a ciência. Por um lado, o pensador reformado não pode ser anti-científico. A interação do homem com a criação e o estudo desta pelo homem, quer seja ele crente ou não, produz um tipo de conhecimento fundamentado em experiências, o qual constitui uma análise válida, embora nem sempre produza conclusões verdadeiras. Mas a produção científica faz parte da responsabilidade de um homem cujo papel é o de desvendar o sentido da criação.

Por outro lado, em vista de que a ciência é uma atividade humana e como tal é falível, a ciência não pode ser absolutizada como o único tipo de conhecimento válido. Como deixa claro Fowler:

A Palavra de Deus, não a análise científica detém a chave para o conhecimento, a qual é adquirida através de todas as mais variadas atividades da vida. A educação cristã, portanto, deve recusar-se a transformar a ciência, ou formulações científicas particulares, em uma lei à qual o homem deva submeter a sua vida. Não há lei para a criação que não seja a lei da Palavra de Deus. (1982, p. 50)

Assim, embora se reconheça a validade da experiência para a tarefa educacional, deve-se reconhecer, entretanto, que não se pode extrair sentido diretamente das experiências, mas o sentido delas depende de sua subsistência em Cristo.

Fowler, a propósito do ato educativo, sugere que, sendo a educação uma das áreas da vida sobre a qual o homem exerce a sua atividade formativa como governador da criação, educar envolve exercer poder formativo do professor sobre o aluno. Esta referencia a “poder” não significa que o professor seja um sujeito autônomo que inventa leis e as aplica no ato educativo segundo sua vontade. Muito pelo contrário, o professor não é autônomo, mas é responsável também no ato educativo para com os princípios normativos fornecidos pela Palavra de Deus concernentes à educação.

A obediência do professor ao ensino da Palavra determinará seus atos e concepções educacionais, como por exemplo, a visão que ele tem do educando. As normas bíblicas sobre quem é a criança são claras na Bíblia, e abrangem a sua criação à imagem de Deus, a sua natureza corrompida e a possibilidade de regeneração e restauração da imagem de Deus grandemente perdida na queda. Assim, o professor não verá a criança como um ser que tem a capacidade de dar sentido a sua existência, tampouco tendo o papel passivo de receptora de um conjunto de conhecimentos do passado que são considerados verdades inquestionáveis. A criança também é sujeito e deve aprender a descobrir o sentido existente na criação divina como centrado em Cristo.

E quanto àquele conjunto de conhecimento acumulado pelas gerações passadas? Enquanto os defensores da pedagogia progressiva tendem a despreza-lo, e os tradicionalistas o elevam à posição de verdade absoluta, a resposta reformada é que esse conjunto de conhecimentos deve ser ensinado à criança no ato educacional, não como verdade absoluta, mas como respostas humanas à revelação divina, algumas adequadas à Lei de Deus, e portanto, verdadeiras, outras que revelam mal-aplicação das ordenanças divinas, sendo, portanto, falsas. Esse conhecimento, entretanto, devidamente estudado e analisado, servirá de ferramenta para auxiliar a criança no seu desvendar do sentido da criação.

A criança deve ser estimulada e auxiliada na sua responsabilidade de julgar e questionar a veracidade do conhecimento recebido de acordo com os princípios normativos divinos, de forma que o conhecimento acumulado pela humanidade passa a ser ferramenta para testar criticamente a sua veracidade e relevância. Esse julgamento e esse teste deve ser feito com base na Palavra de Deus.

Fowler acrescenta a importância do teste da relevância. Todo conhecimento adquirido pela criança deve ser testado em termos de veracidade e relevância, e essa relevância diz respeito à sua importância e validade para os diferentes e mutáveis contextos, espaços e tempos:

Toda formulação humana, deve-se lembrar, é uma aplicação que visa adequar-se a uma situação particular de modo que, em um mundo mutável, uma formulação que foi válida no passado pode não mais ser válida para a situação presente. Devemos sempre considerar a possibilidade de uma nova situação estar exigindo uma nova aplicação/especificação da lei normativa já estabelecida. (FOWLER, 1982., p. 52)

 


 

8.3 A Lei do Conhecimento  


 

“Na atividade humana do conhecer, estão envolvidos três fatores: o conhecedor, o conhecível e a lei que governa tanto o conhecedor como o conhecível na situação de aprendizado” (FOWLER, 1982, p. 58). O postulado de Fowler parte do princípio de que só há aprendizado quando os dois elementos essenciais, o conhecedor e o conhecível, são feitos compatíveis através de uma lei que os governa, que garante que aquilo que se deseja conhecer realmente existe e pode ser conhecido, e que há um certo ordenamento e constância no mundo em que vivemos: “Aquele tipo de mudanças que imaginamos nos mundos fantásticos que inventamos não ocorrem em nosso mundo apenas porque o conhecedor e o conhecível estão relacionados um ao outro por algum tipo de lei que garante sua constância em relação um ao outro” (FOWLER, 1982, p.59).

Embora todos concordem em que há uma lei que governa o conhecimento, relacionando o conhecedor e o conhecível, as pessoas têm várias idéias do que seja essa lei, de sua natureza. No mundo ocidental predomina o pensamento que essa lei do conhecimento está localizada dentro do homem, do conhecedor. Seria a faculdade racional do homem operando através de certos métodos considerados científicos, que se forem rigorosamente aplicados, garantiriam a validade do conhecimento adquirido. Porque a validade do conhecimento tem sido colocada na mente humana e nos métodos científicos a ciência tem recebido grande aval no mundo científico dos últimos séculos.      

Uma outra concepção, mais recente, sobre essa lei, é que ela “reside dentro da pessoa livre, a qual não está sujeita a nenhuma lei, nem mesmo a uma lei dentro de si mesma, mas que livremente faz a lei” (FOWLER, 1982, p. 59). Como a pessoa é livre para fazer a lei, o que ela sabe é simplesmente a sua maneira de ver as coisas. Não existe verdadeiro ou falso, pois as coisas não são vistas pelo que elas são. Elas só podem ser verdadeiras ou falsas para o conhecedor. Essa posição chamada de relativista também é muito forte no mundo pós-moderno atual, podendo ser percebida no meio educacional quando se afirma que há diversas opiniões ou pontos de vista sobre uma dada questão, igualmente válidos, e que não se deve impor um ponto de vista sobre o outro ou sugerir que apenas um seja verdadeiro.

Essas duas visões da lei do conhecimento podem ser percebidas no estudo de um assunto tão básico como o alfabeto e a formação das palavras. Temos duas situações: um professor mais tradicional, adepto da primeira concepção de lei, e que enfatiza a aplicação rigorosa da razão e do método científico, e um professor mais aberto e adepto do livre conhecimento. O primeiro iniciará a alfabetização mostrando para os alunos o alfabeto completo e exporá o assunto sistematicamente, através de um método rigoroso e de uma ordem necessária, que passa pelo estudo das vogais, o estudo das consoantes, a formação das sílabas, das mais fáceis às mais difíceis, para depois iniciar a junção das sílabas para a formação das palavras. Haverá uma ênfase na perfeição da escrita e no seguir da ordem proposta para que haja verdadeiro aprendizado.

O segundo professor iniciaria a aula conversando com os alunos, pedindo para que se expressassem, e eles mesmos livremente escolheriam um tema sobre o que conversariam. Os alunos livremente poderiam escolher uma palavra como “amor” e a partir daí, cada um iria dizer o que pensa sobre o amor, e nessa conversa surgiriam mais palavras relacionadas ao tema. Somente a partir dessa discussão e da união dos pontos de vista, o professor perguntaria aos alunos: Que letras vocês acham que é essa primeira letra da palavra Amor. Um diria M, outro diria O, outro diria A. O professor, sem ofender ou negar cada opinião iria, de alguma forma, levar os alunos a concluir que a letra A é a correta, e após ter feito isso com cada letra, o aluno ficaria livre para formar outras palavras a partir dessas letras da palavra amor, devendo ser aceitas todas as palavras que os alunos disserem, as existentes e as que não existem no nosso vocabulário, e assim por diante.

Fowler afirma que no cotidiano escolar, o que predomina não é uma ou outra concepção da lei do conhecimento seguida à risca, mas uma mistura das duas, feita por professores e pedagogos que não percebem como as duas visões são inconciliáveis. Os testes que aplicam à sua teoria do conhecimento são o teste da utilidade prática, o teste do “sucesso”, ou baseiam-se no fato de esta ou aquela visão estar em voga e ser adotada pela maioria, ou porque essa é a visão defendida por este ou aquele educador considerado um “expert” no assunto. Entre educadores cristãos, é comum escolherem uma ou outra teoria por um sentimento intuitivo de que uma delas é mais compatível com a fé cristã.

Qual o problema com essas visões, e porque o educador cristão não pode adotá-las? Ambas colocam a lei do conhecimento dentro do conhecedor humano, concebido como um ser autônomo e a medida para julgar a validade do seu conhecimento, e

(...) à luz da fé cristã deveríamos julgar essa pressuposição de que a lei para o conhecimento reside no conhecedor humano como uma mentira. A verdadeira educação não pode ser construída pela mistura de duas ou mais variedades de falsificações. Ela só pode ser construída na verdade após termos decisivamente rejeitado a mentira da autonomia humana em qualquer área do conhecimento”. (FOWLER, 1982, p. 62).

O educador reformado deve basear sua lei do conhecimento não na autonomia do conhecedor, nem na mente aberta, visto que reconhece que sua mente é corrompida pelo pecado a tal ponto que o seu coração é enganoso e difícil de ser conhecido (Bíblia Sagrada, 1993, Jeremias 17:9). Por isso ele adota como a norma autoritativa de toda a sua vida o ensino da Palavra de Deus. Na concepção reformada, portanto, a norma que governa o conhecimento é a Palavra de Deus:

(...) é a lei da Palavra de Deus, os estatutos, as ordenanças, os decretos que Deus estabelece para a sua criação aos quais todas as criaturas, conhecedor e conhecível, estão sujeitas. A lei não é o princípio inerente ao conhecedor, nem está em qualquer outro lugar na criação, mas é o mandamento dado por Deus à sua criação” (FOWLER, 1982, p. 63)

O caráter da lei de Deus que governa o conhecimento humano é normativo, visto que ela estabelece como o homem deve agir na situação de aprendizado. Como uma lei normativa, a Palavra de Deus pode ser desobedecida, e a validade do conhecimento obtido dependerá da fidelidade e da obediência do homem à lei divina. “Na medida em que o homem obedece à Palavra em sua atividade de conhecer, ele conhecerá verdadeiramente. Na medida em que ele a desobedece, ele falsifica o conhecimento” (FOWLER, 1982, p. 64).

Fowler prossegue em sua argumentação demonstrando a natureza religiosa das normas cognitivas. Ele afirma que são as normas adotadas por cada ser humano que determinam os fatos. Não são os fatos que determinam qual a norma correta. Cada fato é um produto do ato de aprender baseado em normas. Imagine-se a seguinte situação: dois professores, um ateu e um reformado, por exemplo, discutem a reforma protestante. O professor que se diz “ateu” poderia dizer que a causa da reforma protestante foi essencialmente econômica e política. Um professor reformado diria que a mesma reforma foi uma obra de origem divina, em que o Deus Todo-Poderoso usou homens e circunstâncias para reavivar sua Igreja e resgatar o ensino aberto e livre da Palavra de Deus a todos. Não haverá jamais um ponto na discussão em que os professores em questão chegarão a um acordo. Porque o problema não está com o fato. O problema é que as normas que determinam os fatos são diferentes e incompatíveis. O professor ateu tem como norma o pressuposto religioso que Deus não existe como revelado na Bíblia e que Ele não intervém na história humana, convertendo corações, transformando vidas, agindo diretamente na história da Igreja de maneira sobrenatural pela atuação do seu Espírito Santo. A norma que governa o professor reformado, sendo a norma bíblica, parte do pressuposto de que Deus é soberano sobre a História humana e que escolhe e capacita homens para fazer a Sua vontade e leva em conta a obra sobrenatural divina na conversão e nas ações humanas.

A partir desse exemplo, espera-se ter deixado mais claro que o mundo não é um conjunto de fatos inalterados pelas normas cognitivas, e a educação reformada deve se desvencilhar dessa ilusão e “precisa estar criticamente consciente de que todo fato de nosso conhecimento é determinado pelas normas que adotamos em nosso ato de conhecer” (FOWLER, 1982, p. 66).

O ponto fundamental defendido pelo autor é que “o conhecimento autêntico depende da adoção de normas autênticas”, Para o crente, a sua cosmovisão baseia-se na existência de verdades absolutas, contradizendo, assim, a visão de mundo pós-moderna. A sua norma cognitiva leva em conta essa existência, e o clamor é, utilizando o exemplo citado: ou existe um Deus que age soberana e naturalmente na história ou esse Deus não existe. Uma dessas pressuposições (de natureza sempre religiosa, em última instância) precisa ser verdadeira e a outra falsa. O compromisso religioso do crente reformado com a Palavra de Deus o levará a dizer que a norma autêntica é a que leva em conta a existência do Deus da Bíblia, e somente essa norma o levará a um conhecimento verdadeiro da história.

É preciso levantar-se ainda uma questão. Se o conhecimento produzido pelo mundo que não crê nos pressupostos bíblicos não se baseia nas normas da Palavra de Deus, e, portanto, está sujeito a falsidade, não se correria o risco de haver um eterno impasse entre o crente e o incrédulo, de modo que estes jamais poderiam concordar em coisa alguma? Como o crente reformado deve lidar com o conhecimento produzido pelo mundo incrédulo? Deve rejeitá-lo por completo? A resposta de Fowler é elucidativa e dispensa maiores explicações:

Isso não exige que nós rejeitemos toda a obra educacional daqueles que não reconhecem que a Palavra de Deus é a lei para o nosso conhecimento. Porque a Palavra é a lei de toda a criação, e quer a criatura a reconheça ou não, todo conhecimento humano acontece tendo aquela Palavra como lei. Porque isso continua sendo verdadeiro mesmo quando o conhecimento ocorre sob a influência distorcida de princípios religiosos falsos, esse conhecer não perde o contato com a realidade. O princípio religioso falso distorce o ato de conhecer, mas não pode separar totalmente o conhecedor do conhecimento.

Por essa razão, todos, independentemente do seu compromisso religioso, podem contribuir para o nosso conhecimento do cosmos. O que se requer de nós não é a rejeição da contribuição daqueles com um compromisso religioso diferente, mas sim uma avaliação e uma constante e profunda análise crítica dos resultados de todo conhecimento humano com a visão de corrigir os efeitos distorcidos dos princípios religiosos falsos.” (1982, p. 67).

É por esse motivo que os puritanos clamavam que “a verdade, onde quer que a encontremos, é nossa” e é por isso que o educador reformado não nega a validade de toda e qualquer produção científica, cultural, educativa, etc., mas insiste em que todo conhecimento produzido deve ser submetido ao escrutínio ou julgamento da Palavra de Deus, e avaliado a partir das normas por ela fornecidas, a fim de estabelecer ou não sua veracidade e relevância. O que ele deve fazer é investigar profundamente quais as normas que regem as teorias educacionais vigentes, e à luz do ensino bíblico, averiguarmos quais delas são verdadeiras e válidas e quais são falsas. Nesse sentido, “faz-se necessário uma reforma sistemática de nossas normas cognitivas sob cujas bases podemos remodelar nossa prática educacional do início ao fim”. (FOWLER, 1982, p.69)

8.4 Conhecimento: inato ou experiência?     


 

Ainda uma outra discussão relacionada à teoria do conhecimento reformado. Aqui a divergência maior é entre os empiristas e os inatistas ou intelectualistas, quando buscam responder a questão: de onde surge o conhecimento, é inato ou adquirido pelos sentidos?

Os empiristas defendem que todo o conhecimento é adquirido pelos sentidos e que o homem é um vazio, até que passe a conhecer o mundo através da sua experiência. Os inatistas afirmam que o conhecimento é inato ao ser humano e só precisa ser desenvolvido, estimulado, trazido à tona. Tome-se a definição clássica utilizada por Marilena Chauí (2001, p. 69):

O inatismo afirma que nascemos trazendo em nossa inteligência não só os princípios racionais, mas também algumas idéias verdadeiras, que, por isso, são idéias inatas. O empirismo, ao contrário, afirma que a razão, com seus princípios, seus procedimentos e suas idéias, é adquirida por nós através da experiência. Em grego, experiência se diz: empeiria – donde, empirismo, conhecimento empírico, isto é, conhecimento adquirido por meio da experiência.

No decorrer da história da filosofia, ambas as teorias foram achadas com problemas e outras soluções foram buscadas, de modo que novas teorias do conhecimento foram surgindo, com Leibniz no século XVII e sua distinção entre as verdades de razão e as verdades de fato; com Kant no século XVIII em sua “revolução copernicana” que coloca a razão no centro das atenções; e com a razão histórica de Hegel, no século XIX.

A posição reformada é formulada a partir do que a Bíblia revela sobre o assunto da origem do conhecimento, evitando os extremos. A Bíblia afirma que o homem não nasce vazio, muito menos neutro, nem espiritualmente, nem moralmente, nem cognitivamente, nem fisiologicamente.

Fisiologicamente, a criança nasce com instintos. Ninguém a ensina a mamar, mas ela nasce com esse instinto, dado por Deus em sua graça comum não somente aos seres humanos, mas também aos animais, para que possam sobreviver.

Moralmente, a Bíblia afirma que todo homem recebeu de Deus, desde o seu nascimento, uma consciência moral, entendida como a lei de Deus gravada no coração dos homens, destinada a dar ao homem noções de certo e de errado, de bom e de mau, do que agrada ou não agrada a Deus.

Espiritualmente, o homem não nasce vazio, mas nasce com um senso de Deus, da existência de um Criador, de um ser superior a quem deve adorar, prestar contas e do qual necessita, de maneira que só se satisfaz se vier a alcançar a comunhão com Deus, ou ficará sempre com um vazio na alma. Além disso, a Bíblia afirma que o homem, longe de ser espiritualmente neutro, nasce com a natureza corrompida e inclinada para todo tipo de mal. Diz também em Mateus 15:18 que “o que sai da boca procede do coração; e é isso o que contamina o homem” e Marcos 7:21 fornece a explicação: “pois é do interior, do coração dos homens, que procedem os maus pensamentos, as prostituições, os furtos, os homicídios, os adultérios (...)”. 

E cognitivamente? Seria possível que só nessa instância o homem teria sido criado um vazio, uma página em branco? Ou será que a criança já possui a semente de todos os conhecimentos, precisando apenas ser encorajada por um bom professor-estimulador ou facilitador da aprendizagem?

O ensino bíblico nega ambos os extremos. Nem a criança tem a mente em branco, nem é autônoma no seu conhecer, de maneira que possa ser deixada só. Gordon Clark refuta o empirismo com a sua mente em branco argumentando que “desde que Deus é um Deus de conhecimento, eternamente onisciente, como poderia um ser de quem se declara ser a sua imagem e semelhança ser uma mente em branco?” (2000, p. 155). O próprio entendimento por parte de Adão e Eva dos mandamentos dados por Deus implicava em que e eles deveriam ter alguma inteligência inata para entender o mandamento. Embora o mandamento em si não fosse um conhecimento a priori, o equipamento intelectual para entende-lo era. Assim, “a sensação no máximo pode dar alguma informação factual, mas embora isso seja o conhecimento do que é, o empirismo nunca pode produzir o conhecimento do que deve ser” (2000, p. 155).

A criança é um ser criado à imagem de Deus, e como tal, possui uma razão equipada com capacidades, habilidades e possibilidades inimagináveis. A Bíblia afirma ainda que Deus confere dons às pessoas, com os quais todos nascem. E de fato os dons naturais podem ser percebidos nas crianças desde sua mais tenra idade. A criança mal começa a falar e já se demonstra uma criança esperta, com facilidade de expressão e de comunicação. Outra pode ter dons mais voltados para a solução de problemas mais lógicos que se revelam na rapidez com que o bebê inventa estratégias para subir na cadeira e pegar a mamadeira.

Ora, se toda criança nasce com dons e enormes possibilidades como criatura feita à imagem do Criador, então essas capacidades e possibilidades intelectuais devem ser exploradas, desenvolvidas e encorajadas no ensino cristão. Deve-se rejeitar um ensino que desconsidere as aptidões naturais e as habilidades diversas das crianças e que as concebam como um mero depositório de conhecimentos. As crianças são criativas, inteligentes e equipadas por Deus com os princípios que a levam a controlar e a dominar a criação.

Contudo, a criança não é autônoma, tampouco possui o conhecimento de todas as verdades. As verdades da Palavra de Deus e da criação são externas à criança. Por isso a Bíblia fala tanto sobre pregar, ensinar, transmitir o conhecimento, a verdade. Por isso o Antigo Testamento enfatiza o ensino no temor do Senhor, a necessidade de se adquirir a sabedoria e comprar o conhecimento. Os Provérbios de Salomão são endereçados aos jovens, com o seguinte propósito:

(...) para obter o ensino do bom proceder, a justiça, o juízo e a equidade; para dar aos simples prudência e aos jovens, bom siso. Ouça o sábio e cresça em prudência e o instruído adquira habilidade (Provérbios 1:2-5).

Se clamares por inteligência, e por entendimento alçares a voz, se buscares a sabedoria como a prata e como a tesouros escondidos a procurares, então entenderás o temor do Senhor e acharás o conhecimento de Deus. Porque o Senhor dá a sabedoria, e da sua boca vem a inteligência e o entendimento (...) Porquanto a sabedoria entrará no teu coração e o conhecimento será agradável à tua alma. (Provérbios 2:3-6, 10)

Feliz o homem que acha a sabedoria, e o homem que adquire conhecimento. (Provérbios 3:13.

 Esses versos indicam claramente que o conhecimento da verdade e a sabedoria não estão dentro dos homens, mas devem ser buscados com esforço e diligência em Deus. Por isso a importância dada ao registro das informações e das experiências da história para as gerações posteriores.

A criança precisa de correção e de ensino. A correção é um aspecto mais negativo, que aponta para a necessidade de dizer “não” à vontade da criança. A criança tem desejos, atitudes, sentimentos, e conhecimentos inatos que são contrários à Palavra de Deus e que precisam ser cortados, punidos, extinguidos pela disciplina bíblica. Provérbios 22:15 afirma que “a estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela.”

Já o ensino é o lado positivo da educação bíblica. Compreende a instrução na verdade. Ensinar significa transmitir às crianças, de maneira direta, pela fala, ou de maneira indireta, como pelo exemplo, a verdade. E verdade entendida do sentido mais amplo possível. Inclui a verdade sobre Deus, sobre o homem e sua natureza, sobre a natureza, a verdade sobre os animais, sobre as plantas e sobre os planetas. A verdade sobre os procedimentos matemáticos. A verdade sobre os fenômenos físicos e químicos. A verdade sobre as línguas e seu aprendizado, a verdade sobre as relações entre os homens, a verdade sobre a ação correta dos sentimentos, a verdade sobre o que é necessário para preparar um pão gostoso e macio, a verdade sobre como administrar uma empresa de maneira apropriada. A fé reformada lida com absolutos, lida com verdades, e o ensino reformado consiste na partilha dessas verdades a outros.

O aprendizado cristão, por outro lado, consiste no adquirir essas verdades, apreender e entender as instruções que são o conteúdo da educação. Essa apreender das verdades não se limita ao conhecimento intelectual, mas necessariamente pressupõe a transformação do viver como conseqüência do que foi aprendido. Aprender significa entender e pôr em prática. O aprendizado verdadeiro muda a vida. Essa é a concepção do ensino e da aprendizagem cristã, conforme lemos na Bíblia em versos como os que seguem:

O que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai; e o Deus de paz será convosco. (Filipenses 4:9).

Pois não são justos diante de Deus os que só ouvem a lei; mas serão justificados os que praticam a lei. (Romanos 2:13).

Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha (...) E todo aquele que ouve estas minhas palavras e não as pratica será comparado a um homem insensato que edificou a sua casa sobre a areia. (Mateus 7:24, 26).