“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Biografias Selecionadas da História da Igreja - Parte 4



Nota da Tradutora: Seguindo a série de biografias da História da Igreja, esta é a primeira das biografias extraídas da segunda parte do livro "Mulheres Famosas da Igreja Reformada", por James I Good. A primeira parte desta obra já foi traduzida e publicada, em português, pela editora Knox Publicações, com o título de "Grandes Mulheres da Reforma" (clique aqui). A segunda parte da obra ainda está em processo de tradução, mas disponibilizarei aqui no blog os capítulos avulsos, à medida em que forem sendo traduzidos. Espero que a vida destas importantes personagens da História da Igreja sirvam de exemplo e encorajamento para todos nós que, mesmo vivendo em épocas e circunstâncias tão distantes, somos unidos pela mesma nobre causa, e pelo mesmo Cabeça e Salvador.



AS GRANDES MULHERES DA REFORMA – PARTE II
MULHERES DO SÉCULO XVII
CAPÍTULO I – ALEMANHA

PRINCESA ELIZABETH DO PALATINADO



Não tão conhecida como a famosa Rainha “Bess” da Inglaterra, mas muito mais bela, foi a sua “xará” e parente, a Princesa Elizabeth, filha do Rei James I, da Inglaterra, embora a sua ventura tenha sido tão triste quanto a sua beleza. O triste fado da sua família, os Stuarts, parecia repousar sobre ela. Ela se tornou a infortunada Rainha da Boêmia, o “cordeiro pascal” da Guerra dos Trinta Anos.
Ela nasceu em 19 de Agosto de 1596, no Palácio de Falkland, na Escócia. A sua infância foi alegrada por um irmão que ela adorava, Henry, o qual infundiu na sua jovem mente uma aversão contra a Igreja de Roma que continuou a se intensificar, posteriormente, quando ela veio a sofrer tanto debaixo dos poderes de Roma.
Ela foi enviada para estudar na Escola de Combe Abbey. Enquanto estava ali, ela foi retirada às pressas quando a pólvora da conspiração (em 1605) foi descoberta, pois os conspiradores desejavam capturá-la e forçá-la a se tornar rainha. Quando o perigo passou, ela escreveu ao seu irmão uma pequena nota que concluía com esta expressão: “Se Deus é por nós, quem poderá ser contra nós?” Naquele momento, um rapaz de nove anos de idade lhe enviou do continente uma nota de parabenização pela sua segurança. Este era o pequeno Conde Frederico do Palatinado, o qual, mais tarde, se tornaria o seu esposo. Ele declarava nesta nota que ele cria que aquela terrível conspiração procedia da agência direta do Anti-Cristo. Depois disso, ela escreveu para o seu guardião um poema no qual ela parece ter sido dotada do mesmo espírito devocional de Lady Jane Grey.
Quando ela tinha dezesseis anos de idade, Frederico pediu a sua mão. Considerou-se sábio unir dois poderes tão proeminentes e Reformados quanto a Inglaterra e o Palatinado em casamento. Então, em 16 de Outubro de 1612, o Príncipe Frederico embarcou para a Inglaterra para receber a sua noiva. Os Protestantes da Inglaterra estavam muito contentes pelo casamento da sua bela Princesa com Frederico, embora o católicos tenham se oposto a isso, e a própria mãe de Elizabeth nunca perdeu uma oportunidade para relembrá-la de que ela estava casando com alguém que estava aquém da sua posição, chamando o Príncipe Frederico do Palatinado de o “condezinho do Palatinado”. Elizabeth prontamente respondeu: “Eu prefiro casar com um conde Protestante, do que com um Imperador Católico.” Aconteceu que, logo que Frederico chegou na Inglaterra, o Príncipe Henry, herdeiro do trono e o ídolo do povo, faleceu. Assim, afortunadamente, Frederico veio à Inglaterra para se posicionar no lugar do irmão de Elizabeth. E a nação parecia transferir todo o seu interesse pelo finado Príncipe para Frederico.
Eles foram casados no Dia de São Valentino, em 1613, com grande pompa. Vestida em um belo manto de gala branco e de prata, ornado com diamantes, uma coroa de ouro em sua cabeça, o seu longo cabelo trançado com pérolas e diamantes, a sua caravana carregada por treze jovens vestidas de branco, ela foi desposada pelo Príncipe. O Arcebispo de Canterbury realizou o casamento, e um sermão foi pregado pelo bispo de Bath e Wells, sobre as bodas de Canaã. Depois do casamento, Frederick visitou Cambridge e Oxford, onde foi recebido com grande honra, e então se preparou para levar a sua noiva de volta à sua própria terra.
A jornada que fizeram, passando pela Holanda e ao longo do Rio Rhine se pareceu com uma entrada triunfal. Uma recepção era seguida por outra recepção. Em Amsterdã, da sua barca para a sua carruagem, ela passou por uma ponte ricamente acarpetada, enquanto na frente da estação estava um belo arco no qual ela estava representada como Thetis, a deusa mãe de Aquiles. Todos os dias haviam apresentações militares, de modo que o seu diário de recém-casada parece com uma marcha de vitória. Em Dusseldorf, o seu esposo havia providenciado um iate no qual ela navegaria o belo Rio Rhine até Heidelberg. Quando ela chegou ao Palatinado, ela foi recebida pelas cidades de Oppenheim e Frankenthal com grande regozijo e honra.
Ela chegou em Heidelberg em um belo dia de Junho. Praticamente toda a nobreza Protestante da Alemanha estava lá para recebê-la; e à medida que eles chegavam, com grandes comitivas de seguidores, Heidelberg se encontrava cheia de júbilo e esplendor. A Princesa chegou diante da cidade, na companhia de mais 374 pessoas, dentre elas nobres Ingleses como o conde de Arundel e o Lord Lenox. À medida que ela prosseguiu em direção ao castelo numa carruagem com oito cavalos, espalhavam-se nas ruas folhagens de relva verde, e os tetos eram coroados com os ramos de Maio. Ao longo dos muros, haviam sido penduradas guinaldas de flores. No dia seguinte, o pregador da corte, Scultetus, pregou um sermão e as festividades continuaram por doze dias. Elas se encerraram em 18 de Junho de 1613, com um sermão de Scultetus sobre o tema de ações de graças, baseado no Salmo 119. Aproximadamente 300,000 libras foram gastas e 5500 pessoas banqueteavam diariamente no castelo.
E assim se iniciaram os seus dias mais felizes. A sua “lua de mel” durou cinco anos. Este belo castelo, que provocava a admiração dos visitantes Ingleses, havia sido ampliado pelo castelo Inglês e pela robusta torre na aba oeste, construídos por Frederick para a sua noiva Inglesa. Ele também nivelou e transformou o lado posterior e montanhoso do castelo em um dos mais belos jardins – um paraíso de flores para que ela pudesse descansar e aproveitar. Ali, no verão, laranjas e limões espalhavam o seu aroma. Aqui havia um pomar Inglês, e ali um bosque de amoreiras. Belos canteiros de flores, de muitas variedades e cores, variavam a vista. Da beira de um precipício jorravam cachoeiras artificiais, enquanto córregos prateados de água fluíam quando o jardim lhes abria passagem e, à medida que fluíam, sinfonias musicais, supostamente sussurradas pelas ninfas, adentravam os seus ouvidos. Haviam grutas das quais corriam riachos melódicos. As belezas deste jardim eram tão majestosas que o Rei Luíz XIV, da França, o invejou e receou que a sua beleza eclipsaria o esplendor dos seus jardins no Palácio de Versailles.
Ali se passaram os anos mais felizes da sua vida. A sua felicidade pareceu culminar no ano de 1619, quando ela se tornou rainha, visto que o seu esposo foi eleito Rei da Boêmia. A sua mãe não podia mais desprezá-la por ter casado apenas com um príncipe, pois agora ela era uma rainha. Ela ganhou o posto tão cobiçado, mas ah! Pesada é a cabeça que sustenta uma coroa. Contudo, ela estava pronta para este posto, visto que ela escreve ao seu esposo, logo após ter aceitado o trono: “Eu não me amofinarei, sejam quais forem as consequências que me venham sobrevir, ainda que eu seja forçada a abrir mão da minha última joia”.
O momento então chegou, quando a Rainha Elizabeth partiria rumo à Praga, para ascender ao trono da Boêmia. A sua partida de Heidelberg foi infausta, como que apontando para os seus sofrimentos futuros. O dia anterior ao da sua partida foi um Domingo. Ela atendeu ao culto naquele dia e o seu capelão, por uma curiosa coincidência, pregou no texto: Ouçam agora, vós que dizem: ‘Hoje ou amanhã iremos para esta ou aquela cidade, passaremos um ano ali, faremos negócios e ganharemos dinheiro’. Nem mesmo sabeis vós o que acontecerá amanhã!” Estranho dizer, mas “o ano” daquele texto foi cumprido, visto que ela permaneceu apenas um ano como rainha em Boêmia, até que desastres inesperados se sobreviessem a ela. Quando ela chegou à fronteira da Boêmia, juntamente com o seu esposo, ela foi recebida com grande honra. A sua jornada lhe assemelhou com a sua jornada nupcial ao longo do Rio Rhine, poucos anos atrás.
A sua beleza e posição pareciam fascinar os Boêmios. Em Waldsach, as mulheres e crianças se reuniam em volta dela, tocando as barra das suas vestes e se prostrando diante dela como se ela fosse uma nova divindade. A sua jornada foi completada e coroada por uma magnífica processão triunfal para dentro de Praga, em 21 de Outubro de 1620. “Nunca mais”, diz o seu biógrafo, “desde os dias da Santa Elizabeth, tem qualquer princesa inspirado sentimentos de afeição tão apaixonada no povo de Praga. Os cavalos da sua carruagem foram adornados com detalhes de prata e ouro, e ela sentou debaixo de uma abóbada de ouro e prata não mais esplêndida do que a sua própria complexidade tão bela”. O seu esposo foi coroado em 3 de Novembro, e três dias depois, ela foi também coroada com grande honra. Em meio à músicas, ela se aproximou da capela da igreja de Hussite, e se ajoelhou para receber a coroa da Boêmia. O Administrador da Boêmia, que a coroou, pregou um longo sermão o qual ele encerrou dizendo: “que a piedade da nova rainha seja recompensada com a longevidade de Sara; que em todos os seus empreendimentos, ela seja próspera como a bela Rebeca; que ela prevalesça contra os seus inimigos como a destemida Jude; que ela seja humilde e magnânima como a Rainha Esther; e que, finalmente, ela seja perseverante como a Rainha de Sheba na procura por sabedoria e verdade, a fim de que, acima de tudo, ela possa ser coroada com os bens espirituais do bendito Salomão, que havia sido escolhido e solenemente aprovado pelo Salvador do Mundo.” Assim, então, ele solenemente a coroou, enquanto os muros ressoavam com o brado: “Viva à Rainha Elizabeth!”.
Contudo, assim como o seu esposo, ela logo descobriu que pesada é a cabeça que sustenta uma coroa. Ela viu como era difícil manter a adoração dos boêmios. A sua ignorância quanto à língua Boêmia a separou daquele povo como que por uma muralha da China. Os costumes da sua corte eram muito diferentes dos costumes do seu povo. O Boêmios eram pessoas simples e rústicas do campo, enquanto a sua corte possuía a frivolidade do comportamento Francês. Assim, aqueles costumes sociais logo entraram em conflito. Como uma ilustração disso, conta-se que logo após a sua chegada, as esposas de alguns dos cidadãos de Praga foram lhe presentear com uma dádiva que consistia em amostras dos seus produtos culinários, como bolos e pães. Estes foram trazidos numa sacola rudemente abarrotada. A rainha, agradecendo-lhes, recebeu a oferta. A sua corte, contudo, tratou as gentis doadoras com terrível escassez de cortesia. Um pajem ridicularizou a oferta se apossando de um dos pães e torcendo-o em formas fantásticas e ainda colocando-o em sua cabeça como uma grinalda. O resto da corte seguiu o seu péssimo exemplo e os pobres boêmios saíram dali magoados.
As suas visões religiosas também lhe alienaram deles. Assim como os reformadores, ela detestava cruzes e crucifixos. Agora o Boêmios tinham uma grande cruz na ponte sobre o Moldau, para a qual eles olhavam como se fosse o seu santo patrono. Ela foi solicitada para que evitasse aquela ponte, a fim de não passar pelo crucifixo.
Estes problemas foram apenas uma preparação para os dias mais sombrios que ainda viriam. O seu esposo foi recrutado pelo exército, que deveria proteger Praga. Ele logo viu os perigos que pairavam sobre eles e escreveu para ela dizendo que se ela se sentisse amedrontada, ela deveria deixar Praga, mas ela se recusou a deixá-lo para trás. Embora angustiada e ansiosa, ela tinha de manter a máscara de alegria externa e de agrado com relação à sua corte e ao povo. Finalmente, o exército do seu esposo foi derrotado em um Domingo, dia 8 de Novembro de 1621, logo ao redor da cidade de Praga. Ela estava atendendo ao culto quando a batalha começou e o ministro havia acabado de ler “dai a César o que é de César...” quando o estrondo do canhão sacodiu a igreja e o ministro deixou o púlpito e, juntamente com a congregação, se apressou para junto dos muros da cidade, a fim de assistir a batalha. Frederick apressadamente a colocou em uma carruagem e a enviou à cidadela para a sua segurança. E agora começariam as suas aflições que, como ondas sobre ondas, passaram sobre ela. Na manhã seguinte, às nove da manhã, Frederick trouxe a sua carruagem, para que ela escapasse dali. Ao entrar ali, ela nunca mais retornaria à Praga, e um dos seus admirais, o jovem Conde Thurm, se ofereceu para defender a cidadela por alguns dias, a fim de que ela pudesse escapar com segurança. Mas ela nobremente o proibiu de fazer isso, dizendo: “Nunca haverá de o filho do nosso melhor amigo por em perigo a sua vida para me poupar dos meus medos. Antes deixe-me perecer do que ser relembrada como uma maldição para esta cidade.”
Em meio à terríveis estradas, Elizabeth e o seu esposo fugiram para Breslau. Algumas vezes, a estrada se tornou impassável, e ela teve de sair e cavalgar em meio ao tempo frio de inverno. Uma terrível tempestade de neve os assaltou. Finalmente, eles chegaram à salvos em Breslau, mas a recepção dos seus habitantes foi tão fria quanto o clima do inverno. Estava evidente que ela não podia continuar ali, mas para onde ela poderia ir para encontrar segurança? Ela escreveu ao seu pai, o Rei James da Inglaterra, implorando a ele por ajuda, dizendo que se ele a abandonasse, todos eles pereceriam; mas ele não lhe quis ouvir, embora os puritanos da Inglaterra fossem fortemente a favor de que ela fosse ajudada. Para onde ela poderia ir? Ela finalmente encontrou um breve lugar de descanso no forte de Custrin, onde o Eleitor de Brandergurg, seu cunhado, permitiu que ela ficasse, mas recusou dar a ela qualquer dinheiro. Foi ali que ela deu à luz um filho. Ali, então, esquecida pelo seu pai e expulsada pelo seu cunhado, ela viajou em direção ao oeste, para a Holanda. Quão diferente foi esta sua jornada daquela jornada nupcial que ela havia feito poucos anos atrás. Naquela, tudo era alegria, enquanto agora, tudo era tristeza. O governo holandês, no entanto, a recebeu como uma rainha, e gentilmente permitiu que ela se alojasse em uma pensão. Ali, enfim, ela e o seu esposo encontraram asilo durante os terríveis anos da Guerra dos Trinta Anos.
Aqui, uma provação após a outra pareceram sobrevir sobre ela. A população holandesa passou a chama-los de “os mendigos reais”. Em 1628, ela perdeu o seu filho mais velho, um menino brilhante, o herdeiro do trono, que foi juntamente com o seu pai a Haarlem para ver o retorno da frota Holandesa após terem capturado a frota de prata dos Espanhóis. O jovem rapaz morreu afogado, diante dos olhos do seu pai, gritando: “Me salve, Pai!”.
Ela foi tomada por um raio de alegria quando Gustavus Adolphus ganhou as suas vitórias. Mas essa alegria lhe foi tirada pela ausência do seu esposo, o qual teve de ir encontrar-se com Gustavus. E no ano seguinte, Gustavus, que havia sido uma espécie de anjo da guarda para ela, foi morto. Poucos dias após isso, chegou-lhe a notícia da morte do seu esposo. As suas calamidades anteriores pareceram triviais quando comparadas a esta. Ela mostrou, como disse um escritor, “um luto admirável”. Contudo, ela confessou em uma carta ao Estado Holandês que “o seu primeiro grande recurso era o céu”. Spanheim, o seu biógrafo, diz: “As suas cartas são admiráveis pela sua força de julgamento e pela sua resignação digna e tocante piedade.”
Ela parecia ter sido deixada sozinha, sem esposo ou país, com ninguém mais além dos seus filhos restantes. E mesmo estes lhes trouxeram ansiedades crescentes. Um filho foi derrotado e outro capturado pelo Imperador. E então veio a morte do Duque Bernard de Weimar, que havia sido um guardião para ela após a morte do seu esposo. Depois veio a amarga angústia de ver um filho e uma filha indo para o lado dos católico-romanos. O seu irmão, o Rei Charles I, da Inglaterra, foi decapitado. E ainda assim, a sua vida não estava totalmente sem esperança. Ela encontrou, em Hague, a sociedade dos cultos. Os ministros Reformados lhe mostraram grande gentileza. Ela viveu em sossego, por muitos anos, em uma vila campestre em Rheten. Ali ela pôde praticar o seu esporte favorito que era o entalhe. Ali ela educou os seus filhos. A sua casa foi chamada “a mansão das musas e das graças”, em virtude das suas belas filhas. Ali, o grande filósofo Decartes ensinou a sua filha Elizabeth.
Mas, Ai! Os seus problemas ainda não haviam passado. O encerramento da Guerra dos Trinta Anos devolveu o Palatinado à sua família, mas isso apenas acrescentou aos seus desconfortos. Pois como o seu filho, o Eleitor Charles Lewis, não cuidou dela como deveria, ela sofreu crescente necessidade. Por fim, tomada de todo objeto que tornava a Holanda amável para ela, ela aceitou o convite, em 1661, para retornar à Inglaterra. Quão diferente foi o seu retorno da sua partida, muitos anos atrás. Nenhum brado se ouviu das multidões, e nenhuma homenagem veio dos nobres. Ela, que antes havia sido um poder de negociação entre as nações, e a rainha da beleza na sociedade, agora estava esquecida.

Após viver por pouco tempo em sossego, ela faleceu em 13 de Fevereiro de 1662. “Ela foi uma princesa de talentos e virtudes que dificilmente podem ser comparados e muito raramente ultrapassados.” A sua beleza e o seu tato a fizeram poderosa na história. Bravos homens como Gustavus Adolphus e o Lord Craven, como cavaleiros da Idade Média, foram levados, pela sua beleza, a tomar a sua causa. Por esta razão, também, o Duque Christian de Brunswick estendeu a mão para ela, beijou-a, apanhou a sua luva e a colocou em seu chapéu, como uma pluma, e então, desembainhando a sua espada, fez um voto solene de nunca depor as armas até que ela estivesse novamente no trono da Boêmia. Ele colocou como o lema em sua bandeira: “Por Deus e por ela.”     

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

ORANDO PELA SALVAÇÃO DOS NOSSOS FILHOS - Dr. Joel Beeke



ORANDO PELA SALVAÇÃO DOS NOSSOS FILHOS


A salvação dos nossos filhos não tem preço. As suas necessidades espirituais superam, de longe, as suas necessidades físicas. Eles precisam das nossas orações - as nossas orações mais sinceras, com corações inflamados tanto pelo seu arrependimento inicial e vinda a Cristo pela fé, quanto por uma vida de crescimento contínuo na fé. Matthew Henry declarou corretamente que é de um valor muito maior, para os pais que falecem, deixar para trás um tesouro de orações pelos seus filhos, do que deixar para eles um tesouro de ouro ou de prata. 
A minha mãe faleceu recentemente. Ela tinha muito pouco para passar aos seus filhos financeiramente, mas nós, de fato, entesouramos os anos de orações que ela e o meu pai juntaram para nós. Quando os meus pais celebraram os seus cinqüenta anos de casados, todos nós, os seus cinco filhos, resolvemos agradecer a eles por uma coisa que eles tinham feito por nós. Sem consultarmos uns aos outros, cada um de nós escolheu agradecer à nossa mãe pelas suas orações. Todos nós sabíamos que, durante muitos anos, ela havia orado sincera, fervente e perseverantemente por cada um de nós. 
E nós não estamos sós de modo algum. Numa conferência para ministros na Itália, eu perguntei aos presentes quantos deles foram influenciados pelas orações das suas mães, e o que me pareceu, do púlpito, foi que praticamente todos levantaram as suas mãos. Deus abençoa as orações genuínas dos pais pelo bem-estar espiritual e eterno dos seus filhos.
Segundo as promessas de Deus (Gen. 17:7; Acts 2:39), os filhos de pais crentes estão inclusos na aliança da graça e devem ser recebidos como membros da igreja pelo batismo. Esta promessa é preciosa, e os privilégios que ela confere aos nossos filhos são, de fato, enormes. Mas ela não nos confere base alguma para que presumamos que os nossos filhos já estejam regenerados, e também não confere motivo para que eles sejam tratados como se fossem salvos antes de virem à fé salvadora e ao arrependimento.
Nós batizamos crianças baseados em muitos pontos, mas não em conta de uma “regeneração presumida”. Os resultados desta visão - a qual diz que nós devemos assumir que todas as crianças da aliança são regeneradas, a não ser que provem o contrário por pecados flagrantes - podem ser muito trágicos. Conhecimento e moralidade são muitas vezes confundidos com salvação, sem que haja a regeneração operada pelo Espírito Santo, a convicção de pecado, o arrependimento para a vida, a fé salvadora e os frutos necessários que acompanham tudo isso (Jo. 3:5; 16:8-9; Lc. 13:1-9; Jo. 3:16; Gl. 5:22-23). O conhecimento salvífico e pessoal de Deus é então substituído por “atividades do Reino” em casa, na igreja, na escola e na comunidade como um todo. 
Como um Judeu, Nicodemos estava incluso na aliança, recebeu o sinal da aliança (a circuncisão), e havia sido educado nas Escrituras, mas Cristo lhe disse: “Vós precisais nascer de novo” (Jo. 3:7). (Aqui Cristo usa o pronome ‘vós' no plural, pois Ele incluiu todos os outros Israelitas na Sua prescrição conjunta). Até que ele nascesse de novo, Nicodemos estava espiritualmente cego para as verdades do reino de Deus (vv. 3,10). 
Do mesmo modo, aparte da obra salvadora da graça de Deus, os nossos filhos são pecadores caídos, e não justificados (Pss.51:5; 58:3). A Confissão Belga (no artigo 15) diz: “O pecado original se estendeu para toda a humanidade, sendo uma corrupção de toda a natureza e uma doença hereditária com a qual os próprios infantes são infectados ainda no ventre materno”. Para serem salvos por Cristo, eles precisam "ser enxertados Nele, e receber todos os Seus benefícios, por meio da verdadeira fé” - a fé “que o Espírito Santo opera por meio do evangelho” nos seus corações (Catecismo de Heidelberg Perguntas 20-21).
Os filhos dos crentes possuem uma santidade externa - um lugar na igreja visível -, mas eles não compartilham da salvação prometida na aliança a menos (e até que) eles sejam regenerados pelo Espírito Santo. Ele precisa converter os filhos de Abraão, a fim de que possam receber a bênção prometida por Deus a Abraão (At. 3:25-26). Os pais cristãos precisam orar pela salvação dos seus filhos e chamar os seus filhos a confiarem em Cristo Jesus como o seu Salvador, pois somente o Seu sangue pode nos purificar de todo pecado (1 Jo. 1-7).
Deus fez, de fato, uma promessa com Abraão de que Ele seria o seu Deus e o Deus dos seus filhos, e dos filhos de seus filhos - até mil gerações (Gn. 17:7; Ps.105:8). Mas o Senhor também disse aos Judeus, por meio do seu profeta João Batista: “não pense em dizer entre vós ‘nós temos Abraão como nosso pai’” (Mt. 3:9). Para aqueles que depositaram a sua confiança na sua herança, Jesus disse: “Se vós fossem filhos de Abraão, vós fariam as obras de Abraão” (Jo. 8:39). Obras que são fruto de fé salvadora e que mostram uma linhagem espiritual, e não somente uma linhagem física (Rm. 4:11-12). A promessa de Deus é feita a todos os que, como Abraão, crêem para a justificação e para a vida.
Como nós devemos orar pela salvação dos nossos filhos? Eis aqui uma oração feita por um pregador Escocês do século XIX, Alexander Whyte: “Ó Deus Todo-poderoso, nosso Pai Celestial, dá-nos uma semente reconciliada o Senhor! Ó Deus, dá-nos os nossos filhos. Conceda eles a nós pela segunda vez, e por meio de um nascimento muito melhor, conceda que os nossos filhos se assentem junto a nós na Tua Santa Aliança!”
Não há nada automático no que diz respeito à salvação. Não há lugar algum para mera presunção; a paternidade e maternidade cristã são empreendimentos de fé. As promessas de Deus são um fundamento sólido para todas as nossas orações e para todas as nossas esperanças com relação aos nossos filhos. Mas Ele também ordena que usemos os meios que Ele nos aponta para obtermos as Suas boas dádivas. Você ora diariamente pelos seus filhos? Você ora diariamente com os seus filhos? Se não, o que você pode esperar do Senhor? Estejam eles salvos ou não, será que você pode dizer, pela graça de Deus, que você tem provocado uma tempestade de orações diante do assento da graça de Deus pelos seus filhos, com um coração inflamado pelo bem-estar deles e pela glória de Deus? 


Tradução: Anna Layse A. Davis.
   

terça-feira, 14 de outubro de 2014

UM VISLUMBRE DA EDUCAÇÃO CLÁSSICA E PIEDOSA DO PASSADO


"Anos atrás, as crianças aprendiam a ler a partir das cartilhas - livros que as ensinavam o alfabeto e continham textos que frequentemente se revolviam ao redor de Deus e da Sua Palavra. As crianças liam versículos bíblicos, princípios das Escrituras, e histórias sobre os personagens bíblicos à medida que elas aprendiam a identificar as letras e as palavras."
 

Assim inicia-se o prefácio à publicação atual do "The Pictorial Primer: Easy Lessons for Little Ones at Home" - uma compilação de duas famosas cartilhas usadas nas escolas públicas norte-americanos no século XIX, tempo que aquele país ainda educava e dava ao mundo muitas mentes piedosas e eruditas. Seguindo o bem-sucedido modelo de uma cartilha antiga chamada de "The New English Primer", do tempo da colonização norte-americana pelos pais puritanos, essas cartilhas, usadas até o início do século XX naquele país, baseavam-sem num ensino tradicional, simples, na alfabetização pelo método fonético e sobretudo num forte ensinamento doutrinário e moral bíblico.
Embora reconhecidamente antiquadas para o mundo secularizado atual, as lições contidas nessas cartilhas envergonham até as nossas escolas cristãs de hoje - pela centralidade da Palavra e das verdades de Deus como conteúdo principal da educação; pelo ensino destemido das doutrinas cristãs através de diversos catecismos  infantis, e pela simplicidade e profundidade dos textos que as crianças pequeninas liam e a seu tempo, interpretavam.
Aos poucos gostaria de dar aos leitores uma idéia do conteúdo dessa clássica cartilha educacional tão amplamente utilizada no passado, e de seu básico, porém excelente conteúdo cristão, que pode ser usado ainda hoje por pais e professores, especialmente com crianças em idade de alfabetização. Quem sabe não é tarde demais para olharmos para trás e aprendermos alguma coisa desses sábios e piedosos preceptores educacionais que colheram frutos que também desejamos colher na educação das nossas crianças, seja na escola como no lar.

Essas Cartilhas ficaram famosas por começar a ensinar o ABC com a famosa rima:

A é de Adão, o primeiro homem criado;

Ele a lei de Deus quebrou, e assim no mundo entrou o pecado.

                B é da Bíblia, que para nos guiar foi dada;

                Apesar de escrita por homens, foi por Deus inspirada.

                                C é de Cristo, que para morrer entregamos;

                                DEle - e de graça ! -  a salvação nós ganhamos.


Não posso prometer, mas gostaria de disponibilizar quando puder a tradução de todo o alfabeto em rimas. Para hoje, escolhi uma porção dessa Cartilha que é uma espécie de Catecismo de Personagens Bíblicos, que tem como título:

PERGUNTAS FÁCEIS PARA CRIANÇAS PEQUENAS
 

P. Quem foi o primeiro homem?

R. Adão.

P. Quem foi a primeira mulher?

R. Eva.

P. Quem foi o primeiro assassino?

R. Caim.

P. Quem foi o primeiro mártir?

R. Abel.

P. Quem foi o homem mais velho?

R. Metusalém.

P. Quem construiu a arca?

R. Noé.

P. Quem foi o homem mais fiel?

R. Abraão.

P. Quem foi o homem mais manso?

R. Moisés.

P. Quem foi o homem mais paciente?

R. Jó.

P. Quem lutou com o anjo de Deus?

R. Jacó.

P. Quem liderou Israel na entrada em Canaã?

R. Josué.

P. Quem foi o homem mais forte?

R. Sansão.

P. Quem matou Golias?

R. Davi.

P. Quem foi lançado na cova dos leões?

R. Daniel.

P. Quem morreu para nos redimir?

R. Jesus Cristo.

P. Quem é Jesus Cristo?

R. O Filho de Deus.

P. Quem foi a mãe de Cristo?

R. Maria

P. Quem foi o discípulo amado?

R. João.

P. Quem traiu Jesus?

R. Judas.

P. Quem negou o seu Mestre, Cristo?

R. Pedro.

P. Quem foi morto na hora por haver mentido?

R. Ananias e Safira.

P. Quem foi o primeiro mártir cristão?

R. Estevão

P. Quem foi o principal apóstolo dos Gentios?

R. Paulo.


Como você pode notar dessa pequena porção do Primer, ele era bem tradicional no sentido de ensinar a ler pelos sons das letras e das sílabas, de enfatizar a fluidez na leitura antes da compreensão, além de colocar bastante ênfase na memorização para o ensino das crianças pequenas, mesmo que elas não pudessem compreender ainda todas as verdades ali ensinadas.  Contudo, o sucesso acadêmico desse método, a julgar-se pelos milhares de exemplares desses livretos que foram vendidos e pelos séculos de comprovada eficácia educacional falam por si próprios quando comparados à falência dos métodos atuais, além do que é mais importante: as crianças estavam desde pequenas absorvendo uma visão de mundo cristã que iria impactar toda a sua vida. Nas palavras de Alexa Menard:

 "O que a Cartilha deu, sim, à criança... foi um mapa para um mundo maior do que ela mesma, a confirmação adulta da predisposição natural da criança de se maravilhar com o mundo, e um espectro mais amplo de entendimento, e uma seleção melhor de materiais para com eles expressar seu deslumbre." A Cartilha essencialmente elevou a consciência da criança para um nível de existência que vai além de sua vida cotidiana.