“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Educação no Éden - Parte 2 - A BÍBLIA COMO A FONTE DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO*



Ainda não leu a Parte 1? "O Éden como o Início da História da Educação" - Clique aqui


 

* Trecho extraído da Obra: O Princípio da Educação, por Karis B. G. Anglada Davis, da Parte 1: A Educação no Éden:

O Princípio da Excelência Educacional.  

 

A Bíblia como a Fonte da História da Educação Cristã


O leitor pode ainda estar pronto para fazer mais uma pergunta básica: Por que eu deveria crer no Éden, nesta história tão remota e em sua explicação e interpretação educacional? Qual a fonte dessa história educacional cristã? Ela é autoritativa e confiável? Como ela chegou até nós? Quais as credenciais do historiador? Que cientista a descobriu? Ou que filósofo a explicou? A questão que está em jogo é se a visão bíblica do mundo original é uma teoria ou um fato, se a educação deve ir a Bíblia com suas suposições e críticas, ou se esta se apresenta como verdade e autoridade para a educação.

A veracidade e a autoridade da revelação bíblica


O início da história bíblica e a visão de mundo que orienta a educação cristã não foi inventada por homens, nem proposta por grandes filósofos ou teólogos. Este é precisamente o caso das muitas filosofias educacionais atuais, não raro chamadas pelo nome de seus criadores, que, como bem sabemos, não passam de criaturas falíveis e limitadas. Pelo mesmo motivo, essas cosmovisões têm falhas, lacunas e enganos que o próprio tempo insiste em apontar. A visão de mundo apresentada nessa história educacional que estaremos contando é uma cosmovisão revelada. Seus princípios e pressupostos nos foram dados de fora, de cima, de maneira sobrenatural, inspirada e inerrante por Aquele que é onisciente e inalcançável, mas que escolheu Se revelar aos homens por meio de letras humanas, o próprio Deus vivo e verdadeiro, o Criador e Sustentador do Universo, a Sabedoria em pessoa, ou, como o apóstolo João o apresenta: o Verbo, a própria Palavra criadora, a Palavra final.

Uma das principais provas de que a visão de mundo bíblica é única e verdadeira é que ela nos revela coisas que jamais poderíamos descobrir ou deduzir pela pesquisa humana. Trata-se de uma história que não poderia ser inventada ou concebida por homem algum. Que mortal poderia ter autorado aquelas inescrutáveis sentenças: "No princípio, criou Deus os céus e a terra. A terra, porém, estava sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas" e "Disse Deus: Haja luz, e Houve luz!"(Gn. 1:1-3)? A narrativa bíblica do início do mundo e da história do Éden chega a nós com o peso e a autoridade da própria palavra de Deus, como sendo a interpretação divina das coisas, revelada a nós no livro de Deus. J. Gresham Machen nos assevera sua autoridade:

A Bíblia é o livro de Deus, não do homem. Outros livros dão conselhos bons e conselhos maus; este livro nos dá apenas conselhos bons, ou melhor, ele nos dá mandamentos que vêm com toda a autoridade do soberano Deus. Eu não estou tentando apresentar a vocês coisas que eu descobri por mim mesmo, e eu não estou tentando ajudá-lo a descobrir coisas por vocês mesmos; mas eu estou pedindo a vocês que ouçam juntamente comigo ao que Deus nos falou em Sua Palavra.[1]

Como indica Machen, a única resposta aceitável de nossa parte é acatar, com gratidão, humildade e espanto, a simplicidade e a clareza de uma verdade histórica que não tínhamos nem a capacidade nem o direito – mas que temos o privilégio! – de possuir. Por mais longe que os historiadores da educação não-cristãos queiram ir, e por mais que eles busquem os fundamentos da educação na antiguidade mais remota, eles não podem contar o início da história.

Somente os cristãos podem contar a história da educação humana desde o seu início, descrevendo o seu contexto, o primeiro ambiente educacional, o seu Professor, o seu aluno, o seu conteúdo, e podem, a partir dessa visão original, compreender o sentido e o propósito da educação. Isso só é possível porque a fonte dessa história tão antiga não está no próprio homem, em suas imaginações filosóficas ou descobertas arqueológicas. Ela está em Deus. Somente Deus conhece o início da história, e pode nos esclarecer essas questões tão essenciais. E Ele revelou essa peça tão fundamental do quebra-cabeça histórico-educacional de maneira sobrenatural, inspirando homens a escreverem de maneira inerrante a Sua própria Palavra. A Bíblia relata infalível, verdadeira e claramente, com a autoridade do próprio Deus, tudo o que precisamos saber para explicar, motivar e reger a nossa educação cristã. O objetivo das Escrituras é contar a história da redenção do homem, e como veremos ainda neste livro, a história da educação está profundamente intricada nela.

Além de ser a única fonte autoritativa da história educacional do homem, a Bíblia é também o único fundamento sólido para a filosofia educacional cristã, e consequentemente, para toda a prática educacional. Os princípios educacionais, antropológicos, epistemológicos, sociológicos, etc. de que precisamos devem emergir do seu ensino. Como assevera Norman De Jong: “A própria Escritura se torna a base para todo crer, para todo conhecer, e assim, para todos os pensamentos referentes à educação. É da Bíblia, a Palavra de Deus para o homem, que o cristão irá aprender”.[2] A revelação escrita de Deus é a única luz que temos para ver o primeiro momento histórico da educação, e para podermos ter luz em nossa jornada em busca de uma filosofia educacional cristã. É na sua luz que vemos a luz (Salmo 36:9). Ela é lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho. (Cf. Salmo 119:98-105).

A singularidade e suficiência da visão original bíblica


Finalmente, devemos enfatizar que essa visão de mundo oferecida nos primeiros capítulos da Bíblia em forma de um relato histórico é uma visão abrangente, suficiente e profunda. Ela trata de todos os tópicos que compreendem uma cosmovisão, numa ordem lógica e consistente com a realidade: Deus, o homem, o mundo, o conhecimento, a origem do mal, o propósito da vida e das atividades humanas, a esperança da humanidade, etc. É uma visão suficiente para explicar coerente e definitivamente a origem do universo, a maneira pela qual tudo existe e o propósito de todas as coisas. Ela vai à raiz de todos os problemas e revela tudo o que precisamos saber com profundidade e precisão.

As culturas pagãs também conceberam histórias sobre a “origem” do mundo, mas nunca puderam explicar a história toda. Conceberam deuses que, longe de apresentar os atributos divinos da onipotência e da auto-suficiência eram seres criados, limitados, cheios de defeitos e falhas. A própria explicação moderna e supostamente científica da teoria da evolução, além das várias lacunas e enganos, nunca conseguiu explicar a origem dos elementos, forças e condições que ocasionaram a famosa explosão do “Big Bang”, e os seus seguidores estão apoiados em sua fé numa fórmula anti-científica e jamais provada que postula que [o acaso + milhões de anos = complexidade do universo e da existência humana].

Nós, cristãos, colocamos nossa fé na Palavra da Revelação de Deus aos homens, e defendemos a visão de mundo bíblica que, ao contrário, é precisa e profunda, como estaremos verificando mesmo neste capítulo incipiente da história. Sobre a singularidade da história bíblica, o Dr. Lloyd-Jones fez a seguinte afirmação: “A Bíblia nos apresenta uma visão de mundo definida, concreta e abrangente que é absolutamente diferente de qualquer coisa que você pode encontrar em qualquer outro lugar”.[3] Sobre a sua relevância, ele afirmou: “Não há um livro mais atual no mundo do que esse livro antigo, que chamamos de Bíblia. Ele trata de homens e de mulheres. Ele trata de você. Ele trata de todos nós assim como estamos e onde nos encontramos. Ele fala à nossa própria condição e nos apresenta um modo de vida”. [4]. E sobre a sua veracidade, este autor acrescentou:

...a única visão do homem, da mulher e da vida no mundo que realmente faz jus aos fatos, a única visão que explica porque nós somos individualmente como somos nesse momento, porque o mundo é como é, e porque a história tem sido como tem sido, encontra-se nas páginas da Bíblia. Eu estou aqui para contender que somente esse livro tem uma explicação adequada. Se você adotar qualquer outra visão, você descobrirá que ela lhe desapontará num ponto ou noutro. A Bíblia, eu repito, afirma ser um livro único, um livro dado por Deus de várias maneiras, por intermédio de homens e reunido em um. E o que ela faz, é claro, é nos dar um relato das coisas que são vitais, primárias e fundamentais.[5]

E, de fato, Deus começa a Bíblia com narrativas e acontecimentos fundamentais. A existência de um Deus Pessoal, a sua obra da criação, a origem do mundo e do homem, a perfeição desse estado original, o surgimento do mal no mundo, a queda do homem, suas conseqüências para o homem e para a natureza e o anúncio da vinda de um redentor e da continuação da história humana até o tempo determinado por Deus para julgamento; todos esses são temas que determinam a totalidade da visão de mundo cristã.

Há um sentido incipiente, porém verdadeiro, em que os três primeiros capítulos da Bíblia nos contam a história toda. Isso acontece porque o Éden nos revela a intenção original de Deus para a vida do homem no mundo, como coloca o escritor educacional reformado De Jong: “O primeiro estado descrito pode ser chamado de estado original ou desejado do homem. Apesar da narrativa Bíblia desse estado ser muito curta (Gn. 1 e 2), há informação suficiente ali, e em passagens subsequentes, que podem ser encontradas e aplicadas ao processo que chamamos de educação”.[6] E o Capítulo 3 de Gênesis nos conta como o homem e o mundo se afastaram desse ideal divino e se encontram como os conhecemos hoje, e ainda oferece um raio de esperança ao apresentar a promessa de que os planos de Deus não seriam ultimamente frustrados, e um dia um salvador viria para desfazer os efeitos da queda e recriar o homem e o mundo perfeitos. A mensagem do Éden é, por todos os ângulos, como descreve Lloyd-Jones, essencial para a compreensão da história e da educação humana. Comentando sobre a importância do capítulo 3 de Gênesis como o final da importante narrativa compreendida nos três primeiros capítulos da Bíblia, o Dr. Lloyd-Jones afirma:

Não há dúvida nenhuma de que, julgado por quase todo ângulo que você queira olhar, Gênesis 3 é um dos mais importantes capítulos da Bíblia... a Bíblia toda é a história de Deus lidando com homens e mulheres. É a história da redenção. E o que dá a esse terceiro capítulo do livro de Gênesis tal importância excepcional é que aqui é-nos contada a história de como o homem caiu do bom estado no qual Deus o havia originalmente colocado. Em outras palavras, é o princípio da história humana. [7]

Aplicação Educacional Sobre a Importância da Revelação Especial de Deus


Pressupostos e Princípios: 


- A Bíblia como Fundamento para a Educação. O princípio bíblico-reformado do Sola Scriptura embasa também a educação cristã. Ela aceita o testemunho dos primeiros capítulos da Bíblia de que existe um Deus criador que resolveu voluntariamente se revelar aos homens através das coisas que criou (revelação natural) e de sua palavra escrita (revelação sobrenatural). Depois da queda do homem no pecado e por causa da sua cegueira, o ponto de partida agora precisa ser a revelação escrita, mas estas duas revelações pressupõem e suplementam uma à outra, sendo, agora, ambas necessárias, autoritativas, suficientes e claras (racionais ou inteligíveis).[8]

A Bíblia é para a educação cristã um instrumento precioso e indispensável para a compreensão do mundo, de nós mesmos e do próprio Deus. Assim como a revelação que Deus deu de Si mesmo no Éden, seja nas coisas criadas ou na palavra do mandamento, era a base ou o fundamento de toda a vida e educação de Adão e Eva, a Palavra de Deus é o princípio e a base de toda educação cristã, a nossa única regra de fé e de prática,[9] na qual encontramos “tudo o que o homem deve crer sobre Deus e o dever que Deus requer do homem”.[10] De Jong afirma que a Escritura é “a base para toda crença, para todo conhecimento e portanto a base para todos os pensamentos referentes à educação. É da Bíblia, a palavra de Deus para o homem, que o Cristão irá aprender”. [11] Gangel deixa claro que esse princípio é uma marca essencial e distintiva da educação cristã:

Qualquer fundamentação para uma cosmovisão cristã deve começar com as Escrituras.  É da Palavra de Deus que recebemos revelação especial com relação à natureza de Deus, à humanidade, à realidade definitiva, à bondade e às expectativas da vida. Todas as pessoas têm acesso à revelação geral (pelo estudo da criação divina) e ao conhecimento acumulado no mundo, no entanto, somente os cristãos aceitam a Bíblia como a nossa suprema fonte de respostas sobre a vida. Embora todos os sistemas filosóficos requeiram certa medida de fé, a crença nas Escrituras nos fornece o sistema mais intrinsecamente coerente sobre o qual podemos construir uma vida moral e com propósitos. Os cristãos acreditam que Deus, por intermédio de sua palavra, nos deu “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e virtude (2 Pedro 1:3). [12]  

- A Bíblia como Autoridade na Educação. A educação cristã tem na Bíblia não somente a sua base ou fundamento, mas também a sua norma ou padrão. Por ser uma revelação especial do Autor da educação cristã, a Bíblia é a autoridade suprema para ordenar, definir e regular a educação em seus princípios e propósitos, em sua razão de ser, em sua concepção de ensino e de aprendizado,  e em seus métodos, conteúdos e administração. A Palavra revelada de Deus é a autoridade final e juiz supremo de todas as questões educacionais, e com ela não competem a tradição ou a razão humanas. Todas as idéias pedagógicas, antigas e novas, devem ser julgadas por ela. Como colocou Van Til: “O que quer que esteja de acordo com a Revelação de Deus é educativo. O que não estiver, é dês-educativo”.[13] Engelsma concorda dizendo que aceitar a autoridade da Bíblia significa que “não ensinamos nada que esteja em conflito com as Escrituras; apenas ensinamos aquilo que está em harmonia com ela.”[14]

- A Bíblia como Luz da Educação. “Lâmpada para os meus pés é a tua palavra e, luz para os meus caminhos”, diz o Salmo 119:105. A primeira implicação desse princípio é negativa e revela que, sem a Bíblia, a educação está no escuro: ela não sabe de onde vem, onde está, ou para onde vai; ela não sabe o que está fazendo, não tem padrão para julgar o que é bom e o que é mau, e não tem rumo ou direção. Ela nem sabe em que tropeça. Isso é uma realidade na educação secular, e pode descrever também as escolas cristãs se elas não fizerem uso dessa lâmpada para iluminar o seu caminho.  Mas não precisamos andar no escuro. O princípio da luz, positivamente, dá segurança e rumo à nossa prática educacional e porque temos a Bíblia, em cuja luz, vemos a luz (Salmo 36:9), nós podemos ver e reconhecer a verdade. A nossa teoria pedagógica, por exemplo, não precisa deduzir ou especular sobre a natureza do homem ou do conhecimento, como afirma Solano Portela:

 A Pedagogia redentiva constrói seus postulados em cima de premissas que são extraídas da Verdade Revelada do Criador. Ela não precisa deduzir o que é a natureza humana, mas tem o ponto de vantagem de ir até a revelação proposicional da Bíblia, e extrair objetivamente uma descrição do que é a pessoa humana, no íntimo do seu ser. Ela pode realizar mil experiências para reafirmar e fazer a ‘sintonia fina’ de sua metodologia, mas não necessita ficar perdida num pântano de subjetivismo e de idéias gratuitas sobre o que move, direciona e motiva as pessoas. Ela não precisa especular sobre o conhecimento, a sua natureza, o que faz as pessoas aprenderem. Ela tem pérolas proposicionais que foram escritas pelo próprio autor do conhecimento; por aquele que é o doador da capacidade de entendimento e da compreensão humana.[15]

- A Bíblia como Objeto da Educação. A Bíblia é o fundamento, a norma e a luz do ensino cristão, mas ela deveria ser também o conteúdo da instrução cristã? O ensino bíblico de várias passagens-chaves no antigo e no novo testamento (Dt. 6:6-9; Salmo 78:1-8; II Timóteo 3:14-17) nos dão um ressonante sim! Essas passagens afirmam explicitamente que o conhecimento da Palavra de Deus - a lei, os registros históricos das obras de Deus, os louvores, as admoestações e o ensino doutrinário - constituem em si um fim e alvo da educação e isto implica em que as Escrituras precisam ser o conteúdo principal da educação cristã. As palavras que devem ser inculcadas na mente e no coração das crianças não eram a sabedoria dos povos pagãos, mas a lei de Deus. Os grandes feitos que deveriam ser contados de geração em geração não eram as construções dos egípcios, mas os atos redentivos de Deus registrados na Bíblia. O ensino da Bíblia é o cerne e a essência da educação cristã.

Essa afirmação frequentemente levanta a questão de como a Bíblia deve ser ensinada. Como devocional? Como uma disciplina? Como catecismo? De todas essas maneiras? Ou de outra maneira? De que maneira ela pode ocupar esse lugar central na educação cristã? Engelsma sugere que a posição reformada é diferente da posição evangélica por não confinar o ensino da Bíblia ao culto devocional (que, embora não precise ser excluído da escola cristã, é tarefa primordial dos pais), nem a uma disciplina bíblica ou doutrinária (que é tarefa primordial da igreja juntamente com os pais), mas afirma a necessidade da Bíblia informar toda a instrução das diversas matérias, até ao mais alto grau. Aqui a educação cobre uma área própria, que a família e a igreja não têm normalmente condições de exaurir. Ele explica: ‘A Escritura informa toda a instrução dada na escola cristã. Por “informa” eu quero dizer “dá a essência de, é a qualidade característica da”. Ela é a luz de Deus na qual nós vemos a luz.”’[16]. O autor prossegue:

 A Escritura deve ser ensinada assim: como o fundamento, a luz, e o centro de cada assunto. A Escritura deve ser trabalhada em cada assunto, naturalmente e como um fato óbvio, como o chão sobre o qual cada aspecto da realidade está solidamente firmado. Ela deve ser a luz que ilumina não somente o aspecto particular da criação de maneira a lhe dar significado, mas também ilumina o próprio aluno, sobre o que deve fazer em relação ao conhecimento e uso daquele aspecto da criação. E ela deve ser ensinada como a coluna, ou o centro de cada assunto. Assim, ela unifica todos as disciplinas. [17]

Como a luz de Deus, a Escritura é o fundamento de todo assunto, controlando-o, dirigindo-o, e explicando-o, e assim tornando o que é meramente verdadeiro uma verdade de Deus. Como podemos ensinar história se ela não for firmada e iluminada pela Palavra que ensina um Deus soberano, a centralidade de Cristo, a grande guerra entre o reino de Deus e o reino deste mundo, a depravação total do homem, e os julgamentos de Deus sobre o pecado? Como podemos ensinar ciência a parte da Palavra sobre a criação, sobre a queda e a maldição sobre o homem e sobre a sua terra, sobre o dilúvio, e sobre a sabedoria e poder do Criador?[18]

A Bíblia deve, portanto, informar o ensino de cada assunto dentro da matemática, da história, da física e da educação física. Ela deve fazer isso da pré-escola ao mais avançado grau imaginável. Ela fornece a essência do que a criança ou o adulto precisa aprender na geometria, na queda do império romano, na lei da gravidade e nas regras do futebol. E como a Bíblia ilumina, fundamenta, esclarece, controla e explica as verdades geométricas, ou históricas, ou físicas, etc.? A chave é dada por Engelsma: “tornando o que é meramente verdadeiro uma verdade de Deus”, ou seja, relacionando o assunto particular ao plano de Deus e mostrando como cada verdade provém de Deus e deve voltar para Deus. Segundo a Bíblia, qual é a essência da geometria? Ela não está na perfeição, na ordem, na exatidão do plano e da vontade de Deus? O que as medidas da arca, do templo, da cidade santa em Apocalipse revelam sobre a essência da geometria? Na História, somente quando a queda do Império Romano é associada à desobediência a Deus por parte daquele povo, e à Soberania de Deus em levantar e derrubar impérios (Dn. 2:20) é que esse “mero acontecimento” é tornado um “acontecimento de Deus”. Procuraremos dar a seguir algumas sugestões práticas de como isso pode ser feito.

Vale lembrar ainda um aspecto enfatizado por Engelsma, que “o ensino da Escritura dessa maneira não deve ser concebido à parte do conteúdo da Escritura”[19] (sobre Deus, sobre a criação, sobre a queda e a antítese entre a cidade de Deus e a cidade dos homens, sobre Cristo e a igreja, sobre o julgamento final, etc.) e isso requer um conhecimento sistemático ou doutrinário das verdades bíblicas. Este autor chega a sugerir que os professores cristãos devem ser versados nos símbolos de fé reformados, devem confessá-los de coração e devem fazer uso constante e ativo desses credos que entendemos ser a interpretação verdadeira e permanente do ensino e dos princípios bíblicos para toda a vida. Um uso apropriado das confissões de fé e catecismos cristãos como expressão do ensino bíblico é capaz de, segundo este autor, enriquecer, libertar, direcionar e garantir a certeza e o sucesso do trabalho educativo.

Direcionamentos Práticos:


- Para saber se o seu ensino, a sua teoria pedagógica, as suas práticas de administração, supervisão ou coordenação escolar são de fato cristãs, faça a si mesmo a seguinte pergunta: Qual a base ou a explicação bíblica que eu posso dar para isso que estou fazendo? A Bíblia é necessária e indispensável à minha explicação? Quem tem a palavra final nesse assunto? A Bíblia ou alguma teoria ou tradição pedagógica? A minha explicação pressupõe que a Bíblia é suficiente e inteligível para fundamentar essa teoria ou prática educacional, ou eu tenho a tendência de pensar que somente o teórico tal ou o livro tal têm respostas nessa área? 

- Busque conhecer cada vez mais a Bíblia, estude teologia, estude as confissões de fé reformadas, faça uso de cada pregação que você ouve e de cada livro ou passagem devocional que você lê e busque aplicar cada verdade bíblica à educação a partir da seguinte indagação: que luz esse ensino bíblico lança sobre a minha especialidade de ensino? Como esta verdade bíblica informa, regula, controla, dirige ou fornece princípios essenciais para a minha matéria? Vá relacionando essas considerações em um mural ou caderno acessível, e releia esses princípios durante o preparo de suas aulas. E caso você seja tentado a pensar que um determinado relato ou doutrina bíblica não tem nada de novo a acrescentar à sua área, peça a Deus por sabedoria e luz para a sua visão, lembrando de II Timóteo 3:16,17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra."

- Em face do currículo que você foi encarregado de ensinar, faça da Bíblia o padrão para distinguir o que é educativo e o que é deseducativo. O que estiver de acordo com a Bíblia é educativo e deve ser ensinado positivamente, com vistas a que os alunos compreendam e aceitem pela fé, e se comprometam de coração a pôr em prática essas verdades em suas vidas. O que contrariar o ensino bíblico é deseducativo, e não deve ser ensinado a não ser como exemplo negativo, como instrumento de crítica e de discernimento da antítese entre o reino de Deus e o reino deste mundo. Isso implica dizer que nós não “ensinamos” (no sentido mais profundo do termo) a evolução, o marxismo, e o liberalismo, por exemplo, ao aluno. Nós estudamos e analisamos essas e outras idéias à luz do ensino das Escrituras, mostrando a falsidade, os perigos e os resultados terríveis dessas e de tantas outras idéias que contrariam o ensino bíblico.

- Use a Bíblia e a interpretação dos Símbolos de Fé reformados em cada aula. Faça uma pesquisa dos textos bíblicos principais que são capazes de informar, lançar luz ou orientar o assunto que você está prestes a ensinar, direta ou indiretamente. Identifique os princípios ou as verdades essenciais que a Bíblia revela sobre este assunto e enfatize estes aspectos como a lição mais importante a ser aprendida, como o significado verdadeiro e mais importante desse fato. Prossiga com as demais informações que você tiver para acrescentar, mas retome no final, de maneira aplicativa, os princípios bíblicos examinados. Se nós cremos na suficiência da Bíblia, precisamos afirmar que é possível fazer isso em toda matéria e em cada assunto específico.

- Jan Waterink sugere ainda, no que diz respeito ao uso da Bíblia em sala de aula, que o professor tenha a Bíblia aberta diante de si, leia os textos apropriados com os alunos, e, na medida que isso for possível, exija dos alunos que eles mesmos leiam, pesquisem e façam uso da Bíblia, a fim de cumprirmos nossa função como educadores cristãos de “levar a Bíblia à criança e a criança, à Bíblia”.[20] E quanto ao ensino das doutrinas bíblicas, a sugestão é que elas sejam ensinadas não apenas na aula de educação religiosa (se houver), mas também em seu relacionamento com todos os assuntos estudados nas diversas disciplinas, e de acordo com a capacidade e idade do aluno. Talvez a doutrina da queda possa ser especialmente elucidativa em uma aula complicada e cansativa de gramática para explicar a dificuldade e o suor envolvidos no aprendizado de línguas depois da queda e de Babel. Ou quem sabe uma pergunta do catecismo infantil, como a seguinte: “Pergunta: Deus se desagrada daqueles que se recusam a amá-lo e a obedecê-lo? Resposta: Sim. Deus está irado com o pecador todo dia”, pode ser usada para sugerir a realidade das trombetas e juízos de Deus nos terremotos, guerras e catástrofes históricas e geográficas.

- Exemplo de como as Escrituras podem ser usadas na sala de aula. Inúmeros exemplos poderiam ser dados em todas as matérias sobre o uso das Escrituras e de seu ensino na sala de aula. A Bíblia tem muito a dizer sobre números, sobre história, sobre geografia, sobre ciências, sobre estudos sociais, sobre física, sobre o corpo humano, sobre nutrição, sobre a linguagem, sobre tecnologia, etc. Mas não há espaço para mais do que um único exemplo com vistas a esclarecer esta sugestão: Digamos que você esteja ensinando os animais selvagens à terceira série, e hoje a aula seja sobre o leão. Ao invés de começar com o filme do Rei Leão, ou com seu habitat na África, ou com sua posição na cadeia alimentar, comece com as verdades reveladas na Bíblia sobre o Leão. Faça uma pesquisa sobre o que ela revela sobre esse animal, e você se surpreenderá com a quantidade de informações diretas e indiretas que você encontrará sobre esse único ser. Pouco ou muito, creia que a informação bíblica será clara e suficiente para compreendermos o sentido mais profundo e verdadeiro desse animal, que em sua essência está relacionado com Deus.

Você o encontrará, por exemplo, em Gênesis 1 entre os animais selváticos criados por Deus e declarados como bons. Você constatará a sua posição entre os demais grupos de animais e a provisão de Deus em preparar-lhe um ambiente e alimentação especial (Gn 1:30), e você se deparará com a constatação surpreendente de que, em seu estado original, o leão não era carnívoro nem predador. Sua criação por Deus e sua posição entre os demais animais também revela o poder, a beleza, a majestade, a força e a sabedoria de Deus. A segunda e terceira perguntas do catecismo infantil[21] também podem ser usadas para mostrar que o Leão foi criado por Deus para a Sua glória. O fato de ter sido salvo na arca revela o valor que Deus dá à preservação dos seres criados, do leão à formiga. O fato da queda afetou tanto a sua constituição física como o relacionamento entre o leão e demais seres criados, especialmente com relação ao homem. Seu caráter agora ofensivo e implacável é um alerta à estratégia de Satanás (1 Pe. 5:8), e ao julgamento divino (Os. 5:14;13:8; II Reis 17:25). O Salmo 104:21 fala do seu modo de vida como sendo guiado por Deus e dependente de Deus. Sua natureza ousada e destemida faz dele um exemplo para o crente (Pv 28:1). No mundo vindouro, ele é restaurado à sua condição original, sendo visto pastando com o cordeiro em Isaías 11:6 e 65:25 na criação redimida por Cristo.

Mais do que criado por Deus, afetado pela queda e redimido por Cristo, o Leão tem seu significado maior como tipo de Cristo, do poder e da majestade daquele que é o Leão da tribo de Judá. (Ap. 5:5) E a Bíblia também aplica essas verdades à vida do aluno de maneira apropriada, ensinando-o a depender de Deus, a preservar os animais, a temer a fúria do Leão, a conhecer e temer a Cristo e a ansiar pelo estado de glória quando poderá ter um leão como animal de estimação. Finalmente, você pode ainda ensinar e buscar incentivar a resposta apropriada dos alunos diante da revelação bíblica, que consiste na aceitação dessas verdades pela fé, e na gratidão, humildade, espanto e privilégio que eles têm de conhecerem essas verdades reveladas que pertencem a eles e a seus filhos, e que os descrentes desconhecem ou negam. Mostre a importância e a veracidade de tudo o que nos tem sido revelado por Deus, e quando o filme do Rei Leão sugerir algo diferente, aproveite para ensinar que a Bíblia é a Palavra de Deus e tem a palavra final em todos os assuntos. E por falar em filme, Nárnia seria uma opção muito mais apropriada para retratar o Leão numa escola cristã!

Próximo Post nesta seção: Deus como o Autor da História da Educação




[1] Machen, J. Gresham. The Christian View of Man (A Visão Cristã do Homem) (Carlisle: The Banner of Truth Trust, 2002), p. 15.
[2] De Jong, Norman. Education in the Truth (Educação na Verdade) (Nutley: Presbyterian and Reformed Publishing Co., 1977), p. 69.
[3] Lloyd-Jones. The Gospel in Genesis, p. 26.
[4] Ibid.
[5] Ibid., p. 10.
[6] De Jong, Education in the Truth, p. 72-73.
[7] Lloyd-Jones, The Gospel in Genesis, p. 26.
[8] Cf. Van Til, Cornelius. Christian Apologetics (Apologética Cristã) (Phillipsburg: Presbyterian and Reformed Publishing Co.,1976). pp. 30-37. Van Til nota e explica como as doutrinas da necessidade, da autoridade, da suficiência e da clareza da revelação de Deus se aplicam tanto à sua revelação escrita como à sua revelação natural. (todas as traduções dessa obra são feitas pela autora).
[9] O Catecismo Maior de Westminster. In: A Confissão de Fé, O Catecismo Maior, O Breve Catecismo (São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1991, p.165-385), p. 166.
[10] Ibid., p. 168.
[11] De Jong, p. 69.
[12] Gangel, Kenneth O. Fundamentos Bíblicos da Educação. In: PORTELA, S. et al. Fundamentos bíblicos e filosóficos da educação. (São Paulo – SP: ACSI/Purposeful Design Publications, 2004), p. 97
[13] Van Til, Essays, p. 81.
[14] Engelsma, Reformed Education, p. 24.
[15] Fides, p. 148. Citar por completo.
[16] Engelsma, Reformed Education, p. 24.
[17] Engelsma, p. 34.
[18] Engelsma, Ref. Ed.p. 24-25.
[19] Engelsma, p. 34.
[20] Waterink, Jan. Basic Concepts in Christian Pedagogy. (Conceitos Básicos na Pedagogia Cristã) Eerdmans: Grand Rapids, 1954, p. 132.
[21] Pergunta 2: O que mais Deus fez? Resposta: Deus fez todas as coisas. Pergunta 3: Para que Deus fez você e todas as coisas? Resposta: Para a sua própria glória.

terça-feira, 9 de julho de 2013

A BÍBLIA COMO OBRA IMAGINATIVA – CLYDE S. KILBY

O trecho a seguir foi retirado e traduzido da obra: "The Christian Imagination" (RYKEN et al, 2002, p. 105), e chama atenção ao fato de que a Bíblia, ao mesmo tempo em que é um livro divinamente inspirado e a única regra de fé e prática do crente, é também uma obra literária de imenso valor, de modo que não há como ignorar o seu caráter poético e literário em tantas das suas passagens. Isso deveria ser um incentivo para a produção literária e artística, visto que aprouve a Deus - o maior e mais excelente dos Artistas - conceder um pouco destas habilidades ao homem, o qual pode e deve utilizá-las para a glória do seu Criador.    

"Eu quero basear o que eu tenho para dizer em três fatos que penso serem indiscutíveis:
O primeiro é que a Bíblia pertence à literatura; isto é, ela é uma obra de arte. Que diferença faz se o Livro que nós vemos como Santo vem a nós em forma literária, ao invés de vir na forma de doutrinas abstratas ou de teologia sistemática? Será que a poesia na Bíblia é um fato meramente coberto por uma decoração artística? Se nós sumarizarmos o Salmo vinte e três como declarando que Deus cuida dos seus filhos como um bom pastor cuida das suas ovelhas, será que a poesia e este sumário em prosa equivalem à mesma coisa? Se assim é, porque a poesia em primeiro lugar? Que mudança ocorre quando uma obra de poesia é transformada em obra doutrinária ou de exortação prática?
Como a divina inspiração da Bíblia se relaciona com o estranho fato de que o maior dos Salmos foi escrito na forma de um acróstico? Será que a forma de acróstico veio de Deus ou apenas do poeta?... Será que Deus inspirou a forma ou apenas o conteúdo da Bíblia? Será que a sua forma é meramente um incidente humano? Deveriam os professores Cristãos encorajar seus alunos a lerem a Bíblia como literatura?
Porque a figura da comparação ao dizer-se que um homem piedoso é como uma árvore plantada à beira dos mananciais, e a hipérbole ao dizer-se que as marés e as árvores do campo batem palmas e cantam? Deveriam tais expressões ser consideradas como meros adornos, ornamentos, como penas – e, muitas vezes, belíssimas penas – que devem ser removidas do peru antes que o seu significado calórico e real possa vir à existência?
Porque a Bíblia não é direta, expositiva e concreta? Porque estes numerosos e difíceis paradoxos se atiram diante do leitor...? Porque o frequente jogo de palavras, até mesmo na própria linguagem do nosso Senhor? Tudo isto sugere o caráter literário da Bíblia.
O segundo fato indisputável é que, desde que um – e talvez o maior – dos ingredientes da literatura é a imaginação, nós precisamos dizer que a Bíblia é um livro imaginativo. Não há literatura sem imaginação – forte, honesta, e muitas vezes ousada imaginação.
O terceiro fato indisputável é que o maior de todos os artistas, o maior Imaginador de todos, é Aquele que aparece na abertura do livro de Gênesis. Estética tem a ver com forma, design, harmonia, beleza. Talvez a palavra-chave seja “forma”. Agora a Terra, diz Gênesis, estava sem forma. Deus moldou e deu forma à criação – a luz e as trevas, os céus, as abundantes águas, a variada fauna e flora... E nos é dito que Ele olhou para cada coisa que Ele havia moldado e viu que era bom. E quanto ao todo, Ele viu que era “muito bom”. Mesmo após a queda do homem, a Bíblia ainda trata a natureza como bela, visto que tem a Deus como o seu criador e mantenedor... Deus não julgou, como muitos de nós, que a estética seja meramente uma futilidade para tempos ociosos. "  

--- "Christian Imagination"
      Christian Herald, 1969.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O MANUSCRITO, O SCHOLAR, E A ROUPA-SUJA.


Esta postagem é baseada em um artigo publicado na revista WORLD, por Caroline Leal, em Março de 2013, do qual foi extraído o título acima. Segundo o artigo, a descoberta de um antigo manuscrito de C. S. Lewis, encontrado entre as páginas de um pequeno caderno de anotações em uma das mais antigas bibliotecas da Europa, está lançando nova luz sobre a visão da comunicação deste famoso autor.

De acordo com a revista, em 2009, um professor da Universidade do Estado do Texas resolveu um mistério literário envolvendo dois dos mais conhecidos autores do século XX, - C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien – os quais haviam planejado, na década de 40, escrever um livro que seria intitulado: A Linguagem e a Natureza Humana. Contudo, a obra, embora tenha sido agendada para publicação em 1950, nunca foi concluída. Os estudiosos achavam que a obra nunca havia sido sequer iniciada, até que o Dr. Steven Beebe – professor regente e presidente do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual do Texas – descobriu as páginas introdutórias de um manuscrito nunca antes publicado de C. S. Lewis na Biblioteca Bodleian da Universidade de Oxford.

O fragmento cobria apenas oito páginas de um pequeno caderno no qual Lewis escrevera a palavra “Rascunhos”.  Após sete anos de pesquisas, no verão de 2009, Beebe tornou pública a alegação de que o manuscrito encontrado era o início deste projeto de obra conjunta de Lewis e Tolkien. Sendo um scholar internacionalmente renomado sobre C. S. Lewis, e um especialista em comunicação, Beebe falou à Revista WORLD sobre o seu achado, e discutiu como, quatro anos após ele ter anunciado a sua descoberta, este manuscrito continua a instigar e a informar o mundo literário.

Ao responder à pergunta sobre como ele se interessou por C. S. Lewis e por Tolkien, o renomado professor afirma ter lido, em 1993, uma biografia sobre Lewis “o excêntrico, o brilhante, o mestre, o erudito, o intelectual e poético Lewis” e somente a sua vida foi suficiente para lhe cativar. Ele começou a ler os seus livros e, ao perceber o quanto Lewis tinha a dizer sobre a linguagem, o sentido e as palavras, o seu interesse nele, como teórico da comunicação, se desenvolveu cada vez mais. Segundo o professor, o seu interesse por Tolkien é apenas derivado do seu interesse por Lewis, no que diz respeito à sua influência sobre esse autor. Ele afirma não ser um estudioso de Tolkien pois, em suas palavras, “ainda não consegui me desvencilhar de Lewis, ou, Lewis ainda não se desvencilhou de mim.”

O estudioso afirma que o manuscrito, na realidade, não estava perdido, mas simplesmente ninguém havia realmente percebido a sua significância. “Não é tanto que eu o encontrei, e sim que eu o identifiquei. Ao começar a ler o manuscrito em 2002, a primeira sentença dizia: ‘em um livro como este, nós deveríamos começar no início das origens da linguagem...’, e então ele continua dando definições de significado, que é exatamente a minha praia. É sobre isso que eu escrevo, estudo, ensino – linguagem, sentido, comunicação”, afirma Beebe.

Contudo, foi apenas em 2009 que o estudioso veio a perceber que o manuscrito era o início do projeto de livro planejado por Lewis e Tolkien. O professor diz que já havia transcrito e citado o manuscrito em seus artigos e obras, mas não conhecia o seu contexto. Essa conexão só foi estabelecida em 2009, quando a sua máquina de lavar-roupas quebrou. Então ele e sua esposa foram a uma lavanderia e, na saída, ele levou consigo o excelente volume de Diana Glyer, “The Company They Keep” para ler enquanto esperava. Ele estava lendo sobre a colaboração entre Lewis e Tolkien, e Diana estava descrevendo o livro que eles planejavam co-autorar sobre a natureza da linguagem. Foi então que ele parou no meio da leitura e foi como uma “Eureka”. Em suas próprias palavras: “Eu lembro de estar lá sentado, olhando para a minha roupa girando na secadora quando eu pulei da cadeira e disse: ‘Eu sei o que é! Eu sei o que aquele manuscrito é!’. Eu fui para casa e então eu pude ver, referências como ‘os autores acreditam’ e ‘pensamos nós’ evidenciam que este é aquele livro que Lewis e Tolkien planejavam escrever juntos.”

A revista WORLD pergunta ao professor qual seria o porquê do livro nunca ter sido completado, ao que Beebe responde que, na mesma época, Lewis estava escrevendo as Crônicas de Nárnia e Tolkien estava trabalhando no Senhor dos Anéis. Ambos estavam ocupados com outros projetos. Por isso o manuscrito é composto por apenas oito páginas escritas à mão, por Lewis, e o pensamento de Tolkien realmente não está presente ali, é apenas o começo de Lewis.

Desde então, o professor tem escrito e publicado artigos e comentários revelando e provando a sua descoberta, os quais tem sido amplamente aceitos no seu meio acadêmico e literário. Além disso, Beebe está trabalhando em um volume sobre C.S. Lewis e a comunicação, ao qual ele pretende separar um “ano de descanso” dos seus demais afazeres, para poder se dedicar melhor ao cumprimento desta obra.   

Segundo o estudioso, ao iniciar os seus cursos sobre Lewis na Universidade de Oxford, ele sempre começa perguntando aos alunos duas questões. A primeira é: “O que C. S. Lewis disse sobre a comunicação?” E a segunda é: “O que C. S. Lewis fez para tornar-se um excelente comunicador?” Estas duas perguntas serão o foco principal da sua obra. O manuscrito encontrado ajuda a responder à primeira pergunta, visto que trata especificamente de língua e semântica, contudo, a contribuição do seu livro pretende ser como nós podemos aplicar estes insights para nos comunicarmos efetivamente, assim como fez Lewis.

A obra parece ser de grande relevância para todos aqueles interessados no campo da linguagem e da teoria da comunicação, bem como a todos os fascinados pelas obras e pelas habilidades literárias e comunicativas de C. S. Lewis. Aguardemos a sua publicação!           

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Discurso Educativo do Dr. Ben Carson

Dois Vídeos Interessantes Protagonizados pelo famoso Neurocirurgião Pediátrico, o Dr. Benjamin Carson!


O vídeo acima é o seu discurso em comemoração do Dia da Oração realizado neste ano nos Estados Unidos, no qual o palestrante corajosamente apresenta soluções simples, a partir de sua visão de mundo cristã, para problemas educacionais, políticos e econômicos da sua nação.
(cliquem no botão para ativar as legendas em Português)

E o vídeo abaixo é um clipe do filme "Mãos Talentosas", sobre a história de vida deste médico, de sua trajetória desde a sua infância difícil até o seu sucesso como o primeiro cirurgião a separar gêmeos siameses. O filme promete ser interessante, não deixem de assistir!


terça-feira, 11 de junho de 2013

UM APELO AOS PAIS (Dr. Maurice Roberts)

Um apelo aos pais

Dr. Maurice Roberts


Se há alguma "simples" solução para os problemas da nossa sociedade moderna - à exceção de um reavivamento - ela será a seguinte: que os cristãos professos tornem-se todos em bons pais. Colocar a questão dessa forma é admitir que há, hoje, entre nós, um problema na área da paternidade. A maioria, se não todos, concordariam com isso. A experiência de muitos pais que se sentem fracassados confirma esse fato. A triste observação de muitos presbíteros e ministros também o confirma como verdadeiro. Os cristãos não têm, recentemente, se destacado como pais.


Que isso seja assim não é surpreendente, em vista da dramática queda, durante os últimos trinta anos, dos padrões na sociedade como um todo. Porque se o aumento da criminalidade infanto-juvenil é alarmante, ele deve refletir, acima de tudo, o fracasso dos pais em criarem os seus filhos como deveriam. Estritamente falando, há hoje não tanto um problema juvenil, mas sim um problema paternal, pois as crianças são grandemente o produto dos seus próprios lares. Não se quer aqui desculpar a delinquência infantil e adolescente, e sim pôr a culpa onde ela mais pertence.


É de se esperar que a séria extensão da quebra da autoridade dos pais na sociedade em geral alertaria os pais cristãos da necessidade de extrema preocupação quanto a esse problema. A deplorável negligência que eles vêem em pais não-crentes, juntamente com os amargos frutos disso no mundo ao seu redor, deveriam tocar um alarme nas mentes de pais crentes que têm filhos para criar. Mas esse não tem sido sempre o caso. É sim, talvez, antes a exceção do que a regra.


Por que crentes têm sido lentos em reconhecer os perigos que ameaçam as almas de seus filhos nos dias de hoje? Existem várias razões. Particularmente, é porque há uma relutância de todos nós em acreditar que existe uma crise em nossas mãos. Pais cristãos têm frequentemente acalmado seus medos ocasionais dizendo a si mesmos que “somos todos pecadores”; “crianças têm que aprender a viver em um mundo real” ; “Deus os salvará se for da Sua vontade”, e outras coisas mais.


Há, é claro, alguma verdade em todas essas afirmações. O problema está no fato de que elas são, na melhor das hipóteses, meias verdades. Elas todas reivindicam a questão de que, queiramos ou não, as crianças de hoje estão vivendo em um ambiente anormalmente ímpio. Nossa convicção e argumento é que, de fato, estão. Nossa razão para afirmar isso é que, hoje as comportas têm sido escancaradas para a admissão pública de pecados perigosos e escandalosos, os quais seriam impensáveis há uma geração atrás.


Juntamente com essa tolerância pública de males grosseiros, tem marchado um verdadeiro exército de tentações. Isso tudo ameaça as almas das crianças, não somente nas ruas e no mercado, mas também na sala de aula, no parquinho, e onde mais a mídia é permitida, inclusive no próprio lar.


POR ONDE COMEÇAMOS?


Nós pressupomos aqui que pais crentes crêem não só que Deus é soberano, mas também que Ele nos chama para usar-nos como instrumentos da Sua vontade. Nós não limitamos a obra de Deus à nossa diligência; mas nós acreditamos que Deus comumente abençoa a diligência da nossa parte como pais. Ainda que Deus salve o mal instruído e o não instruído, deve se esperar mais ainda que Ele abençoe crianças e jovens que têm sido bem instruídos nas Sagradas Escrituras, que têm sido cuidadosamente disciplinados em casa, e que são acostumados a frequentar a casa de Deus como a grande prioridade da vida.


Tomando isso como ponto de partida, nós prosseguimos afirmando que pais crentes deveriam estimar a salvação de seus filhos acima de qualquer outra coisa em suas vidas. Nós devemos fazê-lo por boas razões. Perder a alma é o pior de todos os males. Obter sucesso em qualquer coisa ou até mesmo em tudo e ainda assim entrar no inferno ao fim da vida é pior do que nunca haver nascido. Portanto, o crente deseja nada menos para os seus filhos do que que eles sejam nascidos de novo, justificados, redimidos por Cristo e finalmente levados ao céu. Essa é a nossa prioridade. Isso é o que nós almejamos.


Não é necessário que essa ambição evangelística da parte dos pais ponha fim a todas as outras ambições. Um pai sábio deve também desejar que seu filho se destaque em uma ou outra carreira: talvez um curso universitário, ou como uma pessoa de habilidades sociais, ou politicamente ativo, ou alguém provável a ganhar um bom salário. O ponto aqui é que pais crentes nunca devem almejar essas coisas em primeiro lugar.


Quando pais colocam qualquer coisa acima da salvação de seus filhos, eles tornam-se culpados de desprezar as suas almas imortais. Tais pais mal se dão conta que estão em perigo de pecar por profanação. Pois é profanação colocar o sucesso mundano antes do bem da alma de uma criança. Esses pais que almejam um sucesso secular para seus filhos acima da bênção espiritual, podem até receber aquilo que eles pedem a Deus, mas também obterão pobreza para as suas almas (Sl. 106:15).


AMOR, ENSINO, DISCIPLINA


A paternidade, como a própria vida, é algo em que nós não podemos nos permitir errar. Se nós arruinarmos o caráter de uma criança pela nossa negligência ou por nossa indulgência, é quase impossível corrigi-lo depois. O caráter de uma criança é maleável apenas por poucos e breves anos. Rapidamente o barro endurece. Pensamentos e conversas habituais, bons ou maus, rapidamente se tornam duros como cimento na vida da criança. O pai crente deve se esforçar para, com todo o jeito e graça que possui, criar cada filho cuidadosamente para Deus.


Os elementos bíblicos para a criação de qualquer criança são: amor, ensino e disciplina.


Por amor, nós queremos dizer que os pais devem mostrar terna afeição e cuidado para com a criança, desde o momento do seu nascimento e durante toda a vida. Esse é o vínculo sagrado pelo qual a mãe, especialmente (mas também o pai), liga a vida da criança à sua. As crianças, como educadores e psicólogos admitem, necessitam profundamente da satisfação que vem dos generosos afetos da mãe. Não há substituto para isso. A mãe provê seu filho com milhares de palavras e gestos que formam a sua vida interior. A criança se desenvolve emocionalmente de uma maneira que toda a experiência da sua vida futura dificilmente desfará tal desenvolvimento. Essa relação de amor produz o que nós chamamos de “um profundo senso de dependência” na criança. Se tornará instintivo para a criança procurar nos pais conhecimento, sabedoria e direção, principalmente nos primeiros anos de vida.


Nenhuma criança deve ser encorajada, quando pequena, a tentar viver independentemente ou a tomar as suas próprias decisões, mas a procurar os pais e consultá-los sempre. Essa dependência não será algo nocivo porque normalmente, na adolescência, o caráter começa a solidificar-se e os próprios padrões e normas dos pais tornam-se também aqueles do adolescente. Se uma base de estabilidade moral e espiritual tiver sido estabelecida na alma desde a tenra infância, a independência virá naturalmente, uma vez vinda a maturidade.


Um pai crente, à luz do que foi dito anteriormente, nunca deixará a criança ser criada por qualquer outra pessoa. Exceto em circunstâncias muito excepcionais, além do nosso controle, e por breves períodos necessários para o descanso, devemos criar, nós mesmos, os nossos filhos. Ninguém mais, por melhor que seja, pode absolutamente fazer o trabalho de um pai. Na maioria dos casos, isso significa que a mãe de uma criança pequena deve estar preparada para ser cem por cento mãe, por alguns anos, até que o vínculo do amor tenha gerado na alma da criança a dependência a que já nos referimos. Se às vezes isso parece um papel exigente, deve-se lembrar que dentro de poucos anos, isso produzirá uma generosa recompensa.


COMEÇANDO A ENSINAR


Tão logo um pensamento consciente comece a se desenvolver na criança, o pai crente deve resolver fazer um firme e constante esforço para ensiná-la tanto no conhecimento bíblico como na sabedoria geral. Isso, obviamente, começa a acontecer nos primeiros anos de vida, antes mesmo que a criança comece a andar ou a falar. Quando palavras como “Bíblia”, “Deus” ou “igreja” forem pronunciadas, serão ditas com um tom de especial seriedade e devoção.


A mente tênue da criança deve ser despertada, no lar, para um mundo de pensamento que seja totalmente da Palavra de Deus. Instintivamente (e nós oramos que definitivamente) a criança aprende com os pais a ver a si mesma como “criada por Deus”, “pecadora”, “sujeita à enfermidade e à morte”, “necessitada de um Salvador”, “precisando orar a Deus sempre e por tudo”, “preparando-se na Terra para a eternidade”, como “tendo de enfrentar o grande julgamento de Deus ao final”, “obrigada a guardar a Lei de Deus”, e como “ciente do céu e do inferno”.


Pais não devem contentar-se apenas em dar graças nas refeições e nada mais. As refeições deveriam ser usadas para estimular conversas sobre temas espirituais: “Por que Jesus chamou a si mesmo o Pão da Vida?”; “Por que as pessoas não podem viver só de pão ?”; “Como podemos socorrer ao que passa fome?”, etc. Nós não estamos sugerindo que a hora da refeição deva ser totalmente devotada a conversas especificamente espirituais, mas que elas devem acontecer regularmente. A hora das refeições são momentos dados por Deus e devem ser gastos em conversas que não sejam sufocadas pelo controle da mídia. As crianças, assim como os adultos, precisam desembaraçar-se em suas conversas.


Nós firmemente aconselhamos os pais a tomarem como prática o dirigir um culto familiar em suas casas a cada manhã e noite. De preferência, o pai (quando isso não for possível, a mãe) dirigirá o cântico de alguns versos, então lerá um capítulo da Bíblia e orará. Nós recomendamos a leitura da Bíblia, ao invés de qualquer tipo de “livro de culto familiar”.


Se, no entanto, tal tipo de livro for usado, que o seja somente após haver sido lido um capítulo bíblico. O que mais importa é que as crianças sejam completamente familiarizadas com a Bíblia. Comentários de homens são valiosos, mas não substitutos dos próprios “oráculos de Deus”. Deixe que as crianças sejam encorajadas, por todos os meios, a ler livros devocionais. Mas no culto familiar, nós somos veementes em aconselhar que à Bíblia, em toda a sua autoridade e majestade, seja dado o lugar central. Crianças não conhecerão a Bíblia exceto por um aprendizado diário e repetitivo da maneira que sugerimos aqui.


À medida que as crianças crescem, espera-se que elas tenham seus próprios momentos devocionais, tanto de manhã como à noite, e também que compareçam aos cultos na casa de Deus. Nós não aprovamos a prática, encontrada em alguns círculos, de retirar-se as crianças na hora da pregação. Certamente, se a criança não pode manter-se em silêncio pela sua pouca idade, ela deve ser conduzida a uma outra sala de modo que não venha a perturbar o culto. Mas nos primeiros anos de vida, a criança pode aprender a ficar quietinha na igreja e a comparecer ao sermão. Pregadores adoram ver crianças na igreja, e o mais sábio deles, aqui e ali, jogará um punhado de grãos especialmente para elas durante o sermão.


DISCIPLINA


Disciplina é onde a maioria dos pais caem e fracassam no seu dever para com os seus filhos. A disciplina, entretanto, é essencial por pelo menos três razões:


·      porque nossos filhos possuem uma natureza pecaminosa, assim como nós;


·      porque Deus requer que os pais disciplinem a seus filhos;


·      porque as crianças irão de mau a pior se não a receberem.


Os problemas da juventude, nos dias de hoje, são grandemente agravados porque os pais não se têm permitido serem dirigidos somente pelas Escrituras nesse ponto, mas, ao contrário, têm sido influenciados pelas atuais idéias liberais espalhadas pelos humanistas.


A disciplina deve ser dada na forma de advertência, seguida, se desobedecida, por uma controlada punição física a uma parte do corpo onde não cause dano. No caso de crianças pequenas, tal castigo deve ser bem moderado. O propósito da disciplina é reforçar a obediência ao que é correto. Nós não castigamos as crianças quando elas erram por desconhecimento, embaraço ou confusão. Mas nós as castigamos com firmeza - e até demonstramos uma controlada irritação ou desapontamento de nossa parte - quando elas são desobedientes ou desonestas espontaneamente. A maior “dor” para a criança deve ser a de perceber que nós, como pais, estamos aborrecidos e descontentes com o seu comportamento.


A disciplina é a maneira correta, bíblica, e dada por Deus com a qual os pais devem responder à desobediência de seus próprios filhos. A nossa autorização para a disciplina é encontrada em trechos das Escrituras como os seguintes:


Pv. 13:24:  “O que retêm a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo o disciplina.”


Pv. 19:18:  “Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo.”


Pv. 22:15:  “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela.”


Pv. 23:13,14: “Não retires da criança a disciplina, pois se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.”


Há, hoje, uma linha de pensamento que diz que crianças não devem receber punição física. Os frutos dessa teoria anti-cristã são vistos em todo lugar: sujeira, pichações, arruaças, furtos, ataques a idosos, e uma atitude orgulhosa que não pode ser corrigida por ninguém - nem pelos próprios pais, se eles tiverem negligenciado a disciplina desde cedo.


É lógico que, se a disciplina for aplicada amorosamente, mas firmemente, e reforçada na infância, ela frequentemente não será necessária na adolescência. Não é sem razão que Deus diz: “Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno” (Pv. 23:14).


O inferno é diariamente enchido com as almas de homens e mulheres que não foram corrigidos na infância porque os seus pais foram “gentis” demais, tímidos demais, ou demais ocupados para cuidar dos problemas quando e enquanto eles surgiam. Muitos pais, e dentre eles muitos cristãos, têm sido, como Eli (1 Sm. 2), envergonhados e reprovados porque foram indulgentes demais. Não se espantem quando a Bíblia diz: “O filho estulto é tristeza para o pai, e o pai do insensato não se alegra” (Pv. 17:21).


MANTENHA-OS OCUPADOS


O pai cristão deve ensinar, por preceitos e exemplos, que Deus nos colocou neste mundo para servi-Lo e obedecê-Lo. A nossa vida, devemos ensinar a nossos filhos, é curta e incerta. Nosso primeiro dever é reconciliar-nos com Deus pela fé no Senhor Jesus Cristo; o segundo, e que dura para a vida toda, é buscar agradar a Deus através do cumprimento da Sua santa Palavra. Uma das principais partes da nossa obediência é trabalhar duro nos “seis dias” que se seguem ao sábado cristão (o domingo), ou Dia do Senhor (Ex. 20:9). Na nossa sociedade moderna, há uma quantidade absurda de tempo gasta com esportes e entretenimento ocioso, muito dos quais nada contribuem para o bem da alma, pelo contrário, são nocivos em todos os aspectos para o desenvolvimento e progresso espiritual.


Uma vez que “as mãos e mentes ociosas são a oficina de Satanás”, é sábio para um pai manter os seus filhos proveitosamente ocupados. Estabeleça pequenas atividades e deveres para fazerem enquanto ainda são pequenos; mais tarde, no período escolar, deixe que tenham fartura nos deveres de casa (não apenas escolares). Os pais podem facilmente verificar isso para que, se necessário, a quantidade de atividades dada pela escola seja suplementada. Os pais, afinal de contas, e não a escola, é que são, em última análise, responsáveis pela educação dos seus próprios filhos.


Muitas crianças da igreja são desfavoravelmente afetadas pelas más companhias que encontram fora de casa. Ainda que não possamos tecer um casulo em volta de nossos filhos, nós podemos tomar algumas medidas efetivas nesse ponto. Pais crentes devem “analisar” os amigos de seus filhos, discretamente, ainda que cuidadosamente. Se um mau linguajar, maus hábitos ou más atitudes são percebidas em tais amizades, elas devem ser firmemente terminadas ou evitadas pelos pais: “João, você terá que se despedir de seu amigo Pedro. Ele não é uma amizade adequada para você. Nós precisamos procurar outro amigo para você”.


O pai crente que pretende fazer tudo que estiver ao seu alcance para que seus filhos venham a ser convertidos deve encarar a dolorosa possibilidade de que nem todas as crianças da Escola Dominical ou da igreja são amigos adequados para os seus filhos. Isso deve envolvê-los em delicadas e diplomáticas medidas para resguardar as suas crianças dos filhos de alguém que atende à mesma congregação. Nós sabemos que alguns crentes são maus pais; mas também, alegremente descobrimos que, pela providência de Deus, alguns não-crentes são surpreendentemente bons pais, ao menos em assuntos não especificamente espirituais. Nós devemos a Deus a responsabilidade de colocar o bem da alma de nossos filhos antes de todo fator humano, como, no caso, a amizade. Nossos filhos nem sempre podem compreender isso no momento. Mas, quando se converterem, nos agradecerão pela firme e delicada proteção que demos a eles, até mesmo dentro da igreja.


PROFESSANDO A FÉ EM CRISTO


Um pai crente não deve se perturbar se um de seus filhos reclamar por ser “criado com muito rigor”. Tais reclamações ocasionais são esperadas porque os nossos filhos, possuindo uma natureza pecaminosa, compreensivelmente se ressentem do senhorio de Cristo no lar. Mas, no fundo, filhos de bons lares costumam saber, ainda que nem sempre admitam abertamente, que estão melhores e mais felizes do que aqueles que eles conhecem, provenientes de lares mundanos, onde a televisão sem limites e o excesso de tolerância são a regra.


Pais crentes sabem que eles não podem converter os seus filhos por si próprios. Mas devem sempre lembrar-se de pelo menos duas coisas: de que há uma promessa ligada à paternidade desempenhada com fidelidade; e que, ainda que nós não possamos dar a salvação a nossos filhos, nós podemos insistir que eles sejam corteses e respeitosos conosco e com os outros adultos.


A promessa a que nos referimos acima é, em outras palavras: “Ensina a criança no caminho que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Pv. 22:6). Nós podemos agarrar firmemente tal graciosa promessa e suplicá-la a Deus, ao mesmo tempo em que amamos, ensinamos e continuamos a disciplinar os nossos filhos. É uma feliz experiência dos pais crentes quando - embora nem sempre isso ocorra - veem seus filhos ou filhas chegarem ao ponto de desejarem confessar a Cristo por si mesmos. É uma experiência de ouro para qualquer crente. É música para os nossos ouvidos.


Entretanto, mesmo nesse ponto precisamos ser um tanto cautelosos. Nós oferecemos os seguintes conselhos:


1- Nunca pressione uma criança a “aceitar a Cristo”, a “tornar-se um membro”, a “descer às águas do batismo” (quando for o caso da igreja dos pais utilizar esse tipo de batismo), ou a “ir à mesa do Senhor”. Danos são causados por uma pressão emocional desse tipo. Quando as crianças são pequenas, elas dizem o que elas sabem que agradará os mais velhos. Contudo elas voltarão, mais cedo ou mais tarde, às suas verdadeiras personalidades se uma regeneração verdadeira não houver acontecido. É melhor deixar a verdade de Deus fazer o seu trabalho e esperar que as pétalas da rosa se abram por si mesmas sob a bendita influência do Sol da Justiça.


2- Não dê, de imediato, crédito demais a uma criança que professa ter sido convertida recentemente. Espere para ver que mudanças acontecem na sua vida em certo período de tempo. Procure por mudanças em seus interesses e em suas atitudes. É melhor ser cauteloso demais do que crédulo demais. A graça não evapora se não receber uma generosa recepção em sua primeira profissão. O que os levará - e a nós também - para a glória é o poder de Deus que vem da plenitude de Cristo, um poder que não pode ser perdido, uma vez que foi desfrutado.


3- Não despreze ou menospreze a profissão de fé de uma criança, mas mostre, por todos os meios, que você valoriza a fé verdadeira nelas acima de todas as honras que esse mundo jamais poderia lhes dar.


Não é uma coisa fácil ser um bom pai hoje em dia. Misericordiosamente, Deus é capaz de sobrepujar nossos muitos erros e conduzir nossos filhos a Ele a despeito de todas as nossas falhas e deslizes. A graça, afinal de contas, é graça porque é imerecida e soberana. Provavelmente, jamais existiu pai algum que não tenha olhado para trás com pesar pelos muitos erros que ele ou ela cometeu no processo de criar uma família. Até grandes homens como Davi e Eli tiveram dor e pesar por causa da incredulidade de seus filhos e filhas.


No entanto, somos ousados a dirigir-nos a pais crentes com jovens famílias para que eles sejam encorajados a superarem-se na tarefa de criarem os seus filhos para Deus, da melhor maneira possível. É uma grande tarefa, mas ela pode ser extremamente gratificante, ao final. O nosso mais respeitoso desejo e oração é que tais pais possam ver os seus filhos, um dia, assentados com eles no reino da graça - e finalmente, no reino da glória.
Artigo publicado na revista "The Banner of Sovereign Grace Truth".

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Educação no Éden - Parte 1

                          O ÉDEN COMO O INÍCIO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO


*Trecho extraído da obra: O Princípio da Educação, por Karis B. G. A. Davis, da Parte 1: A Educação no Éden: O Princípio da Excelência Educacional.

Introdução à Parte 1:

“Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim... O que é já foi, e o que há de ser também já se foi; Deus fará renovar-se o que se passou... A tudo quanto há de vir já se lhe deu o nome, e sabe-se o que é o homem, e que não pode contender com quem é mais forte do que ele”

Eclesiastes 3:11,15; 6:10

Solano Portela afirmou: “... o objetivo da Educação Cristã deve ser o de proporcionar à pessoa que está sendo educada, não apenas a obtenção de conhecimentos variados uns dos outros e da sua própria constituição física e moral, mas sim o de conceder uma visão integrada e coerente de vida, relacionada com o Criador e com os Seus propósitos.[1] Essa “visão integrada e coerente da vida, relacionada com o Criador e com os Seus propósitos” de que Portela fala, e que também chamamos de cosmovisão cristã, é comumente comparada à estrutura de um prédio que contém três colunas principais, ou o tripé: criação-queda-redenção. Essa parte inicial do livro trata dessa primeira coluna: a criação. Não do relato bíblico de Gênesis 1 e 2 em si, mas do seu peso e significado histórico-teológico- filosófico-pedagógico para a educação cristã, ou seja, como uma figura do ideal de Deus para a educação do homem como fora criado. Esse estado inicial ideal e excelente da educação nos revela o início da história educacional e o propósito da vida e da educação do homem no mundo. Quando nos referimos a esse tempo inicial, usamos o termo “no princípio”. Quando nos referimos à qualidade desse estado, usamos o termo “perfeição”. Quando nos referimos ao lugar em que a educação ideal aconteceu, falamos do “Éden”.

Essa parte é formada por cinco capítulos que caracterizam, por sua vez, a origem, o contexto, o aluno, os alvos e o conteúdo curricular do primeiro momento da educação do homem.  O primeiro capítulo nos introduz ao primeiro momento da história educacional, à fonte dessa história, e ao seu autor divino, apresentando vários elementos da cosmovisão original (visão da história, de Deus, de conhecimento e do mundo). O segundo capítulo descreverá a criação como a sala de aula ideal. O terceiro capítulo caracteriza o aluno ideal ou perfeito, ou seja, o ideal de Deus para a educação e formação da pessoa humana. O quarto capítulo trata dos objetivos individuais e sociais da educação do Éden; e o quinto capítulo descreve o currículo original como o modelo divino para dirigir a formação teórica e curricular das escolas cristãs.

 

O Éden como o Início da História da Educação Cristã

No princípio criou Deus os céus e a terra...
... E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; 
e pôs ali o homem que tinha formado.
 – Gênesis 2:1,8

Exclamando em voz alta, ou talvez silenciosamente perguntando a si mesmo, você pode estar pensando, ao ler o título acima: “Educação cristã no Jardim do Éden? O que essa alusão a um lugar mitológico da antiguidade tem a ver com a história da educação? Ainda que eu estivesse entre os poucos que acreditam na existência de um paraíso original, a história da educação cristã não pode ser tão antiga, certo?” Nesse caso, supondo que você é provavelmente um educador não-cristão apenas interessado em aprender mais a respeito da história da educação cristã ou de uma história educacional contada do ponto de vista cristão, este capítulo lhe fornecerá uma oportunidade única de ser introduzido ao relato bíblico do início da história do mundo – remoto, sim, mas que consiste na própria base tanto do cristianismo como de toda empreitada educacional neste planeta – e aos princípios básicos da visão de mundo cristã – uma visão religiosa e educacional única, coerente, profunda e verdadeira do início ao fim, como procuraremos demonstrar. Quem sabe, antes de chegar no final deste livro, o poder das verdades e da mensagem cristã nele contidos terão levado seu coração a fazer outras e mais profundas perguntas... cujas respostas podem vivificar e transformar toda a sua vida, e toda a sua educação!

O mais provável, entretanto, é que você seja um educador cristão – no sentido mais amplo possível do termo – e a sua surpresa faça a pergunta soar um pouco diferente: “Educação cristã no Jardim do Éden? É claro que eu conheço o relato bíblico da criação do mundo e de Adão e Eva no Jardim do Éden, mas o que isso tem a ver com a educação cristã? Além disso, a educação cristã não é um subproduto do cristianismo que se originou há cerca de dois milênios? Não seria, portanto, um anacronismo falar em educação cristã antes da vinda de Cristo?” Tecnicamente, talvez sim – biblicamente, não! Trataremos dessa questão logo adiante, e o restante deste capítulo deverá deixar claro que a educação cristã tem o seu verdadeiro início histórico e filosófico nos acontecimentos cruciais e nos princípios revelados neste tempo e lugar da antiguidade, o Éden. As palavras inaugurais de Gênesis 1:1: “No princípio, Deus...” revelam a origem da história da educação, declaram a autoridade da Bíblia como a fonte da história e da filosofia educacional cristã, e exaltam o Deus criador como o Autor e o Fundamento principal da história da educação.

O Éden como o Início da História da Educação Cristã


Para os cristãos que acreditam na Bíblia como sendo a própria palavra inspirada de Deus, o Éden, com todos os seus personagens e acontecimentos, não é um lugar mitológico, mas absolutamente real. É história. É o início da história humana e é também o primeiro momento da história educacional do ser humano. É verdade que a maioria dos livros de história da educação, mesmo os livros cristãos, não vão tão longe. Eles simplesmente começam com a vinda de Cristo, ou consideram brevemente a educação do povo de Israel; no máximo, chegam a tratar de alguma forma de educação ainda incipiente nas comunidades dos “primeiros nômades”. Acreditamos, no entanto, ter bons motivos para começar a contar nossa história da educação remontando ao início de tudo, revelado naquelas palavras inaugurais de Gênesis: “No princípio”.

Ao fazermos isso, estamos conscientemente nos opondo àqueles historiadores que ignoram a verdadeira origem da história humana e da história da educação. O argumento desses historiadores seculares é que não temos provas documentais ou arqueológicas da educação nos períodos anteriores, e – convenhamos – os historiadores evolucionistas estariam em grandes dificuldades se tivessem de definir exatamente o momento histórico em que os seres inferiores se tornaram humanos e experimentaram as primeiras formas de educação. Assim, prevalece a idéia de que o início das coisas é indefinido, não é importante, e está tão distante de nós que não tem nada de proveitoso a nos ensinar.

Que os evolucionistas e materialistas não possam fornecer uma explicação sobre a origem da educação não nos surpreende. Mas como educadores cristãos que somos – que possuímos a revelação de Deus sobre o Gênesis, que cremos que a Bíblia é a palavra inspirada, autoritativa, inerrante e suficiente de Deus, a qual nos foi revelada e nos está acessível como a mais confiável e útil fonte histórica de que precisamos – não podemos ignorar o grande acontecimento da origem da humanidade e do surgimento da educação cristã.

A antiguidade e a unidade da história cristã


Não foi Matthew Tindal, como muitos imaginam, o primeiro autor da tese de que “o cristianismo é tão antigo quanto a criação”.[2] Nós sugerimos essa idéia aqui, cientes de que a teologia bíblica e reformada sempre sustentou essa posição ao defender que a história do cristianismo é, em essência, a mesma história contida no Antigo Testamento e iniciada no tempo e no espaço quando do advento da criação do mundo. O cristianismo, se entendido como a verdadeira religião sobrenatural e revelada na Bíblia, é tão antigo quanto a criação. E a educação cristã, se entendida como um ensino que pressupõe uma visão do mundo como ele é interpretado por Deus nas Escrituras, é, portanto, tão antiga quanto a criação dos primeiros seres humanos.

O que parece acontecer entre historiadores cristãos (especialmente entre os evangélicos e menos entre os reformados) é uma espécie de consenso – até certo ponto justificável, técnica ou didaticamente – que associa o termo cristianismo com o período iniciado pela vinda de Jesus Cristo ao mundo e a educação cristã àquela desenvolvida a partir da igreja primitiva. Muitas vezes, entretanto, isso é fruto de uma teologia que não compreende a continuidade da revelação de Deus e que tem dificuldade de perceber a unidade do plano de Deus revelado na antiga aliança e na nova aliança, e de relacionar a história cristã apresentada no novo testamento com as narrativas bíblicas do antigo testamento, especialmente quando estas entram em conflito aberto com a ciência e com as filosofias atuais, como acontece no debate entre criacionistas e evolucionistas.  O resultado é que muitos, para evitarem maiores dificuldades e escaparem do confronto cultural, acabam com uma visão limitada e fragmentada da história.

Não há descontinuidade de sentido nem de propósito na obra de Deus entre os homens. O Deus dos cristãos que veio ao mundo na pessoa do seu Filho é o mesmo Deus que criou todas as coisas no princípio. O propósito de Deus para a vida, para a cultura, para a educação e para o futuro dos homens é eterno e é um só, desde o princípio, e o será até o final do mundo como o conhecemos. O grande expositor bíblico Martyn Lloyd-Jones enfatiza, nesse sentido, a importância de termos sempre em mente a história toda, de buscarmos uma perspectiva ampla e uma visão distanciada que nos permita compreender as coisas como um todo, e o início da história humana é essencial para essa visão contextual:

... A Bíblia ... raciocina com você. A Bíblia não diz: “Somente vá a Cristo e tudo estará bem”. De maneira alguma. Ela começa em Gênesis. Ela começa com a Criação. Ela quer que você saiba e compreenda porque você é quem você é e porque Deus propõe o que propõe.

Então a Bíblia nos diz que o mundo não é acidental. Ela nos diz que a história não existe sem um começo. Ela nos diz que houve um tempo em que não havia mundo nem história e que Deus, deliberadamente, conforme o conselho da sua própria vontade eterna, decidiu criar, formar um mundo e começar o processo histórico. Você e eu estamos na história e cabe a nós saber alguma coisa sobre este processo.[3]

O Éden como introdução e contexto da história


Você já perdeu o início de um filme e ficou tentando em vão entender a sua trama até que alguém lhe explicou como a história começou, e só então o resto do filme passou a fazer sentido? Isso acontece porque o início de qualquer história contém informações essenciais para a sua compreensão. O início normalmente localiza a história no tempo e no espaço, revela e caracteriza seus personagens, e não raro inclui acontecimentos e eventos cruciais para a continuação da história.

As cenas iniciais da história da educação acontecem no Éden, naquele jardim especial criado por Deus para ser a habitação dos primeiros seres humanos na terra, e as vemos não em tela de cinema, mas nas primeiras páginas das Escrituras Sagradas. Os primeiros capítulos da Bíblia contêm vários assuntos pertinentes à educação cristã, tanto no que diz respeito ao início da história da educação do homem, como também informações e fatos importantes para embasar a filosofia educacional cristã. Eles revelam informações contextuais essenciais para a compreensão de qualquer capítulo ou porção subseqüente dessa história educacional.

Dentre esses assuntos cruciais estão a apresentação do autor da história, a narrativa da origem e da criação do mundo e do homem, a descrição do mundo e da vida humana no estado original de perfeição em que foram criados – com destaque para as características, funções e relacionamentos desse homem perfeito – e em especial a descrição do relacionamento entre o homem e seu Criador divino naquele estado de perfeição, conhecido em termos teológicos como o “pacto adâmico” ou “pacto de obras”.

Esses assuntos compõem o primeiro eixo do tripé (criação – queda – redenção) que fundamenta a visão de mundo cristã e contém as chaves das respostas às questões essenciais enfrentadas por todos os sistemas de pensamento e filosofias educacionais: O que é este universo? De onde ele veio? O que é o homem? Como ele surgiu? Para quê ele está aqui? Qual o seu papel na história? Como ele deve atuar no mundo? O que é a educação? Por que o homem deve ser educado? O que buscamos através da educação? Com que aspectos a educação deve se ocupar? Esses são alguns dos mais profundos e práticos problemas da filosofia educacional e ousamos afirmar que eles não podem ser respondidos satisfatoriamente, senão por meio da indispensável revelação de Deus registrada na Bíblia.

Aplicação Educacional: Sobre a Importância do Início da História


Pressupostos e Princípios:


- A verdade histórica da visão de mundo cristã. Assim como a fé cristã se baseia em fatos históricos (na existência histórica, factual e literal do primeiro Adão em Gênesis, nas obras redentoras de Deus na história do seu povo, da vinda de Cristo como o segundo Adão, que adentrou a história para viver, morrer e ressuscitar ao terceiro dia, e da sua segunda vinda para julgar o mundo no final da história – todos acontecimentos históricos), assim também a filosofia educacional cristã afirma a verdade histórica de sua visão de mundo. Não devemos nos contentar com que a nossa visão de mundo seja meramente tolerada entre tantas outras no contexto pluralista atual, mas precisamos declarar que a única filosofia educacional válida é aquela cuja verdade de seus pressupostos estão firmados em acontecimentos históricos.

 - A importância da origem das coisas. A filosofia e a história educacional cristã, se pretendem seguir o exemplo bíblico, precisam dar um relato convincente e explicativo da origem das coisas (de sua história, filosofia e prática). É bom, saudável e bíblico fazer indagações como: “de onde isso veio?”  Desde quando esse método é usado? Porque adotamos esse determinado material? Qual a história desse professor? Quem são os defensores históricos dessas práticas? Quem inventou a pré-escola, e por quê? Em que contexto práticas escolares que adotamos foram introduzidas? O contexto atual ainda as justifica? Inúmeras e variadas são as aplicações desse princípio de que o início e a origem das coisas é importante, e de que essas questões fundamentais devem ser perguntadas com referência a cada aula, tópico curricular, prática escolar, histórico de cada aluno e professor, etc. Semelhantemente, devemos ter cuidado e desconfiar daquelas filosofias e práticas educacionais recentes, ou que surgem pragmaticamente, cujos resultados não foram testados historicamente, ou daquelas mais antigas que se nos apresentam como ditatoriais e inquestionáveis, ou ainda daquelas que não fazem parte de um sistema de explicação abrangente e tratam só de coisas particulares e metodológicas.

- Do início ao fim a mesma história educacional. A educação brasileira ainda carece de um livro de história geral e brasileira contada da perspectiva cristã, e particularmente de um livro de história da educação cristã. Mas quando esses materiais didáticos surgirem (e esta obra é um convite a esforços nessa direção), se eles forem realmente bíblicos, a sua história deverá começar no Éden, centralizar-se na obra de Cristo na história e finalizar apontando para as revelações do Apocalipse. A história da educação greco-romana, reformada, assim como a brasileira, devem estar devidamente inseridas nesse plano todo-abrangente de Deus.

Direcionamentos Práticos


- Busque explicar às crianças a origem e o porquê das coisas. Volte no tempo o mais longe possível, e sempre que for devido, associe suas explicações ao Éden, a seus personagens e acontecimentos.

- Enfatize a unidade e a totalidade da história bíblica: Seja falando de Abraão, de José, do povo de Israel, de Davi, de Jeremias, de Jesus, ou das viagens missionárias de Atos, busque compreender e dar às crianças uma visão da história toda, do Éden a Apocalipse, e do seu lugar dentro dessa história.

- Busque pesquisar e repensar, como professor ou educador em qualquer área, a origem de suas crenças e práticas educacionais. Certifique-se que há fundamentação bíblica para tudo o que você pensa e faz ou deixa de fazer.

- Se você é um diretor ou administrador escolar, valorize a formação e o interesse histórico, teológico e bíblico nos professores candidatos a qualquer vaga, e incentive formação continuada nessas áreas fundamentais como um instrumento valioso para garantir a sua visão de mundo cristã.

Próximo Post nesta seção: A Bíblia como a Fonte da História da Educação Cristã.




[1] Portela, Solano. Educação Cristã: ([199-], p. 1)
[2] Erroneamente conhecido como o autor dessa tese, Matthew Tindal foi quem a emprestou do sermão de um pregador ortodoxo e a distorceu para defender a sua teologia natural nessa obra que ficou conhecida como “a Bíblia do Deísmo”, na qual ele eleva a Natureza e a Razão em lugar de Deus e descarta a revelação e os milagres, chegando a conclusões radicalmente anti-bíblicas e anti-cristãs.
[3] Lloyd-Jones, Martyn. The Gospel in Genesis: From Fig Leaves to Faith (O Evangelho em Gênesis: De Folhas de Figueira à Fé) (Wheaton: Crossway, 2009), p. 15-16.

terça-feira, 4 de junho de 2013

CRIANDO NÁRNIA – C. S. LEWIS

Segue um texto interessante sobre o fazer literário de um bom escritor. Creio que tanto o seu autor quanto as obras as quais ele se refere no decorrer deste trecho dispensam comentários ou introduções, certo? O texto foi extraído da obra "A Imaginação Cristã", de Leland Ryken, da qual ainda pretendo extrair vários outros trechos, citações e postagens, se Deus permitir. Por enquanto, espero que estes pequenos excertos sejam de bom proveito para o leitor. Note que, quando C. S. Lewis fala no "Leão", ele sempre começa a palavra referente a ele com letra maiúscula, representando, assim, não apenas o personagem do Leão na série de Nárnia, mas também todo o aspecto cristão que as permeia. Aproveite a breve leitura!


CRIANDO NÁRNIA – C. S. LEWIS

Algumas pessoas parecem pensar que eu comecei me perguntando como eu poderia dizer alguma coisa sobre o Cristianismo para crianças; então focalizei o conto de fadas como um instrumento; e então coletei informações sobre psicologia infantil e decidi para qual faixa etária eu iria escrever; e depois desenhei uma lista de verdades Cristãs básicas e martelei “alegorias” que as incorporassem. Isso tudo é pura bobagem. Eu não poderia escrever assim de modo algum. Tudo começou com imagens; um fauno carregando um guarda-chuva, uma rainha em um trenó, um magnífico leão. De início, não havia nada de Cristão neles; este elemento foi se intrometendo por si próprio. Ele fazia parte da borbulhação.  

Então veio a Forma. À medida que estas imagens se foram se organizando em eventos (i.e., se transformaram em estória), elas não pareciam requerer interesse amoroso ou uma elaborada psicologia. Mas a Forma que exclui tais coisas é o conto de fadas. E no momento que eu pensei nisso, eu me apaixonei com a Forma em si mesma: a sua brevidade, a sua severa contenção nas descrições, o seu flexível tradicionalismo, a sua inflexível hostilidade a toda análise, digressão, reflexão e “gás”. Eu agora estava enamorado dela. A sua própria limitação de vocabulário tornou-se uma atração; assim como a dureza da pedra agrada o escultor, ou a dificuldade do soneto deleita o poeta.

Neste lado (como autor) eu escrevi contos de fadas porque o Conto de Fadas pareceu ser a Forma ideal para aquilo que eu tinha para dizer...

Todos os meus sete livros de Nárnia, e os meus três livros de ficção científica, começaram com imagens em minha cabeça. De início, elas não eram uma estória, apenas figuras. O Leão todo começou com a figura de um Fauno carregando um guarda-chuva, caminhando em uma floresta cheia de neve. Esta imagens havia estado em minha mente desde que eu tinha dezesseis anos. Até que um dia, quando eu estava com aproximadamente quarenta, eu disse a mim mesmo: “Vamos tentar fazer uma estória com isso.”  

 De início, eu tinha muito pouca ideia de como a estória prosseguiria. Mas então, de repente, Aslan veio saltando e a enlaçou. Eu acho que eu estava tendo muitos sonhos sobre leões naquela época. Fora isso, eu não sei de onde veio o Leão ou porque Ele veio. Mas da feita que Ele estava lá, Ele amarrou toda a estória junta, e logo Ele puxou as outras seis estórias de Nárnia após Ele.

Você vê, então, que em certo sentido, eu sei muito pouco sobre como esta estória nasceu. Isto é, eu não sei de onde vieram as imagens. E eu não creio que alguém saiba exatamente como se “inventa coisas”. A Invenção é algo muito misterioso. Quando você “tem uma ideia”, você poderia contar exatamente para alguém como que você pensou nisso?


De Outros Mundos. New York: Harcourt Brace Jovanovich, 1966. (In: Ryken, Leland, ed. The Christian Imagination. Colorado Springs: Showbrooks, 2002.)
Tradução: Anna Layse A. Davis.