“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

sábado, 24 de maio de 2014

Os Deveres dos Pais - J. C. Ryle - Parte 14


Treine-os tendo sempre em mente como Deus treina os Seus filhos.      

A Bíblia nos diz que Deus tem um povo eleito – uma família neste mundo. Todos os pobres pecadores que foram convencidos dos seus pecados, e foram a Jesus para obter a paz, formam esta família. Todos nós que realmente cremos em Cristo para a nossa salvação somos membros dela. Agora Deus, o Pai, está sempre treinando os membros desta família para a sua eterna habitação com Ele no céu. Ele age como um lavrador podando as suas vinhas para que produzam mais frutos. Ele conhece o caráter de cada um de nós – os pecados que nos assediam, as nossas fraquezas, as nossas enfermidades peculiares, as nossas necessidades especiais. Ele conhece o nosso trabalho e onde nós moramos, quem são os nossos companheiros nesta vida, e quais são as nossas provações, as nossas tentações e os nossos privilégios. Ele sabe todas estas coisas e está sempre ordenando tudo isso para o nosso bem. Ele destina a cada um de nós, na Sua providência, aquelas mesmas coisas de que nós precisamos, a fim de que possamos produzir mais frutos – o máximo de sol que possamos suportar, e o máximo de chuva. O tanto de coisas amargas que possamos suportar, e o tanto de coisas doces. Leitor, se você deseja treinar os seus filhos sabiamente, veja bem como o Deus Pai treina os Seus filhos. Ele sempre faz o que é bom; o plano que Ele adota tem de ser o correto.

Veja, então, quantas coisas há que Deus retém dos seus filhos. Poucos podem ser encontrados, eu suspeito, dentre aqueles que nunca tiveram desejos que não aprouve a Ele atender. Sempre houve aquela uma coisa que eles desejavam obter, contudo sempre houveram barreiras que o impedissem de alcança-la. Tem sido como se Deus estivesse colocando esta determinada coisa acima do nosso alcance, e dizendo: “Isto não é bom para você; você não pode ter isso.” Moisés extremamente desejava cruzar o Jordão para ver a boa terra prometida, mas você lembrará que o seu desejo nunca lhe foi concedido.

Veja, também, o quão frequentemente Deus guia o seu povo por caminhos que parecem escuros e misteriosos aos nossos olhos. Nós não conseguimos ver o significado de todas as maneiras como Ele lida conosco; nós não conseguimos ver a razoabilidade da trilha na qual os nossos pés estão pisando. Às vezes, tantas provações nos têm assaltado – tantas dificuldades nos têm cercado – que nós não temos podido descobrir a razão de tudo isso. Tem sido como se o nosso Pai estivesse nos guiando pela mão por dentro de um lugar escuro e dizendo: “não pergunte nada, apenas Me siga”. Havia uma estrada direta do Egito para Canaã, contudo Israel não foi guiado por ela, mas ao redor dela, por meio do deserto. E isso foi difícil para eles naquela época. “o povo”, nos é dito, “se tornou impaciente no caminho” (Ex. 13:17; Num.21:4).

Veja, também, o quão frequentemente Deus castiga o seu povo com provações e aflições. Ele os envia cruzes e desapontamentos. Ele os aflige com doenças. Ele retira deles as suas propriedades e os seus amigos; Ele os coloca em diferentes posições; Ele os visita com as coisas mais difíceis para a nossa carne e sangue; e alguns de nós têm praticamente desmaiado debaixo dos fardos que têm sido colocados sobre nós. Nós temos nos sentido pressionados além das nossas forças; e temos ficado quase prontos para murmurar contra a mão Daquele que nos castiga. O apóstolo Paulo tinha um espinho na carne que foi designado para ele, uma amarga tentação corporal, sem dúvida, embora nós não saibamos exatamente do que se tratava. Mas uma coisa nós sabemos: ele três vezes suplicou ao Senhor para que aquilo lhe fosse retirado, mas o Senhor não o fez (2 Cor. 12:8-9).

Agora, leitor, apesar de todas estas coisas, você já ouviu sequer um filho de Deus dizer que acha que o seu Pai não o tratou sabiamente? Não, eu tenho certeza de que você nunca ouviu isso. Os filhos de Deus sempre lhe contarão, a longo prazo, que foi uma bênção eles não terem tudo como queriam, e que Deus tem feito, de longe, melhor para eles do que eles poderiam ter feito para si próprios. Sim! E eles poderiam lhe dizer também que o lidar de Deus tem lhes providenciado muito mais alegria do que eles poderiam pensar obter por si mesmos, e que o Seu caminho, embora às vezes seja escuro, foi o caminho da alegria e a estrada da paz.

Eu peço que você guarde em seu coração a lição que o modo como Deus lida com o Seu povo quer lhe ensinar. Não tema reter da sua criança tudo o que você pensa não ser bom para ela, sejam quais forem os seus próprios desejos. Este é o plano de Deus.

Não deixe de castigar e corrigir os seus filhos sempre que você ver que a saúde das suas almas requer disciplina, não importa o quão doloroso isso pode ser para os seus sentimentos; e lembre sempre que os remédios para a mente não devem ser rejeitados simplesmente por serem amargos. Este é o plano de Deus.

E não tema, acima de tudo, que tal plano de treinamento deixará a sua criança infeliz. Eu lhe admoesto contra esta ilusão. Dependa disto: não há um caminho mais seguro para a infelicidade do que sempre ter tudo do seu próprio jeito. Ter as nossas necessidades conferidas e negadas é uma bênção para nós; isso faz com que possamos gozar melhor dos prazeres quando eles vêm a nós. Ter sempre os nossos desejos atendidos é o melhor jeito de nos tornar egoístas. E creia em mim, pessoas egoístas, assim como crianças mimadas, dificilmente são felizes.

Leitor, não tente ser mais sábio que Deus: treine os seus filhos como Ele treina os Seus.    

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Os Deveres dos Pais - Por J. C. Ryle - Parte 13


Treine-os a um constante temor da indulgência em prazeres

Dentre tudo o que eu tenho dito, este é o ponto sobre o qual você tem a maior necessidade de estar sempre se vigiando. É natural que sejamos gentis e carinhosos com relação à nossa própria carne e sangue, mas é o excesso desta mesma gentileza e afeição que você deve temer. Cuide para que isso não lhe torne cego quanto às faltas dos seus filhos e surdo para todos os conselhos que lhe são dados sobre eles. Cuide para que isso não lhe faça passar a mão sobre a má conduta deles, ao invés de tomar para si a dor de infligir o castigo e a correção.

Eu bem sei que a punição e a correção são coisas muito desagradáveis. Nada é mais desagradável do que causar dor àqueles a quem nós amamos, ou provocar as suas lágrimas. Mas enquanto os corações são o que são, é vão supor, como regra geral, que as crianças possam ser educadas sem correção.

O termo “mimar” ou “estragar” é muito expressivo e, infelizmente, cheio de significado. Agora a maneira mais fácil de se “estragar” uma criança é deixar que ela tenha tudo sempre do seu próprio jeito – é permitir que ela faça o que é errado sem corrigi-la por causa disso. Creia em mim, não faça isso, custe o que custar a você, a menos que você queira estragar as almas dos seus filhos.

Você não pode argumentar que a Bíblia não é clara quanto a este assunto: “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina.” (Pv. 13:24) “Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo.” (Pv. 19:18) “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela.” (Pv. 22:15) “Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.” (Pv. 23:13-14) “A vara e a disciplina dão sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a sua mãe.” “Corrige o teu filho, e ele te dará descanso, dará delícias à tua alma.” (Pv. 29:15,17).

Quão fortes e impetuosos são estes textos! Quão melancólico é o fato de que em muitas famílias cristãs, eles parecem ser praticamente desconhecidos! Os seus filhos precisam da repreensão, mas ela praticamente não é exercida. Eles precisam da correção, mas ela dificilmente é empregada. E ainda assim, este livro de Provérbios não é obsoleto ou inadequado para os cristãos. Ele foi dado por inspiração Divina e é útil. Ele foi dado para o nosso aprendizado, assim como as epístolas aos Romanos ou aos Efésios. Certamente, o cristão que cria os seus filhos sem dar atenção ao seu conselho, está se julgando mais sábio do que aquilo que está escrito, e erra grandemente.

Pais e mães, eu lhes digo simplesmente, se você nunca punir os seus filhos quando eles estão em falta, vocês estão fazendo a eles um grave mal. Eu lhes admoesto, esta é uma pedra na qual os santos de Deus, em todas as épocas, têm muito frequentemente naufragado. Eu me sinto obrigado a tentar persuadi-lo a ser sábio a seu tempo, e a manter isso bem claro em sua mente. Veja o caso de Eli. Os seus filhos, Hofni e Fineias, “se fizeram vis, e ele não os repreendeu”. Ele não lhes deu nada a mais do que uma repreensão mansa e morna, quando ele deveria ter lhes censurado com severidade. Em suma, ele honrou os seus filhos mais do que a Deus. E qual foi o fim destas coisas? Ele viveu para ouvir sobre a morte de ambos os seus filhos na batalha e os seus próprios cabelos brancos foram trazidos com sofrimento para a sepultura (1 Sam. 2:22-29, 3:13).

Veja, também, o caso de Davi. Quem pode ler, sem sentir dor, a história dos seus filhos e de seus pecados? O incesto de Ammon, o assassinato e a pura rebelião de Absalão, a conspiração ambiciosa de Adonias: de fato estas foram dolorosas feridas para o “homem segundo o coração de Deus” receber em sua própria casa. Mas será que não houve falta da sua parte? Temo eu que, sem dúvida, houve. Eu encontro uma pista sobre tudo isso no relato sobre Adonias em 1 Reis 1:6: “Jamais seu pai o contrariou, dizendo: Por que procedes assim?” Esta foi a base de todo o problema. Davi foi um pai super indulgente – um pai que deixava com que os seus filhos fizessem tudo do jeito que bem quisessem, e ele colheu de acordo com aquilo que tinha plantado.

Pais, eu lhes suplico, pelo bem dos seus filhos, tenha cuidado com o mimo exacerbado. Eu lhes trago à lembrança, o seu dever principal é consultar as suas reais necessidades, e não os seus próprios gostos ou desejos. O seu dever é treiná-los, e não simplesmente entretê-los; é beneficiá-los, e não simplesmente agradá-los.

Você não deve ceder à toda vontade e capricho da mente do seu filho, por mais que você o ame. Você não deve deixar que ele venha a supor que a sua vontade é tudo, e que ele só precisa desejar algo, para que isso lhe seja feito. Eu lhe suplico, não faça dos seus filhos os seus ídolos, para que o Senhor não venha a tomá-los de você, e quebrar o seu ídolo, a fim de lhe convencer da sua tolice.

Aprenda a dizer “não” aos seus filhos. Mostre a eles que você é capaz de recusar tudo aquilo que você pensa não ser bom para eles. Mostre a eles que você está pronto para punir a desobediência e que quando você fala de punição, você não está simplesmente pronto para ameaçar, mas também para executá-la. Não ameace demais. Povos ameaçados e faltas ameaçadas têm longa vida. Castigue poucas vezes, mas realmente, e com seriedade. A punição leve e frequente é, de fato, um miserável sistema.

Cuidado ao deixar que pequenas faltas passem despercebidas sob a ideia de que “é apenas uma pequena falta”. Não há nada pequeno quando o assunto é criação de filhos; tudo é importante. Pequenas ervas daninhas precisam ser arrancadas tanto quanto as outras. Deixe que elas fiquem, e elas logo ficarão grandes. Leitor, se há qualquer ponto que merece a sua atenção, creia em mim, este é um deles. Eu sei que isso lhe trará muito trabalho e preocupação. Mas se você não se der ao trabalho de disciplinar os seus filhos enquanto são jovens, eles lhe darão maior trabalho e preocupação quando estiverem mais velhos. Escolha o que você preferir.                    

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Os Deveres dos Pais - J. C. Ryle - Parte 12


XI. Treine-os ao hábito de sempre remir o tempo

A ociosidade é a melhor amiga do Diabo. Ela é o modo mais certo de darmos oportunidade a ele para nos fazer mal. Uma mente vazia é como uma porta aberta, e se Satanás não entrar por ela por si mesmo, é certo que ele jogará por ela algo que levantará maus pensamentos em nossas almas.

Nenhum ser foi criado para ser ocioso. O serviço e o trabalho são a porção designada para cada criatura de Deus. Os anjos no céu trabalham – eles são os servos ministradores do Senhor, sempre fazendo a Sua vontade. Adão, no paraíso, tinha trabalho – ele foi designado para manter e guardar o jardim do Édem. Os santos redimidos na glória também terão trabalho: “eles não descansam dia e noite, cantando louvores e dando glória Àquele que os comprou.” E assim também nós, homens fracos e pecadores, precisamos ter algo para fazer ou nossas almas logo entrarão em um estado doentio. Nós precisamos ter as nossas mãos cheias e as nossas mentes ocupadas com alguma coisa, ou então as nossas imaginações logo fermentarão e conceberão maldade.

E o que é verdadeiro com relação a nós, também é verdadeiro com relação aos nossos filhos. De fato, ai do homem que não tem nada para fazer! Os Judeus viam a ociosidade praticamente como um pecado: era uma lei entre eles que cada homem deveria criar o seu filho para algum negócio útil; e eles estavam certos! Eles conheciam o coração do homem mais do que alguns de nós parecem conhecer hoje.

A ociosidade fez de Sodoma o que ela era: “Eis que esta foi a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e próspera tranquilidade [ociosidade] teve ela e suas filhas.” (Ez. 16:49) A ociosidade teve muito a ver com o terrível pecado de Davi com a esposa de Urias. Eu vejo, em II Sam. 11, que Joabe foi para a guerra contra Amom, “porém Davi ficou em Jerusalém”. Não foi isso ociosidade? E foi então que ele viu Bate-Seba, e o próximo passo que lemos é o da sua terrível e miserável queda.

De fato, eu penso que a ociosidade tem levado a mais pecados do que quase qualquer outro hábito que possamos mencionar. Eu suspeito que ela é a mãe de muitas obras da carne: a mãe do adultério, da fornicação, da embriaguez e de muitos outros atos praticados na escuridão, os quais eu não tenho tempo para mencionar. Deixe que a sua própria consciência lhe diga se eu não estou contando a verdade. Quando você se encontrou desocupado, logo o Diabo bateu em sua porta e entrou.

E na realidade, isso não é de se estranhar: tudo no mundo ao nosso redor parece nos ensinar a mesma lição. É a água parada que se torna estagnada e impura: os riachos de água corrente estão sempre limpos. Se você possui uma maquina a vapor, você precisa funcioná-la, ou então ela logo deixará de funcionar. Se você tem um cavalo, você precisa exercitá-lo. Ele nunca estará tão bem do que quando ele exerce um trabalho regular. Se você mesmo deseja ter boa saúde física, você precisa se exercitar. Se você ficar sempre sentado e parado, mais cedo ou mais tarde, é certo que o seu corpo reclamará. E assim também é com a alma. A mente ativa e movimentada é um alvo difícil para o Diabo acertar com os seus tiros. Tente se encher sempre de serviços úteis e assim o seu inimigo achará difícil encontrar lugar para semear ervas daninhas. Leitor, eu peço que você exponha estas coisas diante da mente dos seus filhos. Ensine a eles o valor do tempo, e tente fazer com que eles aprendam desde cedo o hábito de utilizá-lo bem. Dói-me ao ver crianças enrolando com algo que eles têm nas mãos para fazer, seja o que for. Eu amo vê-las ativas e diligentes, e se dando com todo o coração a tudo o que fazem: dedicando-se com todo o coração às suas lições, quando precisam aprender; e se dedicando com todo o coração até mesmo às suas brincadeiras, quando saem para brincar.

Mas se você realmente as ama, faça com que a ociosidade seja contada como um pecado em sua família.                  

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Os Deveres dos Pais - J. C. Ryle - Parte 11


Treine-os ao hábito de sempre dizer a verdade



A veracidade é muito menos comum no mundo do que nós estamos dispostos a pensar à primeira vista. “A verdade completa e nada além da verdade” é uma regra de ouro que muitos fariam bem se a mantivessem sempre em mente. A mentira e a prevaricação são pecados muito antigos. O Diabo foi o pai deles: ele enganou Eva com uma ousada mentira e desde a queda este é um pecado contra o qual todos os filhos de Eva precisam sempre vigiar.

Pense somente em quanta falsidade e engano existem no mundo! Quanto exagero! Quantas adições são feitas a uma simples história! Quantas coisas são deixadas de fora ou omitidas por não servirem ao interesse daquele que a está contando! Quão poucos há entre nós acerca dos quais podemos dizer que depositamos toda a nossa confiança nas suas palavras, sem hesitar! De fato, os Persas eram sábios em sua geração: um ponto crucial na educação dos seus filhos era que eles deveriam aprender a falar sempre a verdade. Que prova terrível da pecaminosidade humana é o fato de até mesmo ser necessário que mencionemos este ponto!

Leitor, eu gostaria de ressaltar a você o quão frequentemente Deus é chamado, no Antigo Testamento, de O Deus da Verdade. A verdade parece ser especialmente colocada diante de nós como um traço fundamental do caráter Daquele com quem nós nos identificamos. Ele nunca se desvia do reto caminho. Ele abomina a mentira e a hipocrisia. Procure manter estas coisas continuamente diante da mente dos seus filhos. Enfatize a eles, a cada momento, que qualquer coisa a menos do que a verdade é mentira, e que o “fugir do assunto”, o “inventar desculpas” e o exagero são como meio caminho andado na direção do que é falso, e devem ser evitados. Encoraje-os a serem sempre diretos em todas as circunstâncias, e a falarem sempre a verdade, custe o que custar.

Eu realço que você dê toda a atenção a este assunto não somente pelo bem do caráter dos seus filhos neste mundo (embora eu dê o maior valor a isto), mas eu lhe encorajo a ser firme nesta questão principalmente para o seu próprio conforto e assistência em todo o seu relacionamento com eles. Você verá quão grande ajuda é, de fato, poder sempre confiar nas suas palavras. Isso servirá até mesmo para prevenir aquele hábito do encobrimento que, infelizmente, às vezes prevalece entre as crianças. O caráter franco e honesto depende muito do tratamento que os pais dão a esta questão nos dias da sua infância.         

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Os Deveres dos Pais - J. C. Ryle - Parte 10


Treine-os ao hábito da obediência

Este é um objeto digno de todo o nosso labor. Hábito algum, eu suspeito, tem maior influência em nossas vidas do que este. Pais, sejam determinados em fazer com que os seus filhos lhes obedeçam, ainda que isso lhe custe o maior dos problemas, e cause a eles muitas lágrimas. Que não venha a haver nenhum questionamento, ou discussão, ou disputa, ou demora, ou constantes repetições. Quando você lhes dá uma ordem, deixe-os perceber claramente que você fará com que ela seja cumprida.

A obediência é a única realidade. Ela é a fé visível, a fé em ação, e a fé encarnada. Ela é o teste de verdadeiro discipulado entre o povo do Senhor: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que vos mando” (João 15:14). Esta deve ser a marca de filhos bem treinados, que eles fazem aquilo que os seus pais ordenam. Onde, de fato, está a honra que o quinto mandamento ordena, se os pais e mães não são obedecidos alegremente, sinceramente e sem demora?

Esta obediência desde cedo tem toda a Escritura ao seu lado. Ela está presente na honra conferida a Abraão: não somente ele treinará a sua família, mas “ele ordenará a seus filhos e a sua casa depois dele” (Gen. 18:19). E nos é dito sobre o próprio Senhor Jesus Cristo que, quando jovem, “ele lhes era submisso” [a Maria e José] (Lucas 2:51).

Observe o quão implicitamente José obedeceu à ordem do seu pai Jacó (Gen. 37:13). Veja como Isaías diz que será algo tão terrível quando “o menino se atreverá contra o ancião...” (Isa. 3:5). Note como o apóstolo Paulo aponta para a desobediência aos pais como um dos maus sinais dos últimos tempos (2 Tim. 3:2). Veja como ele destaca a graça de requerer a obediência dos seus filhos como sendo uma das marcas que deve adornar um ministro cristão: “que governe bem a sua própria casa, criando os filhos sob disciplina, com todo o respeito”. E novamente: “que o diácono... governe bem os seus filhos e a própria casa” (1 Tim. 3:4,12). E ainda, ele diz que o presbítero deve ter:  “filhos crentes, que não são acusados de dissolução, nem são insubordinados” (Tito 1: 6).

Pais, vocês desejam ver os seus filhos felizes? Cuide, então, para que você os treine a obedecerem quando uma ordem lhes é dada, a fazerem o que é requerido deles. Creia em mim, nós não fomos criados para sermos totalmente independentes – nós não somos capazes disso. Até mesmo aqueles que possuem liberdade em Cristo ainda usam um jugo: eles servem ao Senhor Jesus Cristo (Col. 3:24). Nunca será cedo demais para as crianças aprenderem que, neste mundo, nem todos são destinados a governar, e que nós nunca estaremos em nosso correto lugar até que aprendamos a como obedecer aos nossos superiores. Ensine-os a obedecer enquanto são jovens, ou eles se irritarão contra Deus por toda a sua vida, e se desgastarão com a vã ideia de serem independentes do Seu controle.

Leitor, este conselho não poderia ser mais necessário. Você verá muitos pais, em nossos dias, permitindo que os seus filhos pensem e escolham por si mesmos muito antes de serem capazes de fazê-lo, de modo que até arranjam desculpas para a desobediência deles, como se eles não fossem culpados disso. Aos meus olhos, um pai que sempre cede, e uma criança que sempre tem tudo do seu próprio jeito é uma cena muito dolorosa – dolorosa, pois eu vejo a ordem de Deus para as coisas sendo invertida e virada de cabeça para baixo; e dolorosa, porque eu tenho certeza de que a consequência para o caráter daquela criança, no final, será a vontade própria, o orgulho e a arrogância. Você não deve estranhar que os homens recusem a obedecer ao seu Pai celestial, se você os permite, enquanto são crianças, que desobedeçam ao seu pai terreno.

Pais, se você ama aos seus filhos, faça com que a obediência seja a palavra-chave e o lema contínuo diante dos seus olhos.      

sábado, 29 de março de 2014

Os Deveres dos Pais - J. C. Ryle - Parte 9


VIII. Treine-os ao hábito da fé.

O que eu quero dizer com isso é que você deve treinar os seus filhos a acreditarem no que você diz. Você deve tentar fazer com que eles confiem nos seus julgamentos, e respeitem as suas opiniões como melhores do que as suas próprias. Você deve acostumá-los a pensarem assim; quando você diz que algo é ruim para eles, eles podem ter certeza de que aquilo é ruim; e quando você diz que algo é bom a eles, eles podem ter certeza de que é bom. Que eles possam confiar no seu conhecimento como sendo, em suma, melhor do que o deles mesmos, e que eles possam crer e se basear sempre na sua palavra. Treine-os a sentir que aquilo que eles ainda não sabem agora, eles provavelmente saberão um dia, e que eles fiquem satisfeitos sabendo que há uma razão e um motivo para tudo o que você requer deles.

Quem pode descrever a bem-aventurança de se possuir um verdadeiro espírito de fé? Ou mais ainda, quem pode falar sobre a miséria que a falta de fé tem trazido ao mundo? A incredulidade fez com que Eva comesse do fruto proibido – ela duvidou da veracidade da palavra de Deus: “certamente morrerás”. A incredulidade fez com que o mundo antigo rejeitasse os avisos de Noé, de modo que pereceu em pecado. A Incredulidade manteve o povo de Israel no deserto – ela foi a grade que lhes barrou a entrada na terra prometida. A incredulidade fez com que os Judeus crucificassem o Senhor da Glória - eles não creram na voz de Moisés e dos profetas, embora eles as lesses todos os dias. E a incredulidade é o pecado predominante no coração humano até agora: a falta de fé nas promessas de Deus; falta de fé nas ameaças de Deus; falta de fé na nossa própria pecaminosidade; falta de fé no perigo que corremos; falta de fé em tudo o que vai de encontro ao orgulho e ao mundanismo dos nossos próprios corações. Leitor, você estará treinando os seus filhos sem propósito algum se você não os treinar a um hábito de fé implícita: fé na palavra dos seus pais e confiança de que o que os seus pais dizem deve estar correto.

Eu tenho ouvido alguns dizerem que você não deve requerer das crianças algo que eles não conseguem compreender, que você deve explicar e dar uma razão a tudo o que você quiser que elas façam. Eu os admoesto solenemente contra esta noção. Eu lhes digo claramente: este princípio é mau e não é sadio. É claro que seria um absurdo você deixar como mistério tudo o que você faz, e há muitas coisas que devem sim ser explicadas às crianças, de modo que elas possam entender aquilo que é razoável e sábio. Mas criá-las com a noção de que elas não precisam confiar em nada e de que elas, com os seus entendimentos fracos e imperfeitos, devem ser esclarecidas sobre o “porque” e o “portanto” de todas as coisas, a cada passo que tomarem, este é realmente um temeroso erro, e bem provavelmente terá o pior dos efeitos em suas mentes.

Argumente com o seu filho se você estiver disposto a fazê-lo, em certos momentos, mas não esqueça de manter na mente do seu filho (se você de fato o ama) que ele é apenas uma criança no final das contas: ele pensa como uma criança, ele age como uma criança, e portanto ele não deve esperar conhecer o motivo de todas as coisas de uma só vez.

Coloque diante dele o exemplo de Isaque, no dia em que Abraão o levou para ser oferecido no Monte Moriá (Gen. 22). Ele perguntou ao seu pai aquela única questão: “onde está o cordeiro para o sacrifício?”, e ele recebeu apenas a simples resposta: “Deus proverá a Si mesmo um cordeiro”. Como, ou onde, ou quando, ou de que maneira: nada disso foi dito a Isaque, mas aquela resposta foi suficiente. Ele creu que tudo ficaria bem porque o seu pai assim lhe dissera, e ele se contentou.

Diga aos seus filhos, também, que todos nós devemos ir aprendendo aos poucos; que há um alfabeto a ser memorizado em cada tipo de conhecimento – que até mesmo o melhor cavalo do mundo teve de ser domado um dia – e que chegará o dia em que eles enxergarão a sabedoria de todo o seu treinamento. Mas enquanto isso, se você disser que algo é correto, isso deve ser suficiente para eles; eles devem crer em você e se contentar com isso.

Pais, se qualquer ponto sobre o treinamento dos seus filhos deve ser considerado importante, tenha certeza de que este é um deles. Eu os admoesto, em nome da afeição que você tem para com os seus filhos: use todos os meios possíveis para treiná-los ao hábito da fé.    

segunda-feira, 17 de março de 2014

Os Deveres dos Pais (por J. C. Ryle) - Parte 8


VII. Treine-os ao hábito da diligência e da regularidade no exercício dos meios de graça públicos.

Fale aos seus filhos sobre o dever e o privilégio que temos de ir à casa do Senhor e de nos unirmos às orações da congregação. Diga a eles que onde quer que o povo do Senhor se reúne, ali está presente o próprio Senhor Jesus de uma maneira especial, e que aqueles que se ausentam desse lugar devem esperar, como aconteceu com o Apóstolo Thomas, perder uma grande bênção. Conte a eles sobre a importância de ouvir a Palavra de Deus pregada, já que ela é a ordenança divina para a conversão, santificação e edificação das almas dos homens. Fale a eles como o Apóstolo Paulo nos admoesta a que “não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o dia se aproxima” (Heb. 10:25).
Eu considero uma cena muito triste na igreja quando ninguém se dispõe a participar da ceia do Senhor senão as pessoas idosas, enquanto a maioria dos jovens se ausenta dela. Mas eu considero uma cena ainda mais triste quando eu não vejo praticamente criança alguma na igreja, senão aquelas que vieram para a Escola Dominical e são obrigadas a permanecer ali. Que nenhuma desta culpa repouse sobre a sua cabeça. Há muitos meninos e meninas em cada comunidade, além daqueles que vêm à escola, e vocês que são seus pais e amigos devem cuidar para que eles sejam levados à igreja juntamente com vocês.
Não permita que eles cresçam com o hábito de inventar vãs desculpas para não virem à igreja. Faça com que eles compreendam claramente que enquanto estiverem debaixo do seu teto, a regra da casa é que todos aqueles com saúde devem atender a casa do Senhor no dia do Senhor, e que você considera aquele que não guarda o sábado como um assassino da sua própria alma.
Certifique-se também, se assim for possível, de que os seus filhos compareçam à igreja juntamente com você e que sentem ao seu lado enquanto você estiver ali. Ir à igreja é uma coisa, mas se comportar corretamente na igreja é outra coisa bem diferente. E acredite em mim, não há melhor segurança para o bom comportamento dos seus filhos do que mantê-los debaixo dos seus próprios olhos.
A mente das crianças é facilmente desviada e a sua atenção facilmente se perde, e você deve fazer tudo o que estiver ao seu alcance para combater isso. Eu não gosto de ver crianças sozinhas na igreja - elas normalmente se ajuntam com más companhias e aprendem mais mal no dia do Senhor do que no resto da semana. Outra coisa que eu não gosto de ver é um "cantinho de jovens" na igreja. Eles normalmente adquirem hábitos de falta de atenção e de irreverência ali que levarão anos para serem desaprendidos, se é que um dia eles os desaprenderão. O que eu me alegro em ver é uma família inteira sentada juntamente, jovens e velhos, lado a lado - homens, mulheres e crianças, servindo a Deus em família.

Contudo, eu sei que muitos dizem ser inútil requerer que as crianças participem dos meios de graça, já que eles não os podem compreender. Eu os aconselho a nunca darem ouvidos a tal raciocínio. Eu não encontro doutrina alguma que justifique tal raciocínio no Antigo Testamento. Quando Moisés se encontrou perante faraó (Ex. 10: 9), eu vejo que ele diz: "havemos de ir com os nossos jovens, e com nossos velhos, e com os filhos e com as filhas... porque temos de celebrar festa ao Senhor". Quando Josué leu a lei, eu devo observar, "palavra alguma houve de tudo o que Moisés ordenara, que Josué não lesse para toda a congregação de Israel, e para as mulheres, e os meninos, e os estrangeiros que andavam no meio deles". "Três vezes no ano", diz Ex. 34:23, “todo homem [incluindo mulheres e crianças] deve vir perante o Senhor Deus, o Deus de Israel". E quando eu vou ao Novo Testamento, encontro menção de crianças participando em atos religiosos públicos também juntamente com os adultos. Quando o apóstolo Paulo estava deixando os discípulos em Tiro pela última vez, eu o encontro dizendo (Atos 21:5): "passados aqueles dias, tendo-nos retirado, prosseguimos viagem, acompanhados por todos, cada um com sua mulher e filhos, até fora da cidade; e ajoelhados na praia, oramos".
Samuel, nos dias da sua infância, parece ter ministrado ao Senhor alguma vez antes de realmente vir a conhecê-lO: “Porém Samuel ainda não conhecia o Senhor e ainda não lhe tinha sido manifestada a palavra do Senhor.” (1 Sam. 3:7). Os próprios Apóstolos não parecem ter compreendido tudo o que o nosso Senhor disse na época em que foi dito: “Seus discípulos a princípio não compreenderam isto: quando porém, Jesus foi glorificado, então, eles se lembraram de que estas cousas estavam escritas a respeito dele” (João 12:16).
Pais, confortem as suas mentes com estes exemplos. Não se desanimem ao ver que os seus filhos ainda não compreendem todo o valor dos meios de graça. Simplesmente treine-os a possuírem o hábito de praticá-los com regularidade. Faça com eles venham a enxergar tais práticas como um dever santo, elevado e solene; e creia em mim, logo chegará o dia quando eles provavelmente lhe bendirão por aquilo que você fez a eles.