“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

sexta-feira, 19 de junho de 2015

PROPOSTA PARA A REFORMA CURRICULAR DE ESCOLAS CRISTÃS - PARTE 4


 FASE 3 - O QUE ENSINAR?

ANALISANDO E SELECIONANDO CONTEÚDOS


Tendo tratado da importância da elaboração de um currículo distintamente cristão, academicamente sólido e adaptado à realidade de cada escola cristã, passamos a sugerir alguns passos lógicos que devem fazer parte dessa reforma curricular que desejamos: o primeiro passo foi definir, elencar e aplicar os princípios teológicos que embasam nossa visão de mundo bíblica, sejam eles sobre Deus, sobre o homem, sobre o conhecimento ou sobre o currículo. A segunda fase consistiu de pensar e a organizar objetivos educacionais gerais e específicos que sejam condizentes com os princípios bíblicos. E nesta fase 3 chegamos na parte que considero mais decisiva, mais desafiadora e mais criativa: a seleção dos conteúdos.

Agora é hora de pararmos para pensar. Essa fase deve ser lenta, pois ela exige tempo para que pais e educadores estudem e considerem bem o que desejam e precisam fazer; para que orem pedindo a Deus a Sua orientação e sabedoria; para que estudem e apliquem o que a Palavra de Deus diz sobre os objetivos e conteúdos da educação; para que pesquisem materiais e discutam o assunto entre si. Há de se levar tempo ainda para relacionar, em termos de prioridade, quais são os conteúdos e as habilidades que Deus exige que sejam desenvolvidos nos nossos filhos, os quais a escola deveria reforçar ou complementar ao ensino do lar.

Mas como definir quais são os conteúdos essenciais a um currículo cristão e de que forma essa seleção reflete a nossa visão de mundo em face dos currículos seculares? Quais são os eixos de conteúdos que definem a educação bíblica? Sabemos que o leque e profundidade do conhecimento da realidade é infinito para a mente humana, e que ele pode ser concentrado em inúmeras áreas e sub-áreas. Com quais destas áreas devemos nos preocupar? Com conhecimentos transcendentes ou científicos? Com as habilidades vocacionais ou com o desenvolvimento do pensamento lógico? Veremos à frente que há várias tendências curriculares mesmo entre os educadores cristãos, que enfatizam mais um ou outro aspecto entre o racional, o empreendorista, o científico, o histórico, e outros. Não obstante essas tendências,  concordamos com o educador Cornelius Jaarsma (The Christian View of the School Curriculum. In: Fundamentals in Christian Education, p. 241) de que existem três eixos de conteúdos/habilidades principais com que a educação cristã precisa se preocupar. Este autor resumiu o conteúdo do currículo cristão como tendo estes elementos essenciais: a verdadeira piedade; a genuína cultura; e o serviço na vocação. Aproveitaremos esses termos nos comentários que temos a fazer a seguir.

Verdadeira Piedade: Instrução Espiritual e Moral nas Verdades da Palavra de Deus


A tarefa principal aqui é traduzir os objetivos elencados em conteúdos, atividades e habilidades que precisam ser ensinadas para que a criança atinja tais objetivos. A verdadeira piedade é o eixo vertical do currículo Cristão. E, para começarmos a selecionar os conteúdos que educam na piedade, precisamos partir do ensino da Bíblia. Se começarmos com a Palavra de Deus, veremos que ela enfatiza, por exemplo, a necessidade da criança aprender as leis morais de Deus, o que vai exigir um forte ensino das doutrinas e da moral cristã. Assim, os Dez Mandamentos e as demais leis de Deus que regem a nossa vida e toda a criação deverão ser ensinados, seja numa disciplina particular, ou dentro das disciplinas regulares. Se "toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a correção, para a educação na justiça" (II Tim 3:16), segue-se que todos os ensinamentos da palavra de Deus devem fazer parte do nosso currículo, e ensinados à medida que a idade da criança permita a sua compreensão: a criação, a queda, a história da redenção, a história do dilúvio e de suas consequências para o nosso mundo, a obra de Deus na história; a vida e a obra de Cristo; o ensino da Bíblia sobre o futuro. Não, essas coisas não fazem parte dos parâmetros nacionais, mas elas estão no primeiro plano da educação cristã.

Deus nos ordena também que "os louvores do Senhor, e o seu poder, e as maravilhas que fez" (Salmo 78:4) sejam ensinados à geração vindoura. Esse mandamento nos obriga a dar ênfase ao ensino da história dos grandes feitos de Deus. Não tanto, sugiro eu, começando com a história pessoal da criança, do seu bairro, cidade ou país, como fazem a maioria dos livros didáticos e currículos seculares, mas a ênfase bíblica parece cair numa visão abrangente da história do mundo, desde Adão e Eva até as profecias da segunda vinda de Cristo, passando pelos grandes acontecimentos da história da redenção, enfatizando a vinda de Jesus como o acontecimento crucial da história, e ensinando as crianças a verem o seu lugar e papel nesse grande arcabouço do plano de Deus para esse mundo e para a sua igreja.

A Palavra de Deus também afirma que o ensino e o exercício na piedade é mais proveitoso que o exercício físico. Por isso, a prática da piedade, entendida como as virtudes cristãs provenientes do temor do Senhor deveriam preceder em importância aqueles exercícios que são apenas para o corpo, como exercícios repetitivos para a coordenação motora,  a prática de esportes e outras ênfases semelhantes. O desenvolvimento do caráter do aluno enfatizará muito mais os frutos do Espírito elencados em Gálatas 5 e a descrição que Jesus fez do cidadão do reino de Deus nas bem-aventuranças do que os jargões seculares da socialização, do respeito à diversidade, e dos "direitos da criança". A ênfase bíblica no respeito à autoridade, por exemplo, e na criança como cidadã do reino de Deus em primeiro lugar, trará de volta aos nossos currículos uma versão cristã da verdadeira "educação moral e cívica".

Além disso, temos o livro de Provérbios como um verdadeiro compêndio educacional que fornece uma série de temas que são essenciais à educação cristã das crianças na sabedoria proveniente do temor do Senhor. Eles enfatizam um leque tão amplo de virtudes cristãs, intelectuais e práticas, tratando, por exemplo, da valorização e aquisição do conhecimento e da sabedoria, da importância da obediência; de questões econômicas como a diligência no trabalho, o uso sábio do dinheiro; de questões sociais como o não se intrometer demais na vida dos vizinhos e fugir das más companhias masculinas e femininas; e mesmo de assuntos simples e práticos como a frugalidade na economia doméstica, o observar e cuidar dos animais, o tratamento sustentável da criação, e muitas questões semelhantes.

O Novo Testamento também está cheio de direcionamentos quanto ao conteúdo da educação cristã: O apóstolo Paulo, por exemplo, orienta os Filipenses que tudo quanto seja verdadeiro, respeitável, justo, de boa fama, seja isso o que ocupe o nosso pensamento (Filipenses 4:8). Essa lista certamente nos ajudará a julgar aquilo que pertence e o que não pertence ao nosso currículo. E quando lemos, no verso seguinte, "e o que também aprendestes, e recebestes, e ouvistes, e vistes em mim, isso praticai" (Filipenses 4:9), poderíamos pensar assim: como as crianças vão poder imitar e obedecer o ensino do apóstolo Paulo se eles nem sabem quem ele foi? Elas terão que aprender os livros e as histórias do Novo Testamento; terão que ter uma boa base literária o quanto antes que as capacite a ler e a interpretar corretamente a palavra de Deus. E quanto ao ensino do apóstolo Paulo em I Coríntios 6 sobre o cuidado do nosso corpo como templo do Espírito Santo? O que isso implica para o ensino de assuntos como Saúde e Nutrição? E quando ele diz que devemos ser capazes de fazer bons julgamentos em questões legais para ajudar nossos irmãos em Cristo? O que isso nos diz sobre a necessidade de estudos jurídicos e governamentais dentro de uma perspectiva cristã? Sim, insisto: comecem com a Palavra de Deus. O que ela tem a dizer sobre as nossas prioridades educacionais? Vocês verão que ela tem muito a contribuir para os próprios conteúdos curriculares.

Como já enfatizamos no princípio, a Palavra de Deus não só fornece conteúdos para o nosso currículo, como ela oferece alguns princípios teológicos que são muito úteis para nos nortear na seleção de conteúdos curriculares e na organização de cursos e disciplinas. O que faz um currículo cristão não é necessariamente a quantidade de assuntos e temas religiosos que incorporamos. O currículo é mais ou menos cristão à medida em que reflete e promove os princípios, as ênfases e as prioridades de Deus para a Educação Cristã. Agora seria uma boa hora de relermos sobre a nossa cosmovisão na Fase 1 e buscar ter sempre em mente esses valiosos princípios extraídos da Palavra de Deus. Como afirmou Jaarsma, o estudo do que a Palavra de Deus considera importante servirá como uma luz para o educador cristão.

Genuína Cultura: Buscando uma Educação Integral pela Ampliação do Leque do Conhecimento


O segundo eixo - o horizontal - do currículo cristão é o cultural. Jaarsma chama de "genuína cultura" o conjunto do produto cultural da humanidade que foi produzido de conformidade com a Verdade de Deus ou que está de acordo com essa verdade, ainda que esse conhecimento seja proveniente dos incrédulos. É nesse sentido que afirmamos que "a verdade, onde estiver, é nossa". Mas sabemos que há também uma cultura falsa, mentirosa, enganosa, tendenciosa e perniciosa produzida pela humanidade que é antitética à verdade de Deus, e que não deve fazer parte do nosso currículo, a menos que seja como exemplo negativo ou como tema de análise crítica por alunos mais maduros. Contudo, é somente do produto cultural verdadeiro e genuíno da humanidade, no seu sentido mais amplo, que devemos selecionar os conteúdos curriculares que mais colaborarão para a formação de bons cidadãos do reino de Deus e de pessoas maduras, íntegras e tementes a Deus, perfeitas e perfeitamente habilitadas para servir a Deus e aos seus semelhantes no tempo e no lugar em que Deus as coloca.

Nesse sentido, parece-me que a grande necessidade de um bom currículo é, por um lado, expressar o leque mais amplo do conhecimento, ou seja, ensinar às crianças uma amostra bem representativa das verdades de Deus que têm sido descobertas e trabalhadas pela humanidade no decorrer de sua existência; e por outro, expressar o inter-relacionamento dessas verdades entre si e com Cristo. A Bíblia nos diz claramente que todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento residem em Cristo, subsistindo nele, sendo unificados, centralizados e ultimamente explicados em Cristo. Não é à toa que os educadores seculares reclamam do problema da falta de unidade do conhecimento; mas nós temos em Cristo a chave dessa tão necessária unidade. A relação do homem e de cada tema estudado com Deus é o fator controlador na escolha do assunto. Todo corpo de assuntos organicamente relacionado deve ser consolidado pela verdade que emerge da fonte de toda sabedoria, Cristo. Assim, mesmo nas aulas de matemática, de ciências, de geografia, e de línguas, ou de educação física, nossos alunos deverão ser conduzidos ao estudo da Bíblia e das verdades de Deus relacionadas àquele assunto e à adoração a Deus constantes. De minha parte, ainda não encontrei um esquema mais útil para expressar essa noção da diversidade e da unidade da existência e do conhecimento do que aquele proposto pelo filosofo reformado holandês Herman Dooyeweerd, que incluí como Leitura Adicional nesse material, por sua vez extraída do artigo de minha autoria "A Contribuição de Herman Dooyeweerd para a Educação Reformada".

A questão da ampliação do leque do conhecimento para que o ensino reflita a abrangência da nossa fé parece ser uma das grandes necessidades das escolas cristãs de nosso país, mais do que o acréscimo de "cultinhos devocionais" ou de disciplinas religiosas. A valorização de toda a verdade como sendo de Deus e o reconhecimento de que a educação tem como alvo formar a criança integralmente, e no contexto da sua vida, requerem que tenhamos uma idéia melhor da extensão do conhecimento. E ninguém pense que isso se exaure na totalidade do conteúdo do vestibular. Nem no conjunto dos mais variados cursos universitários existentes em nosso país, embora isso possa nos ajudar a ter uma idéia ampla das diferentes áreas do conhecimento. Deve-se lembrar que a educação em nosso país não tem se destacado pela sua qualidade, nem teve origens bíblicas; por isso podemos detectar problemas de ênfases unilaterais, (por exemplo, a valorização de certos cursos científicos e de profissões de prestígio em detrimento da valorização das artes, letras, e esportes; ou a priorização da geografia sócio-política em detrimento do conhecimento do mundo natural criado por Deus), havendo ainda áreas do conhecimento que são virtualmente inexploradas, desprezadas ou distorcidas, como a inexistência de cursos superiores de economia doméstica para mulheres, por exemplo, ou de cursos de administração, de história, de pedagogia, etc. cristãos).

Então, como é que fazemos isso? Como dar à criança uma idéia das várias dimensões do conhecimento? Normalmente, esquematizamos o currículo por meio das disciplinas tradicionais: matemática, estudo de uma ou mais línguas, ciências, geografia, história, escrita ou redação, arte e educação física, com ênfase maior na matemática e no português. Será que essas disciplinas são amplas o suficiente? Certamente, qualquer esquema como estes é útil, especialmente se tivermos uma visão mais ampla e compreensiva de cada uma delas. Por exemplo, de que a matemática deveria incluir noções de espaço, de extensão, de representação simbólica, de análise e distinção, de economia, de confiança nas leis e ordem colocadas por Deus neste mundo, além de ser sempre acompanhada, ou melhor, extraída, de situações e problemas práticos do dia-a-dia da criança. De que as línguas tratam da representação simbólica e objetivam a boa comunicação, e é para isso que se deveria estudar tanto as leis da gramática e da ortografia, como o aspecto analítico e as leis da boa interpretação, como ainda o uso formativo e criativo da linguagem, sem desprezar as noções da oratória e elocução, e dos princípios bíblicos do pensar cada palavra para a edificação, do refrear os pecados da língua. Ou ainda, de que as ciências incluem todo o relacionamento do homem com a criação, incluindo tanto o estudo da vida, do movimento, da velocidade, da matéria, da energia, do meio-ambiente, como as leis de Deus para o seu bom funcionamento, como hábitos de vida saudáveis, habilidade prática com animais e plantas, incentivo à exploração e novas descobertas em laboratórios e na engenharia, etc. Assim, devemos lembrar sempre que cada disciplina pode ser trabalhada em seu aspecto teórico e em suas aplicações práticas; em seu relacionamento com as leis de Deus e com as demais disciplinas, de maneira que elas podem ser sempre interessantes, enriquecedoras, complementares e formativas para a pessoa integral.

Na realidade, haveria um número infinito de disciplinas que poderíamos criar para os diversos níveis da educação cristã, mas pretendo mencionar alguns eixos curriculares essenciais para a educação cristã, extraídos dos nossos princípios de fé; e oferecer aos leitores uma idéia de nossas "disciplinas obrigatórias", sejam quais forem as tendências curriculares adotadas.

            1) Ênfase no Mundo Natural

Se, como temos dito, para sermos bons cidadãos desse mundo, é preciso que conheçamos nossa verdadeira herança cultural, juntamente com seu aspecto espiritual, segue-se que um eixo central do nosso currículo deve ser o estudo da natureza em seu sentido mais amplo, especialmente buscando ver como ela reflete os atributos do Criador. As muitas descobertas que têm sido feitas no campo das ciências naturais; a geografia, a biologia, a medicina, a geologia, a astronomia, todas fornecem assuntos importantes para o currículo que busca expressar a glória do Criador através da variedade, sabedoria e beleza da criação. Nas séries inferiores, esses conteúdos todos normalmente são conhecidos como as Ciências Naturais. Esses conteúdos podem ser também usados como unidades ou eixos de ensino que são facilmente adaptáveis a várias séries, podendo ser temas unificadores da educação cristã, por exemplo, a partir do foco na criação. As coisas criadas por Deus em cada dia da criação podem ser ensinadas a todas as séries, de maneira cada vez mais complexa, e elas eventualmente irão abranger um curso completo de Ciências.

2) Ênfase na História Mundial

A história do mundo ocupa outro eixo central do currículo cristão, pois ela revela a sabedoria, a graça e o poder das obras da Providência de Deus. O estudo dos personagens, acontecimentos e descobertas da história da humanidade revelam o plano eterno de Deus e permitem que a criança comece a compreender o seu lugar e o seu papel neste grande esquema da realidade, além de fornecer exemplos positivos e negativos, de inspirar as crianças na verdadeira nobreza pelo conhecimento de verdadeiros heróis e de dar à criança uma noção da responsabilidade humana e das consequências de suas ações dentro do plano soberano de Deus. Essa disciplina incluirá o conhecimento e a interpretação de fatos históricos, a leitura de textos e de obras históricas originais, e o estudo de biografias e de histórias verídicas que permitam que a criança se insira na vida cotidiana de outros tempos e lugares. Algumas ficções baseadas em fatos reais como as obras excelentes de G. H. Henty,  ou as de Lucille Travis, que conta, por exemplo, a história de uma menina israelita chamada "Tirzah"[1], que vive no Egito, na época de Moisés, são excelentes para fazer vívido, por exemplo, a realidade cotidiana do Egito Antigo e a História do Êxodo na mente das crianças. Inserir no currículo a leitura de ficções dessa natureza tem se provado uma maneira excelente de se ensinar história às crianças de maneira interessante, fácil, cativante e inesquecível, especialmente quando há carência de biografias verídicas de pessoas que viveram em um determinado período histórico.

Há ainda todo um apanhado de assuntos clássicos, ou seja, aquela literatura de caráter permanente, provado pelo tempo, que capta e reflete a verdade e a essência da natureza humana; sejam escritos da antiguidade, como o Épico de Gilgamesh, as fábulas de Esôpo, a história das antigas civilizações com suas descobertas; sejam do mundo medieval com seus costumes e organização própria, com destaque para os escritos dos pais da igreja, e leitura de obras originais como "a Cidade de Deus", de Agostinho; sejam do mundo moderno, da história das mudanças e descobertas da renascença, especialmente em seu relacionamento com a reforma protestante, em que a criança aprenderá sobre a fé de Pascal e dos grandes cientistas... Todos esses conteúdos "clássicos", de cultura geral, são sempre válidos e importantes e podem fazer da História uma disciplina envolvente e extremamente enriquecedora.

3) Ênfase Sócio-Instrumental

As línguas e a matemática constituem um terceiro eixo indispensável ao currículo cristão, especialmente pelo seu valor instrumental para a aquisição do conhecimento, para a vida prática e para o intercurso cultural. Por mais diferentes que sejam essas duas disciplinas, ambas são linguagens ou representações da realidade que nos ajudam a compreender, a gravar e a reproduzir conceitos e eventos; e ambas são baseadas em leis e regras bem definidas, sem as quais não podemos usar esses instrumentos apropriadamente. Embora essas disciplinas não pareçam embeber tanto os princípios da nossa fé, elas estão normalmente em primeiro plano também no currículo cristão, porque dependendo da proficiência do aluno nestes instrumentos ele será capaz de avançar no seu conhecimento de muitas outras áreas. Então, essas disciplinas ocuparão sempre um lugar privilegiado na educação especialmente nos seus primeiros anos, (as primeiras horas do dia, a maior carga horária do ensino fundamental) e isso deve ser assim, até que as crianças dominem essas linguagens e saibam aplicá-las na prática para conhecer melhor o mundo e as verdades de Deus em todas as demais áreas.

Pense também na necessidade que temos de preparar a criança para o presente e para o futuro, para a sua realidade, para o mundo tecnológico, globalizado, pós-moderno e ao mesmo tempo, como já foi dito, pós-cristão, que ela irá adentrar. Que conteúdos poderão melhor prepará-las para viver nesse mundo como cidadãs do Céu? Segundo De Jong, (Curriculum Making for the Christian School. In: Fundamentals in Christian Education. Eerdmans, Grand Rapids, p. 223), a criança precisa ser preparada socialmente para o seu próprio tempo, e isso deve ser feito por meio de muitos assuntos variados do currículo. Não no sentido de permitir que a mudança dos tempos afete a revelação, pelo contrário, mas porque a revelação divina contém uma mensagem para cada tempo, pelo que essas temáticas atuais devem ser introduzidas para inspirar a criança a servir a Cristo em seu dia, circunstâncias e idade.

Juntamente com essa base ética e moral, a educação cristã precisa também adaptar-se às necessidades práticas emergentes que as habilitem a atuarem produtivamente no mundo atual: a datilografia, a informática, orientações quanto à pesquisas online e a como lidar e fazer bom uso das novas tecnologias, a proficiência nas línguas universais da atualidade, o conhecimento das novas fronteiras tecnológicas, e do que a Bíblia tem a dizer sobre esses assuntos... De alguma forma, o currículo cristão, para formar um bom cidadão do reino de Deus nesse mundo, precisará incorporar também essas novas técnicas e habilidades.

Jaarsma sugere que devemos julgar os conteúdos segundo o critério social do crente como alguém que vive no mundo, mas não é do mundo. Para isso, devemos sempre unir a atividade cultural (resposta à natureza- Exemplo: cuidar do jardim, lavar a louça, planejar uma construção, tratar uma doença, conhecer os problemas do Oriente Médio) à atividade espiritual (resposta a Deus- Exemplo: O que Deus, na Sua Palavra, tem a dizer sobre cada um desses assuntos? E como podemos fazer essas coisas para a glória de Deus). Expressamos isso em termos da nossa cidadania celestial, e isso nos fornece a perspectiva em que abrangemos todo o aspecto sócio-cultural do nosso currículo.

Serviço Altruísta: Usando o Aprendizado para Servir ao Reino de Deus pelo Serviço nas Vocações.


Verdadeira Piedade. Genuína Cultura. E poderíamos acrescentar um terceiro alvo, e um terceiro eixo para nortear o currículo Cristão: O serviço do Reino, que abrangeria toda aquela aplicação dos conhecimentos e habilidades escolares que deve capacitar o aluno a servir de fato ao reino de Deus através do serviço ao próximo dentro das vocações individuais e das circunstâncias, lugares e tempo em que Deus coloca cada um na sua providência. A descoberta e o desenvolvimento dos dons individuais, a habilidade de ler e escrever sendo usada para alegrar um velhinho com as palavras da Bíblia ou para redigir uma carta a um amigo distante; o conhecimento geográfico servindo para estimular a propagação do Evangelho em lugares remotos; a habilidade física e da matemática sendo usada para reparar a casa de uma pessoa carente, o conhecimento biológico sendo usado para formar hábitos de vida saudáveis e prevenir doenças, ou para formar um excelente médico cristão; o conhecimento artístico sendo expresso em belas músicas ou pinturas que dão prazer e glorificam a Deus... esse é um ideal do currículo cristão que precisa ser buscado de maneira consciente e consistente em todas as disciplinas, em todas as aulas.

 Tudo o que é aprendido deve estimular e capacitar a criança a querer usar esse aprendizado para o serviço útil nesse mundo, apesar dessa ênfase no trabalho e no serviço ao próximo ser tão depreciada e mesmo condenada em nossa época e especialmente em nosso país. A ênfase sócio-instrumental de que tratamos acima nos lembra dessa necessidade que a Bíblia nos impõe como cidadãos do reino de Deus nesse mundo. O nosso texto básico de II Timóteo 3 também ensina, no verso 17, que o propósito da educação não é meramente formar pessoas piedosas e eruditas, mas que: O homem de Deus (piedade), seja perfeito e perfeitamente habilitado (conhecimento e habilidades) para toda boa obra (serviço). Talvez não estaríamos exagerando se parafrasearmos o conhecido verso de Tiago dizendo que "a educação, sem obras, é morta". O conhecimento que não é mostrado pelo nosso serviço e trabalho nesse mundo não pode ser verificado; é inútil. O autor de Eclesiastes considerou vaidade todo saber e enfado nos livros, mas deu repetido valor ao prazer, utilidade e frutos duradouros do trabalho (Ec. 3:13; 11:1-6; 12:13-14) Não há como nos esquivarmos da ênfase bíblica no serviço ao próximo dentro de nossa vocação e de nossa esfera de atuação, cabalmente ensinada e exemplificada pelo nosso Senhor: "Meu pai trabalha até agora, e eu trabalho também." (João 5:17) Como Cristo usou seu conhecimento e poder para o serviço às pessoas! Como o dever de todo cristão é resumido em Miquéias 6:8 por obras como praticar a justiça, amar a misericórdia, e andar humildemente diante de Deus. Que o currículo cristão  busque formar pessoas que dêem frutos como esses!

Assim, a criança da pré-escola que aprende a organizar e a classificar deveria ser estimulada a fazer isso para arrumar os talheres na gaveta ou para organizar os seus sapatos e brinquedos. A coordenação motora aprendida pode ser colocada em bom uso quando a criança é chamada para lavar louças ou fazer pequenos serviços no lar. A educação física deve ensinar não somente as regras do futebol, mas estimular que as crianças usem seu corpo para obedecer aos pais com habilidade, rapidez e uma postura que a capacite a fazer um serviço bem feito como lavar um balde ou um carro sem se cansar, e sem se machucar. E assim por diante. Imaginem o quanto uma criança que foi educada assim por toda a sua vida poderá ser capaz de fazer quando for jovem? Elas podem ser tão úteis à Igreja e à sociedade ao seu redor desde muito novas. Os jovens normalmente têm mais facilidades para adquirir e usar habilidades na área da informática e das novas tecnologias; elas deveriam sair da escola com idéias bem definidas e planejadas de negócios ou de projetos em que poderiam servir às necessidades ao seu redor, e principalmente, às necessidades da igreja de Deus.

Há educadores cristãos que vêem essa necessidade como tão primordial a ponto de organizarem todo o currículo em torno de projetos úteis como os que mencionei; tratarei um pouco mais dessa tendência num post posterior, defendida, por exemplo, por Jay Adams e pelo casal de educadores Raymond e Dorothy Moore. Mas sabemos que esse eixo deve ser mantido juntamente com os anteriores, e acredito que ele pode ser muito bem desenvolvido como um produto, aplicação ou mesmo como um foco dos conhecimentos espirituais e culturais que a escola está trabalhando. Piedade. Cultura. Serviço. Sempre tenham em mente esses três eixos básicos do currículo cristão.

Implementação da Proposta Curricular Cristã e Integral: Os Diferentes Modelos Curriculares


Uma opção que temos na montagem de nosso currículo é manter as disciplinas tradicionais, mas buscando enriquecê-las com os conteúdos desejados para a formação integral da criança. Outra opção é criar sub-disciplinas (Ex: incluir a oratória, a música, a informática, a metrificação das poesias, etc., como unidades ou temas recorrentes dentro do Português, ou a nutrição, a saúde, a culinária, a educação física, o papel de Deus para os gêneros, por exemplo, dentro das Ciências Biológicas).

Há ainda a possibilidade de criarmos novas disciplinas para atenderem especialmente ao propósito vocacional; por exemplo, a economia, (que deverá incluir as habilidades de planejamento e a administração frugal dos recursos, a formação de gerentes e líderes habilidosos), a sociologia cristã (a lei áurea, a independência do grupo, o estudo dos nossos deveres para com os próximos, a consideração do aspecto sensitivo de como lidar com as emoções próprias e dos outros), o conhecimento jurídico (das leis do país e de outros países comparadas às leis de Deus); a arte e a estética (a música, a poesia, as artes plásticas, a culinária, etc., em sua teoria e prática), a ética (que inclui o compromisso com causas nobres, o sacrificar-se pelos outros, a maneira bíblica de lidar com temas controvertidos da atualidade, etc.); uma "educação física" que vá além da prática de alguns esportes básicos, com toda uma base teórica e exercícios práticos para a boa postura, para a prevenção de doenças, etc., e uma disciplina talvez de "trabalhos manuais domésticos", que ensine às crianças e jovens conhecimentos básicos e úteis sobre mecânica, encanamento e construção, a usar ferramentas,  a construir com madeira e ferro, a decorar uma casa, a costurar, a fazer artesanato, a cuidar de roupas, a contabilizar lucros e gastos de um negócio, a fazer compras e cozinhar refeições nutritivas; todos esses assuntos que têm sido pouco explorados na educação secular de nosso país poderiam muito bem formar novas disciplinas (obrigatórias ou parcialmente optativas; por exemplo, a criança poderia optar por uma disciplina artística, seja música, seja arte, etc; ou os meninos poderiam escolher trabalhos manuais mais orientados para o uso de ferramentas e as meninas, os mais domésticos), ou ainda poderiam formar cursos especiais, intensivos ou de pouca duração.

Ainda outros currículos cristãos têm buscado a integralidade a partir da estrutura da educação clássica: eles focalizam nos primeiros anos (fase gramatical) as disciplinas instrumentais, como as línguas e a matemática, a imitação, a cópia e a memorização de leis e fatos e versículos importantes, o que seria um aprendizado mais natural, fácil e apropriado às crianças pequenas. A fase seguinte seria a racional, em que as crianças estão mais prontas a investigar o como e o porquê das disciplinas, na qual os fatos memorizados na primeira infância seriam explorados em disciplinas como ciências, história, geografia, arte, e etc. E numa terceira fase, já por volta do ensino médio, os jovens explorariam os temas que têm dominado de maneira mais artística, expressiva, e criativa, a partir de produção de textos e apresentações que focalizam a oratória, os debates e a beleza da expressão.

Há ainda currículos que buscam abranger os tópicos a partir de Unidades Tópicas (Unit Studies) que são adaptáveis à diversos níveis de ensino e que geram atividades nas mais diversas disciplinas. Essas unidades podem ser tiradas da história, das ciências, da geografia, etc., e elas são ideais para explorar as humanidades e as ciências em classes multiseriadas, tendo também a capacidade de integrar diversas disciplinas e habilidades a partir dos tópicos estudados. Como exemplo, citamos o currículo "Tapestry of Grace", que trabalha história, literatura, geografia, ciências, arte e projetos úteis e outros temas a partir da história do mundo; e o material de ciências produzido por Jay Wile, "Science in the Beggining" que trabalha as ciências a partir dos dias da criação e que propõe atividades para diversas idades e disciplinas.

Trataremos da questão metodológica mais adiante, e de como o currículo cristão deve ou não fazer uso das metodologias educacionais vigentes ou passadas. Há uma variedade enorme de propostas cristãs para o currículo, especialmente na língua inglesa; algumas mais tradicionais, outras mais clássicas, outras mais vocacionais, e uma grande combinação destas. Há materiais mais voltados para a sala de aula escolar e outros mais para uma educação no lar ou fora do ambiente escolar; Há uma grande flexibilidade também para quem quer adaptar o currículo ao estilo de aprendizagem de cada criança e para as características das várias famílias, escolas, e sociedades. Há currículos cristãos mais ou menos centrados na Bíblia, mais ou menos rigorosos academicamente, e mais ou menos aplicados à vida. Mas o ponto que esperamos ter deixado claro nesta fase 3 de seleção de conteúdos é que um currículo cristão digno do nome precisa ser idealizado, montado e julgado com base nestes três eixos fundamentais: o ensino da piedade; o conhecimento da verdade de Deus nas mais diversas áreas; e a utilização do aprendizado para o serviço humilde e altruísta ao próximo.

 

Os próximos dois posts dentro dessa série sobre o currículo serão leituras adicionais que tratarão, o primeiro, da questão do desenvolvimento integral da criança de uma perspectiva cristã a partir da visão do filósofo reformado Dooyeweerd, que propôs um arcabouço muito interessante para nos ajudar nessa tarefa de elaborar um currículo integral; e o segundo explorará com mais detalhes três correntes curriculares que são usualmente adotadas por educadores cristãos, a saber, a tendência clássica, a vocacional, e a tradicional. Somente após lançadas e compreendidas essas importantes bases é que finalizaremos com sugestões práticas para a construção do currículo, com passos, cronogramas e com a discutida questão dos materiais didáticos. Espero que estejam gostando e desejando conhecer mais e buscar a elaboração de um currículo verdadeiramente cristão e mais apropriado para os nossos pequenos cidadãos do reino de Deus.



[1] Ver os livros de Travis, Tirzah e Timna;  a série da história mundial de Susan Bauer, e as aventuras históricas de G. H. Henry.

terça-feira, 28 de abril de 2015

AS RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS - PARTE III

AS RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS
Parte III - Resoluções 22-38

Se você ainda não leu a primeira e segunda parte desta série, por favor clique aqui para conhecer um pouco mais sobre a vida deste grande servo de Deus e as circunstâncias em que estas preciosas Resoluções foram escritas.


22. Resolvi esforçar-me para obter para mim mesmo todo bem possível do mundo vindouro, tudo quanto me seja possível alcançar de lá, com todo o meu vigor em Deus – poder, vigor, veemência, violência interior, tudo quanto me seja possível aplicar e admoestar, de qualquer maneira que me seja possível pensar e aperceber-me.

23. Resolvi tomar ação deliberada e imediata sempre que me aperceber que esta possa ser tomada para a glória de Deus e que possa devolver a Deus a Sua intenção original sobre nós, o Seu desígnio inicial e a Sua finalidade. Caso eu descubra, também, que algo em nada servirá à glória de Deus exclusivamente, repudiarei tal coisa e a terei como uma evidente quebra da quarta resolução.

24. Resolvi que sempre que eu cair em uma ação de concupiscência e maldade, voltar e traçar esta ação à sua origem em mim. Depois, encetar por uma via cuidadosa e precisa de nunca mais tornar a fazer o mesmo e de orar e lutar de joelhos e com todas as minhas forças contra as origens de tais ocorrências.

25. Resolvi examinar sempre, de forma cuidadosa, constante e precisa, qual a coisa em mim que causa a mínima dúvida sobre o verdadeiro amor de Deus para direcionar todas as minhas fortalezas contra tal origem.

26. Resolvi abater tais coisas, à medida que as veja abatendo minha segurança.

27. Resolvi nunca omitir nada de livre vontade, a menos que essa omissão traga glória a Deus; irei, então, e com frequência, examinar todas as minhas omissões.

28. Resolvi estudar as Escrituras de modo tão firme, preciso, constante e frequente que me seja tornado possível e que me aperceba em mim mesmo estar crescendo no conhecimento real das mesmas.

29. Resolvi nunca ter como uma oração ou petição, nem permitir que passe por oração algo que seja feito de tal maneira, ou sob tais circunstâncias, que me possam privar de esperar que Deus me atenda. Também não aceitarei como confissão algo que Deus não possa aceitar como tal.

30. Resolvi extenuar-me e esforçar-me ao máximo de minha capacidade real para, a cada semana, ser levado a um patamar mais real do meu exercício religioso, um patamar mais elevado de graça e aceitação em Deus, do que tive na semana anterior.

31. Resolvi nunca dizer nada que seja contra alguém, exceto quando tal coisa se ache de pleno acordo com a mais elevada honorabilidade evangélica e amor de Deus para com a sua humanidade, também de pleno acordo com o grau mais elevado de humildade e sensibilidade sobre meus próprios erros e falhas, e de pleno acordo àquela regra de ouro celestial; e, sempre que disser qualquer coisa contra alguém, colocar isso mesmo mediante a luz desta resolução, com convicção.

32. Resolvi que serei estrita e firmemente fiel à minha confiança, de forma que o provérbio 20:6 “Mas, o homem fiel, quem o achará?” não se torne apenas parcialmente verdadeiro a meu respeito.

33. Resolvi fazer tudo que estiver ao meu alcance para tornar a paz acessível, possível de se manter e estabelecer, sempre que tal coisa não interfira com ou infrinja outros valores maiores e de aspectos mais relevantes. (26 de Dezembro de 1722) 

34. Resolvi nada falar que não seja inquestionavelmente verídico e realmente verdadeiro em mim.

35. Resolvi que, sempre que me puser a questionar se cumpri todo o meu dever, de tal forma que minha serenidade e paz de espírito sejam ligeiramente perturbadas através de tal procedimento, colocá-lo diante de Deus e depois verificar como tal problema foi resolvido. (18 de Dezembro 1722) 

36. Resolvi nunca dizer nada de mal sobre ninguém que seja, a menos que algum bem particular me obrigue a fazê-lo. (19 de Dezembro de 1722) 

37. Resolvi inquirir todas as noites, ao deitar-me, onde e em quais circunstâncias fui negligente, que atos cometi e onde pude negar a mim mesmo. Também farei o mesmo no fim de cada ano, mês e semana. (22 e 26 de Dezembro de 1722) 

38. Resolvi nunca mais dizer nada, nem falar sobre algo que seja ridículo, esportivo ou questão de zombaria no dia do Senhor. (Noite de Sábado, 23 de Dezembro de 1722) 

sexta-feira, 10 de abril de 2015

PROPOSTA PARA A REFORMA CURRICULAR DE ESCOLAS CRISTÃS - PARTE 3

*Adaptação de Material elaborado a pedido do Centro de Estudos John Knox, em Belém, PA, como sugestão para a reorganização curricular da educação infantil.
* Após a postagem de Introdução e a segunda postagem "Fase 1: Entendendo o que é um Currículo Cristão", essa é a terceira de uma série de postagens que tem como objetivo incentivar e orientar passo-a-passo educadores e escolas cristãs a adotarem um currículo próprio e distintivamente cristão.

 FASE 2 - PARA QUÊ ENSINAR?

ESTABELECENDO ALVOS E OBJETIVOS CRISTÃOS:


Problemas e Limitações dos Alvos Seculares


Por quê ensinar o que ensinamos? Quais os alvos que temos na educação de nossas crianças?  Na educação secular, o alvo às vezes é colocado 1) na aquisição de informação (ênfase no acúmulo e memorização de fatos), ou 2) no desenvolvimento de capacidades mentais (ênfase na inteligência e raciocínio lógico, abstração, dedução, etc.), às vezes é 3) social (focalizando as necessidades do indivíduo para funcionar bem na sociedade, seja ela militar, democrática, industrial, globalizada, etc.) E outras vezes o alvo é 4) desenvolver a criatividade e a auto-expressão dos alunos (ênfase em atividades e experiências construtivas). E, no mundo pós-moderno, não seria exagero dizer que o novo objetivo é 5) negar que existam objetivos, e que de alguma forma os conhecimentos emergirão da vida dos alunos, o que põe em cheque qualquer tipo de ensino sistemático. Descartando essa quinta corrente (embora nem sempre descartando os seus métodos e livros didáticos), os educadores cristãos normalmente se vêem encurralados entre os quatro primeiros objetivos seculares mencionados, sentindo que nenhum deles é alto o suficiente para expressar nossa perspectiva cristã, mas sem saber indicar qual deles seria o objetivo mais apropriado ou qual seria o problema com os demais.

Na realidade, como explica Jaarsma, todos esses quatro primeiros alvos têm seu lugar, mesmo na educação cristã, desde que se ressalte as suas deficiências e suas peculiaridades anti-cristãs, por exemplo: que aprender inclui, mas não se consuma em decorar fatos; que as disciplinas mentais - lógica, argumentação, etc., não garantem a aquisição da sabedoria; que embora a educação possa ter como alvo preparar o aluno para a sociedade em que vive, ela deve saber que a sociedade ou os sistemas políticos não são os nosso deuses e que nós servimos a sociedade melhor quando somos bons cidadão do reino de Deus; e que é uma tolice enfatizar a expressão quando o aluno não tem o que expressar, ou expressa coisas más; e que essa "educação sem alvos" pós moderna no fundo tem como alvo a rejeição de qualquer sistema que tenha alvos, qualquer visão de mundo e interpretações absolutas, em especial o cristianismo.

A falta mais grave dessas perspectivas está em ignorar ou negligenciar o alvo maior da educação cristã, a glória de Deus através do desenvolvimento espiritual das crianças e, consequentemente, em elevar como alvo um aspecto (a memória, a racionalidade, a sociabilidade, a criatividade) em detrimento da integralidade da vida humana como ensinada nas Escrituras Sagradas. Essa integralidade é expressa, na Bíblia, por meio do compromisso do coração com Deus, do amor, da fé e da obediência dentro de um relacionamento com Deus e de uma vida restaurada por Cristo, vivida na presença de Deus, lutando contra o mal que resta em nós e no mundo.

Definindo os nossos Objetivos Cristãos


            1) A Glória de Deus

Qual é então o propósito distintivo do currículo cristão? A educação reformada deve estabelecer o alvo correto de sua instrução tendo como fundamento os princípios bíblicos. O que torna a fé reformada distinta de todas as demais religiões é que ela é centralizada na pessoa de Deus e estabelece que o propósito da vida humana é a glória de Deus. Como uma função importantíssima e formativa do homem, a educação não poderia fugir a esse propósito último: a glória de Deus. Em outras palavras, o propósito da educação reformada é teocêntrico. A glória de Deus é entendida na Bíblia em contraposição à glória e o louvor do homem, tão enfatizada na educação secular atual. Mas como é que Deus é glorificado na educação de nossas crianças, e mais especialmente, em nosso currículo cristão? Ora, a educação tem como alvo a glória de Deus e a promoção do Reino de Deus no mundo através da transmissão de verdades que visam a formação de homens tementes a Deus, sábios, comprometidos com a maneira de pensar de Cristo e conscientes de que sua vocação constitui um chamado religioso.

2) A Formação Pessoal

Vemos, assim, que o alvo teocêntrico da glória de Deus proporciona ao currículo cristão um foco apropriado: Quanto ao seu foco de atuação, o currículo cristão não precisa ficar encurralado entre os alvos individuais e sociais. Ele tem um objetivo individual (o desenvolvimento e amadurecimento da criança como filho de Deus) e um objetivo social (o serviço nesse mundo por meio do exercício das vocações dadas por Deus para a promoção do Reino de Deus), mas entendemos que o fim social só pode ser obtido por meio do individual, estando a ele subordinado. Pois a educação cristã não serve primeiramente a ditames sociais; ela é individualista no sentido de focalizar e lidar e trabalhar com cada criança individualmente, buscando desenvolver os seus dons únicos dados por Deus, sim, mas para o serviço altruísta, e nunca para fins egoístas. (A. S. De Jong. Em Fundamentos da Educação Cristã, p. 221)

3) A Educação Integral

Quanto à sua abrangência, o currículo cristão tem como alvo a formação do homem integral por meio de um currículo amplo que busque desenvolver todas as esferas da existência humana. Estas, por sua vez, se unificam e dependem especialmente do aspecto espiritual e moral, ou seja, do relacionamento correto do homem com Deus, por meio da fé em Cristo e da Obediência à Palavra de Deus. Entendendo que a integralidade do aluno flui da sua vida espiritual, o currículo cristão tem como objetivo maior pôr o aluno face a face com Deus e com as Suas demandas sobre toda a sua vida para que ele se submeta de coração a elas. Isso é verdadeiro aprendizado cristão. E isso é feito exatamente por meio da transmissão de verdades. O currículo cristão, portanto, enfatiza, além do aspecto espiritual, a memorização, a compreensão, a aceitação e a obediência às verdades de Deus, parecendo, por vezes, mais intelectual do que expressivo, mais tradicional do que construtivista.

4) A Busca da Perfeição

Segundo II Timóteo 3:17, o alvo, o fim supremo do currículo cristão é a perfeição. Primeiro, no sentido do amadurecimento e crescimento do aluno: "a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra". Para isso, o currículo precisa ser sistemático e progressivo, exigente e disciplinado, formativo e ativo, sempre respeitando as fases do desenvolvimento infantil, mas colocando diante da criança o "alimento" adequado para que ela cresça não só em estatura, mas em sabedoria e graça diante de Deus e dos homens. E nosso currículo busca também a perfeição no sentido da imitação de Cristo, para que o aluno alcance "a medida da estatura de Cristo", sempre buscando pensar como Cristo, sentir como Cristo e agir como Cristo, imitando sua fé, sua obediência, sua sabedoria, sua humildade, seu amor pelas almas e pelos irmãos, e a realização das obras de Deus.

 

Desenvolvendo os Objetivos Cristãos em Objetivos Educacionais


Partindo do ensino bíblico e dos mais altos alvos cristãos que temos tanto para o desenvolvimento pessoal dos nossos alunos como para a promoção do reino de Deus no mundo, torna-se necessário desenvolver uma lista de objetivos gerais e específicos para o aluno, os quais irão nos guiar na escolha dos conteúdos e atividades que mais corroborem para que se alcancem esses fins.

1) Objetivos Gerais da Educação Cristã:

Um currículo que busca contribuir para a glória de Deus e para a formação individual do homem perfeito incluirá objetivos gerais que contribuirão para a formação integral da criança, como os seguintes:

Promover a glória de Deus e o Reino de Deus no mundo através da transmissão de verdades que visam a formação de crianças tementes a Deus, sábias, comprometidas com a maneira de pensar de Cristo e conscientes de que sua vocação constitui um chamado religioso.

Capacitar o homem a conhecer melhor a Deus e as suas obras através da Sua revelação na natureza em conjunto com a revelação escrita e em Cristo. Quando a educação cumpre esse propósito, e o ensino das diversas disciplinas como a matemática, as línguas, as ciências, a história, refletem os atributos e a Glória do Deus criador e redentor, e leva os alunos a louvarem a Deus pelo Seu poder e sabedoria, então essa educação está contribuindo para a glória de Deus.

Reconhecer a criança como um ser criado por Deus, mas também caído e corrompido, que não pensa, não age, não quer e não pode fazer o que é bom, e que precisa de Cristo e de um novo coração a fim de que possa agradar a Deus e fazer o que é bom.

Ser instrumento de Deus para a santificação do homem, com o que o homem vai tendo a imagem de Deus restaurada em si, sendo progressivamente capacitado a honrar a Deus. (compreende a santificação da mente, corpo, coração, moral, atos ou espírito).

Permitir ao homem amadurecer espiritualmente, o que é evidenciado pelo nível de imitação de Cristo. À medida que a imitação de Cristo é buscada na tarefa educacional, esta estará glorificando a Deus. Cristo deve ser imitado pelos crentes em sua personalidade, exemplos e atos.

Levar seus agentes a conhecerem mais, a aprenderem a praticar e a aplicar na vida diária o conhecimento em forma de sabedoria, e os frutos do Espírito, como revelados em Gálatas: o amor, a alegria, a paz, a paciência, a bondade, a benignidade, a fidelidade, a mansidão e o domínio próprio. A educação cristã precisa servir a esse propósito duplo e deve estar dominada em todos os seus intentos e atividades pela busca da sabedoria e desses frutos do Espírito.

Capacitar o homem a servir a Deus melhor, através do desenvolvimento dos dons que recebeu para serviço a Deus e ao próximo. (objetivo da formação social)

Capacitar o homem a cumprir adequadamente o mandato de Deus para a criação: “podemos dizer que um dos principais propósitos da educação de um ser humano deve ser ensiná-lo sobre como governar a criação de maneiras que honrem e agradem a Deus.” (ADAMS, 1982, p. 27) (objetivo cultural)

Ensinar os jovens a pensarem e agirem biblicamente em tudo o que fizerem, principalmente na sua especialidade (ADAMS, 1982). Como a Bíblia é a regra última para a conduta do crente em todas as áreas da sua vida, poderíamos dizer também que o propósito da Educação cristã é ensinar os alunos a aplicar o ensino bíblico à sua vida prática, de maneira especial na sua vocação profissional e nas atividades em que está mais envolvido. Se o aluno quer ser professor de matemática, ele deve aprender a pensar biblicamente sobre como ele pode vir a glorificar a Deus em sua profissão. Quem preferir se dedicar à pesquisa científica irá se empenhar em aplicar os ensinamentos bíblicos à atividade científica, da mesma maneira que uma dona de casa é chamada a conhecer, estudar e aplicar os princípios bíblicos em suas tarefas diárias. É na escola cristã que o futuro historiador cristão conhecerá as bases e os fundamentos de como a história humana pode ser estudada para a glória de Deus. Para que tudo isso seja feito, é necessário que os jovens sejam desde cedo instruídos nessa prática de aplicar a teologia à vida prática. (objetivo do desenvolvimento pessoal)

 Preparar o aluno para a vida diária na terra. Isso significa que o aluno deve saber aplicar as verdades de Deus em todas as atividades que realizar em seu dia a dia. Beeke comenta que “assim como toda a vida está debaixo das ordenanças e da direção divina, todos os estudos devem ser ensinados num contexto bíblico” (BEEKE, [2003?], p. 6). O mandamento bíblico em I Coríntios 10:31 deixa claro que toda a vida do crente, desde as atividades mais simples de sua subsistência, passando pelo seu trabalho e relacionamentos devem ser dirigidos pela Palavra de Deus e para a Sua glória: “Portanto, quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus”. Esse objetivo compreende o desenvolvimento acadêmico e vocacional dos alunos.

 2) Objetivos Específicos do Currículo:

Para o Desenvolvimento Espiritual:

1. Ensinar a Bíblia como a Palavra infalível de Deus, assim como uma regra absoluta para a vida, e desenvolver uma atitude de respeito para com ela.

2. Ensinar as doutrinas básicas cristãs.

3. Ensinar a verdade de Deus encontrada nas diversas disciplinas e buscar observar as inter-relações entre as verdades da Palavra de Deus.

4. Enfatizar a necessidade que cada aluno tem de uma experiência de conversão espiritual, que só pode acontecer mediante o reconhecimento, pela obra do Espírito Santo, da condição de miséria em que se encontram, da libertação que têm em Cristo e da gratidão a Ele.

5. Enfatizar os atributos santos de Deus e a Sua soberania absoluta em conjunto com a responsabilidade e o dever que cada ouvinte do Evangelho tem para com Deus de lhe prestar contas.

6. Ensinar a sabedoria, entendida como um uso sábio e apropriado do conhecimento, que se baseia na humilde dependência do Espírito Santo e na submissão à vontade de Deus, porque “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria” (A BÍBLIA..., Provérbios 1:7)

7. Prover para as necessidades espirituais dos alunos. Embora a educação reformada reconheça que só Deus pode salvar as almas dos alunos, a Bíblia revela que Ele o faz através de meios, e esses meios são determinados na Bíblia e devem ser devidamente utilizados na educação cristã, como o ensino da Lei de Deus e a aplicação da disciplina. A educação cristã deve almejar o crescimento espiritual dos alunos.

 

Para o Desenvolvimento Pessoal ou Moral:

1. Ajudar os alunos a aprender o que significa ser um ser humano criado por Deus, tanto espiritualmente, como emocionalmente, mentalmente e fisicamente.

2. Treinar os alunos na moral cristã. Os princípios morais bíblicos devem ser aplicados em tudo. O aspecto moral se revela no interesse pelo desenvolvimento pessoal e social dos alunos, e pela formação de um caráter e atitudes cristãs.

3. Promover o entendimento da responsabilidade que o aluno tem de desenvolver e usar corretamente os talentos e habilidades que Deus lhes deu em todo seu potencial.

4. Ensinar o valor do tempo como um artigo dado por Deus

5. Valorizar as atitudes bíblicas para com as possessões materiais a responsabilidade de cada um para com elas como administrador.

6. Advogar um espírito de amor e respeito para com os outros e reconhecer a nossa necessidade social do próximo.

7. Desenvolver atitudes bíblicas com relação a amizade, casamento, família, trabalho, sociedade, e relações humanas.

8. Enfatizar atitudes adequadas perante autoridades divinas e humanas, e promover a auto-disciplina e a obediência.

9. Estimular hábitos corretos de saúde e higiene, de cuidado com o corpo, e o uso sábio do corpo que Deus nos deu.

10. Cultivar a responsabilidade pessoal na família, na igreja, na escola e na sociedade.

Para o Desenvolvimento acadêmico:

1. Promover altos padrões acadêmicos para cada indivíduo na estimulação dos talentos que Deus o concedeu.

2. Encorajar bons hábitos de estudo como parte de nossas responsabilidades dadas por Deus.

3. Desenvolver pensamento biblicamente criativo e criticamente construtivo para o futuro chamado vocacional e outras responsabilidades da vida dadas por Deus.

4. Ensinar as habilidades básicas necessárias na relação com os outros nessa vida: a leitura, a escrita e a matemática, assim como o falar e o ouvir.

5. Prover uma base sólida da herança histórica, da geografia, e das condições mundiais como desenvolvimento e revelação da providência e da vontade de Deus.

6. Multiplicar a consciência e a apreciação da criação de Deus com suas leis e características, e as nossas responsabilidades de usá-la sabiamente.

7. Nutrir talentos criativos, mecânicos, musicais, e outros para serem usados de maneira temente a Deus para o benefício dos outros. (BEEKE, [2003?],p. 43-44)

 

Integrando em nosso Currículo os Objetivos dos Parâmetros Nacionais


Esse tópico foi deixado para o fim desta seção propositalmente. Na formulação do currículo cristão, os nossos objetivos principais devem ser extraídos da Palavra de Deus e da visão de mundo cristã, e não primariamente dos Parâmetros Nacionais nem dos materiais didáticos que temos em mão. Não quer dizer que devamos ignorá-los nem os condenarmos por completo. Em geral, eles são úteis por relacionarem, como resultado da experiência educacional de um país, aqueles conteúdos básicos que são mais apropriados para cada idade ou série, mas cada vez mais as correntes políticas e filosóficas dominantes em nosso país têm usado esses parâmetros para perpetrar a sua agenda anti-cristã. Não obstante, deveríamos conhecê-los bem, e, talvez não no início, mas no final de nossa tarefa de formulação de objetivos, seria apropriado examiná-los para ver como eles podem ser incorporados aos nossos. Como os nossos objetivos cristãos são naturalmente abrangentes, é provável que os objetivos nacionais estarão inclusos nos nossos. Mas de qualquer forma, deve ser feita uma avaliação crítica e seletiva destes, reinterpretando e colocando-os no seu devido lugar dentro da nossa proposta cristã, e excluindo aqueles que vão de encontro à visão de mundo cristã, ainda que isto nos traga prejuízo.

Penso que a maneira mais fácil de explicar aos leitores essa tarefa de incorporação dos objetivos nacionais ao nosso currículo é através de um exemplo. No segmento a seguir, você verá exemplificada uma breve análise dos objetivos dos parâmetros curriculares nacionais para a educação infantil nos comentários entre parênteses:

Objetivos dos Parâmetros Nacionais para a Educação Infantil:

LDB: A Educação infantil visa o desenvolvimento integral da criança, complementando a ação da família e da comunidade .

(Obs: Integral, para nós, inclui o aspecto moral e espiritual. E ela deve complementar a educação da família e da Igreja. A “comunidade” não é uma fonte confiável de educação).

Referenciais Curriculares: A criança, por meio da educação Infantil, deve:

- aprender a confiar em suas capacidades, com percepção de suas limitações.

(ela deve aprender a reconhecer suas capacidades como dons de Deus e usá-las para o serviço dele e do próximo. Ao mesmo tempo, deve reconhecer sua dependência de Deus para tudo, e suas limitações impostas por Deus).

- estabelecer vínculos afetivos e ampliar sua comunicação e interação social.

(esses vínculos afetivos devem ser estabelecidos na ordem correta: primeiro, amar e confiar em Deus, depois na sua família, depois nas autoridades e professores da escola, e depois nos amigos, dependendo de seu caráter. A comunicação e a interação social, em si mesmas, não são boas, apenas quando elas edificam. Más conversações e más amizades devem ser desencorajadas.)

- brincar expressando emoções, pensamentos, desejos e necessidades

(emoções, pensamentos, desejos e necessidades que estiverem de acordo com a palavra de Deus devem ser encorajadas para serem expressas; aquelas contrárias à vontade de Deus - egoístas, descontroladas, exageradas, etc. - devem ser desencorajadas e, conforme o caso, punidas e corrigidas pela Palavra de Deus)

- conhecer manifestações culturais com interesse e respeito pela diversidade.

(as manifestações culturais também não são neutras, algumas obras de arte revelam coisas boas, outras revelam coisas más; os objetos culturais podem igualmente ter propósitos bons ou maus. Ex: livros, obras de arte, programa de televisão, meios de comunicação, invenções, histórias folclóricas, etc. que expressam coisas más devem ser afastados de nossas crianças que ainda não têm a capacidade de discernir o mal; devemos proteger nossos filhos imaturos de influências e contatos com coisas pecaminosas, a menos que possamos usá-los com discernimento para instruir as crianças a identificar, a fugir, a odiar e a lidar biblicamente com o mal que ela encontrará ao seu redor.  Quanto à questão da diversidade, esta deve ser vista como obra de Deus, que nos fez como membros diferentes de um mesmo corpo, para servirmos a Deus e uns aos outros com os nossos variados dons. Também devemos diferenciar a valorização da diversidade natural da criação, que é boa e salutar, do "respeito à diversidade" no sentido atual da expressão, que é usada para promover o homossexualismo e outras práticas e crenças anti-cristãs.)

***

Da feita que tivermos elaborado a nossa lista de objetivos gerais e específicos para o nosso currículo cristão, eles deverão nos guiar na nossa seleção de disciplinas, eixos, unidades, conteúdos e atividades que mais nos ajudarão a alcançar tais objetivos. Em um momento posterior, eles deverão ser ainda mais esmiuçados para direcionar ensinos e atividades mais específicos, e até diários, nos nossos planos de curso anuais, de unidade e de aula. (Para modelos destes, ver apêndice deste material)

Dependendo da idade, do nível social e cultural de cada classe e da localização e características de cada escola, os nossos objetivos maiores da glória de Deus, da formação pessoal integral e da busca da perfeição irão se traduzir em objetivos menores e que irão variar em cada escola cristã, como por exemplo, a escolha da obra da criação como eixo transversal; da família como uma unidade de ensino; da organização e da limpeza como hábitos a serem trabalhados; talvez também no oferecimento da música e instrumentos como disciplinas opcionais; na atividade de recortar uma figura bem em cima de um traçado e sem deixar pequenos pedaços de papel espalhados pela sala; no conhecimento das leis de trânsito ou da constituição do país; na clareza e precisão na expressão oral; na reprodução artística do que é belo aos olhos de Deus; no uso inteligente e sustentável das técnicas de plantio para os alunos do campo; na honestidade, diligência e empreendorismo como indispensáveis em qualquer vocação, e assim por diante.

quarta-feira, 25 de março de 2015

AS RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS - PARTE II

Resoluções de Jonathan Edwards (1722-1723)
por
Jonathan Edwards

Estando ciente de que sou incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda de Deus, humildemente rogo-Lhe que, através da Sua graça, me capacite a cumprir fielmente estas resoluções, enquanto elas estiverem dentro da Sua vontade, em nome de Jesus Cristo.

Lembre-se de ler estas resoluções uma vez por semana.
 
1. Resolvi que farei tudo aquilo que seja para a maior glória de Deus e para o meu próprio bem, proveito e agrado, durante todo o tempo de minha peregrinação, sem nunca levar em consideração o tempo que isso exigirá de mim, seja agora ou pela eternidade afora. Resolvi que farei tudo o que sentir ser o meu dever e que traga benefícios para a humanidade em geral, não importando quantas ou quão grandes sejam as dificuldades que eu venha a enfrentar. 
2. Resolvi permanecer na busca contínua de novas maneiras para conseguir promover as resoluções acima mencionadas.

3. Resolvi arrepender-me, caso um dia eu me torne menos responsável no tocante a estas resoluções, negligenciando uma ínfima parte de qualquer uma delas e confessar cada falha individualmente, assim que cair em mim.

4. Resolvi, também, nunca fazer qualquer coisa, seja ela relacionada ao corpo ou à alma, menor ou maior, senão aquilo que promove a glória de Deus; nem ser e nem sofrer qualquer coisa, se eu tiver como evitá-la.

5. Resolvi jamais desperdiçar um só momento do meu tempo; pelo contrário, sempre buscarei formas de torná-lo o mais proveitoso possível.

6. Resolvi viver usando todas as minhas forças, enquanto eu viver.

7. Resolvi jamais fazer alguma coisa que eu não faria se soubesse que estava vivendo a última hora da minha vida.

8. Resolvi ser em todos os níveis, tanto no falar como no fazer, como se não houvesse ninguém mais vil do que eu sobre a terra, como se eu próprio houvesse cometido esses mesmos pecados ou apenas sofresse das mesmas debilidades e falhas que todos os outros; também nunca permitirei que o tomar conhecimento dos pecados dos outros me venha trazer algo mais do que vergonha sobre mim mesmo e uma oportunidade de poder confessar os meus próprios pecados e misérias a Deus.

9. Resolvi pensar e meditar bastante, e em todas as ocasiões, sobre a minha própria morte e sobre circunstâncias relacionadas com a morte.

10. Resolvi, sempre que experimentar e sentir dor, relacioná-la com as dores do martírio e também com as do inferno.

11. Resolvi que sempre que eu pensar em qualquer enigma sobre a salvação, fazer de tudo, imediatamente, para resolvê-lo e entendê-lo, caso alguma circunstância me impeça de fazê-lo.

12. Resolvi, assim que sentir um mínimo de gratificação ou deleite no orgulho ou na vaidade, eliminá-la de imediato.

13. Resolvi nunca cessar de buscar objectos precisos para a minha caridade e liberalidade.

14. Resolvi nunca fazer qualquer coisa em forma de vingança.

15. Resolvi nunca sofrer nenhuma das mais pequenas manifestações de ira vinda de seres irracionais.

16. Resolvi nunca falar mal de ninguém, de forma tal que afete a honra da pessoa em questão, nem para maior, nem para menor honra, sob nenhum pretexto ou circunstância, a não ser que possa promover algum bem e que possa trazer um real benefício.

17. Resolvi viver de tal forma como se estivesse sempre vivendo o meu último suspiro.

18. Resolvi viver de tal forma, em todo o tempo, como vivo dentro dos meus melhores padrões de santidade privada e daqueles momentos que tenho maior clarividência sobre o conteúdo de todo o evangelho e percepção do mundo vindouro.

19. Resolvi nunca fazer algo de eu que tenha receio de fazer uma hora antes de soar a última trombeta.

20. Resolvi manter a mais restrita temperança em tudo que como e em tudo o que bebo.

21. Resolvi nunca fazer algo que possa ser contado como justa ocasião para desprezar ou mesmo pensar mal de alguém de quem se me aperceba algum mal. 

sábado, 14 de março de 2015

AS RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS - PARTE 1 - INTRODUÇÃO

RESOLUÇÕES DE JONATHAN EDWARDS

Esta postagem trará aos leitores um achado do grande teólogo Jonathan Edwards conhecido como as suas “Resolucões”. Esse texto consiste em setenta resoluções, escritas durante os anos de 1722 a 1723. Neste período, Edwards estava com mais ou menos vinte anos, tinha acabado de completar o seu treinamento escolar e para o ministério, e estava antecipando o estabelecimento da sua vida de trabalho. Ele fez uso dessa oportunidade para pausar e refletir sobre o tipo de pessoa que ele gostaria de ser e sobre o modo como ele gostaria de viver a sua vida.
Se você ainda não leu a nossa postagem biográfica sobre este grande herói da fé cristã, e deseja conhecer um pouco mais da sua vida e ministério, clique aqui: http://macasdeouro.blogspot.com.br/2015/02/biografias-selecionadas-da-historia-da.html. 
Em uma maneira que viria a tipificar a sua carreira como um todo, ele tomou a sua pena e, nos poucos momentos de calma que ele conseguia espremer de um dia atarefado, ele escreveu as diretrizes que usaria para esquematizar a sua vida de modo geral – os seus relacionamentos, as suas conversações, os seus desejos, as suas atividades. Assim, por meio destas resoluções, ele como que oferece diversos sábios conselhos a si mesmo.
O manuscrito original deste texto não resistiu ao tempo. Contudo, este texto tem sido amplamente reproduzido e impresso ao longo dos três últimos séculos. Este texto é reproduzido aqui novamente, com poucas revisões do texto para uma atualização da linguagem, com vistas a uma nova geração de leitores. Nossa esperança é que estes conselhos sábios, diretos e biblicamente sadios de Jonathan Edwards venham a nos influenciar profundamente, e possam retornar o nosso foco a Cristo e à Sua palavra revelada, a qual deve ser o único guia para os nossos passos e luz para os nossos caminhos.

INTRODUÇÃO



Edwards passou a maior parte da sua vida no Vale do Rio Connecticut. Desde o seu nascimento, em 1703, até 1750, ele morou ou ao norte ou ao sul do Rio Connecticut, entre os estados de Connecticut e de Massachusetts, exceto por alguns meses entre os anos de 1722 e 1723.
Durante este período, o jovem Jonathan deixou o seu lar e os ambientes familiares para responder ao chamado de servir a uma pequena congregação Presbiteriana na cidade de Nova Iorque. O seu novo ofício pastoral o relocou para onde seria, hoje, entre a Broadstreet e a Wallstreet.
Ele não era nada estranho a aventuras. Como estudante em Yale, ele havia se mudado algumas vezes juntamente com a sua instituição, devido, primariamente, ao fato de que Yale ainda não tinha encontrado um lar permanente, mas também, em parte, como uma tentativa de evitar confronto com as forças que eventualmente se engajariam na Guerra dos Sete Anos.
Portanto, agora, o jovem Edwards de dezenove anos de idade se encontrava em um ambiente totalmente novo, em uma nova situação, e com uma nova e bem pesada responsabilidade.
Para enfrentar estes novos desafios, Edwards, seguindo um padrão que ele estabeleceu ainda bem cedo e continuou durante toda a sua vida, se pôs a escrever. Como muitos dos seus antecessores puritanos, ele começou a escrever em um diário que serviu como uma janela para a sua própria alma e para registrar os seus pensamentos mais profundos. Esta prática serviu também como um modo de apurar o seu relacionamento com Cristo e monitorar a sua condição espiritual. Ele também começou uma série de parâmetros não apenas para medir a sua vida, mas também para estabelecer metas para si mesmo. Em essência, estas vieram a servir como indicadores da sua missão pessoal.
Edwards inicia as suas resoluções com uma lembrança solene: “Eu sou incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda de Deus.” Ele se excedeu em seus estudos em Yale, se formando como o primeiro da sua classe para o seu bacharelado, e continuou a ser posicionado acima dos seus colegas no programa de mestrado.
Dotado, capaz, e bem treinado, Edwards, contudo, reconhece a sua absoluta dependência de Deus, e esta se torna o ingrediente-chave das suas Resoluções. Longe de ser um advogado da auto-ajuda, Edwards reconhece que tudo o que ele fizer que agrade a Deus, ou tudo o que vale de alguma coisa ou que possui qualquer significado é apenas o resultado da obra de Deus trabalhando por meio dele. Ao mesmo tempo, Edwards também reconhece a sua necessidade de auto-disciplina.
Ao ler as suas Resoluções, você não pode evitar perceber o desejo de Edwards de trazer todas as áreas da sua vida para debaixo do controle Divino. Este desafio permeia todo o texto. Nenhuma área da vida passa despercebida. Ele trata de todos os assuntos, desde a sua comida e bebida até às suas conversações, da oração e leitura bíblica até os relacionamentos para com os seus familiares, da sua vida espiritual até os seus desejos mais profundos – nenhuma pedra permanece de pé. Seguindo os ensinamentos de Tiago, Edwards presta atenção até mesmo àquele membro proporcionalmente menor em tamanho, mas que consiste em um membro muito significativo e dominador do corpo inteiro: a língua. Edwards reconhece quanto mal a língua pode produzir a ele, e em quantos terríveis problemas ela pode lhe colocar, e ele reserva muitas das suas resoluções ao desejo de domar deste pequeno e desgovernado membro.
As Resoluções também revelam a completa determinação de Edwards de trazer cada área da sua vida sujeita à liderança de Cristo e de descansar na soberania de Deus. Os Gregos antigos falavam do summun bonum, ou o bem supremo. Por isto, eles queriam dizer que embora hajam muitas coisas boas pelas quais o homem pode viver, alguma coisa se destaca como a melhor, a mais elevada destas coisas. Para Edwards, de modo geral, a primeira pergunta do catecismo  de Westminster define esta resposta perfeitamente. O bem maior que qualquer pessoa pode fazer  - ou, para usar a linguagem do catecismo, o nosso fim principal - , é “glorificar a Deus e gozá-lO para sempre”. Muitas das resoluções de Edwards representam a sua tentativa de transformar esta definição geral em algo concreto e específico em sua própria vida. Ele se preocupa com a proeminência de Cristo e com a prioridade da Bíblia em tudo o que ele faz. Ele deseja que a sua vida – de fato, os seus dias, semanas e meses – não seja desperdiçada nem mesmo em coisas que são boas em si próprias. Ao invés, ele quer o melhor e se compromete a isso.
Edwards começa a datar as suas resoluções em 18 de Dezembro de 1722, quando ele já está no número 35, e que é o mesmo dia em que ele inicia o seu diário. Ele conclui as resoluções em 17 de Agosto de 1723. Embora as primeiras resoluções não foram datadas, elas provavelmente foram escritas logo antes de começar a datá-las. Ele foi para Nova Iorque em Agosto de 1722 e permaneceu ali até Abril de 1723. Dali até o Outono de 1723, Edwards permaneceu no lar da sua família em East Windsor, escrevendo a sua tese de mestrado e pregando em diversas igrejas, de acordo com as suas necessidades.
Consequentemente, as Resoluções foram escritas em um período de transição na vida de Edwards.  Ele estava saindo do seu estágio fundamental de anos formadores como estudante e adentrando o estágio no qual ele começaria a sua profissão como ministro e teólogo. E durante toda a sua vida, as suas Resoluções foram um companheiro fiel e constante para ele.

Edwards inicia o prefácio das suas Resoluções com uma exortação a si mesmo para “lembrar de ler novamente todas estas resoluções uma vez por semana”. Talvez este conselho também seja digno de ser imitado. As resoluções permanecem tão relevantes hoje quanto eram no momento em que Edwards as escreveu, embora tanto tempo tenha se passado. A leitura regular delas com certeza nos ajudará também a viver, com toda a nossa força, para a glória e o louvor de Deus.