“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Autoridade Materna - Parte 3





Nota da Tradutora:

O Capítulo 3 do Livro "A Mãe no Lar", de John Abbot, continua tratando do assunto da Autoridade Materna. Assim como eu dividi o capítulo 2 em duas partes, e introduzi alguns subtítulos, com vistas a uma apresentação mais didática dos pontos tratados pelo autor, faço o mesmo agora com este capítulo 3. O post atual representa, portanto, a parte 3 do Assunto da Autoridade Materna, que está sendo disponibilizado em quatro postagens, sob os seguintes títulos:



Autoridade Materna - Parte 3: Lidando com Situações de Confronto e com Diferentes Disposições da Criança (Post Atual)

Autoridade Materna - Parte 4: A Justiça e a Bondade na Disciplina (Próximo Post)

Capítulo 3

Autoridade Materna - Parte 3

Lidando com Situações de Confronto e com Diferenças de Disposição

 

Em se tratando do assunto da obediência, há ainda algumas outras sugestões de importância a serem feitas:

Lidando com Confrontos

Em primeiro lugar, há uma variedade muito grande nas disposições naturais das crianças. Algumas são muito dóceis em seus sentimentos, e são governadas facilmente pelo amor. Outras são independentes e cheias de vontade própria. Às vezes uma criança tem seus ânimos exaltados e a sua vontade determinada, e não pode ser subjugada senão por um esforço muito grande. Quase qualquer mãe fiel está acostumada com tais confrontos, e ela sabe que estes com frequência formam uma crise no caráter da criança. Se a criança obtém a vitória em um embate, é quase impossível para a mãe futuramente reconquistar sua autoridade.  A criança sente que ela é vitoriosa, e que a sua mãe foi derrotada; e é com muita dificuldade que ela será compelida a renunciar sua independência. Se, de outro lado, a mãe conquista, e a criança é subjugada, esta sente que a questão está estabelecida e ela tem pouca disposição para se levantar contra alguém que provou ser seu superior.  Tenho conhecido muitos desses embates, severos e prolongados, que são muito dolorosos para os sentimentos dos pais. Mas, da feita que se entra neles, eles devem ser continuados até que a criança seja subjugada. Não é seguro, de maneira alguma, que os pais se rendam e se retirem derrotados.

O seguinte exemplo de uma tal competição aconteceu alguns anos atrás. Um senhor, sentado na sua sala de estar, com sua família ao seu redor, tomou o livro do alfabeto das crianças e chamou um de seus filhinhos para vir e ler. O John tinha uns quatro anos de idade.  Ele sabia todas as letras do alfabeto perfeitamente, mas aconteceu que naquele momento ele estava mal-humorado, e sem a mínima disposição de agradar o seu pai. Muito relutantemente ele veio, como foi mandado, mas quando o seu pai apontou para a primeira letra do alfabeto, e disse: "Que letra é essa, João", ele não obteve resposta. O João só olhava para o livro, emburrado e calado.

Meu filho - disse o pai de uma maneira bem carinhosa - você conhece a letra A.

- Eu não consigo dizer "A", disse o João.

- Você pode dizer, sim - disse o pai num tom sério e decidido. - Que letra é essa?"

O João se recusou a responder. Agora, a competição já tinha começado. O João estava voluntarioso  e determinado que ele não iria ler. O seu pai sabia que seria uma ruína para o seu filho deixar que ele vencesse o confronto. O pai sentiu que ele deveria, por mais difícil que fosse, subjugá-lo. Ele o levou para outro quarto e o disciplinou. Então retornaram, e o pai novamente mostrou a letra pro João. Mas o João ainda se recusava a dizer o nome. O pai novamente se retirou com o seu filho, e lhe disciplinou mais severamente. Mas foi sem proveito nenhum, pois a criança mesmo assim se recusou a dizer o nome da letra, e quando lhe diziam que aquela era a letra "A", ele declarava que não podia dizer "A". Mais uma vez o pai infligiu a punição que ousava dar, mas ainda assim a criança, toda agitada em si, se recusava a ceder.

O pai estava sofrendo da mais intensa preocupação. Ele se arrependeu muito de ter sido levado a tal confronto. Ele já havia punido o seu filho com uma severidade que ele temia exceder. E mesmo assim, o sofredor voluntarioso ficava diante dele, aos prantos e tremendo, mas aparentemente como uma rocha que não queria ceder. Eu lembro de ter ouvido várias vezes aquele pai mencionar a agonia que ele sentiu naquele momento. O seu coração estava sangrando com a dor que ele tinha sido compelido a infligir sobre o seu filho. Ele sabia que naquele momento a questão - quem iria ser a autoridade - estava sendo decidida. E porque o seu filho havia resistido tão fortemente e por tanto tempo, o pai temia grandemente o resultado.

A mãe sentava assistindo, sofrendo, sem dúvida, ainda mais intensamente, mas perfeitamente satisfeita de saber que era o dever dos pais subjugar a sua criança, e que numa hora tão crucial, os sentimentos de mãe não devem interferir. Com um coração pesado, o pai mais uma vez tomou o seu filho pela mão para conduzi-lo para mais uma punição. Mas, para a sua inimaginável alegria, a criança se esquivou de resistir a maiores castigos, e chorou: "Pai, eu vou dizer a letra". O pai, com sentimentos indescritíveis, tomou o livro e apontou para a letra.

"A"- disse o João, distinta e perfeitamente.

- E que letra é essa? - disse o pai, apontando para a próxima letra.

- "B", disse o João.

- E qual é essa?

- "C", ele continuou.

- E esta? - apontando novamente para a primeira letra.

- "A" - disse a criança, com atitude bem humilde.

- Agora leve o livro para a sua mãe, e diga pra ela que letra é essa.

- Que letra é essa, meu filho?

- "A" - disse o João.

Era evidente que ele estava perfeitamente submisso. As outras crianças estavam assentadas ali. Elas haviam assistido a batalha e tinham visto de quem era a vitória.  E o João aprendeu uma lição que ele nunca esqueceu: que o braço do seu pai era forte demais para ele. Ele aprendeu que o caminho mais seguro e feliz para ele era obedecer. Ele aprendeu a nunca mais lutar batalhas desiguais como esta.

Mas é possível que alguém me diga que foi crueldade punir a criança daquela maneira. Crueldade! Foi misericórdia e amor. Teria, sim, sido cruel, se o pai, naquela hora, tivesse sido infiel, e se esquivado do seu dever doloroso. Os ímpetos maus que ele estava ali, com muito auto-sacrifício, lutando para subjugar, se deixados sem controle, iriam, com toda probabilidade, fazer de seu filho um vexame para a sociedade. Não é de maneira alguma improvável que, das decisões tomadas naquela hora, dependiam o caráter e a alegria daquela criança por toda a sua vida, e mesmo para a eternidade. É longe de ser improvável que, se ele tivesse vencido ali, todos os esforços futuros para subjugá-lo teriam sido em vão, e que ele viria a quebrar todos os limites, e ser infeliz nessa vida, e perdido por toda a eternidade. Crueldade! O Senhor preserve as crianças da "bondade e misericórdia" daqueles que consideram crueldade um amor tão abnegado.

Evitando Confrontos

É sempre melhor, se possível, evitar tais colisões. Muitas crianças são ensinadas a obediência implícita, sem jamais ter que entrar em tais combates com os seus pais. E é certamente melhor governar uma criança  pelo procedimento brando da disciplina ordinária, do que adentrar nesses confrontos tão formidáveis, nos quais com frequência se requer a maior severidade. A sabedoria, portanto, nos ensina a fazermos o possível para não dar à criança uma oportunidade de convocar todas as suas energias para desobedecer. Há ocasiões peculiares, e disposições mentais peculiares,  que geralmente provocam esse sentimento forte de rebeldia. Um pouco de previsão pode frequentemente nos capacitar a, sem render a nossa autoridade, acalmar o furor que se levanta, ao invés de incitá-lo à sua mais alta força. Nós podemos, às vezes, por uma administração sábia,  deter a rebelião logo que ela aparece, antes que ela ganhe força suficiente para exigir que ajuntemos todos os nossos poderes para acabar com ela.

Como uma ilustração, vamos supor que o Tiago e a Maria estão brincando juntos à noite, e o Tiago fica com raiva e bate na sua irmã. Ele faz isso sem motivo nenhum, e precisa ser punido, e pedir perdão para a sua irmã. Mas a mãe percebe que durante o dia todo, o Tiago tem manifestado uma disposição muito desagradável. Ele tem estado irritado e chateado. Ela vê que agora ele está agitado e com raiva. Todo pai sabe que essas variações de sentimentos não são incomuns. Um dia a criança está doce e carinhosa; no dia seguinte, tudo parece estar errado; coisinhas pequenas a agravam, e toda a sua disposição parece estar amargurada.

A mãe percebe que o filho está nesse mau humor. Ele errou, e precisa pedir o perdão de sua irmã. Mas ela sabe que, nesse estado mental arisco e desagradável, ele será fortemente tentado a resistir a sua autoridade. Do jeito que ele está tão irritado sem motivo, iria ser um dos mais difíceis atos de submissão para ele ter de pedir perdão para a sua irmã. Se a mãe lhe mandar fazer isso, a tentação para recusar será tão grande que, com toda a probabilidade, ele vai desobedecer. E então ela terá que lhe castigar. E aqui vem o confronto que, se for iniciado, deve ser continuado até que a criança obedeça. Agora, como é que tal batalha pode ser evitada? Deixando para lá o que aconteceu? Certamente que não. A mãe se levanta, toma o Tiago pela mão, e diz: "Meu filho, você fez uma coisa muito ruim; você está mau humorado, e não deve mais ficar na nossa companhia; vou lhe colocar para dormir". Ela, portanto, o conduz para o seu quarto.

Logo antes de deixá-lo sozinho, ela lhe diz num tom bondoso, mas triste, como ela está desapontada, e como mais ainda Deus está entristecido pela sua conduta. Como de costume, ela ouve sua oração, ou se ajoelha ao lado da cama dele, e ora para que Deus lhe perdoe. Ela então lhe deixa sozinho para refletir e para dormir.

Assim ele é punido pela sua falta. E enquanto ele fica deitado na sua cama, e ouve os seus irmãos e irmãs brincando alegres lá embaixo, ele sente como é melhor e mais sábio ser um menino comportado. Pela manhã ele acorda. A noite deu repouso aos seus sentimentos excitados. Ele pensa em como a sua má conduta do dia anterior lhe deixou infeliz, e resolve ter mais cuidado daqui pra frente.  Todos aqueles sentimentos rebeldes são dominados pela influencia calmante do sono.  Suas paixões não estão agitadas. A mãe pode agora tratar com a sua mente sem qualquer medo de ter um embate com uma vontade determinada e teimosa.

Quando as crianças descem de manhã, ela chama o Tiago e a Maria para virem ter com ela. Tomando a mão de cada um, ela diz mansamente: "Meu filho, você deixou todos nós tristes ontem à noite quando você bateu na sua irmã; eu espero que você esteja arrependido do que fez." "Eu estou, sim, mãe", diz o Tiago, sendo agora levado facilmente aos sentimentos de penitência e de submissão, aos quais, durante os momentos de irritação e agitação, ele não poderia, a não ser com grande dificuldade, ter sido levado. Assim, por um tratamento sábio, o objeto desejado é obtido, e perfeitamente obtido, enquanto o combate é evitado. A falta não é ignorada, e o Tiago está subjugado.

Mas se a mãe, sem considerar o estado sentimental peculiar da criança, tivesse mandado ele imediatamente pedir perdão para sua irmã, isso teria levado, com toda a probabilidade, a uma cena que seria dolorosa tanto para a mãe como para o filho. E o efeito final da disciplina teria, talvez, sido menos benéfico sobre a mente da criança. Mas ocorrerão casos em que não será possível evitar o confronto. Quando tal emergência surge, é o dever dos pais enfrentá-lo resoluta e ousadamente. Se, por um falso sentimentalismo, você acaba se esquivando, você está brincando com a responsabilidade sagrada que Deus confiou a você. É bondade uma mãe deixar a criança morrer, ao invés de compeli-la a tomar o remédio amargo que lhe restaurará a saúde e a força? E será bondade deixar essas paixões conquistarem, as quais, se deixadas impunes, serão para o tempo e para a eternidade, uma devastação para o seu possuidor? Se existe alguma crueldade no mundo que seja de fato terrível, é a crueldade de pais infiéis e falsamente indulgentes.

Devemos entender particularmente, contudo, que tudo o que queremos inculcar aqui é a firmeza na realização dos deveres dos pais naqueles casos onde estas colisões entre pais e filhos são inevitáveis. Elas podem, contudo, na maioria dos casos, ser evitadas. Se, por exemplo, a criança lhe desobedece, você pode simplesmente puni-la pelo ato de desobediência, e parar por aí, deixando de lado o final dificultoso. Não é sempre necessário que você todas as vezes requeira que a coisa que você mandou de primeiro seja feita. Você manda a menininha dar um livro para a sua irmã. Ela se recusa. Você pode então tomar dois caminhos distintos para manter a sua autoridade que foi violada. Você pode ir e levar o livro você mesma e entregá-lo para a irmã, e então infligir um castigo sobre o desobediente conforme a ofensa merece. Ou, você pode insistir na obediência; e para obrigá-la, entrar num confronto que pode ser longo e doloroso. Agora, seja qual desses planos você adotar, seja firme e decidida na sua execução. O primeiro é, contudo, em quase todos os casos, o mais sábio e o melhor.

Considerando Sentimentos

Nas considerações acima, tivemos aludido às variações de sentimentos aos quais a criança está sujeita. Ninguém que tenha tido qualquer contato com a educação pode ter deixado de observar isso. Quase todo indivíduo é consciente de momentos quando ele parece estar afligido com um tipo de sensitividade mórbida. Nossos espíritos frequentemente se levantam e caem conforme a saúde do corpo; e de fato uma pessoa tem alcançado uma grande vitória sobre o seu corpo, e um grande triunfo mental, se ela consegue invariavelmente preservar o mesmo espírito calmo e alegre, sem ser perturbado pelos cuidados que assediam, ou pelas irritações de uma constituição doente. O sistema nervoso de alguns indivíduos é construído tão delicadamente que um vento ocidental, ou um dia úmido, podem perturbar completamente a cabeça. Quando nós vemos alguns dos mais sábios e melhores homens oprimidos com tais fraquezas nós devemos aprender a ter paciência e simpatia com as crianças.

Em tais momentos, uma mãe sábia, sabendo que a irritabilidade é uma fraqueza tanto mental como corporal, irá fazer o que pode para amansar e aquietar. Ela irá evitar qualquer coisa que tenda a agitar os sentimentos e irá se esforçar para, por meio de uma recreação tranquila ou pelo repouso, fazer adormecer esses sentimentos. Por esse método, ela irá livrar a criança de muita infelicidade, e irá promover uma disposição doce e amável.

É provável que muitas crianças tenham tido os seus sentimentos permanentemente amargurados por uma completa desconsideração dessas variações mentais. A disposição de uma criança é de uma textura muito delicada para ser manuseada pelo punho rude e descuidado. Seus sentimentos carinhosos e gentis devem ser cultivados pela simpatia e amor maternos. E nós devemos lutar para abrandar sua irritabilidade ocasional, ao chamarmos a mente para longe de objetos que excitam para o mal, e atraindo-a a pensamentos alegres.

Cultivando a Disposição

É claro que há uma diferença impressionante nas disposições naturais das crianças; mas nada pode ser mais evidente do que o fato de que uma boa disposição pode ser amargada por um mal tratamento, e que uma criança de sentimentos naturalmente raivosos pode, por um cultivo sábio, se tornar dócil e mansa. O cultivo da disposição é uma parte importante da educação. Daí a necessidade de se estudar os humores e os sentimentos da criança e de variar a disciplina para adequar-se a essas mudanças.

É claro que surgirão aqueles casos quando os pais acharão difícil julgar qual é o seu dever. Tais casos serão, contudo, infrequentes. A política geral óbvia é: quando a criança está nesse estado excitado, busque removê-la o melhor possível do poder da tentação. E se ela comete uma falta que precisa ser notada, cuide para que o castigo seja de um tipo que é calculado para acalmá-la. Por exemplo, dê-lhe um assento confortável em frente à lareira, e lhe diga que ela não pode se levantar da cadeira por meia hora. Ponha em suas mãos um livro agradável, ou alguma coisa de brincar que lhe entreta. Dessa maneira, cuide para que a punição seja adaptada à peculiaridade da desordem moral.

Isso não é a gozação da punição que pode parecer. A criança sente que é real, e é de uma natureza que opera beneficamente. Algumas faltas, contudo, que a criança comete, podem ser, sob determinadas circunstâncias, mais adequadamente relevadas. Um menino pode, por exemplo, falar irritado com a sua irmã. A mãe não demonstra notar; ela, contudo, vê a importância de imediatamente tranquilizar seu espírito grosseiro, e ela busca planejar alguma atividade que promova o bom humor. Talvez ela pausa o seu trabalho e brinca com as crianças até que, pela sua alegre influência, a alegria e o bom humor sejam restaurados.

"Aqui, meu filho", talvez ela diga. "Quero que você tome esse papel e se sente em sua cadeira, e veja se você consegue desenhar um animal tão corretamente que eu possa dizer o que é. E Maria, você pode pegar esse outro papel e sentar nessa cadeira do lado dele e fazer a mesma coisa.

As crianças estão bem animadas com a sua nova atividade. Logo eles ficam ocupados trabalhando, e cochichando um pro outro, para que a sua mãe não ouça quais são os animais que eles estão desenhando. Por esse artifício simples, a pequena nuvem de sentimentos irritados que estava se levantando é totalmente dissipada. Se a mãe, ao invés disso, tivesse punido a criança pelo incidente da fala grosseira, a mente não teria sido trazida tão rápida e agradavelmente ao estado desejado. Ou, se a mãe não tivesse notado o acontecido, a disposição da criança teria sido machucada pela permissão do  aumento do mau humor e, com toda probabilidade, uma querela teria logo começado. Uma observação constante, da parte da mãe, poderá logo capacitá-la a prever muito perigos e prevenir muitas dificuldades.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

O MANUSCRITO, O SCHOLAR, E A ROUPA-SUJA.


Esta postagem é baseada em um artigo publicado na revista WORLD, por Caroline Leal, em Março de 2013, do qual foi extraído o título acima. Segundo o artigo, a descoberta de um antigo manuscrito de C. S. Lewis, encontrado entre as páginas de um pequeno caderno de anotações em uma das mais antigas bibliotecas da Europa, está lançando nova luz sobre a visão da comunicação deste famoso autor.

De acordo com a revista, em 2009, um professor da Universidade do Estado do Texas resolveu um mistério literário envolvendo dois dos mais conhecidos autores do século XX, - C. S. Lewis e J. R. R. Tolkien – os quais haviam planejado, na década de 40, escrever um livro que seria intitulado: A Linguagem e a Natureza Humana. Contudo, a obra, embora tenha sido agendada para publicação em 1950, nunca foi concluída. Os estudiosos achavam que a obra nunca havia sido sequer iniciada, até que o Dr. Steven Beebe – professor regente e presidente do Departamento de Comunicação da Universidade Estadual do Texas – descobriu as páginas introdutórias de um manuscrito nunca antes publicado de C. S. Lewis na Biblioteca Bodleian da Universidade de Oxford.

O fragmento cobria apenas oito páginas de um pequeno caderno no qual Lewis escrevera a palavra “Rascunhos”.  Após sete anos de pesquisas, no verão de 2009, Beebe tornou pública a alegação de que o manuscrito encontrado era o início deste projeto de obra conjunta de Lewis e Tolkien. Sendo um scholar internacionalmente renomado sobre C. S. Lewis, e um especialista em comunicação, Beebe falou à Revista WORLD sobre o seu achado, e discutiu como, quatro anos após ele ter anunciado a sua descoberta, este manuscrito continua a instigar e a informar o mundo literário.

Ao responder à pergunta sobre como ele se interessou por C. S. Lewis e por Tolkien, o renomado professor afirma ter lido, em 1993, uma biografia sobre Lewis “o excêntrico, o brilhante, o mestre, o erudito, o intelectual e poético Lewis” e somente a sua vida foi suficiente para lhe cativar. Ele começou a ler os seus livros e, ao perceber o quanto Lewis tinha a dizer sobre a linguagem, o sentido e as palavras, o seu interesse nele, como teórico da comunicação, se desenvolveu cada vez mais. Segundo o professor, o seu interesse por Tolkien é apenas derivado do seu interesse por Lewis, no que diz respeito à sua influência sobre esse autor. Ele afirma não ser um estudioso de Tolkien pois, em suas palavras, “ainda não consegui me desvencilhar de Lewis, ou, Lewis ainda não se desvencilhou de mim.”

O estudioso afirma que o manuscrito, na realidade, não estava perdido, mas simplesmente ninguém havia realmente percebido a sua significância. “Não é tanto que eu o encontrei, e sim que eu o identifiquei. Ao começar a ler o manuscrito em 2002, a primeira sentença dizia: ‘em um livro como este, nós deveríamos começar no início das origens da linguagem...’, e então ele continua dando definições de significado, que é exatamente a minha praia. É sobre isso que eu escrevo, estudo, ensino – linguagem, sentido, comunicação”, afirma Beebe.

Contudo, foi apenas em 2009 que o estudioso veio a perceber que o manuscrito era o início do projeto de livro planejado por Lewis e Tolkien. O professor diz que já havia transcrito e citado o manuscrito em seus artigos e obras, mas não conhecia o seu contexto. Essa conexão só foi estabelecida em 2009, quando a sua máquina de lavar-roupas quebrou. Então ele e sua esposa foram a uma lavanderia e, na saída, ele levou consigo o excelente volume de Diana Glyer, “The Company They Keep” para ler enquanto esperava. Ele estava lendo sobre a colaboração entre Lewis e Tolkien, e Diana estava descrevendo o livro que eles planejavam co-autorar sobre a natureza da linguagem. Foi então que ele parou no meio da leitura e foi como uma “Eureka”. Em suas próprias palavras: “Eu lembro de estar lá sentado, olhando para a minha roupa girando na secadora quando eu pulei da cadeira e disse: ‘Eu sei o que é! Eu sei o que aquele manuscrito é!’. Eu fui para casa e então eu pude ver, referências como ‘os autores acreditam’ e ‘pensamos nós’ evidenciam que este é aquele livro que Lewis e Tolkien planejavam escrever juntos.”

A revista WORLD pergunta ao professor qual seria o porquê do livro nunca ter sido completado, ao que Beebe responde que, na mesma época, Lewis estava escrevendo as Crônicas de Nárnia e Tolkien estava trabalhando no Senhor dos Anéis. Ambos estavam ocupados com outros projetos. Por isso o manuscrito é composto por apenas oito páginas escritas à mão, por Lewis, e o pensamento de Tolkien realmente não está presente ali, é apenas o começo de Lewis.

Desde então, o professor tem escrito e publicado artigos e comentários revelando e provando a sua descoberta, os quais tem sido amplamente aceitos no seu meio acadêmico e literário. Além disso, Beebe está trabalhando em um volume sobre C.S. Lewis e a comunicação, ao qual ele pretende separar um “ano de descanso” dos seus demais afazeres, para poder se dedicar melhor ao cumprimento desta obra.   

Segundo o estudioso, ao iniciar os seus cursos sobre Lewis na Universidade de Oxford, ele sempre começa perguntando aos alunos duas questões. A primeira é: “O que C. S. Lewis disse sobre a comunicação?” E a segunda é: “O que C. S. Lewis fez para tornar-se um excelente comunicador?” Estas duas perguntas serão o foco principal da sua obra. O manuscrito encontrado ajuda a responder à primeira pergunta, visto que trata especificamente de língua e semântica, contudo, a contribuição do seu livro pretende ser como nós podemos aplicar estes insights para nos comunicarmos efetivamente, assim como fez Lewis.

A obra parece ser de grande relevância para todos aqueles interessados no campo da linguagem e da teoria da comunicação, bem como a todos os fascinados pelas obras e pelas habilidades literárias e comunicativas de C. S. Lewis. Aguardemos a sua publicação!           

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Discurso Educativo do Dr. Ben Carson

Dois Vídeos Interessantes Protagonizados pelo famoso Neurocirurgião Pediátrico, o Dr. Benjamin Carson!


O vídeo acima é o seu discurso em comemoração do Dia da Oração realizado neste ano nos Estados Unidos, no qual o palestrante corajosamente apresenta soluções simples, a partir de sua visão de mundo cristã, para problemas educacionais, políticos e econômicos da sua nação.
(cliquem no botão para ativar as legendas em Português)

E o vídeo abaixo é um clipe do filme "Mãos Talentosas", sobre a história de vida deste médico, de sua trajetória desde a sua infância difícil até o seu sucesso como o primeiro cirurgião a separar gêmeos siameses. O filme promete ser interessante, não deixem de assistir!


terça-feira, 11 de junho de 2013

UM APELO AOS PAIS (Dr. Maurice Roberts)


Se há alguma "simples" solução para os problemas da nossa sociedade moderna - à exceção de um reavivamento - ela será a seguinte: que os cristãos professos tornem-se todos em bons pais. Colocar a questão dessa forma é admitir que há, hoje, entre nós, um problema na área da paternidade. A maioria, se não todos, concordariam com isso. A experiência de muitos pais que se sentem fracassados confirma esse fato. A triste observação de muitos presbíteros e ministros também o confirma como verdadeiro. Os cristãos não têm, recentemente, se destacado como pais.

Que isso seja assim não é surpreendente, em vista da dramática queda, durante os últimos trinta anos, dos padrões na sociedade como um todo. Porque se o aumento da criminalidade infanto-juvenil é alarmante, ele deve refletir, acima de tudo, o fracasso dos pais em criarem os seus filhos como deveriam. Estritamente falando, há hoje não tanto um problema juvenil, mas sim um problema paternal, pois as crianças são grandemente o produto dos seus próprios lares. Não se quer aqui desculpar a delinquência infantil e adolescente, e sim pôr a culpa onde ela mais pertence.

É de se esperar que a séria extensão da quebra da autoridade dos pais na sociedade em geral alertaria os pais cristãos da necessidade de extrema preocupação quanto a esse problema. A deplorável negligência que eles vêem em pais não-crentes, juntamente com os amargos frutos disso no mundo ao seu redor, deveriam tocar um alarme nas mentes de pais crentes que têm filhos para criar. Mas esse não tem sido sempre o caso. É sim, talvez, antes a exceção do que a regra.

Por que crentes têm sido lentos em reconhecer os perigos que ameaçam as almas de seus filhos nos dias de hoje? Existem várias razões. Particularmente, é porque há uma relutância de todos nós em acreditar que existe uma crise em nossas mãos. Pais cristãos têm frequentemente acalmado seus medos ocasionais dizendo a si mesmos que “somos todos pecadores”; “crianças têm que aprender a viver em um mundo real” ; “Deus os salvará se for da Sua vontade”, e outras coisas mais.

Há, é claro, alguma verdade em todas essas afirmações. O problema está no fato de que elas são, na melhor das hipóteses, meias verdades. Elas todas reivindicam a questão de que, queiramos ou não, as crianças de hoje estão vivendo em um ambiente anormalmente ímpio. Nossa convicção e argumento é que, de fato, estão. Nossa razão para afirmar isso é que, hoje as comportas têm sido escancaradas para a admissão pública de pecados perigosos e escandalosos, os quais seriam impensáveis há uma geração atrás.

Juntamente com essa tolerância pública de males grosseiros, tem marchado um verdadeiro exército de tentações. Isso tudo ameaça as almas das crianças, não somente nas ruas e no mercado, mas também na sala de aula, no parquinho, e onde mais a mídia é permitida, inclusive no próprio lar.

POR ONDE COMEÇAMOS?

Nós pressupomos aqui que pais crentes crêem não só que Deus é soberano, mas também que Ele nos chama para usar-nos como instrumentos da Sua vontade. Nós não limitamos a obra de Deus à nossa diligência; mas nós acreditamos que Deus comumente abençoa a diligência da nossa parte como pais. Ainda que Deus salve o mal instruído e o não instruído, deve se esperar mais ainda que Ele abençoe crianças e jovens que têm sido bem instruídos nas Sagradas Escrituras, que têm sido cuidadosamente disciplinados em casa, e que são acostumados a frequentar a casa de Deus como a grande prioridade da vida.

Tomando isso como ponto de partida, nós prosseguimos afirmando que pais crentes deveriam estimar a salvação de seus filhos acima de qualquer outra coisa em suas vidas. Nós devemos fazê-lo por boas razões. Perder a alma é o pior de todos os males. Obter sucesso em qualquer coisa ou até mesmo em tudo e ainda assim entrar no inferno ao fim da vida é pior do que nunca haver nascido. Portanto, o crente deseja nada menos para os seus filhos do que que eles sejam nascidos de novo, justificados, redimidos por Cristo e finalmente levados ao céu. Essa é a nossa prioridade. Isso é o que nós almejamos.

Não é necessário que essa ambição evangelística da parte dos pais ponha fim a todas as outras ambições. Um pai sábio deve também desejar que seu filho se destaque em uma ou outra carreira: talvez um curso universitário, ou como uma pessoa de habilidades sociais, ou politicamente ativo, ou alguém provável a ganhar um bom salário. O ponto aqui é que pais crentes nunca devem almejar essas coisas em primeiro lugar.

Quando pais colocam qualquer coisa acima da salvação de seus filhos, eles tornam-se culpados de desprezar as suas almas imortais. Tais pais mal se dão conta que estão em perigo de pecar por profanação. Pois é profanação colocar o sucesso mundano antes do bem da alma de uma criança. Esses pais que almejam um sucesso secular para seus filhos acima da bênção espiritual, podem até receber aquilo que eles pedem a Deus, mas também obterão pobreza para as suas almas (Sl. 106:15).

AMOR, ENSINO, DISCIPLINA

A paternidade, como a própria vida, é algo em que nós não podemos nos permitir errar. Se nós arruinarmos o caráter de uma criança pela nossa negligência ou por nossa indulgência, é quase impossível corrigi-lo depois. O caráter de uma criança é maleável apenas por poucos e breves anos. Rapidamente o barro endurece. Pensamentos e conversas habituais, bons ou maus, rapidamente se tornam duros como cimento na vida da criança. O pai crente deve se esforçar para, com todo o jeito e graça que possui, criar cada filho cuidadosamente para Deus.

Os elementos bíblicos para a criação de qualquer criança são: amor, ensino e disciplina.

Por amor, nós queremos dizer que os pais devem mostrar terna afeição e cuidado para com a criança, desde o momento do seu nascimento e durante toda a vida. Esse é o vínculo sagrado pelo qual a mãe, especialmente (mas também o pai), liga a vida da criança à sua. As crianças, como educadores e psicólogos admitem, necessitam profundamente da satisfação que vem dos generosos afetos da mãe. Não há substituto para isso. A mãe provê seu filho com milhares de palavras e gestos que formam a sua vida interior. A criança se desenvolve emocionalmente de uma maneira que toda a experiência da sua vida futura dificilmente desfará tal desenvolvimento. Essa relação de amor produz o que nós chamamos de “um profundo senso de dependência” na criança. Se tornará instintivo para a criança procurar nos pais conhecimento, sabedoria e direção, principalmente nos primeiros anos de vida.

Nenhuma criança deve ser encorajada, quando pequena, a tentar viver independentemente ou a tomar as suas próprias decisões, mas a procurar os pais e consultá-los sempre. Essa dependência não será algo nocivo porque normalmente, na adolescência, o caráter começa a solidificar-se e os próprios padrões e normas dos pais tornam-se também aqueles do adolescente. Se uma base de estabilidade moral e espiritual tiver sido estabelecida na alma desde a tenra infância, a independência virá naturalmente, uma vez vinda a maturidade.

Um pai crente, à luz do que foi dito anteriormente, nunca deixará a criança ser criada por qualquer outra pessoa. Exceto em circunstâncias muito excepcionais, além do nosso controle, e por breves períodos necessários para o descanso, devemos criar, nós mesmos, os nossos filhos. Ninguém mais, por melhor que seja, pode absolutamente fazer o trabalho de um pai. Na maioria dos casos, isso significa que a mãe de uma criança pequena deve estar preparada para ser cem por cento mãe, por alguns anos, até que o vínculo do amor tenha gerado na alma da criança a dependência a que já nos referimos. Se às vezes isso parece um papel exigente, deve-se lembrar que dentro de poucos anos, isso produzirá uma generosa recompensa.

COMEÇANDO A ENSINAR

Tão logo um pensamento consciente comece a se desenvolver na criança, o pai crente deve resolver fazer um firme e constante esforço para ensiná-la tanto no conhecimento bíblico como na sabedoria geral. Isso, obviamente, começa a acontecer nos primeiros anos de vida, antes mesmo que a criança comece a andar ou a falar. Quando palavras como “Bíblia”, “Deus” ou “igreja” forem pronunciadas, serão ditas com um tom de especial seriedade e devoção.

A mente tênue da criança deve ser despertada, no lar, para um mundo de pensamento que seja totalmente da Palavra de Deus. Instintivamente (e nós oramos que definitivamente) a criança aprende com os pais a ver a si mesma como “criada por Deus”, “pecadora”, “sujeita à enfermidade e à morte”, “necessitada de um Salvador”, “precisando orar a Deus sempre e por tudo”, “preparando-se na Terra para a eternidade”, como “tendo de enfrentar o grande julgamento de Deus ao final”, “obrigada a guardar a Lei de Deus”, e como “ciente do céu e do inferno”.

Pais não devem contentar-se apenas em dar graças nas refeições e nada mais. As refeições deveriam ser usadas para estimular conversas sobre temas espirituais: “Por que Jesus chamou a si mesmo o Pão da Vida?”; “Por que as pessoas não podem viver só de pão ?”; “Como podemos socorrer ao que passa fome?”, etc. Nós não estamos sugerindo que a hora da refeição deva ser totalmente devotada a conversas especificamente espirituais, mas que elas devem acontecer regularmente. A hora das refeições são momentos dados por Deus e devem ser gastos em conversas que não sejam sufocadas pelo controle da mídia. As crianças, assim como os adultos, precisam desembaraçar-se em suas conversas.

Nós firmemente aconselhamos os pais a tomarem como prática o dirigir um culto familiar em suas casas a cada manhã e noite. De preferência, o pai (quando isso não for possível, a mãe) dirigirá o cântico de alguns versos, então lerá um capítulo da Bíblia e orará. Nós recomendamos a leitura da Bíblia, ao invés de qualquer tipo de “livro de culto familiar”.

Se, no entanto, tal tipo de livro for usado, que o seja somente após haver sido lido um capítulo bíblico. O que mais importa é que as crianças sejam completamente familiarizadas com a Bíblia. Comentários de homens são valiosos, mas não substitutos dos próprios “oráculos de Deus”. Deixe que as crianças sejam encorajadas, por todos os meios, a ler livros devocionais. Mas no culto familiar, nós somos veementes em aconselhar que à Bíblia, em toda a sua autoridade e majestade, seja dado o lugar central. Crianças não conhecerão a Bíblia exceto por um aprendizado diário e repetitivo da maneira que sugerimos aqui.

À medida que as crianças crescem, espera-se que elas tenham seus próprios momentos devocionais, tanto de manhã como à noite, e também que compareçam aos cultos na casa de Deus. Nós não aprovamos a prática, encontrada em alguns círculos, de retirar-se as crianças na hora da pregação. Certamente, se a criança não pode manter-se em silêncio pela sua pouca idade, ela deve ser conduzida a uma outra sala de modo que não venha a perturbar o culto. Mas nos primeiros anos de vida, a criança pode aprender a ficar quietinha na igreja e a comparecer ao sermão. Pregadores adoram ver crianças na igreja, e o mais sábio deles, aqui e ali, jogará um punhado de grãos especialmente para elas durante o sermão.

DISCIPLINA

Disciplina é onde a maioria dos pais caem e fracassam no seu dever para com os seus filhos. A disciplina, entretanto, é essencial por pelo menos três razões:

·      porque nossos filhos possuem uma natureza pecaminosa, assim como nós;

·      porque Deus requer que os pais disciplinem a seus filhos;

·      porque as crianças irão de mau a pior se não a receberem.

Os problemas da juventude, nos dias de hoje, são grandemente agravados porque os pais não se têm permitido serem dirigidos somente pelas Escrituras nesse ponto, mas, ao contrário, têm sido influenciados pelas atuais idéias liberais espalhadas pelos humanistas.

A disciplina deve ser dada na forma de advertência, seguida, se desobedecida, por uma controlada punição física a uma parte do corpo onde não cause dano. No caso de crianças pequenas, tal castigo deve ser bem moderado. O propósito da disciplina é reforçar a obediência ao que é correto. Nós não castigamos as crianças quando elas erram por desconhecimento, embaraço ou confusão. Mas nós as castigamos com firmeza - e até demonstramos uma controlada irritação ou desapontamento de nossa parte - quando elas são desobedientes ou desonestas espontaneamente. A maior “dor” para a criança deve ser a de perceber que nós, como pais, estamos aborrecidos e descontentes com o seu comportamento.

A disciplina é a maneira correta, bíblica, e dada por Deus com a qual os pais devem responder à desobediência de seus próprios filhos. A nossa autorização para a disciplina é encontrada em trechos das Escrituras como os seguintes:

Pv. 13:24:  “O que retêm a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo o disciplina.”

Pv. 19:18:  “Castiga a teu filho, enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo.”

Pv. 22:15:  “A estultícia está ligada ao coração da criança, mas a vara da disciplina a afastará dela.”

Pv. 23:13,14: “Não retires da criança a disciplina, pois se a fustigares com a vara, não morrerá. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.”

Há, hoje, uma linha de pensamento que diz que crianças não devem receber punição física. Os frutos dessa teoria anti-cristã são vistos em todo lugar: sujeira, pichações, arruaças, furtos, ataques a idosos, e uma atitude orgulhosa que não pode ser corrigida por ninguém - nem pelos próprios pais, se eles tiverem negligenciado a disciplina desde cedo.

É lógico que, se a disciplina for aplicada amorosamente, mas firmemente, e reforçada na infância, ela frequentemente não será necessária na adolescência. Não é sem razão que Deus diz: “Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno” (Pv. 23:14).

O inferno é diariamente enchido com as almas de homens e mulheres que não foram corrigidos na infância porque os seus pais foram “gentis” demais, tímidos demais, ou demais ocupados para cuidar dos problemas quando e enquanto eles surgiam. Muitos pais, e dentre eles muitos cristãos, têm sido, como Eli (1 Sm. 2), envergonhados e reprovados porque foram indulgentes demais. Não se espantem quando a Bíblia diz: “O filho estulto é tristeza para o pai, e o pai do insensato não se alegra” (Pv. 17:21).

MANTENHA-OS OCUPADOS

O pai cristão deve ensinar, por preceitos e exemplos, que Deus nos colocou neste mundo para servi-Lo e obedecê-Lo. A nossa vida, devemos ensinar a nossos filhos, é curta e incerta. Nosso primeiro dever é reconciliar-nos com Deus pela fé no Senhor Jesus Cristo; o segundo, e que dura para a vida toda, é buscar agradar a Deus através do cumprimento da Sua santa Palavra. Uma das principais partes da nossa obediência é trabalhar duro nos “seis dias” que se seguem ao sábado cristão (o domingo), ou Dia do Senhor (Ex. 20:9). Na nossa sociedade moderna, há uma quantidade absurda de tempo gasta com esportes e entretenimento ocioso, muito dos quais nada contribuem para o bem da alma, pelo contrário, são nocivos em todos os aspectos para o desenvolvimento e progresso espiritual.

Uma vez que “as mãos e mentes ociosas são a oficina de Satanás”, é sábio para um pai manter os seus filhos proveitosamente ocupados. Estabeleça pequenas atividades e deveres para fazerem enquanto ainda são pequenos; mais tarde, no período escolar, deixe que tenham fartura nos deveres de casa (não apenas escolares). Os pais podem facilmente verificar isso para que, se necessário, a quantidade de atividades dada pela escola seja suplementada. Os pais, afinal de contas, e não a escola, é que são, em última análise, responsáveis pela educação dos seus próprios filhos.

Muitas crianças da igreja são desfavoravelmente afetadas pelas más companhias que encontram fora de casa. Ainda que não possamos tecer um casulo em volta de nossos filhos, nós podemos tomar algumas medidas efetivas nesse ponto. Pais crentes devem “analisar” os amigos de seus filhos, discretamente, ainda que cuidadosamente. Se um mau linguajar, maus hábitos ou más atitudes são percebidas em tais amizades, elas devem ser firmemente terminadas ou evitadas pelos pais: “João, você terá que se despedir de seu amigo Pedro. Ele não é uma amizade adequada para você. Nós precisamos procurar outro amigo para você”.

O pai crente que pretende fazer tudo que estiver ao seu alcance para que seus filhos venham a ser convertidos deve encarar a dolorosa possibilidade de que nem todas as crianças da Escola Dominical ou da igreja são amigos adequados para os seus filhos. Isso deve envolvê-los em delicadas e diplomáticas medidas para resguardar as suas crianças dos filhos de alguém que atende à mesma congregação. Nós sabemos que alguns crentes são maus pais; mas também, alegremente descobrimos que, pela providência de Deus, alguns não-crentes são surpreendentemente bons pais, ao menos em assuntos não especificamente espirituais. Nós devemos a Deus a responsabilidade de colocar o bem da alma de nossos filhos antes de todo fator humano, como, no caso, a amizade. Nossos filhos nem sempre podem compreender isso no momento. Mas, quando se converterem, nos agradecerão pela firme e delicada proteção que demos a eles, até mesmo dentro da igreja.

PROFESSANDO A FÉ EM CRISTO

Um pai crente não deve se perturbar se um de seus filhos reclamar por ser “criado com muito rigor”. Tais reclamações ocasionais são esperadas porque os nossos filhos, possuindo uma natureza pecaminosa, compreensivelmente se ressentem do senhorio de Cristo no lar. Mas, no fundo, filhos de bons lares costumam saber, ainda que nem sempre admitam abertamente, que estão melhores e mais felizes do que aqueles que eles conhecem, provenientes de lares mundanos, onde a televisão sem limites e o excesso de tolerância são a regra.

Pais crentes sabem que eles não podem converter os seus filhos por si próprios. Mas devem sempre lembrar-se de pelo menos duas coisas: de que há uma promessa ligada à paternidade desempenhada com fidelidade; e que, ainda que nós não possamos dar a salvação a nossos filhos, nós podemos insistir que eles sejam corteses e respeitosos conosco e com os outros adultos.

A promessa a que nos referimos acima é, em outras palavras: “Ensina a criança no caminho que deve andar, e ainda quando for velho não se desviará dele” (Pv. 22:6). Nós podemos agarrar firmemente tal graciosa promessa e suplicá-la a Deus, ao mesmo tempo em que amamos, ensinamos e continuamos a disciplinar os nossos filhos. É uma feliz experiência dos pais crentes quando - embora nem sempre isso ocorra - veem seus filhos ou filhas chegarem ao ponto de desejarem confessar a Cristo por si mesmos. É uma experiência de ouro para qualquer crente. É música para os nossos ouvidos.

Entretanto, mesmo nesse ponto precisamos ser um tanto cautelosos. Nós oferecemos os seguintes conselhos:

1- Nunca pressione uma criança a “aceitar a Cristo”, a “tornar-se um membro”, a “descer às águas do batismo” (quando for o caso da igreja dos pais utilizar esse tipo de batismo), ou a “ir à mesa do Senhor”. Danos são causados por uma pressão emocional desse tipo. Quando as crianças são pequenas, elas dizem o que elas sabem que agradará os mais velhos. Contudo elas voltarão, mais cedo ou mais tarde, às suas verdadeiras personalidades se uma regeneração verdadeira não houver acontecido. É melhor deixar a verdade de Deus fazer o seu trabalho e esperar que as pétalas da rosa se abram por si mesmas sob a bendita influência do Sol da Justiça.

2- Não dê, de imediato, crédito demais a uma criança que professa ter sido convertida recentemente. Espere para ver que mudanças acontecem na sua vida em certo período de tempo. Procure por mudanças em seus interesses e em suas atitudes. É melhor ser cauteloso demais do que crédulo demais. A graça não evapora se não receber uma generosa recepção em sua primeira profissão. O que os levará - e a nós também - para a glória é o poder de Deus que vem da plenitude de Cristo, um poder que não pode ser perdido, uma vez que foi desfrutado.

3- Não despreze ou menospreze a profissão de fé de uma criança, mas mostre, por todos os meios, que você valoriza a fé verdadeira nelas acima de todas as honras que esse mundo jamais poderia lhes dar.

Não é uma coisa fácil ser um bom pai hoje em dia. Misericordiosamente, Deus é capaz de sobrepujar nossos muitos erros e conduzir nossos filhos a Ele a despeito de todas as nossas falhas e deslizes. A graça, afinal de contas, é graça porque é imerecida e soberana. Provavelmente, jamais existiu pai algum que não tenha olhado para trás com pesar pelos muitos erros que ele ou ela cometeu no processo de criar uma família. Até grandes homens como Davi e Eli tiveram dor e pesar por causa da incredulidade de seus filhos e filhas.

No entanto, somos ousados a dirigir-nos a pais crentes com jovens famílias para que eles sejam encorajados a superarem-se na tarefa de criarem os seus filhos para Deus, da melhor maneira possível. É uma grande tarefa, mas ela pode ser extremamente gratificante, ao final. O nosso mais respeitoso desejo e oração é que tais pais possam ver os seus filhos, um dia, assentados com eles no reino da graça - e finalmente, no reino da glória.
 
Artigo publicado na revista "The Banner of Sovereign Grace Truth".

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Educação no Éden - Parte 1

                          O ÉDEN COMO O INÍCIO DA HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO


*Trecho extraído da obra: O Princípio da Educação, por Karis B. G. A. Davis, da Parte 1: A Educação no Éden: O Princípio da Excelência Educacional.

Introdução à Parte 1:

“Tudo fez Deus formoso no seu devido tempo; também pôs a eternidade no coração do homem, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até ao fim... O que é já foi, e o que há de ser também já se foi; Deus fará renovar-se o que se passou... A tudo quanto há de vir já se lhe deu o nome, e sabe-se o que é o homem, e que não pode contender com quem é mais forte do que ele”

Eclesiastes 3:11,15; 6:10

Solano Portela afirmou: “... o objetivo da Educação Cristã deve ser o de proporcionar à pessoa que está sendo educada, não apenas a obtenção de conhecimentos variados uns dos outros e da sua própria constituição física e moral, mas sim o de conceder uma visão integrada e coerente de vida, relacionada com o Criador e com os Seus propósitos.[1] Essa “visão integrada e coerente da vida, relacionada com o Criador e com os Seus propósitos” de que Portela fala, e que também chamamos de cosmovisão cristã, é comumente comparada à estrutura de um prédio que contém três colunas principais, ou o tripé: criação-queda-redenção. Essa parte inicial do livro trata dessa primeira coluna: a criação. Não do relato bíblico de Gênesis 1 e 2 em si, mas do seu peso e significado histórico-teológico- filosófico-pedagógico para a educação cristã, ou seja, como uma figura do ideal de Deus para a educação do homem como fora criado. Esse estado inicial ideal e excelente da educação nos revela o início da história educacional e o propósito da vida e da educação do homem no mundo. Quando nos referimos a esse tempo inicial, usamos o termo “no princípio”. Quando nos referimos à qualidade desse estado, usamos o termo “perfeição”. Quando nos referimos ao lugar em que a educação ideal aconteceu, falamos do “Éden”.

Essa parte é formada por cinco capítulos que caracterizam, por sua vez, a origem, o contexto, o aluno, os alvos e o conteúdo curricular do primeiro momento da educação do homem.  O primeiro capítulo nos introduz ao primeiro momento da história educacional, à fonte dessa história, e ao seu autor divino, apresentando vários elementos da cosmovisão original (visão da história, de Deus, de conhecimento e do mundo). O segundo capítulo descreverá a criação como a sala de aula ideal. O terceiro capítulo caracteriza o aluno ideal ou perfeito, ou seja, o ideal de Deus para a educação e formação da pessoa humana. O quarto capítulo trata dos objetivos individuais e sociais da educação do Éden; e o quinto capítulo descreve o currículo original como o modelo divino para dirigir a formação teórica e curricular das escolas cristãs.

 

O Éden como o Início da História da Educação Cristã

No princípio criou Deus os céus e a terra...
... E plantou o SENHOR Deus um jardim no Éden, do lado oriental; 
e pôs ali o homem que tinha formado.
 – Gênesis 2:1,8

Exclamando em voz alta, ou talvez silenciosamente perguntando a si mesmo, você pode estar pensando, ao ler o título acima: “Educação cristã no Jardim do Éden? O que essa alusão a um lugar mitológico da antiguidade tem a ver com a história da educação? Ainda que eu estivesse entre os poucos que acreditam na existência de um paraíso original, a história da educação cristã não pode ser tão antiga, certo?” Nesse caso, supondo que você é provavelmente um educador não-cristão apenas interessado em aprender mais a respeito da história da educação cristã ou de uma história educacional contada do ponto de vista cristão, este capítulo lhe fornecerá uma oportunidade única de ser introduzido ao relato bíblico do início da história do mundo – remoto, sim, mas que consiste na própria base tanto do cristianismo como de toda empreitada educacional neste planeta – e aos princípios básicos da visão de mundo cristã – uma visão religiosa e educacional única, coerente, profunda e verdadeira do início ao fim, como procuraremos demonstrar. Quem sabe, antes de chegar no final deste livro, o poder das verdades e da mensagem cristã nele contidos terão levado seu coração a fazer outras e mais profundas perguntas... cujas respostas podem vivificar e transformar toda a sua vida, e toda a sua educação!

O mais provável, entretanto, é que você seja um educador cristão – no sentido mais amplo possível do termo – e a sua surpresa faça a pergunta soar um pouco diferente: “Educação cristã no Jardim do Éden? É claro que eu conheço o relato bíblico da criação do mundo e de Adão e Eva no Jardim do Éden, mas o que isso tem a ver com a educação cristã? Além disso, a educação cristã não é um subproduto do cristianismo que se originou há cerca de dois milênios? Não seria, portanto, um anacronismo falar em educação cristã antes da vinda de Cristo?” Tecnicamente, talvez sim – biblicamente, não! Trataremos dessa questão logo adiante, e o restante deste capítulo deverá deixar claro que a educação cristã tem o seu verdadeiro início histórico e filosófico nos acontecimentos cruciais e nos princípios revelados neste tempo e lugar da antiguidade, o Éden. As palavras inaugurais de Gênesis 1:1: “No princípio, Deus...” revelam a origem da história da educação, declaram a autoridade da Bíblia como a fonte da história e da filosofia educacional cristã, e exaltam o Deus criador como o Autor e o Fundamento principal da história da educação.

O Éden como o Início da História da Educação Cristã


Para os cristãos que acreditam na Bíblia como sendo a própria palavra inspirada de Deus, o Éden, com todos os seus personagens e acontecimentos, não é um lugar mitológico, mas absolutamente real. É história. É o início da história humana e é também o primeiro momento da história educacional do ser humano. É verdade que a maioria dos livros de história da educação, mesmo os livros cristãos, não vão tão longe. Eles simplesmente começam com a vinda de Cristo, ou consideram brevemente a educação do povo de Israel; no máximo, chegam a tratar de alguma forma de educação ainda incipiente nas comunidades dos “primeiros nômades”. Acreditamos, no entanto, ter bons motivos para começar a contar nossa história da educação remontando ao início de tudo, revelado naquelas palavras inaugurais de Gênesis: “No princípio”.

Ao fazermos isso, estamos conscientemente nos opondo àqueles historiadores que ignoram a verdadeira origem da história humana e da história da educação. O argumento desses historiadores seculares é que não temos provas documentais ou arqueológicas da educação nos períodos anteriores, e – convenhamos – os historiadores evolucionistas estariam em grandes dificuldades se tivessem de definir exatamente o momento histórico em que os seres inferiores se tornaram humanos e experimentaram as primeiras formas de educação. Assim, prevalece a idéia de que o início das coisas é indefinido, não é importante, e está tão distante de nós que não tem nada de proveitoso a nos ensinar.

Que os evolucionistas e materialistas não possam fornecer uma explicação sobre a origem da educação não nos surpreende. Mas como educadores cristãos que somos – que possuímos a revelação de Deus sobre o Gênesis, que cremos que a Bíblia é a palavra inspirada, autoritativa, inerrante e suficiente de Deus, a qual nos foi revelada e nos está acessível como a mais confiável e útil fonte histórica de que precisamos – não podemos ignorar o grande acontecimento da origem da humanidade e do surgimento da educação cristã.

A antiguidade e a unidade da história cristã


Não foi Matthew Tindal, como muitos imaginam, o primeiro autor da tese de que “o cristianismo é tão antigo quanto a criação”.[2] Nós sugerimos essa idéia aqui, cientes de que a teologia bíblica e reformada sempre sustentou essa posição ao defender que a história do cristianismo é, em essência, a mesma história contida no Antigo Testamento e iniciada no tempo e no espaço quando do advento da criação do mundo. O cristianismo, se entendido como a verdadeira religião sobrenatural e revelada na Bíblia, é tão antigo quanto a criação. E a educação cristã, se entendida como um ensino que pressupõe uma visão do mundo como ele é interpretado por Deus nas Escrituras, é, portanto, tão antiga quanto a criação dos primeiros seres humanos.

O que parece acontecer entre historiadores cristãos (especialmente entre os evangélicos e menos entre os reformados) é uma espécie de consenso – até certo ponto justificável, técnica ou didaticamente – que associa o termo cristianismo com o período iniciado pela vinda de Jesus Cristo ao mundo e a educação cristã àquela desenvolvida a partir da igreja primitiva. Muitas vezes, entretanto, isso é fruto de uma teologia que não compreende a continuidade da revelação de Deus e que tem dificuldade de perceber a unidade do plano de Deus revelado na antiga aliança e na nova aliança, e de relacionar a história cristã apresentada no novo testamento com as narrativas bíblicas do antigo testamento, especialmente quando estas entram em conflito aberto com a ciência e com as filosofias atuais, como acontece no debate entre criacionistas e evolucionistas.  O resultado é que muitos, para evitarem maiores dificuldades e escaparem do confronto cultural, acabam com uma visão limitada e fragmentada da história.

Não há descontinuidade de sentido nem de propósito na obra de Deus entre os homens. O Deus dos cristãos que veio ao mundo na pessoa do seu Filho é o mesmo Deus que criou todas as coisas no princípio. O propósito de Deus para a vida, para a cultura, para a educação e para o futuro dos homens é eterno e é um só, desde o princípio, e o será até o final do mundo como o conhecemos. O grande expositor bíblico Martyn Lloyd-Jones enfatiza, nesse sentido, a importância de termos sempre em mente a história toda, de buscarmos uma perspectiva ampla e uma visão distanciada que nos permita compreender as coisas como um todo, e o início da história humana é essencial para essa visão contextual:

... A Bíblia ... raciocina com você. A Bíblia não diz: “Somente vá a Cristo e tudo estará bem”. De maneira alguma. Ela começa em Gênesis. Ela começa com a Criação. Ela quer que você saiba e compreenda porque você é quem você é e porque Deus propõe o que propõe.

Então a Bíblia nos diz que o mundo não é acidental. Ela nos diz que a história não existe sem um começo. Ela nos diz que houve um tempo em que não havia mundo nem história e que Deus, deliberadamente, conforme o conselho da sua própria vontade eterna, decidiu criar, formar um mundo e começar o processo histórico. Você e eu estamos na história e cabe a nós saber alguma coisa sobre este processo.[3]

O Éden como introdução e contexto da história


Você já perdeu o início de um filme e ficou tentando em vão entender a sua trama até que alguém lhe explicou como a história começou, e só então o resto do filme passou a fazer sentido? Isso acontece porque o início de qualquer história contém informações essenciais para a sua compreensão. O início normalmente localiza a história no tempo e no espaço, revela e caracteriza seus personagens, e não raro inclui acontecimentos e eventos cruciais para a continuação da história.

As cenas iniciais da história da educação acontecem no Éden, naquele jardim especial criado por Deus para ser a habitação dos primeiros seres humanos na terra, e as vemos não em tela de cinema, mas nas primeiras páginas das Escrituras Sagradas. Os primeiros capítulos da Bíblia contêm vários assuntos pertinentes à educação cristã, tanto no que diz respeito ao início da história da educação do homem, como também informações e fatos importantes para embasar a filosofia educacional cristã. Eles revelam informações contextuais essenciais para a compreensão de qualquer capítulo ou porção subseqüente dessa história educacional.

Dentre esses assuntos cruciais estão a apresentação do autor da história, a narrativa da origem e da criação do mundo e do homem, a descrição do mundo e da vida humana no estado original de perfeição em que foram criados – com destaque para as características, funções e relacionamentos desse homem perfeito – e em especial a descrição do relacionamento entre o homem e seu Criador divino naquele estado de perfeição, conhecido em termos teológicos como o “pacto adâmico” ou “pacto de obras”.

Esses assuntos compõem o primeiro eixo do tripé (criação – queda – redenção) que fundamenta a visão de mundo cristã e contém as chaves das respostas às questões essenciais enfrentadas por todos os sistemas de pensamento e filosofias educacionais: O que é este universo? De onde ele veio? O que é o homem? Como ele surgiu? Para quê ele está aqui? Qual o seu papel na história? Como ele deve atuar no mundo? O que é a educação? Por que o homem deve ser educado? O que buscamos através da educação? Com que aspectos a educação deve se ocupar? Esses são alguns dos mais profundos e práticos problemas da filosofia educacional e ousamos afirmar que eles não podem ser respondidos satisfatoriamente, senão por meio da indispensável revelação de Deus registrada na Bíblia.

Aplicação Educacional: Sobre a Importância do Início da História


Pressupostos e Princípios:


- A verdade histórica da visão de mundo cristã. Assim como a fé cristã se baseia em fatos históricos (na existência histórica, factual e literal do primeiro Adão em Gênesis, nas obras redentoras de Deus na história do seu povo, da vinda de Cristo como o segundo Adão, que adentrou a história para viver, morrer e ressuscitar ao terceiro dia, e da sua segunda vinda para julgar o mundo no final da história – todos acontecimentos históricos), assim também a filosofia educacional cristã afirma a verdade histórica de sua visão de mundo. Não devemos nos contentar com que a nossa visão de mundo seja meramente tolerada entre tantas outras no contexto pluralista atual, mas precisamos declarar que a única filosofia educacional válida é aquela cuja verdade de seus pressupostos estão firmados em acontecimentos históricos.

 - A importância da origem das coisas. A filosofia e a história educacional cristã, se pretendem seguir o exemplo bíblico, precisam dar um relato convincente e explicativo da origem das coisas (de sua história, filosofia e prática). É bom, saudável e bíblico fazer indagações como: “de onde isso veio?”  Desde quando esse método é usado? Porque adotamos esse determinado material? Qual a história desse professor? Quem são os defensores históricos dessas práticas? Quem inventou a pré-escola, e por quê? Em que contexto práticas escolares que adotamos foram introduzidas? O contexto atual ainda as justifica? Inúmeras e variadas são as aplicações desse princípio de que o início e a origem das coisas é importante, e de que essas questões fundamentais devem ser perguntadas com referência a cada aula, tópico curricular, prática escolar, histórico de cada aluno e professor, etc. Semelhantemente, devemos ter cuidado e desconfiar daquelas filosofias e práticas educacionais recentes, ou que surgem pragmaticamente, cujos resultados não foram testados historicamente, ou daquelas mais antigas que se nos apresentam como ditatoriais e inquestionáveis, ou ainda daquelas que não fazem parte de um sistema de explicação abrangente e tratam só de coisas particulares e metodológicas.

- Do início ao fim a mesma história educacional. A educação brasileira ainda carece de um livro de história geral e brasileira contada da perspectiva cristã, e particularmente de um livro de história da educação cristã. Mas quando esses materiais didáticos surgirem (e esta obra é um convite a esforços nessa direção), se eles forem realmente bíblicos, a sua história deverá começar no Éden, centralizar-se na obra de Cristo na história e finalizar apontando para as revelações do Apocalipse. A história da educação greco-romana, reformada, assim como a brasileira, devem estar devidamente inseridas nesse plano todo-abrangente de Deus.

Direcionamentos Práticos


- Busque explicar às crianças a origem e o porquê das coisas. Volte no tempo o mais longe possível, e sempre que for devido, associe suas explicações ao Éden, a seus personagens e acontecimentos.

- Enfatize a unidade e a totalidade da história bíblica: Seja falando de Abraão, de José, do povo de Israel, de Davi, de Jeremias, de Jesus, ou das viagens missionárias de Atos, busque compreender e dar às crianças uma visão da história toda, do Éden a Apocalipse, e do seu lugar dentro dessa história.

- Busque pesquisar e repensar, como professor ou educador em qualquer área, a origem de suas crenças e práticas educacionais. Certifique-se que há fundamentação bíblica para tudo o que você pensa e faz ou deixa de fazer.

- Se você é um diretor ou administrador escolar, valorize a formação e o interesse histórico, teológico e bíblico nos professores candidatos a qualquer vaga, e incentive formação continuada nessas áreas fundamentais como um instrumento valioso para garantir a sua visão de mundo cristã.

Próximo Post nesta seção: A Bíblia como a Fonte da História da Educação Cristã.




[1] Portela, Solano. Educação Cristã: ([199-], p. 1)
[2] Erroneamente conhecido como o autor dessa tese, Matthew Tindal foi quem a emprestou do sermão de um pregador ortodoxo e a distorceu para defender a sua teologia natural nessa obra que ficou conhecida como “a Bíblia do Deísmo”, na qual ele eleva a Natureza e a Razão em lugar de Deus e descarta a revelação e os milagres, chegando a conclusões radicalmente anti-bíblicas e anti-cristãs.
[3] Lloyd-Jones, Martyn. The Gospel in Genesis: From Fig Leaves to Faith (O Evangelho em Gênesis: De Folhas de Figueira à Fé) (Wheaton: Crossway, 2009), p. 15-16.