“Como Maçãs de Ouro em salvas de prata, assim é a palavra dita a seu tempo.” (Pv. 25.11)

“Feliz o homem que acha a sabedoria e o homem que adquire o conhecimento;
... é Árvore de Vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que a retêm." (Pv. 3:13,18)

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Autoridade Materna - Parte 3





Nota da Tradutora:

O Capítulo 3 do Livro "A Mãe no Lar", de John Abbot, continua tratando do assunto da Autoridade Materna. Assim como eu dividi o capítulo 2 em duas partes, e introduzi alguns subtítulos, com vistas a uma apresentação mais didática dos pontos tratados pelo autor, faço o mesmo agora com este capítulo 3. O post atual representa, portanto, a parte 3 do Assunto da Autoridade Materna, que está sendo disponibilizado em quatro postagens, sob os seguintes títulos:



Autoridade Materna - Parte 3: Lidando com Situações de Confronto e com Diferentes Disposições da Criança (Post Atual)

Autoridade Materna - Parte 4: A Justiça e a Bondade na Disciplina (Próximo Post)

Capítulo 3

Autoridade Materna - Parte 3

Lidando com Situações de Confronto e com Diferenças de Disposição

 

Em se tratando do assunto da obediência, há ainda algumas outras sugestões de importância a serem feitas:

Lidando com Confrontos

Em primeiro lugar, há uma variedade muito grande nas disposições naturais das crianças. Algumas são muito dóceis em seus sentimentos, e são governadas facilmente pelo amor. Outras são independentes e cheias de vontade própria. Às vezes uma criança tem seus ânimos exaltados e a sua vontade determinada, e não pode ser subjugada senão por um esforço muito grande. Quase qualquer mãe fiel está acostumada com tais confrontos, e ela sabe que estes com frequência formam uma crise no caráter da criança. Se a criança obtém a vitória em um embate, é quase impossível para a mãe futuramente reconquistar sua autoridade.  A criança sente que ela é vitoriosa, e que a sua mãe foi derrotada; e é com muita dificuldade que ela será compelida a renunciar sua independência. Se, de outro lado, a mãe conquista, e a criança é subjugada, esta sente que a questão está estabelecida e ela tem pouca disposição para se levantar contra alguém que provou ser seu superior.  Tenho conhecido muitos desses embates, severos e prolongados, que são muito dolorosos para os sentimentos dos pais. Mas, da feita que se entra neles, eles devem ser continuados até que a criança seja subjugada. Não é seguro, de maneira alguma, que os pais se rendam e se retirem derrotados.

O seguinte exemplo de uma tal competição aconteceu alguns anos atrás. Um senhor, sentado na sua sala de estar, com sua família ao seu redor, tomou o livro do alfabeto das crianças e chamou um de seus filhinhos para vir e ler. O John tinha uns quatro anos de idade.  Ele sabia todas as letras do alfabeto perfeitamente, mas aconteceu que naquele momento ele estava mal-humorado, e sem a mínima disposição de agradar o seu pai. Muito relutantemente ele veio, como foi mandado, mas quando o seu pai apontou para a primeira letra do alfabeto, e disse: "Que letra é essa, João", ele não obteve resposta. O João só olhava para o livro, emburrado e calado.

Meu filho - disse o pai de uma maneira bem carinhosa - você conhece a letra A.

- Eu não consigo dizer "A", disse o João.

- Você pode dizer, sim - disse o pai num tom sério e decidido. - Que letra é essa?"

O João se recusou a responder. Agora, a competição já tinha começado. O João estava voluntarioso  e determinado que ele não iria ler. O seu pai sabia que seria uma ruína para o seu filho deixar que ele vencesse o confronto. O pai sentiu que ele deveria, por mais difícil que fosse, subjugá-lo. Ele o levou para outro quarto e o disciplinou. Então retornaram, e o pai novamente mostrou a letra pro João. Mas o João ainda se recusava a dizer o nome. O pai novamente se retirou com o seu filho, e lhe disciplinou mais severamente. Mas foi sem proveito nenhum, pois a criança mesmo assim se recusou a dizer o nome da letra, e quando lhe diziam que aquela era a letra "A", ele declarava que não podia dizer "A". Mais uma vez o pai infligiu a punição que ousava dar, mas ainda assim a criança, toda agitada em si, se recusava a ceder.

O pai estava sofrendo da mais intensa preocupação. Ele se arrependeu muito de ter sido levado a tal confronto. Ele já havia punido o seu filho com uma severidade que ele temia exceder. E mesmo assim, o sofredor voluntarioso ficava diante dele, aos prantos e tremendo, mas aparentemente como uma rocha que não queria ceder. Eu lembro de ter ouvido várias vezes aquele pai mencionar a agonia que ele sentiu naquele momento. O seu coração estava sangrando com a dor que ele tinha sido compelido a infligir sobre o seu filho. Ele sabia que naquele momento a questão - quem iria ser a autoridade - estava sendo decidida. E porque o seu filho havia resistido tão fortemente e por tanto tempo, o pai temia grandemente o resultado.

A mãe sentava assistindo, sofrendo, sem dúvida, ainda mais intensamente, mas perfeitamente satisfeita de saber que era o dever dos pais subjugar a sua criança, e que numa hora tão crucial, os sentimentos de mãe não devem interferir. Com um coração pesado, o pai mais uma vez tomou o seu filho pela mão para conduzi-lo para mais uma punição. Mas, para a sua inimaginável alegria, a criança se esquivou de resistir a maiores castigos, e chorou: "Pai, eu vou dizer a letra". O pai, com sentimentos indescritíveis, tomou o livro e apontou para a letra.

"A"- disse o João, distinta e perfeitamente.

- E que letra é essa? - disse o pai, apontando para a próxima letra.

- "B", disse o João.

- E qual é essa?

- "C", ele continuou.

- E esta? - apontando novamente para a primeira letra.

- "A" - disse a criança, com atitude bem humilde.

- Agora leve o livro para a sua mãe, e diga pra ela que letra é essa.

- Que letra é essa, meu filho?

- "A" - disse o João.

Era evidente que ele estava perfeitamente submisso. As outras crianças estavam assentadas ali. Elas haviam assistido a batalha e tinham visto de quem era a vitória.  E o João aprendeu uma lição que ele nunca esqueceu: que o braço do seu pai era forte demais para ele. Ele aprendeu que o caminho mais seguro e feliz para ele era obedecer. Ele aprendeu a nunca mais lutar batalhas desiguais como esta.

Mas é possível que alguém me diga que foi crueldade punir a criança daquela maneira. Crueldade! Foi misericórdia e amor. Teria, sim, sido cruel, se o pai, naquela hora, tivesse sido infiel, e se esquivado do seu dever doloroso. Os ímpetos maus que ele estava ali, com muito auto-sacrifício, lutando para subjugar, se deixados sem controle, iriam, com toda probabilidade, fazer de seu filho um vexame para a sociedade. Não é de maneira alguma improvável que, das decisões tomadas naquela hora, dependiam o caráter e a alegria daquela criança por toda a sua vida, e mesmo para a eternidade. É longe de ser improvável que, se ele tivesse vencido ali, todos os esforços futuros para subjugá-lo teriam sido em vão, e que ele viria a quebrar todos os limites, e ser infeliz nessa vida, e perdido por toda a eternidade. Crueldade! O Senhor preserve as crianças da "bondade e misericórdia" daqueles que consideram crueldade um amor tão abnegado.

Evitando Confrontos

É sempre melhor, se possível, evitar tais colisões. Muitas crianças são ensinadas a obediência implícita, sem jamais ter que entrar em tais combates com os seus pais. E é certamente melhor governar uma criança  pelo procedimento brando da disciplina ordinária, do que adentrar nesses confrontos tão formidáveis, nos quais com frequência se requer a maior severidade. A sabedoria, portanto, nos ensina a fazermos o possível para não dar à criança uma oportunidade de convocar todas as suas energias para desobedecer. Há ocasiões peculiares, e disposições mentais peculiares,  que geralmente provocam esse sentimento forte de rebeldia. Um pouco de previsão pode frequentemente nos capacitar a, sem render a nossa autoridade, acalmar o furor que se levanta, ao invés de incitá-lo à sua mais alta força. Nós podemos, às vezes, por uma administração sábia,  deter a rebelião logo que ela aparece, antes que ela ganhe força suficiente para exigir que ajuntemos todos os nossos poderes para acabar com ela.

Como uma ilustração, vamos supor que o Tiago e a Maria estão brincando juntos à noite, e o Tiago fica com raiva e bate na sua irmã. Ele faz isso sem motivo nenhum, e precisa ser punido, e pedir perdão para a sua irmã. Mas a mãe percebe que durante o dia todo, o Tiago tem manifestado uma disposição muito desagradável. Ele tem estado irritado e chateado. Ela vê que agora ele está agitado e com raiva. Todo pai sabe que essas variações de sentimentos não são incomuns. Um dia a criança está doce e carinhosa; no dia seguinte, tudo parece estar errado; coisinhas pequenas a agravam, e toda a sua disposição parece estar amargurada.

A mãe percebe que o filho está nesse mau humor. Ele errou, e precisa pedir o perdão de sua irmã. Mas ela sabe que, nesse estado mental arisco e desagradável, ele será fortemente tentado a resistir a sua autoridade. Do jeito que ele está tão irritado sem motivo, iria ser um dos mais difíceis atos de submissão para ele ter de pedir perdão para a sua irmã. Se a mãe lhe mandar fazer isso, a tentação para recusar será tão grande que, com toda a probabilidade, ele vai desobedecer. E então ela terá que lhe castigar. E aqui vem o confronto que, se for iniciado, deve ser continuado até que a criança obedeça. Agora, como é que tal batalha pode ser evitada? Deixando para lá o que aconteceu? Certamente que não. A mãe se levanta, toma o Tiago pela mão, e diz: "Meu filho, você fez uma coisa muito ruim; você está mau humorado, e não deve mais ficar na nossa companhia; vou lhe colocar para dormir". Ela, portanto, o conduz para o seu quarto.

Logo antes de deixá-lo sozinho, ela lhe diz num tom bondoso, mas triste, como ela está desapontada, e como mais ainda Deus está entristecido pela sua conduta. Como de costume, ela ouve sua oração, ou se ajoelha ao lado da cama dele, e ora para que Deus lhe perdoe. Ela então lhe deixa sozinho para refletir e para dormir.

Assim ele é punido pela sua falta. E enquanto ele fica deitado na sua cama, e ouve os seus irmãos e irmãs brincando alegres lá embaixo, ele sente como é melhor e mais sábio ser um menino comportado. Pela manhã ele acorda. A noite deu repouso aos seus sentimentos excitados. Ele pensa em como a sua má conduta do dia anterior lhe deixou infeliz, e resolve ter mais cuidado daqui pra frente.  Todos aqueles sentimentos rebeldes são dominados pela influencia calmante do sono.  Suas paixões não estão agitadas. A mãe pode agora tratar com a sua mente sem qualquer medo de ter um embate com uma vontade determinada e teimosa.

Quando as crianças descem de manhã, ela chama o Tiago e a Maria para virem ter com ela. Tomando a mão de cada um, ela diz mansamente: "Meu filho, você deixou todos nós tristes ontem à noite quando você bateu na sua irmã; eu espero que você esteja arrependido do que fez." "Eu estou, sim, mãe", diz o Tiago, sendo agora levado facilmente aos sentimentos de penitência e de submissão, aos quais, durante os momentos de irritação e agitação, ele não poderia, a não ser com grande dificuldade, ter sido levado. Assim, por um tratamento sábio, o objeto desejado é obtido, e perfeitamente obtido, enquanto o combate é evitado. A falta não é ignorada, e o Tiago está subjugado.

Mas se a mãe, sem considerar o estado sentimental peculiar da criança, tivesse mandado ele imediatamente pedir perdão para sua irmã, isso teria levado, com toda a probabilidade, a uma cena que seria dolorosa tanto para a mãe como para o filho. E o efeito final da disciplina teria, talvez, sido menos benéfico sobre a mente da criança. Mas ocorrerão casos em que não será possível evitar o confronto. Quando tal emergência surge, é o dever dos pais enfrentá-lo resoluta e ousadamente. Se, por um falso sentimentalismo, você acaba se esquivando, você está brincando com a responsabilidade sagrada que Deus confiou a você. É bondade uma mãe deixar a criança morrer, ao invés de compeli-la a tomar o remédio amargo que lhe restaurará a saúde e a força? E será bondade deixar essas paixões conquistarem, as quais, se deixadas impunes, serão para o tempo e para a eternidade, uma devastação para o seu possuidor? Se existe alguma crueldade no mundo que seja de fato terrível, é a crueldade de pais infiéis e falsamente indulgentes.

Devemos entender particularmente, contudo, que tudo o que queremos inculcar aqui é a firmeza na realização dos deveres dos pais naqueles casos onde estas colisões entre pais e filhos são inevitáveis. Elas podem, contudo, na maioria dos casos, ser evitadas. Se, por exemplo, a criança lhe desobedece, você pode simplesmente puni-la pelo ato de desobediência, e parar por aí, deixando de lado o final dificultoso. Não é sempre necessário que você todas as vezes requeira que a coisa que você mandou de primeiro seja feita. Você manda a menininha dar um livro para a sua irmã. Ela se recusa. Você pode então tomar dois caminhos distintos para manter a sua autoridade que foi violada. Você pode ir e levar o livro você mesma e entregá-lo para a irmã, e então infligir um castigo sobre o desobediente conforme a ofensa merece. Ou, você pode insistir na obediência; e para obrigá-la, entrar num confronto que pode ser longo e doloroso. Agora, seja qual desses planos você adotar, seja firme e decidida na sua execução. O primeiro é, contudo, em quase todos os casos, o mais sábio e o melhor.

Considerando Sentimentos

Nas considerações acima, tivemos aludido às variações de sentimentos aos quais a criança está sujeita. Ninguém que tenha tido qualquer contato com a educação pode ter deixado de observar isso. Quase todo indivíduo é consciente de momentos quando ele parece estar afligido com um tipo de sensitividade mórbida. Nossos espíritos frequentemente se levantam e caem conforme a saúde do corpo; e de fato uma pessoa tem alcançado uma grande vitória sobre o seu corpo, e um grande triunfo mental, se ela consegue invariavelmente preservar o mesmo espírito calmo e alegre, sem ser perturbado pelos cuidados que assediam, ou pelas irritações de uma constituição doente. O sistema nervoso de alguns indivíduos é construído tão delicadamente que um vento ocidental, ou um dia úmido, podem perturbar completamente a cabeça. Quando nós vemos alguns dos mais sábios e melhores homens oprimidos com tais fraquezas nós devemos aprender a ter paciência e simpatia com as crianças.

Em tais momentos, uma mãe sábia, sabendo que a irritabilidade é uma fraqueza tanto mental como corporal, irá fazer o que pode para amansar e aquietar. Ela irá evitar qualquer coisa que tenda a agitar os sentimentos e irá se esforçar para, por meio de uma recreação tranquila ou pelo repouso, fazer adormecer esses sentimentos. Por esse método, ela irá livrar a criança de muita infelicidade, e irá promover uma disposição doce e amável.

É provável que muitas crianças tenham tido os seus sentimentos permanentemente amargurados por uma completa desconsideração dessas variações mentais. A disposição de uma criança é de uma textura muito delicada para ser manuseada pelo punho rude e descuidado. Seus sentimentos carinhosos e gentis devem ser cultivados pela simpatia e amor maternos. E nós devemos lutar para abrandar sua irritabilidade ocasional, ao chamarmos a mente para longe de objetos que excitam para o mal, e atraindo-a a pensamentos alegres.

Cultivando a Disposição

É claro que há uma diferença impressionante nas disposições naturais das crianças; mas nada pode ser mais evidente do que o fato de que uma boa disposição pode ser amargada por um mal tratamento, e que uma criança de sentimentos naturalmente raivosos pode, por um cultivo sábio, se tornar dócil e mansa. O cultivo da disposição é uma parte importante da educação. Daí a necessidade de se estudar os humores e os sentimentos da criança e de variar a disciplina para adequar-se a essas mudanças.

É claro que surgirão aqueles casos quando os pais acharão difícil julgar qual é o seu dever. Tais casos serão, contudo, infrequentes. A política geral óbvia é: quando a criança está nesse estado excitado, busque removê-la o melhor possível do poder da tentação. E se ela comete uma falta que precisa ser notada, cuide para que o castigo seja de um tipo que é calculado para acalmá-la. Por exemplo, dê-lhe um assento confortável em frente à lareira, e lhe diga que ela não pode se levantar da cadeira por meia hora. Ponha em suas mãos um livro agradável, ou alguma coisa de brincar que lhe entreta. Dessa maneira, cuide para que a punição seja adaptada à peculiaridade da desordem moral.

Isso não é a gozação da punição que pode parecer. A criança sente que é real, e é de uma natureza que opera beneficamente. Algumas faltas, contudo, que a criança comete, podem ser, sob determinadas circunstâncias, mais adequadamente relevadas. Um menino pode, por exemplo, falar irritado com a sua irmã. A mãe não demonstra notar; ela, contudo, vê a importância de imediatamente tranquilizar seu espírito grosseiro, e ela busca planejar alguma atividade que promova o bom humor. Talvez ela pausa o seu trabalho e brinca com as crianças até que, pela sua alegre influência, a alegria e o bom humor sejam restaurados.

"Aqui, meu filho", talvez ela diga. "Quero que você tome esse papel e se sente em sua cadeira, e veja se você consegue desenhar um animal tão corretamente que eu possa dizer o que é. E Maria, você pode pegar esse outro papel e sentar nessa cadeira do lado dele e fazer a mesma coisa.

As crianças estão bem animadas com a sua nova atividade. Logo eles ficam ocupados trabalhando, e cochichando um pro outro, para que a sua mãe não ouça quais são os animais que eles estão desenhando. Por esse artifício simples, a pequena nuvem de sentimentos irritados que estava se levantando é totalmente dissipada. Se a mãe, ao invés disso, tivesse punido a criança pelo incidente da fala grosseira, a mente não teria sido trazida tão rápida e agradavelmente ao estado desejado. Ou, se a mãe não tivesse notado o acontecido, a disposição da criança teria sido machucada pela permissão do  aumento do mau humor e, com toda probabilidade, uma querela teria logo começado. Uma observação constante, da parte da mãe, poderá logo capacitá-la a prever muito perigos e prevenir muitas dificuldades.

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